A Prima Livia II
Escritor: Rafael Peçanha

Toca. E vibra. E toca e vibra no meio da noite. Da madrugada. E como um pandeiro baiano tocado por um português, invade o sono e a paz do que descansa, após criar o mundo da sobrevivência em preguiçosos seis dias.
Olhos turvos, mente tonta, consciência cambaleante, dirige-se ao demoníaco aparelho que emite sons rituais, aquele pedaço de metal pagão, totem da modernidade. Olhando a tela-altar do mundano sacrário, franze a testa, entorta sobrancelhas e assusta vidas:
- Fiquei te esperando até agora. Pena que você não foi. Espero-te amanhã. Amo! Prima Livia.
Não conhecia Prima Lívia alguma, a não ser que o bravo primo Jota tivesse chutado o balde da masculinidade em prol de aventuras. Sem dúvida, tratava-se do caso da mulher enganada pelo rapaz que faltara ao encontro marcado. Na ânsia da manutenção de uma paixão, mandara a mensagem certa para o número errado, como se encontra a mulher certa no momento difuso, como se descobre a Lua certa no céu de outro mar.
Poderia voltar a dormir. Mas melhor: poderia responder aquele texto, evolução fatídica dos sinais de fumaça, como se fosse igualmente índio, daqueles com pintas ao lado esquerdo do rosto vermelho – como fosse o real destinatário.
- Desculpe amor. Tive vários problemas. Agora, esquento um delicioso jantar no microondas, enquanto penso em ti. Irei amanhã, com certeza. Beijos, minha linda.
E gargalhou-se. Onde já se viu diálogo romântico falar de microondas? Mas naquela música mal tocada, valia a paixão de quem escutava, a paixão que olhava o tocador como o mais belo dos músicos, ainda que suas notas lhe desafinassem.
Deita-se novamente, pronto para um resto de noite em sono, rindo-se ainda da doce brincadeira, sentido-se o macho que domina num jogo animalesco de não-sedução. E eis que aquele mesmo som telúrico, quase um instrumento carnavalesco tocado por uma criança, desperta em meio à tentativa de descanso.
- Não se fala mais “microondas”. Agora é “micro-ondas”. Beijos.
Entendera o problema. Era o caso da mulher chata que recebe um bolo do ficante, enjoado de suas esquisitices. Que exemplar feminino era aquele, capaz, talvez, de interromper declarações de amor para corrigir erros gramaticais? Quem suportaria? E por um momento, teceu louvações ao sábio rapaz que encaminhou aquela carente neurótica à solidão justa de uma noite.
Noite seguinte, hora de dormir. Mas faltara alguma coisa, algo que iluminasse seu dia, tal qual rosto brilhante a adentrar numa sala do povo. Mas a última coisa que poderia estar faltando seria a mensagem da neurótica enganada. Não era possível que sua carência fosse tão piegas quanto a própria rainha dos novos erros gramaticais.
O fato é que não conseguia pegar no sono. Uma, duas, três horas, dois olhos esbugalhados, uma só insônia, na tripla espera. E quando já cerravam-se as pálpebras, novamente o toque, o som estridente, como um Pelourinho em festa.
- Poxa, não veio de novo. Mas não faz mal, o importante é que amo você. Beijos.
Louca. Ou burra. Insiste em acreditar num amor que não lhe corresponde; que marca encontros e não comparece, provavelmente, devido à sua loucura gramatical. Para completar, comunica-se com o amor que a abandona pelo número de telefone errado – e pela segunda vez! Merece a manutenção daquela teatral tragédia do subúrbio carioca.
- Desculpe faltar com freqüência aos nossos encontros. Prometo que amanhã irei, sem falta. Também amo você.
Revisto o texto em trocentas vezes, já que a paciência de um jornalista para ser corrigido é menor que uma pia de motel, envia o texto, enquanto recolhe-se docemente. Em menos de um minuto, aquele som, feito rede a abrigar empolgado casal, invade novamente seu sacro repouso.
- Não é mais freqüência, e sim frequência, de acordo com a nova ortografia da língua portuguesa. Te amo! Beijos.
E ainda tem coragem de dizer que ama! O celular na parede é prontamente atirado, sem, contudo, danificar os serviços de mensagens, que varam a semana, em diálogos tão gramaticalmente perfeitos quanto amorosamente enganados. A cada vinte e quatro horas, uma lição da nova ortografia portuguesa se repete; uma desculpa para a ausência num encontro nunca agendado; uma página na vida de um personagem criado a dendê; uma nova situação, mais perigosa e apetitosa que uma tentativa de transa no elevador. E nunca mais conseguiu dormir sem receber a louca entidade auto-denominada Prima, cuja Livia ressoava, a corrigir seu português e permitir-lhe enganações e ausências.
Enfeitiçado por aquela rotina de engano e exortação, resolve ligar para a confusa remetente. Dedos trêmulos, os lábios secos do toxicômano em abstinência, ouvem-se os sons das chamadas, quando em seguida escuta a surpreendentemente melodiosa voz:
- Oi Fael, que saudades!
Cai. Literalmente. Não em si, mas sobre si mesmo. Ela sabia seu nome. A neurótica, que surtava overdoses de Bechara, lhe conhecia. Como? Como se ele não sabia de nenhuma Livia, não tinha nenhuma Prima, não marcara encontro algum, nem faltara a nenhum agendamento amoroso? Termina a ligação, mas o som mensageiro de todas as noites toma de assalto novamente a sua fuga desesperada de uma irreal realidade.
- Você não faz idéia de quanto eu esperei por esse momento, Fael. O momento de lhe contar toda a verdade. Perdôo você por ter me enganado esse tempo todo. Chegou a hora de você saber de tudo.
Sorriso no rosto, garganta seca, gargalha ao reler a mensagem, ri loucamente ao retribuir com fúria:
- Querida, não é mais “idéia” e sim “ideia”. Também não se escreve mais “perdôo” e sim “perdoo”. A propósito, sempre te amei. E prima é o cacete, acabou a palhaçada: é 300 paus pelo programa e 100 pela manutenção da fantasia sexual nessa semana: 50 para você, 50 para o leitor.
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Loucura Vermelha

Esta ai, o primeiro texto que publico aqui no blog após sua re-inauguração.
Este texto foi enviado por Rafael Peçanha. Primeiro texto enviado por ele aqui para O Nerd Escritor.
Não o conheço ainda Rafael, mas fique livre para me enviar suas obras e entre em contato, comente aqui pelo blog. Deixe os leitores te conhecerem.
eh Rafael! Bem vindo ao blog. Gostei muito do seu texto, apesar de não ter percebido muito bem…especialmente a última parte…
hahahaahah
eua chei otimo mas n tentendi a ultima parte.
lol