Rosas
Escritor: J. G. Valério

Já é noite, fico sentado imóvel, envolto pela escuridão. É nessa hora que ela costuma passar, e noite após noite eu espero por ela aqui. Existe uma força, algo dentro de mim, que me faz estar aqui, não consigo resistir, não quero resistir. Quero apenas esperar ela passar.
Às vezes a espera me incomoda, porque ela demora tanto? Será que esta com alguém? Não, nunca a vi acompanhada antes. Ela não deve ter ninguém. Mas com certeza deve ser muito desejada, afinal ela é provocante, muito provocante. E o que levaria ela passar por esta rua escura à noite senão para provocar? Todos caminham pela rua principal, mas ela insiste em passar por essa viela. Só pode ser provocação, ela só pode estar querendo me provocar.
Sinto as unhas cravando em minha mão. A tensão, a espera, meus punhos estão serrados, e ainda nem sinal dela. Espero que ela não demore muito mais. Às vezes sinto vontade de gritar com ela, lhe dar uma lição por me deixar aqui. Eu não mereço isso, estou sempre aqui, esperando, vigiando, no fim das contas eu a protejo. Afinal o que poderia acontecer com ela nesta viela escura? Muitas coisas, com certeza, muitas coisas.
Espero que ela não esteja com alguém. E se ela estiver? E se ela vier acompanhada? Será que ela esta, me traindo? Não, isso nunca, ela não faria isso. Mas, ela é tentadora. Sim, é sim.
Meu coração dispara, começo a suar frio, é ela que vem vindo, dobrando a esquina. Com seus livros no braço, tênis brancos, saia jeans um pouco acima do joelho, blusa de botão branca. Ela vem sozinha, claro que vem sozinha, ela não viria acompanhada, nunca. Ela é provocante, seios firmes e de tamanho proporcional ao corpo. Belas pernas e um quadril magnífico. Com certeza ela se cuida, afinal, ela gosta de provocar, com certeza gosta de provocar. Os cabelos dourados, reluzem a luz do luar, e sua palidez é onírica quando entra na escuridão da viela.
Eu permaneço nas profundezas e no silêncio, olhando ela passar. Fico imóvel saboreando aquela que deveria ser minha. E ela é minha, minha e de mais ninguém. Ela segue seu caminho, já esta dobrando a outra esquina e voltando para a rua principal, ela vai pegar seu ônibus, e vai para sua casa. A vontade de tocar o corpo dela demora para desaparecer, as marcas de unhas na palma da minha mão são profundas, um veio de sangue escorre, um veio vermelho, vermelho como uma rosa.
Uma rosa. Amanhã deixarei um presente para ela. A prova de meu amor, assim ela saberá que eu a admiro.
Saio das sombras, vou para casa. Amanhã será uma nova noite.
XXX
A rosa esta no lugar de sempre, no meio da viela, a uns quinze metros de mim. Ela não consegue me ver, mas eu consigo a ver muito bem. Ela se abaixa e pega a rosa que esta no chão, o decote da camisa mostra parte dos seus seios, a sutil subida da saia descobre suas belas pernas e o cabelo cai tapando seu rosto. Ela olha em volta, desconfiada, já é a sexta rosa que ela recebe e não sabe quem esta lhe deixando as flores.
Ela pegou esta também. Olha para trás, para os lados. Mas hoje ela parece diferente, ela pergunta se tem alguém na viela. Pergunta se ela não esta sozinha. Será que ela esta com medo? Não tem porque ter medo, eu estou aqui. Estou aqui para protegê-la. Eu sempre estou aqui.
Ela para de fazer perguntas para a escuridão, parece mais tranqüila agora. Coloca os livros junto ao peito. Leva a rosa ao nariz e sente seu perfume. Solta um tímido sorriso. Ver ela feliz aumenta o meu desejo. Mal sabe ela que seu admirador esta por perto. Devo eu me apresentar? Devo sair das sombras e dizer o que sinto?
Não. Melhor não, hoje não.
