Delírios Oníricos III
Escritor: Hugo Santos

7h40m. Sauld levantou desesperado. Estava atrasado uma hora e quarenta minutos. Precisava estar às 8h numa reunião. Acabou perdendo a hora. Não ouviu o alarme tocar. Teve um sonho deslumbrante na noite anterior, e talvez estivesse tão relaxado que não conseguiu ser perturbado pela realidade.
No banho, Sauld relembrava o seu sonho com uma nitidez perturbadora. Cada detalhe. Nesse sonho ele teve um encontro em um parque. Olhando frontalmente, parecia uma pintura. Um quadro em sépia. O local era um parque construído dentro de um bosque, cercado de árvores em todos os lados, e uma fonte com água cristalina no centro. Em frente à fonte havia um banco de dois lugares, de madeira bem trabalhada e nova. As folhas secas das árvores caiam sobre o chão, feito de pedra talhada, formando um caminho reto que se curvava circundando a fonte. O banco ficava numa espécie de estrada, entre o caminho e a fonte.
Sentada nesse banco havia uma figura com o aspecto encantador. Ela estava vestida com um vestido do século passado. Longo, rodado, com ombreiras. Branco como a neve. Ela tinha um chapéu peculiar, que cobria todo o rosto. Sauld seguiu a estrada e foi ao encontro dessa figura. Estava um pouco apreensivo, pois a dama parecia desfocada. Parecia realmente uma visão. Sauld chegou perto o suficiente para ver um sorriso no rosto da moça. Não foi possível enxergar o rosto, visto que o chapéu cobria boa parte da cena, mas ele percebeu um pequeno sorriso de confirmação, como se ela o aguardasse. Ele acordou naquele momento.
Seu dia foi atribulado e cansativo. O atraso ocasionou uma série de incômodos ao longo do dia, fazendo com que Sauld saísse tarde do trabalho. Ao dormir, não teve o encontro com a dama do sonho anterior.
Uma semana se passou. No início da semana, exatamente na noite de domingo, Sauld teve seu segundo encontro com aquela moça. Mesmo vestido, mesma roupa, mesmo aspecto. Sauld sentou no banco. Tocou em sua mão. Ela levantou o rosto e olhou dentro dos seus olhos. Olhos azuis. Ela tinha um rosto lindo, traços finos e delicados. Ele perguntou o nome dela. Kadri. Ela disse:
- Preciso que você me encontre. Preciso de você.
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Aquela voz suave não combinava com o tom afirmativo da frase que ela disse. Havia determinação. Meio encantado pela figura tão bela, Sauld gravou a ordem, porém não conseguiu assimilar, nem tomar uma atitude imediata.
Ao acordar, ele ainda recordara do sonho, do nome, de todas as informações, inclusive o pedido.
“Preciso que você me encontre. Preciso de você.
Sauld teve uma sensação de que essa moça poderia estar perdida além do seu sonho. Poderia ser uma pessoa mesmo. Ele resolveu investigar. Comprou o jornal do dia, atrás da seção de pessoas desaparecidas. Sentou no rol de entrada da empresa, foliando o jornal.
Não havia nenhuma informação nos classificados, nem na seção de desaparecidos. Porém, havia uma reportagem curiosa na terceira página do jornal. “Encontrada nova pista da jovem desaparecida há sete anos”. No corpo da notícia, havia a manchete: “A Família Fontue reabriu o processo de investigação do desaparecimento de Kadri Fontue, 24 anos. Há sete anos a jovem deixou sua residência e nunca mais voltou…”
Sauld passou os olhos rapidamente na reportagem, atrás da pista encontrada. Um pedaço da roupa da jovem. Uma tira branca do seu vestido foi encontrada na marginal do lago Nervon. Havia um cais abandonado em uma das margens desse lago, local onde foi encontrada essa parte do vestido. A Policia esteve no local realizando buscas mas não encontrou o corpo, nem no cais, nem no lago. A equipe ainda não havia desistido das buscas, mas tentariam apenas por mais 24h.
A ansiedade tomou conta de Sauld. Não era possível compreender qual a relação dele com essa jovem. Porque ele havia sonhado com ela, porque somente após sete anos ela resolveu aparecer, enfim. Muitas perguntas sem resposta. Sauld rasgou o trecho que falava do local. Precisava investigar. Uma curiosidade mórbida arrastava sua mente a essa moça.
