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Conto em Série

Relatos Intrigantes – Segundo evento

Escritor: Pandion Haliaetus

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Este relato me perturba de verdade, relembra-lo é difícil e desperta uma tristeza imensa em mim por revelar o quão covarde sou, por isso deixei que vários anos se passassem na esperança de esquecê-lo, mas, uma vez que me dispus a documentar meus sonhos percebo que ele continua vívido em minha lembrança, como se de fato tivesse passado pela experiência. Como eu queria que fosse o último…

Estaria mentindo se não revelasse o medo que… Não, o correto é pavor. O pavor que estes relatos me causam, pois tenho a sensação de que é o prenúncio para algo tenebroso e surreal. Tenho incrível medo do que o futuro me reserva, e a cada novo dia, estou mais próximo deste evento.

O medo humano é provocado pela falta de conhecimento, aliado a imaginação e dogmas pessoais. O pavor surge da negação de um evento inevitável do qual temos o mínimo de controle e conhecimento possível, eis daí que surgem os traumas. Pessoas que passaram por situações de terror ou pavor criam bloqueios para evitarem ao máximo ou surtarem diante de algo que incite seu trauma, uma forma de fuga e negação mental ao extremo, deixando com que o eu instintivo assuma o controle, adormecendo o eu racional e o eu sensível.

Pois bem, o estado descrito anteriormente é bem aproximado de como me encontro no começo do sonho. Sinto toda a angustia e desespero de ter as pessoas pelas quais tenho mais apreço em perigo real de morte. A situação é desesperadora, estou junto à minha mãe, esposa, irmão, irmã e alguns amigos. O local é uma cidade a qual não conheço, estamos na rua e corremos por nossas vidas. Quando olho melhor ao redor, a cidade está destruída, como se uma bomba houvesse devastado-a. Está de noite e estou correndo desesperadamente com tanto medo que só penso em me salvar, mal consigo desviar minha atenção para conferir se minha mãe e esposa ainda me acompanham. Maldição, o desespero vai crescendo, a angústia aumentando, e nem sei o que está nos perseguindo! Tento olhar para trás, mas não consigo! O pavor é tão grande e sei que estão lá, se eu olhar os verei!

Depois de pouco tempo fugindo, todos nós entramos em uma construção destruída, uma parte do telhado está ruído, e posso ver as estrelas. Ao entrarmos correndo no local, me apresso e fecho uma pesada porta de ferro com a ajuda de alguém. Por alguns segundos o sentimento de morte eminente passa. As mulheres começam a chorar copiosamente, os outros estão desolados e destruídos mentalmente.

Lembro-me de estar junto à porta tentando manter a sanidade, pensando quando e como isso irá terminar, pensando que isso não pode ser real, desejando que fosse um sonho e que eu pudesse acordar, mas não era, e eu não acordava, por quê? Como isso foi acontecer? Mas que droga, vou perder todos aqueles que gosto, e o pior, se eles sobreviverem sem mim? Não minha mãe e minha esposa. A maior dor do mundo senti nesse momento, e percebi o quanto essas duas pessoas são importantes pra mim. A simples idéia de que eu iria morrer, as deixando sozinhas naquele inferno me corroia como um ferro em brasas perfurando meu peito, que se me oferecessem esse castigo pela salvação das duas, aceitaria em resignação e não reclamaria uma única vez.

Porém, por mais que desejasse, essa realidade esta ali, sendo vivida, experimentada e sentida cada segundo. Não obstante percebo que um dos meus amigos, cujo conheço desde tenra adolescência e que a alguns anos havíamos nos desentendido, está mais inquieto do que os outros, e tão logo presto atenção em sua figura, percebo que sua pessoa está metamorfoseada em algo medonho, um misto de réptil com homem, tornando-o um reptiliano. Noto então que desde o começo ele já estava assim. O que diabos aconteceu com este homem…

Mal tenho tempo de reparar nas pessoas que ainda estão comigo quando escuto sons vindos de fora. Maldição, já? O que devo fazer? Não temos para onde ir, estamos trancados, é o fim! Apavorado vejo que a porta tem uma pequena janela de vidro sujo e embaçado. Respiro fundo e tomo toda coragem que me resta para olhar pela janela, preciso ter certeza do que está lá fora. Quando olho… Um susto como nunca levei antes, o pavor! Sim, eu vi! Seres tão medonhos e horríveis como minha mente jamais conceberia! Esqueléticos, pele cinza, corcundas, olhos de demônios e faces de criaturas que respiram o puro mal. Existem sim, estão ali, se comprazendo em um idioma de estalar e grunhidos, inquietos, mal podem esperar por nos alcançar. Cerca de dez estão do lado de fora grunhindo e forçando a entrada, a expressão em suas faces é idêntica, um misto de sadismo e sanguinolência.

As pessoas dentro da construção são tomadas pelo desespero final, todos se contorcem em pavor e pânico, não existe mais o que fazer a não ser esperar por um fim rápido e indolor. E eu, o que farei? Estou mortalmente dividido entre o medo de ver aquelas que amo sendo torturadas ou o medo de me ver sendo torturado. O pânico e pavor vão tomando cada vez mais conta de mim quando a loucura me domina, sem pensar ou me preocupar com os outros, eu abro a porta e avanço sobre os monstros, acerto um com um soco e uma cotovelada em outro, mas posso sentir sua pele fria como de um ser vindo das profundezas mais gélidas da terra, e vários braços logo me imobilizam e sinto o desespero final da morte. Acordo….

Sentindo ainda o pânico da morte e o pior dos seres humanos, por ter visto que em uma situação crítica fui egoísta e covarde, pensando apenas em terminar tudo. Deixei as duas lá… E até hoje tenho medo de me imaginar nessa situação novamente, e de saber o que eu faria de novo…


Written by The Gunslinger in: Contos,Pandion Haliaetus,Relatos Intrigantes | Tags: , ,

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