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Oct
02
2009
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Diálogo com o Inferno

Escritor: Andrey Ximenez

dialogo-com-o-inferno

É fato que nessa existência sonhos se realizam, e coisas impossíveis possam acontecer. Pelo menos isso tem se mostrado ao longo da minha vida. Da remota e faminta infância à solitária e escura adolescência.

Lembro-me como se fosse ontem, quando passava horas lendo jornais e livros, enquanto minha mãe se prostituía nas ruas para garantir nosso sustento. Sim, sabia que se prostituía, não tenho vergonha de falar sobre isso. Era tarde quando chegava em casa. Recebia-a com a mesa servida, a estufa ligada no banheiro nas frias madrugadas de inverno. Ela tomava seu banho, depois jantávamos, conversando sobre algumas matérias dos jornais.

Lembro tudo agora, pois me parece que cada uma dessas gotas que voam em direção ao meu rosto carrega uma memória…

Recordo o dia que prometi a ela, enquanto víamos um filme de esquiadores, numa tarde de domingo “ Um dia vai ver a neve, mãe, eu juro, um dia seremos nós a esquiar pela neve”. Ele como sempre sorriu, não seu sorriso mecânico, não, ela sorriu aquele sorriso secreto, aquele sorriso só meu. A bondade emanava da santidade e pureza de sua alma.

Meu fôlego começava a ceder, no entanto não poderia parar, minha palavra tinha sido dada, não iria desistir agora…

Cresci, minhas pernas se tornaram fortes o suficiente para me mover para fora de casa. Meu intelecto amadureceu. E para ela não foi surpresa quando lhe contei sobre minha vitória: primeiro lugar em medicina na federal. Chorou, riu, tudo de uma vez só. Dizia, enquanto me abraçava, que finalmente sua vida encontrara um sentido. Eu também chorava. Ela não sabia, mas a minha vida agora começava a enfrentar seu sentido.

Respirei, esfregava as mãos na tentativa que o sangue voltasse para ali. O frio era intenso. Fora e dentro de mim.

Foram-se dois anos. Trabalhava no hospital na época. Meu salário era regular. Ela não se prostituía mais. Eu estudava pela manhã, trabalhava durante a tarde e um pedaço da noite. Quando chegava em casa, a comida estava na mesa. Ela sorria enquanto me ajudava a tirar o paletó. Antes de dormir tomava banho, a estufa garantia a temperatura ideal da ducha. Talvez ela não soubesse, mas eu sorria enquanto a água removia o suor do meu corpo.

Ritmo retomado, gotas voavam, de todas as cores e aromas imagináveis. Meu braço cansado, entorpecia a cada movimento, ao contrário da minha mente, que despertava-se mais e mais a cada segundo.

Comecei a pensar em casamento quando me aproximei dos trinta. Uma colega da época de faculdade começou a trabalhar no mesmo consultório que eu. Não demorou muito para que tudo aquilo que senti no passado retornasse. Tudo aquilo que suprimi por causa da minha obrigação. Havia decidido: após a minha viajem no fim do ano pediria sua mão em casamento.

Sequei calmamente o suor do rosto. Parecia estar terminado meu serviço. O cenário, obviamente estava uma bagunça. Levantei-me e pela primeira vez observei aquilo que minhas mãos trabalharam.

Ela sorria igual a uma criança. Nunca havia entrado num aeroporto. Eu estava fazendo o check-in enquanto ela, curiosamente, rolava seus orbes azuis pelo ambiente. Ri com a cena, chamei-a para adentrarmos no avião. Os picos nos chamavam. Finalmente cumpriria minha promessa juvenil.

Guardei minha ferramenta na cintura. Juntei o que seria necessário, colocando em cima de um pedaço de lona. Com dificuldade embrulhei, colocando em seguida sobre o ombro. Parei. Deveria primeiro limpar a sujeira ali presente.

