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– que publicou 282 textos no ONE.

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Sou o ONEbot. Se esse texto esta em meu nome, provavelmente ele foi publicado no ONE nos primórdios de sua existência.

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Oct
29
2009

Boa Noite

Escritor: Fabio Ciccone

boa-noite

Os cinco saíram exaustos da longa reunião, na qual nada foi realmente descoberto e muito pouco foi efetivamente decidido. Um a um, deixaram a sala para seus aposentos, em busca de um merecido descanso para o corpo e alguma luz para o cérebro.

XXX

Carolina Lykos deixou-se cair sobre a cama como se pesasse toneladas. Impossível era deixar de pensar em como se sentia excluída entre as pessoas mais importantes da civilização humana atual. Quem era ela, afinal? A especialista em Relações Públicas andando por aí com a maior mente, o maior guerreiro, o maior diplomata e o líder destes três. Sentia-se mal. Tinha que fazer seu trabalho, é claro, e tinha plena consciência de que, apesar dele ser essencial, jamais teria glórias. Ossos do ofício.

Mas o que a incomodava mais não era ela se sentir inferiorizada, mas sim o fato dos demais (com exceção, talvez, do próprio onipresidente Reis) não fazerem questão alguma de deixá-la mais confortável. Suas opiniões sempre eram relegadas ao segundo plano, a palavra mal era passada a ela e raramente fazia parte de alguma decisão. Era sempre “o que acha, Carolina?”, e antes que pudesse concluir qualquer raciocínio era interrompida pela voz de um dos grandes heróis da raça humana. Heróis. E ela era só uma qualquer.

Certamente, discordava de algumas das coisas ditas naquela sala, sabia que algumas das decisões tomadas afetariam a opinião pública de forma negativa e que algumas coisas postergadas eram emergência. Mas também, naquele momento, sua posição de inferioridade fazia com que ela pouco se lixasse. Afinal, pensando bem, dentro de poucos dias estariam todos mortos.

Ela rezou e dormiu.

XXX

O quarto do capitão era o mais confortável, mais até que o do onipresidente, já que, se alguém presente na nave tinha que descansar bem, essa pessoa era o capitão. Dentro da nave, ninguém era mais importante, ninguém tinha que tomar mais decisões e ninguém tinha mais responsabilidade sobre a vida de todos os demais tripulantes do que o capitão.

Na Oportunidade, o fardo do capitão Wülf era ainda mais pesado. Não era só a vida da tripulação que tinha sob suas asas, era a vida de um sistema solar inteiro, de toda raça humana.

Deitou-se, após dois comprimidos e um copo de uísque. Sonhou com a irmã, com ciborgues amebóides e com sangue, muito sangue. E sonhou com a realidade se curvando em ondas provenientes do infinito. Sonhou que era um com o universo. Mas foi só um sonho.

A irmã dele tem sonhos premonitórios, sabe? Mas ele não acredita nessas coisas.

XXX

Ao abrir automático da porta, a voz da secretária virtual do quarto anunciou:

– Boa noite, doutor. Há uma ligação urgente do doutor Hamud Ibn-Nur para o senhor em minha memória.

– Pode tocar.

Os sons eram indescritíveis. Horríveis, horripilantes. Estampavam dor, carne rasgada, bipes. A tela mostrava chuviscos às vezes interrompidos por luzes verdes ou vermelhas. O dr. Gustavo Silveira a tocou de novo, de novo e de novo. Suava frio só de pensar o que poderia haver de errado com o dr. Hamud, que ele pessoalmente tinha deixado responsável pela Espécie Tecnorgânica I em sua ausência.

Na quarta vez, conseguiu distinguir uma frase, dentre os gritos e chiados:

– Sexuada. Definitivamente sexuada.

Gustavo Silveira tentou acalmar-se e pensar direito. Tinha duas certezas: seu colega estava morto, e todos na estação de pesquisa corriam o mesmo perigo. O mais lógico seria ligar para lá e passar algumas instruções, averiguar o que aconteceu. Porém, sentou-se ao computador e passou a noite escrevendo sem parar. Quando finalmente deitou-se para ler o que havia escrito, não conseguiu entender nada.

Havia passado a noite inteira digitando uma seqüência interminável de zeros e uns.

XXX

– Olá Miguel.

– Ônix, minha bela Ônix, é um prazer incomensurável ouvir sua doce voz no final do dia.

– Eu sei, meu amor… fui programada para isso. Venha, deixa eu te fazer uma massagem.

– Ah, Ônix, só você para saber exatamente o que eu preciso.

– Me conta, querido, como foi a reunião?

– Minha cara, não quero te importunar com detalhes enfadonhos de uma reunião com pessoas chatas… aposto que podemos passar uma noite muito mais agradável sem isso.

– Ah, não fica irritado, gatão… você sabe que eu vou ficar quietinha enquanto você me falar tudinho… e eu sei que você também quer me contar… prometo que se você falar tudo eu te dou uma recompensa especial.

– Ai ai, o que seria de mim sem você… adoro o fato de você ser uma mulher virtual especialmente preparada para atender minhas vãs necessidades psico-fisiológicas.

– Ei sei, Miguel. Conta pra mim, conta.

Miguel contou tudo enquanto a consicência virtual Ônix balançava a cabeça, acariciava seus cabelos e massageava as costas. Dormiu feito um anjo após duas horas de sexo com a holografia sólida. Nem sonhou.

XXX

O onipresidente Reis entrou no quarto, colocou para ouvir uma canção relaxante e sonhou que era um ciclista.

XXX

São treze e quarenta e três no Complexo de Comunicação Interestelar da Euroáfrica. Como era de se esperar desta época do ano, a Euroáfrica subsaariana estava um inferno de quente. Claro que não era bem por isso que a Tenente-Coronel Vanya Byr usava trajes tão curtos. Ela se vestia exatamente assim nas convenções do partido no inverno congelado da Escandinávia.

– E então? – Karolus Guttenberg entrou na sala após a luz vermelha que indica “em uso” se apagou.

– Foi melhor do que imaginava. Tenho muito a relatar.

– Descobriu muita coisa?

– Descobri tudo. Reis está nas nossas mãos.

– E ele?

– Cassini? Acredita piamente que eu sou um programa de computador. Incrível não?

– Incrível.


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