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May
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2009
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Conto em Série

Memórias de um velho nostálgico – Parte III

Escritor: E.U Atmard

memorias-de-um-velho-nostalgico-parte-iii

-Onde íamos nós? – perguntou Eos, àqueles que o ouviam pacientemente – ah, já sei, o parque. Portanto, eles estavam muito calmos naquela tarde, eu pude constatar isso…

“…Ela, vinha em todo o seu encanto e formosura, de mãos dadas com ele, parando apenas de vez a vez, para o beijar. Ele, por outro lado, com a sua austeridade, a sua pressa, a sua necessidade constante e maníaca de ver as horas no seu relógio, vestido a rigor com um fato completo, não pareceria nunca aquilo que eram: amantes. Mas eles andavam calmamente pelo parque, naquele fim de tarde de Junho. As árvores ainda mostravam toda a sua beleza clara, de um verde profundo. E por isso, eles paravam de vez a vez, sentavam-se num banco, beijavam-se com ardor, e ficavam a admirar tudo o que ainda existia para além deles. Pois a suposta empatia entre eles era tão curiosa, que era impossível determinar se eles se amavam, ou se o interesse era meramente económico. Mas todos nós os cinco sabíamos que havia muito mais a dizer…

Adam e Julian tinham tudo planeado desde à meses. Eles tinham de provar que não haviam superado as suas loucas paixões em relação a Fátima e John, que queriam voltar a namorar. Mas em vez do eterno estranho cliché de irem esbarrar “convenientemente” neles, surgiu-lhes a ideia de algo muito mais…original. Pois o parque encontrava-se junto a uma fábrica de pirotecnia (sim, eu estou lúcido), e Adam tinha lá um grande amigo trabalhando: eu. Sim, não sei bem como me meti nesta brincadeira, mas o que é certo é que acabei ficando um bom amigo de todos eles. É claro, que nunca me passou pela cabeça o que iria acontecer a seguir…

O plano era simples. Eu, director executivo da fábrica, alguém com um trabalho bem assegurado, tinha de ordenar a produção de um foguete que ao explodir fosse dizer algo como “Fátima John desculpem, A. e J.”. O que é certo, é que os meus pirotécnicos trabalharam semanas no foguete, sendo que iriam receber uma boa comissão. 30 mil dólares em dinheiro contado, a dividir por 15 trabalhadores, todos com a mesma recompensa, eram 2 mil líquidos directamente para os seus bolsos. Por isso, trabalharam dia e noite, até que finalmente ficou pronto.

-Estás pronto? – disse Julian nervoso, tremendo incessantemente como um diapasão. – se quiseres, ainda podemos voltar atrás, quem sabe fazê-lo de outra forma…

-Cala-te! – ordenou Adam com uma voz de trovão – nós vamos fazer isto, e acabou! Estou, estás pronto?

-Sempre a postos. – disse eu. – para onde é que querem que dispare o fogo?

-Estava a pensar, talvez no meio deles… – falou Julian arrancando-me o telemóvel das mãos – não achas que seria uma boa ideia?

-Não sei Julian, vou tentar. – e desliguei o telemóvel. Estava na hora de fazer história, estava na hora de juntar quatro pessoas juntas, estava na hora de disparar um canhão que iria literalmente, rebentá-los…

Preparei a mira, e disparei o canhão. Ocorreu tudo muito depressa. Mal tive tempo de gritar, quando o pobre Erik que surgira do nada para os cumprimentar, viu o seu braço ser rasgado da carne, e exposta a ferida mais profunda que já vira. Desmaiou. Uma milésima de segundo depois, o foguete havia explodido, e mostrava em tons de amarelo e vermelho as letras que eu tinha ordenado serem escritas.

Foi um falhanço total. Com toda a confusão nem perceberam a declaração de amor. Ficaram todos imóveis por um momento, observando aquele misto de emoções, enquanto Erik se contorcia com dores. Os gritos deles rasgavam o ar de uma forma tenebrosa…

Adam e Julian correram para ver como estava Erik. Eu, juntei-me a eles, e foi aí que conheci pessoalmente os dois causadores de tal utópica tentativa de demonstração de amor. Ela, em todo o seu esplendor, usava um colar de ouro, oferecido certamente por John, numa das suas noites juntos, enquanto se encontravam perto do jacuzzi prestes a satisfazer os seus desejos carnais, ele virando-a com um gesto maquinal e desprovido de paixão, dizendo inúmeras palavras de carinho que saíam com a mesma facilidade que saem troncos pelas portas, ela respondendo com um beijo enquanto pronunciava uns cinicamente azuis “É lindo meu amor…”, tentando esconder o seu desejo insaciável de um colar de pérolas rosa. Ele, estava de fato completo, com a sua austeridade amigável de sempre. O que parecia inacreditável, foi que bastou uma visão deles juntos, para me aperceber que não se tratava de amor, nem sequer paixão…eles estavam juntos por um comodismo concreto, ele porque tinha de esconder da sua conhecida família que era homossexual, e ela aproveitava-se disso para lucrar com o segredo dele. A verdade é que ambos ainda estariam apaixonados pelos meus dois enlouquecidos amigos. Mas Adam e Julian não o viam, cegos surdos e mudos da verdade que se escondia na cara, nas acções deles.

-Mas que se passa aqui? – gritou Fatima – Adam? Que raio estás aqui a fazer?

-Julian?! – gritou John quase de seguida.

-Erik, estás bem? – disse Adam para o pobre mutilado que continuava a gritar com todos os seus pulmões.