Realmente, a visão de cima dos picos era estupenda. Ela colava as mãos e o nariz na janela do avião. Eu sorria enquanto lia um livro qualquer. No corredor a aeromoça trazia champanhe e canapés franceses. Minha mãe agradeceu, deliciando-se com os luxos que aquela viajem nos propiciava.

Os orbes azuis me perscrutavam durante a limpeza do ambiente. Algumas vezes eu encarava. Ela não dizia nada. Não sorria também. Suspirei, terminando o que havia começado.

Turbulência. Gritos. Terror. Queda.

Caminhava lentamente com a lona nas costas. Na fogueira eles me aguardavam. Encasacados e tremendo. Tremendo muito, muito mais do que o frio pedia.

A discussão havia sido acirrada. Todos haviam visto o clássico do cinema. Não tínhamos comida, contávamos com pouco material que garantisse nossa sobrevivência. Foi quando uma moça de seus vinte e poucos anos, em tom de pilhéria, soltou o comentário. Os homens apenas a olharam. Não demorou para ela entender a realidade.

Preparei os objetos e fui espetando lentamente a carne na ferramenta improvisada, todos me observavam em silêncio.

– E quem será capaz de executar essa barbárie – protestou uma senhora – E ainda, quem será capaz de alimentar-se de um ente querido?
Levantei-me. Todos me olharam.

A carne rolava na minha língua. O gosto da fumaça se fazia presente ali. Aos poucos comecei a mastigar, utilizando como força o peso de uma vida. Logo em seguida, os demais me seguiram.

Iríamos sobreviver.

Written by The Gunslinger in: Andrey Ximenez, Contos | Tags: , ,

20 Comments»

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    Baseado no filme Vivos?! =)

    Um bom conto! :)

  • Vitor Vitali says:

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    Uh, Trailer de filme, mano. Gostei :)

  • Jones says:

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    Muito bom Andrey, muito bom mesmo, o presente e o passado rolando ao mesmo tempo de um paragrafo a outro, cara fantastico!!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    É, realmente esses parágrafos em tempos diferentes fizeram um diferencial.

    Só uma coisa, a parte em itálico não ficou bem destacada. O que acham de eu colocar uma margem nos parágrafos em itálico?

  • Pedro Torres says:

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    BAM!
    caramba!
    muito bom!
    o ritmo está perfeito, o presente rolando emquanto as lembranças de uma vida passada ia indo…
    e no final com um canibalismo!
    poooorrraaaa!
    =)
    eu só achei até o finalq ue ele ia morrer e ia para o inferno.xD

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Mandei essa por twitter mas vou registrar a msg aqui! =)

    Pô galera, sem querer inflar o ego do site, ja como eu sou o anfitrião fica meio jabá! Mas isso aqui esta muito legal. Vários escritores, vários estilos diferentes, novos mundos sendo criados, novos métodos de contar a história… estão todos de parabéns!

  • Andrey Ximenez says:

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    o/

    Valeu galera!

    Fico feliz q tenham gostado. Essa idéia do malandro carnear a mãe foi meio macabra… não sei exatamente da onde veio, mas veio =D

    ^.^

    Agradeço os elogios ai…

    ^.^

  • Vinicius Machado says:

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    \o muito bom mesmo Andrey! como já tinha te dito pelo msn
    E estou avisando aqui para os demais que tem uma ironia no conto xD!
    Foi o Andrey que me alertou quanto a isso, se não nunca iria prestar atenção !xD

  • Vitor Vitali says:

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    Comer a mãe é feio cara, que coisa mais pervertida.

  • E.U Atmard says:

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    Muito bom o conto, adorei a ideia e o conceito. Mas comer a mãe? Eu não fazia isso…

  • Andrey Ximenez says:

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    Terrivel…. mas acontece neh!

    Akela q foi comida durante a vida pra garantir o sustento material, tb foi comida pra garantir o sustento fisico…

    O q será q era pior pra ele?

