O Espelho de Água
Escritor: E.U Atmard

“Enquanto caminhava pelo vale das trevas, ele já não sentia medo. Enquanto caminhava pelo vale das trevas, ele já não sentia medo. Era um homem que amava o que era belo e sublime, um homem que mal sabia distinguir o bem do mal, mas que sabia distinguir o bom do mau. Era enfim, um homem atormentado com a necessidade de esquecer.
Ele sentou-se em frente da eterna tribuna, e olhou por um momento o juiz. Era um ser hediondo, desfigurado, mais velho que o tempo, e ainda assim o homem conseguia achar que até aquele juiz mal-encarado era muito mais digno de viver neste mundo do que ele. O juiz proferiu a sentença, mexendo os beiços grotescos, e acertando com o martelo, brutalmente no pedaço de madeira.. Conduziram-no para uma cela. Era pequena, apertada, tinha apenas uma divisão. E estava vazia, despojada de qualquer coisa. Estripada de cama, sanita, de chuveiro, de tudo. E o homem ainda assim dava graças, pois em nenhum sítio daquela maldita e putrefacta cela tinha algo que se reflectisse, e por isso não podia ver a sua cara. A sua cara, fonte de morte. A sua cara que o trouxera aqui. A sua cara, reflexão maldita de um espírito errado. A sua cara que dia após dia, noite após noite, que se fundiam com o tempo e o espaço e o levavam para muito longe, e num turbilhão o faziam fantasiar, essa cara que ele apenas desejava poder arrancar, com uma faca. Tinha até tudo planeado, começaria por cortar a parte de trás da cabeça, abaixo da nuca, e então arrancaria o escalpe, e com ele também a sua cara, até que tudo o que restasse fosse carne sangrenta e viva, e uma máscara de pele e gordura. Um nojo, essa máscara.
Infelizmente ele não tinha uma faca, nem nada que fosse minimamente cortante. Por isso enrolava-se sobre si mesmo. E imaginava-se, a voar, para tão longe…algo…onde pudesse ser feliz. Algo onde nem o passado nem o presente, nem o futuro viessem atrás dele, e onde ele podia simplesmente voar…para longe…lentamente perdeu tudo o que algum dia aprendera, esqueceu-se do mundo lá fora e a sua cela era uma floresta perdida. Esqueceu-se dos bens necessários, e a sua cela, um oceano perdido. Esqueceu-se de viver, e a sua cela era o mundo inteiro. Estava de novo perdido, absorto nos seus pensamentos confusos, quando certo dia um homem veio ter com ele, perguntando-lhe que pensava estar a fazer.
- Mas em que monstro é que te tornaste. Revela a tua face, sai ao mundo e mostra quem realmente és. Lidera esse bando de ignóbeis que não suporta ver as suas preciosas faces reveladas. Destaca-te da multidão. E aí serás perdoado.
Mas o homem, cujo nome com os anos esqueci, não fez nada disso. Ele simplesmente bateu na porta vezes suficientes para cair no chão, e num momento estava no mundo dos espíritos, sem cara, sem corpo, sem nada que os identificasse. Um mundo perfeito, pois não há discriminação. Era um mundo onde todos apreciavam apenas o belo e o sublime. Um mundo de luz invisível que rodeava todos os seres e os envolvia em pureza, calma, gratidão. Ele andou, não, voou, não, passou por onde quis, nesse mundo de perfeição. Conseguia sentir como toda a energia benéfica do mundo brilhante, o mundo dos que não vêem, apenas ouvem, não ouvem, apenas cheiram, não cheiram, apenas falam, não falam, apenas tocam, e não tocam, porque no fundo tudo o que se fazia era sentir, o mundo, as pessoas, as lojas, tudo, emanando uma força indescritível, saborosa. Algo tão extraordinário, que o mais clamoroso dos poetas não poderia retratar senão metade do que aquele mundo era.
Caminhou, anónimo. Esquecido por todos. Esquecido pelo mundo. Esquecido pelas lojas. Esquecido por tudo. Caminhava deslumbrado, tomado por um bafo de inspiração, um ímpeto indomável. E não queria parar, não queria parar de passar, por todos, pois no fundo desejava que alguém o reconhecesse. Queria de facto que algum homem reconhecesse a sua cara de alguma lado. Ironia. Tinha batido contra um porta de ferro de 30 centímetros de comprimento para evitar que isso acontecesse. E sentiu-se afogar, em desconhecimento, sentiu-se afogar no anonimato e no desconhecimento, na areia movediça que o engolia a cada passada, cada vez mais longas. Sentiu a areia tapar-lhe a boca enquanto via o mundo perfeito desaparecer perante os seus olhos, e conseguiu ouvir uma última vez a harmonia perfeita dos sons. Ainda conseguia cheirar aquela beleza…
Mas então caiu num vale de trevas, no mesmo vale de trevas em que estivera antes, e pelo qual caminhara. Não sentia medo. Sentia-se como se tivesse sido renascido. E conseguia ver, ouvir, como de costume, mas tinha agora um desejo que lhe tinha sido sempre, aparentemente, proibido. Ele sempre achara que o mundo devia ser apreciado em silêncio, e nunca na sua curta (longa? depende da perspectiva…) vida tinha proferida uma única palavra.
- O-o-olá. – Disse o jovem. A princípio tivera medo. Pensava que a sua voz podia ser demasiado grossa demasiado fina, mas no fim era apenas perfeita. Apenas o necessário para que as pessoas o ouvissem, e tinha de facto uma voz forte, sonante. Encorajado pela sua primeira experiência, continuou a falar com o guarda. – o-o senhor deve ser o guarda. E-e-eu sou o…
- Desembucha! – Gritou o guarda grosseiramente. – se pensas que vais sair, tira o cavalinho da chuva que ninguém sai daqui sem o anulamento da sentença pelo juiz…
Num reboliço de gritos e pancadaria, o homem viu-se a sair da cela, e correu, correu, para muito muito longe. Tão longe que até…
Então acordou. E naquele momento só conseguia pensar em chegar ao mundo, e gritar que eles estavam errados…”
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Tudo estava acontecendo dentro da cabeça dele. Foi uma boa continuação Atmard… meio triste talvez.
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Uma coisa, la no primeiro parágrafo, a frase “Enquanto caminhava pelo vale das trevas, ele já não sentia medo” é repetida, isso é propositado?!
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Para quem não conhece este que é o primeiro conto enviado ao ONE para publicação, cliquem na fatia de pizza ali do lado esquerdo
Eu repeti a frase propositadamente, e o facto de ele acordar não significa que seja tudo na cabeça dele. Uma parte do texto é, o outro não. E não sei, talvez isto siga para uma outra continuação, com uma espécie de afirmação política…não sei vou ter de pensar…
Eu entendi.. quando disse “tudo estava na cabeça dele” .. era o tudo .. dessa loucura final. Parece que ele estava delirando. =)
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E realmente tem espaço para continuação! Afinal ele teve uma epifania… tem que compartilhar com alguém!
Estou gostando do conto, mas terei que reler a primeira parte para lembrar de certos detalhes.
Continuou mt bem Atmard, aguardo a continuação ( se houver )
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o/
Legal, gostei das descrições. Tbm espero continuação