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Feb
07
2009
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Conto em Série

Escadaria Mortal

Escritor: E.U Atmard

escadaria-mortal

Robin descia aquela escadaria, passo a passo. O cuidado nunca é pouco, quando se desce para o domínio se um lunático. A única coisa que o motivava a descer aquela escada, era mesmo o facto do louco ter aprisionado a sua mulher no fundo da escadaria. Viu-o apenas como um alto e robusto vulto, com olhos azuis reluzentes. ‘Um puro louco, é o que ele é!’ pensava Robin, enquanto descia mais um degrau. Perguntava-se se aquele homem não era por ventura um dos inúmeros que ele e a sua mulher haviam roubado e extorquido. Talvez fosse alguma dessas vítimas, que decidira vingar-se…e que forma de se vingar! Raptando a mulher de Robin, e levando-a para uma catacumba longe de tudo e de todos, onde só uma escadaria em caracol chegava ao chão.

Robin, num pensamento desvairado, ainda pensou se não iria à polícia. Mas depois apercebeu-se da loucura do que dizia. Ele era de certeza mais procurado que qualquer homem que tivesse raptado a sua adorada. E então, seria preso, bem como ela. Não, ele iria salvá-la sozinho!

Desceu um degrau. Nada naquele. Desceu mais dois. Nenhuma armadilha. Começou então a flutuar na sua mente se aquele homem não o teria apenas assustado, quando falou ‘no teu túmulo, caro Robin…’. Sim. Na volta, estava apenas a tentar atrasá-lo, e fazia agora sabe-se lá o quê com a mulher de Robin, Julie. Tinha de se apressar, ou então a descida da escadaria seria inútil. Correu então os degraus, numa descida rápida. Não tinha ainda descido 20 degraus, quando caiu num foço cheio de água. O alçapão fechou-se, ouviu um som metálico vindo do exterior e, pior que tudo, o tecto descia a uma bruta velocidade sobre ele. Robin procurou uma saída pelas paredes. Havia o que parecia ser uma portinhola, mas estava presa e bem presa. Para além do horror de estar prestes a morrer, parecia que estava a ser observado…

O tecto era feito de barras de ferro, entrecruzadas em forma de rede. E o tecto descia, e descia…Robin procurou agora algo que abrisse a portinhola. Não tinha grandes esperanças de encontrar seja o que fosse. Mas para seu espanto, uma alavanca encontrava-se numa parede, parecendo no entanto impossível puxá-la para baixo. Veio a cima, respirou mais uma vez, e debruçou-se sobre a alavanca. Fez uma força tremenda, e já sentia as barras quase a esmagarem-no. Mas no último momento, a alavanca cedeu, e acabou por inverter a marcha das pesadas barras de ferro. Respirou, profundamente, uma e outra vez. Sentiu-se grato por ter conseguido sair dali, e jurou que voltaria para trás para avisar as autoridades. Que se lixasse que iria para a prisão, ao menos estaria vivo para contar a história.

A portinhola acabou por se abrir lenta e pesadamente. Passou por lá, e já estava a preparar-se para voltar para trás, quando se deparou com uma parede maciça. Era impossível destrui-la, e era também impossível contorná-la. A única opção seria mesmo continuar, e esperar que no fim da escadaria houvesse uma porta para sair dali.

De novo andou cautelosamente. Já tinha provado ele próprio um pouco da loucura do homem que havia planeado aquela escadaria, e não fazia tenções de o provar outra vez. Mas também esta tentativa se revelou inútil, pois quando ainda não havia chegado a meio da escada, caiu de novo numa sala. Esta, por sua vez, era uma sala muito quente. De novo o alçapão se fechou, e ouviu-se um som metálico da porta a subir, se bem que o lugar de onde viera era incerto. Aqui não havia porta nenhuma de saída. Mas curiosamente, na parede, estavam incrustados pequenos tubos de ferro, que pareciam meramente decorativos. E uma vez mais, sentiu que algo ou alguém observava secretamente.

E foi enquanto Robin procurava uma câmara qualquer entre os tubos de ferro, que um dos tubos cuspiu uma labareda de fogo que lhe passou rasante. Ficou em pânico, e bateu e esmurrou as paredes todas cobertas dos tubos. Mas isso rapidamente acabou, pois de todos os lados, começaram a sair labaredas. Pelo menos uma ou duas ainda queimaram Robin. No fim, com o braço queimado e exausto, pôs-se no centro do chão. E foi com horror que viu o chão abrir-se sobre si, e viu-se a cair 4 metros no chão da escadaria.

Só não rebolou pelas escadas abaixo por pura sorte. Mas naquele momento esse seria o melhor dos seus males. O seu braço esquerdo estava chamuscado pelas labaredas da sala; o seu braço esquerdo onde aterrou na queda, estava partido em pelo menos três locais diferentes; e com a queda partira uma quatro costelas que só não lhe perfuraram o pulmão por favor divino. Mas ainda assim Robin quis continuar. Se ia morrer, morreria de qualquer forma: ou numa armadilha mais à sua frente, ou descobrindo que não havia saída, ou esvaindo-se em sangue ali, com os seus ferimentos internos. Achou melhor então continuar a correr.

Correu durante um tempo que pareceu infinito. Correu com todas as forças que ainda lhe restavam. Mas quando já avistava o fundo, sentiu algo duro e forte empurrá-lo para a borda das escadas. Sem corrimão, e com a parede a empurrá-lo acabou por cair na sua morte. Mas pouco antes de morrer, empalado num dos inúmeros espinhos de ferro que se achavam espalhados pelo chão, viu a sua mulher, apenas algemada a uma cama. Estava bem…Robin sorriu, e morreu.

Era verdade, a sua mulher estava bem. Estava bem até ao momento em que viu o seu amado marido cair do céu e aterrar num espinho, uma morte imediata, pois o espinho trespassou o coração de Robin. Mas quando Julie viu o ali morto, a esvair-se em sangue, entrou em hiperventilação e, como a sua boca estava tapada para que não pudesse gritar, teve uma morte por asfixiamento.

E foi nesse momento que ele saiu da sombra, o autor de toda aquela obra. Saiu da sombra com os seus dois olhos azuis reluzentes, um sorriso estampado na cara, e o cabelo preto cor de ébano. Nessa noite, dirigia-se a um outro seu companheiro, um amigo com alguns problemas com igrejas…

Written by The Gunslinger in: Contos, E.U Atmard, Vigilantes | Tags: , , ,

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