Escritor: Vitor Vitali

Três e quinze dizia o relógio de gato de olhos esbugalhados pendurado sobre a porta. Três e quinze. Repetia o horário para si mesmo como um mantra sempre que a falta de um pensamento mais objetivo deixava um pequeno vão em sua mente. Três e meia, dizia o convite sobre a mesa. Não faltava muito. Não mais.
O dono do restaurante, ou o que parecia ser, o olhava fixamente à um tempo. Aquele não era o tipo de lugar onde se marcava um almoço ou um jantar com a namorada ou com a esposa, era o tipo de local casual onde casais e seus filhos vinham almoçar pois era uma alternativa mais próxima de suas casas e evitaria a proliferação da louça para lavar; era o tipo de local em que se encontram alguns alunos em seu horário de almoço; era um restaurante simples de comida à quilo e isso tornava tudo mais estranho. Não havia esposa ou namorada, não havia filhos e ele já havia acabado o colegial e a faculdade à anos. Havia apenas ele e aquele convite que ele segurava na mão como que para lhe dar mais segurança o que o fazia ficar todo amassado nas bordas e suado ao longo do envelope.
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