Ela segue seu caminho, agora feliz. Dobra a esquina e vai para seu ônibus. Eu fico mais um pouco na viela. Imaginando como seria se ela fosse minha. As marcas em minhas mãos não cicatrizam, todo dia o ferimento reaparece. Será que um dia ele vai cicatrizar? Será que um dia o sangue irá parar de escorrer? Não sei, vou para casa, a escuridão me conforta, mas preciso ir para casa.
XXX
Eu olho para a rosa. Suas pétalas aveludadas, macias e seu delicioso perfume. Rosas são as flores do amor, as flores do pecado. Tocar em um rosa é como tocar no corpo de uma mulher. Desde o pequeno botão que ao abrir mostra uma bela flor, tudo isso reflete a luxúria e a perdição.
Deixo cuidadosamente a sétima rosa no chão. No mesmo lugar de sempre da viela escura. Vou para meu lugar, me aconchego na escuridão. Agora é só esperar. Talvez eu tenha vindo muito cedo hoje. Não, nunca é cedo. Esperar em outro lugar, sempre é preferível esperar aqui.
Repouso a cabeça em uma parede, fico imaginando como seria minha vida com ela. Imagino nossos corpos se tocando, o vermelho dos seus lábios, o brilho dos seus olhos. Minha visão se perde e adormeço.
Acordo assustado, que horas são? Teria ela já passado? Não, não pode ser eu nunca me perdoaria. Vejo as horas, meu coração se acalma. Ainda não é o horário dela. Deve faltar metade de uma hora. Agora vou esperar acordado, que tolice a minha cair no sono.
A rosa continua no meio da viela. O tempo passa, e eu continuo a minha espera.
Não pode ser, o que vejo é inacreditável, é intolerável. Ela esta parada na entrada da viela, junto dela um sujeito, um qualquer, alguém que esta se aproveitando da sua ingenuidade. Eles se olham, conversam algo, dão risadas juntos. Como pode fazer isso comigo? Como?
Eles estão se despedindo, e a ira toma conta do meu corpo, a raiva cega meus olhos, o ódio envolve minha mente, eles se beijam. Na mão dela esta uma rosa, a minha rosa.
A unhas estão fundas em minhas mãos. O sangue escorre entre meus dedos. Quando o sangue vai parar?
Esta noite. Esta noite o sangue vai parar. Aquele que trouxe a minha perdição vai embora, e aquela que apunhalou minha alma vem pela viela, vem em minha direção.
A sétima rosa ela não irá receber.
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O conto Rosas, faz parte da série nomeada Conto Beta. O Conto Beta é para ser formado por aproximadamente 8 contos do tamanho de Rosas.
Eu escrevi apenas duas partes ainda, estou pensando se continuo com a série. Em breve vou publicar a segunda parte aqui.
Interessante. Muito bom, me lembra de certa forma por algo que passo.
Este foi o primeiro conto que escrevi…
E ai Vitor, vai me enviar aquele conto que você me mostrou no msn?
Gostei bastante daquele. =)
Não sei, ele é meio pessoal, mas talvez depois de revisar, sim.
Ok. =)
Fico na expectativa então.
Mas que lindo! Wow, despertou todo o meu sentimento, meu profundo e intenso sentimento, atuação teatral e dramática, uma leitura profunda com palavras sem explicações.
Ao som de Clint Mansell – Shell Shock e Vanessa Mae – Solace
Por fim a última parte, principalmente a parte final eu ouvi Clint Mansell – Requiem For A Dream.
Magnífico!
Legal que tenha gostado. Esse foi o primemiro conto que eu escrevi. E nunca imaginei alguma musica, ou escutar alguma musica enquanto lia ou escrevia o texto. Mas trilhas sonoras estão ai para serem tocadas junto a obras. =)
–
Que os escritores ditem suas trilhas sonoras para seus contos.. tipo por indicação, escute isso enquanto leia meu conto. Tal qual fez Allan Moore enquanto escrevia Watchman =)
Que triste. Acontece.
–
Texto excelente, uma narrativa fácil de ler e que te envolve para saber qual o final.
–
E só eu mesmo para ficar lendo textos de 1 ano atrás rsrsrs.
Ja tem continuação. =)