Albert na padaria
Escritor: J. G. Valério

Apesar de ter certeza que muitos sofrem do mesmo mal que eu, de ter uma vida incrivelmente chata, eu acho que poucos dividem da mesma sensação que tenho. Eu sei que pode parecer loucura, ou apenas uma fantasia maluca de uma massa de carne ambulante movida a estresse, mas… tenho quase certeza que sou a reencarnação de um antigo guerreiro bárbaro.
Eu disse que parece loucura, na verdade a loucura é maior ainda, pois nem acreditar em reencarnação eu acredito. Por isso utilizo a máxima do Arquivo X a toda hora, “Eu quero acreditar”. Quero acreditar porque tenho um sentimento perturbador de que estou vivendo no século errado, eu não deveria ter nascido aqui. Meu trabalho, analista de sistemas de computador, que significa resolver problemas dos outros, isso não é para mim. Eu deveria estar empunhado um escudo e um machado de guerra, balançando ele loucamente e estraçalhando inimigos em uma batalha campal. Não que eu não goste de pensar, do jeito que relatei parece que estou querendo largar o pensamento lógico e trocar meu cérebro por um punhado de músculo e testosterona. Eu gosto de pensar, de raciocinar, não gosto é dessa vida chata.
Vocês, devem estar pensando, “Sim, se todo mundo que achasse seu trabalho um saco tivesse a percepção de estar vivendo no século IX, então deveríamos alterar nosso calendário, pois o mundo inteiro voltaria a usar roupas de couro e morar em casas de barro e teto de palha”. Sei que pode ser apenas egocentrismo meu, mas posso exemplificar esta minha crença, contando a vocês o que aconteceu comigo ontem, quando fui na padaria comprar alguns pães. Me ocorreu um pensamento, não… não foi um simples pensamento, eu tive uma visão, tive um acesso, eu entrei na padaria e …
O salão estava vazio naquela noite e o guerreiro andava devagar entre as mesas. Sua cota de malha reluzia à luz de pequenas fogueiras e braseiros no centro do salão. Seu cabelo escuro, comprido e desgarrado estava amarrado com uma tira de couro, ele não usava elmo naquela noite. Sua barba também comprida, e suja, tampava quase todo seu rosto. Uma pequena trança foi feita em seu cavanhaque. Na cintura estava uma espada curta e diferente de outros guerreiros ele não carregava uma espada longa, e sim levava um enorme machado de guerra em suas costas. Enorme comparando a pessoas normais, ja comparando a estatura e massa muscular deste alto e entroncado guerreiro, aquilo era um simples machado. Um grande escudo redondo de carvalho era mantido em seu braço esquerdo. Não havia símbolo pintado em seu escudo, o símbolo do escudo mostra a que senhor o guerreiro serve, ou sendo ele um senhor, mostra o símbolo de sua família. Este guerreiro não carrega símbolo, a menos que você confunda as manchas de sangue com alguma imagem ou criatura bizarra. Os seus braços estavam cobertos por braceletes dos mais diversos tamanhos, de ouro e prata, adornos que serviam para mostrar aos seus inimigos que ele era um guerreiro experiente, braceletes para amedrontar, braceletes para ganhar respeito, braceletes de guerreiro.
Em passos largos e firmes o guerreiro atravessava o salão, o leve tilintar dos elos de sua cota de malha fez um soldado, que estava deitado sobre uma prostituta, se mexer. Mas o soldado não acordou, nenhum dos vários soldados daquele salão acordaram, os canecos jogados pelo chão, e o fedor azedo de bebida que impregnava o ar não deixava dúvida do motivo destes soldados estarem dormindo tão profundamente. As mulheres que estavam no salão, compartilhavam do mesmo sono.
O guerreiro prostrou-se a frente do balcão que fica no fundo do salão. Olhou para os lados, olhou para trás. Não viu nada, nem ninguém que pudesse ajuda-lo ou ameaça-lo. E em um movimento rápido, demonstrando agilidade e incrível força, o guerreiro retira o machado de suas costas, faz um giro no ar e acerta o tablado do balcão. Um estrondo de um raio partindo uma árvore seca surgiu do golpe, o som ecoou por todo o salão, a força do guerreiro despedaçou o tablado.
