Mozuela nefanda
Escritor: Andrei Valentim

A brisa sopra lentamente janela adentro. O vento congelante de inverno espalha o odor de lascívia impregnado da noite passada. Mozuela vestiu sua camisola vermelha, com os olhos borrados de maquiagem que não tirou para dormir, pegou uma vela e acendeu em frente ao seu Santo Antônio, rezando para que encontrasse logo um marido que a tirasse dali, daquela vida.
Ela já havia perdido a conta de quantas velas acendeu ou das simpatias que fez para tal.
Cada homem que entrava no seu recinto, despertava-lhe a esperança de um futuro marido, que para sempre mudaria a sua vida. Mas, dias, meses, anos se passavam e nada. Isso a deixava muito triste.
Sentada em frente à sua penteadeira com espelho de velho aço, a luz da vela iluminava seu rosto rabiscado, dando um ar mais difuso à sua imagem, Mozuela chorava.
Soluçando, aos prantos, pôde perceber que ela era apenas um objeto libidinoso dos seus clientes. Olhou para seu santo. Seus lábios com o que restava de um batom vermelho estremeceram. A angústia dentro de si cresceu de tal forma que não conseguiu mais contê-la. Pegou a imagem nas mãos, fitou-a, e lhe maldisse tudo o que estava sentindo, arremessando-a contra a parede e fazendo cair no chão em milhares de cacos.
Nem a vela escapou do seu estado de fúria, e com grande ímpeto, dela se desfez, jogando-a pela janela… Deixou cair-se sobre o chão, e ali derramou toda sua desgraça, lastimando o que ainda restava de si…
Corria o boato por toda a vila de que a nova padroeira havia chegado, mas, por ser tão grande, não coube na capela do antigo padroeiro, Nosso Senhor dos Passos. Enquanto era construída uma nova capela ali mesmo na vila para ela, a santa teria que ficar peregrinando de casa em casa, para ser guardada por seus fiéis.
Depois de dois meses do início da peregrinação, alguém bate à porta da casa de Mozuela. Ela mesma foi atender. Era seu vizinho, que algumas vezes já tinha o servido, com uma caixa de madeira ao seu lado.
Mozuela olhou com um ar curioso para o caixote e perguntou o que tinha ali dentro. O vizinho, Giovani, disse que era a nova padroeira da cidade, que estava a vagar pelas casas por estar sendo construída sua capela, era a santa Nossa Senhora Mãe dos Homens. Ela olhou irônica para ele e perguntou o que ele queria com a santa em sua porta. Ele respondeu que ela também era cristã – e sabia disso porque, em uma de suas noitadas, ela havia lhe confessado depois de Giovani ter visto o Santo Antônio sobre sua penteadeira – por isso ela também deveria proteger a imagem por um tempo em sua casa. Ela não deu muita importância, e aceitou. Mandou que ele deixasse a caixa em um canto de seu quarto…
Depois de algumas horas, andando com sua taça de vinho tinto vistoriando as outras meninas, Mozuela chega ao seu quarto. Já havia até mesmo esquecido da caixa. Sentou-se em sua cama, e ficou olhando para o caixote, curiosa, querendo saber como era a imagem da santa.
Não resistiu, levou a caixa para cima de sua cama e a abriu. Seus olhos brilharam. Como achou linda a imagem daquela mulher… Como eram nobres suas vestes…
Mozuela ainda não havia se refeito da decepção de dias atrás, continuava magoada… Começou a olhar a santa, passar a mão nela… Afagá-la…
Apesar do súbito carinho, pensou em como a santa não era nada na vida dela nem de ninguém, e que era pura bobagem tudo aquilo, assim como seu Santo Antônio, que nunca a ajudara: Ela não sabia o que era ser tratada como um nada, nem nunca encontrar um marido decente para tirá-la daquela vida.
Mozuela preparou um altar improvisado no salão principal de sua casa para a santa. Naquela noite, quando seus clientes começaram a chegar, estranharam uma santa numa casa tão indecorosa como aquela.
Mozuela, já embriagada de tanto vinho que passou o dia todo bebendo, pediu a atenção de todos quando sua casa já estava repleta de homens.
Ela gritava: “Vejam só… Que lindo corpo, alvo e esbelto…”, levantando a indumentária da imagem. E, com gestos impudicos, acariciava a imagem já nua, e ria, ria muito. Mas no entanto, ela dizia em pensamento para a santa: “ Agora vês o que é ser tratada como um objeto por todos esses calhordas!”
E assim foi por várias semanas. Algumas pessoas da vila até ficaram sabendo por algumas fofocas que corriam, mas como ninguém tinha certeza, não puderam fazer nada…
Em março daquele ano, um temporal como jamais visto, desabou sobre a região. O rio inundou, ameaçando tudo o que estava em sua frente. Nas redondezas da casa de Mozuela, violentas enxurradas se direcionavam, cavoucando o barranco, deixando-a em perigo. Faltava pouco para as águas atingirem a casa.
O povo urgenciou a remoção da santa para um ponto mais seguro, e sobretudo, mais digno.
Decidiu-se então fazer uma procissão para a retirada da imagem. Embora chovesse torrencialmente, a procissão se fez às três horas da tarde, conduzindo a imagem encaixotada.
Mal saíra ela da casa, a chuva amainou, até parar por completo. O povo acompanhou tudo com tamanha emoção, dizendo estarem presenciando um milagre… Na nova casa, a santa foi exposta à veneração pública.
Mas, contudo, Mozuela ainda continuava desacreditando de que a santa havia promovido alguma daquelas coisas. Nem ali, nem em sua vida.
12 Comments»
RSS feed for comments on this post.TrackBack URL

Quadrinhos na Cia. anuncia Asterios Polyp, Trois Ombres e outros lançamentos
Sandman de Neil Gaiman vai virar série de TV
4º Concurso Literatura para Todos - Ministério da Educação
Loucura Vermelha


Novo escritor, escreve bem, mas não gosto do tema religião. Por isso passo.
Mas sintam-se livres para escrever e comentar. =)
Cara, como já dito, você escreve muito bem, limpo e bonito. E eu devo admitir que gostei muito do texto, a ambientação e todo o resto, muito bem feito. Gostei da história também, da audácia sutil e todo o resto, mas odiei o final.
Achei sem graça.
Isso mesmo, o final que foi meio.. nhé.
Uia também, fui ler os comentários antes de ler…to tentando não ler o final antes do conto =/
Tá, tudo bem, tbm não acredito em santos =P
Só para complementar, esse contoé baseado em uma história real.
Não sei se é mal de nerd, mas eu também não gosto nada de religião. Mas muitos parabéns, o conto está muito bom e muito bem estruturado. Eu por acaso gosto de finais deste género, dá um certo interesse em continuar a ler…e vai ficar aqui pelo Nerd escritor, ou está só de passagem?
hahaha, Vou sim… Eu tbm sinceramente não curto temas religiosos, mas essa história eu achei em um livro empoeirado na biblioteCA municipal da minha cidade e achei bastante interessante. Foi daí que pensei em fazer disso um conto. Em breve mando outro aqui pro site. ;D
Ja estava achando que você era um devoto fervoroso. =)
Acho que você despertou em mim o gosto pela leitura, amigo.
Parabéns pelo texto.
Caramba, que elogio. =)
Cade o autor para recebe-lo? =D
hahaha tô aqui XD