Os preceitos religiosos dos quais Sauld acreditava não trabalhavam com a hipótese de “comunicação após a morte”. Por isso que ele precisava encontrar essa moça. Algo lhe dizia que ela estava viva.
A noite caiu depressa. O local parecia sombrio e deserto. A lua cheia que cobria o local iluminava a entrada do cais. Sauld entrou discretamente no local. Era um cais abandonado, devido ao estado das paredes e da janela. Um grande saguão, parecido com uma oficina, abrigava um jet sky, uma pequena lancha e uma moto, todos em péssimo estado. Havia uma escada no fim do saguão que levava a um sótão na parte superior. Ao chegar nesse sótão, Sauld encontrou um antigo baú de madeira. O cadeado estava enferrujado. Sauld sentia-se guiado, como se soubesse o que estava fazendo. Forçou o cadeado, e com quatro batidas ele conseguiu rompê-lo. Dentro do baú havia uma carta escrita à mão. Dizia o seguinte:
“Encontre-me. Devolva-me a respiração.”
No verso da carta havia um mapa feito às pressas, sem coordenadas, sem muita explicação. Era um mapa da cidade. O cais estava no canto inferior esquerdo e o local onde o mapa apontava estava no centro. Estava escrito “bosque”. Sauld sabia onde ficava o bosque da cidade.
Era madrugada e não havia trânsito na cidade. O desespero e a curiosidade de saber se a jovem estava viva, se estava presa, onde estava, tomava conta de Sauld. Ele chegou ao local indicado. Curiosamente era o mesmo local do sonho. Um parque com o aspecto abandonado. A diferença era a escuridão e o tempo, que deixava o ambiente totalmente denegrido, diferente do aspecto mágico do sonho. Havia o mesmo banco. Ao chegar perto, Sauld percebeu que o chão estava meio fundo, como que escavado.
Com as próprias mãos ele começou a cavar. Começou a sentir que o chão cedia, e cada vez mais rápido ele retirava a terra do chão. Após cerca de 1,30m de profundidade, Sauld encontrou uma espécie de caixão de vidro, com a bela moça dentro. Esse caixão conservou o corpo da moça, que permanecia intacto, mesmo após sete anos, segundo as informações dos jornais. O caixão estava fechado, mas não possuía lacre. Ao abri-lo, Sauld ergueu o corpo da bela jovem. Tentou acordá-la chamando-a pelo nome. Kadri. “Belo nome para um belo rosto”, pensou.
Sauld lembrou-se da carta no cais. “Devolva-me a respiração”. Sauld encostou os lábios nos lábios da moça e soprou-lhe ar, como que realizando uma respiração boca a boca. No mesmo instante a moça conseguiu captar o ar. Sauld ergueu-lhe um pouco mais, percebendo que a moça voltou à vida mas ainda permanecia inerte. Subitamente, antes que ambos pudessem sorrir um para o outro, Kadri puxou Sauld pelo pescoço e encostou a boca novamente em seus lábios. Ela puxou todo o ar que o rapaz tinha, deixando-lhe desacordado. Só então ela pode abrir os olhos.
Estava viva novamente.
Soltou o corpo do rapaz no chão e o colocou no caixão de vidro. Tomou a carta de suas mãos e o enterrou cuidadosamente para não deixar vestígios. Rasgou a carta e limpou as mãos no vestido.
Então ela se levantou e saiu, assobiando uma antiga canção. Provavelmente não estava mais tocando em rádio nenhuma.
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Ta ai pessoal mais um conto no ONE e mais um conto do Hugo. Em breve ele estará na página Nerds Escritores também.
Vou correr agora pois tenho que ir atrás de notícias para o blog. Desculpem o desaparecimento, entrei em hibernação neste feriado que passou.
Depois volto aqui para comentar o conto em sí. Té!
putz!
que mórbido..
adorei!
=D
Valeu Gunslinger.
Muito obrigado pela divulgação. Em breve novos contos ai.
Um abraço.
Sensacional!
Gostei muito…
Um tanto rápido, mas a idéia é ótima. Digna de um episódio de seriado estilo “Além da Imaginação”…
Parabéns!