    ^.^

  • Jonesvg says:

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    Quando o Vinicios disse algo sobre ironias pensei nessa parte tambem, a mãe passou a vida, ou boa parte da vida sendo comida pra sustentar o filho e quando morre acaba sendo comida literalmente para que ele possa sobreviver e tem ainda a parte de que ela garantiu a vida dele de duas formas, uma no parto e outra quando sofreram o acidente, analisando assim perde um pouco do impacto o conto, mas ainda assim é um ótimo conto.

  • Andrey Ximenez says:

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    Perde um poko o impacto?
    Obviamente isso é uma sutileza, tanto q não frizei isso no conto…. mas ainda assim não entendo no q perde o impacto, qual era sua outra analise Jones?

  • Vinicius Machado says:

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    O que eu acho que o Jones quis dizer:
    é que olhando agora pelo lado irônico da coisa perde um pouco da Dramaticidade do conto.
    entende(pelé on xD)?

  • RenanMacSan says:

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    Gostei do conto. Lembrou o filme Vivos dos anos 90.
    -
    Só uma correção no conto: O curso de medicina é integral, ou seja, o máximo que ele conseguiria fazer seria trabalhar à noite. E mesmo assim seria bem difícil conseguir emprego depois de apenas 2 anos de curso. Medicina são 6 anos.
    -
    E além do mais, o cara conseguir passar em primeiro numa federal tendo esse background é quase impossível, só se a mãe fosse prostituta de luxo. Acredite.
    -
    Opinião de quem conhece, sou estudante de medicina de faculdade federal no rio.

  • Andrey Ximenez says:

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    Se é assim, sim vinicius =D

    Renan, a questão de Medicina, e ser tempo integral e td.. tem seu mérito o q vc falou… realmente n ão vivo desse mundo… o qnt ele passar na federal… bom tive um professor q n~çao queria fazer faculdade, havia apenas estudado num colegio razoavel e tal

    primeiro llugar na federal de poa… vai saber neh… assunto de alienigina não é comigo xD

  • Alexandre Antolini says:

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    Se a intenção era causar a sensação de “Uau, o ser humano é realmente uma merda” meus parabéns meu caro, bateu exatamente no ponto.
    Fora uma coisa ou outra que escapou, e eu sei que escapa, está bem escrito.
    Só um comentário extra: Quando vc usou a palavra orbe, para se referir aos olhos dela, eu gostei, achei original. Na segunda vez em que foi usado eu percebi que vc manteve a palavra para que o leitor soubesse de que olhos se tratavam, mas vc mesmo deve ter percebido que, caso lido com atenção, a repetição salta aos olhos.
    Português filho da puta, que não nos deixa brincar com a percepção sem paracer que estamos escrevendo errado, não é?

  • Andrey Ximenez says:

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    =D

    Q bom q saltou aos olhos, essa foi a intenção msm. =D

    Eu tomo um cuidado fdp com essas coisas de redundancia, mas achei q ali ficaria bem encaixado, assim como nos trechos
    ” Ela não sabia, mas…”

    ^.^

  • Jones says:

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    Ei Andrey, foi bem o que o Vinicios disse, olhando pelo lado irônico perdeu um pouco a dramaticidade, o que só ocorre depois de vc parar e pensar alguns minutos nos encaixes feitos durante o texto, ou seja para se dar conta disso o cara tem de ler umas três vezes ou ser indicado por alguem como ocorreu aqui. Sei lá, mas não liga não que as vezes é dificil entender minhas enrolações he he he he he

  • Gustavo Muraro says:

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    Andrey, o seu conto é muito bom! Mas, há um erro de ortografia no texto: “Havia decidido: após a minha viajem no fim do ano pediria sua mão em casamento.” e “Minha mãe agradeceu, deliciando-se com os luxos que aquela viajem nos propiciava.” O substantivo viagem é com G, mas o verbo viajar se escreve com J, muita atenção nos seus próximos contos ^^ De qualquer forma um simples erro não irá prejudicar um ótimo conto.

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