O momento que se seguiu foi demasiado espantoso para descrever. Fatima gritava enquanto Adam e Julian tentavam levar Erik para o hospital, John tentava estancar a hemorragia dele. Insultos voaram pelo ar, a atmosfera do parque ficou feita em cacos, toda a paz daquela tarde tinha sido arrancada pelo foguete, juntamente com o braço de Erik. Seguimos todos para o hospital, nós os seis. Eu conduzi, pois todos os outros participantes daquela trama estavam tão nervosos que facilmente teriam guiado o carro contra uma ravina.

-Anda mais depressa! – gritou-me Julian – eu não o vou deixar morrer nos meus braços.

-Estou a tentar, mas não sei se sabes que estamos numa cidade, não numa auto-estrada, como queres que ande tão rápido assim?! – barafustei.

Ao chegarmos ao hospital, Erik estava já inconsciente. Os gritos percorriam o hospital, e nada parecia conseguir calá-los. Nenhum de nós foi autorizado a ir mais longe que a porta das urgências, pois nenhum de nós éramos familiares. O pior, era que o pobre Erik não tinha familiares…

Erik Lux, nascera de uma família pobre e sem qualquer rendimento, sem amor algum. A sua mãe era uma prostituta, e o seu pai era desconhecido, por isso foi criado pelos tios que o acolheram com relutância. Até aos 13 anos não conheceu mais que a sua cidade natal, e nunca frequentou a escola. Mas chegada essa idade, veio um seu primo afastado que o inspirou. Disse-lhe ele assim:

-Erik, tu já tens idade de te sustentar, está na hora de começares a trabalhar. Tu até és um rapaz esperto, por isso devias começar a trabalhar. Eu conheço uma fábrica onde eles aceitam rapazes da tua idade, onde se trabalha para fazerem caixas de cartão…, olha se quiseres eu dou-te o endereço da fábrica, e tu podes ir para lá trabalhar..

Erik aceitou muito felizmente, e ia trabalhar todos os dias. Mas houve um dia, um mês após ter sido aceite, que ele encontrou o velho dono da fábrica que lhe afirmou veemente que durante 50 anos tinha trabalhado naquela fábrica, e que agora tinha uma rica fortuna de uns bons milhares. Mas ele era velho, e não tinha como gastar aquele dinheiro todo. Não tinha mulher, nem filhos, e a sua vida era basicamente a fábrica que ele construíra de raiz. Então, Erik sugeriu-lhe que arranjasse um filho adoptivo para cuidar, ou então um tutelando, e assim podia facilitar a vida a algum jovem.

-Assim, vai ver que quando a morte chegar, irá muito mais descansado… – disse o adolescente.

E sem sequer pensar muito no assunto, o velho ripostou:

-Vem tu viver comigo, a minha casa é grande, e vais poder aprender muito comigo. Eu sou analfabeto, mas contratarei um tutor e verás como aprenderás. Rapaz, tu estás destinado a grandes coisas! Foi o destino que nos uniu.

E Erik aprendeu, criou filiais da empresa do pai adoptivo, mas ficou mais conhecido pelo seu trabalho na área de marketing para a empresa “Eleanor Donter’s Emporium”. Quando atingiu os vinte anos, o seu pai morreu, e ele passou a viver sozinho.

Agora, estava preso nas urgências, o seu braço decapitado, a dor percorrendo toda a sua existência. Eu, o mais sensível de todos os que se prostravam à porta impacientemente, via como o suor me corria na face, fresco e salgado, como o próprio mar, mas também negro e disforme como a minha alma.

-Ele vai ficar bem, ele está estável, e provavelmente não lhe acontecerá nada de mais. Achamos ainda que ele era o candidato perfeito para um novo procedimento que surgiu na América, que lhe poderá devolver a mobilidade. Quando saírem, não se esqueçam de dar à enfermeira o número do contacto de emergência dele. Se não for intromissão, podia saber como é que ele viu o seu braço arrancado?

-Tem razão – disse Adam – é intromissão.

O médico saiu, um tanto incomodado com Adam, e nós os cinco saímos para ir a um bar. Parece impróprio, mas afinal, que podíamos nós fazer por Erik que não fosse celebrar o seu triunfo contra a própria morte?!…”

-Pronto, meus queridos – Eos esboçou um sorriso e soltou uma leve gargalhada – acho que já é tarde. Amanhã eu termino a história. Agora está na hora de irem dormir.

Então, Eos foi-se deitar na sua cama sozinho, esboçando um sorriso de felicidade, relembrando os tempos em que teve de trabalhar das formas mais absurdas, a dor de cada dia ao adormecer, e as costas a estalar ao acordar…

Written by The Gunslinger in: Contos, E.U Atmard, Memórias de um velho nostálgico | Tags: , ,

4 Comments»

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    Depois de muito tempo afastado do blog, por motivos que ja foram discutidos aqui, Atmard retorna.
    =)

    Este que foi o primeiro Nerd Escritor a enviar um conto aqui para o blog.

    Seja bem vindo novamente, caro nerd lusitano.

  • E.U Atmard says:

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    muito prazer em voltar!
    :D
    Espero que o pouco que tenho para trazer a este blog seja bom!

  • Laka says:

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    Aaaaaah muito bom!!!! Já estava com saudades dos contos do Atmard ^^

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    Aaa não tem esse negócio de pouco.
    Qualquer colaboração é bem vinda. =)

    Seus contos e comentários serão sempre bem vindos.
    Pena que não vai participar da promoção… ou melhor.. que bom que você não vai, imagina eu ter de mandar 5 livros para Portugal!! Ia doer no bolso. :D

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