As mulheres deitadas foram as primeiras a levantar assustadas, talvez estivessem menos bêbadas. Os soldados olharam em volta, um olhar perdido sem saber o que estava acontecendo. Alguns tentaram levantar, muitos caíram novamente, poucos ficaram de pé.
Saindo de uma porta, que ficava atrás do balcão, apareceu correndo uma mulher de cabelo desgrenhado, um corpanzil imenso e usando um vestido sujo e velho, pequeno demais para seu tamanho. Ela estava assustada, mas dirigiu uma voz firme ao guerreiro.
- O que demônios você quer? Olha o que você fez ao meu balcão! Não sei quem é você, mas vai ter de pagar por isso.
A mulher lançava um olhar desafiador para o guerreiro, que nem fez sinal de reação. Sua face mostrava a mesma feição apática. Ele encarava a mulher do outro lado do balcão.
- Eu tenho uma regra aqui. Admito brigas, mas quebrou, paga! Vamos diga, o que você quer. Porque esta aqui tão tarde da noite?.
Ela não entendia o que estava acontecendo. Nunca vira aquele homem antes. E não era apenas um homem, era um guerreiro. Um matador de pessoas, com espada, machado e escudo. E ele era forte, alto e amedrontador. A mulher ja perdia a confiança em seus pensamentos e o medo começava a tomar conta de sua cabeça.
Em todo o salão ninguém protestou a presença do guerreiro, talvez por estarem bêbados demais, talvez o medo não permitia alguma ação.
Por fim o guerreiro falou. Uma voz grave, sem sentimentos, a voz rouca de um matador, de um ceifeiro de cadáveres. A voz saiu de sua boca, tampada pela espessa barba.
- Estou cansado. Quero hidromel e quero uma puta.
Todos se olharam. A mulher de traz do balcão demorou para organizar os pensamentos e compreender o que o guerreiro falara.
- Co… como? O que o senh… – A mulher foi interrompida enquanto falava. O guerreiro pegou seu machado, que estava cravado nos restos do balcão. Puxou ele com uma mão, sem demonstrar muito esforço. Prendeu o machado as costas e olhando para a mulher com a mesma apatia, repetiu.
- Hidromel e uma puta.
- Você é maluco? Vem até meu bordel de madrugada, quebra meu balcão, acorda todo mundo e exige que eu lhe atenda? O senhor não quer mais alguma coisa, talvez um banho, pois você fede feito um porco?
A mulher gesticulava muito enquanto gritava com o guerreiro. Ela estava tão cega pela raiva que sentia, que o medo que ela deveria estar sentindo, desapareceu. Apenas esbravejava com o homem que era meio corpo mais alto que ela. O guerreiro não dando importância para os gritos da mulher, completou sua exigência.
- Mais alguma coisa? – ele pensou – Sim, me traga pão.
E com uma mudança repentina na sua feição, demonstrando uma fúria assassina e aterrorizante, o guerreiro encarou a mulher e entoou em um berro.
- E não esqueça do meu hidromel e da minha puta. E quero isso agora! – sendo estas últimas palavras cuspidas no rosto da mulher.
… por fim eu me deparei com umas nove pessoas me olhando. Todas assustadas. Depois fiquei sabendo por um amigo que estava na padaria aquele dia, que a frase “E não esqueça do meu hidromel e da minha puta. E quero isso agora!” foi dita em voz alta. O que faz sentido, pois a mulher da padaria após me entregar os pães disse-me que o hidromel estava em falta, e que minha mãe não trabalhava lá.
Esta não foi a primeira vez que isso aconteceu comigo. Mas talvez agora vocês consigam entender o porque eu acho ser a reencarnação de um guerreiro bárbaro. E apesar dos constrangimentos, eu gosto das visões que tenho. Por alguns instantes, minha vida deixa de ser chata.
E posso afirmar uma coisa a vocês. Comprar pão antigamente era bem mais legal que hoje em dia.
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Loucura Vermelha


foda, muito bom esse seu conto brool
Opa! Você esta lendo desde o primeiro! =)
PUTA QUE PARIU! uma das melhores coisas que o JP já me passou até hoje XD muitoo fodaaa, mestre de rpg total, eu fiquei viajando na cena imaginando XD