O Mistério do Livro – Parte 1
Escritor: Renan MacSan

Arthur havia sido chamado para o CTI com urgência, disseram algo sobre a polícia. Em qualquer outra ocasião ele fingiria que não tinha escutado e iria embora, o que já estava a caminho de fazer. Seu plantão terminara há 2 horas, mas teve que ficar para acompanhar o final da cirurgia de uma paciente. Estava exausto, 26 horas de trabalho sem descanso, fora o tempo acordado antes de entrar no hospital.
Mas a menção à polícia deu um tom de seriedade aquilo tudo. Especialmente depois do que havia acontecido com ele há poucos meses atrás. Ficara momentaneamente famoso por ajudar na resolução de um crime, mesmo sendo apenas um médico que acabara de se formar.
Ao chegar na ala foi recebido por um homem que não conhecia. Estava vestindo um jaleco descartável. Era alto e forte, de tom sisudo, ar italiano, assim ele julgou. Sua expressão era de tal forma que transmitia uma mensagem: Não estou para brincadeira.
- Dr. Arthur?
- Sim, pois não.
- Sou o inspetor Paolo. O seu amigo, Dr. Alves disse que o senhor poderia me ajudar num certo assunto.
- Diga.
- Primeiro gostaria de dizer que não gosto do senhor e que de forma alguma apreciei sua interrupção na nossa investigação no passado. Na verdade nem o chamaria aqui se não fosse pela insistência dos seus colegas. – Adotou um ar mais sério ainda, se é que isso era possível – No quarto número 5 está internada uma pessoa que está seriamente implicada em um caso de roubo seguido de morte de três pessoas.
- E o que eu teria a ver com isso?
- Arthur! – disse um médico que se aproximara – Vejo que já conheceu o inspetor. Bom, vou ser sucinto. Homem desconhecido, no leito 5, sofreu uma PAF (Perfuração por Arma de Fogo) no crânio, por sorte não atingiu muitas estruturas. Já passou pela cirurgia e agora está estável. Acontece que sua cognição foi alterada. Desenvolveu um quadro em que acredita estar em um dos livros que ele leu. Já tentamos algumas coisas, mas nada deu resultado.
- Não é só isso – disse o inspetor – Ele é o único sobrevivente do que parece ser um assalto à mão armada. Precisamos que ele nos dê alguma dica para ajudar na investigação. Ao que tudo indica estava acontecendo um assalto a um sebo no centro da cidade, escutaram o tumulto do lado de fora, esse homem resolveu entrar, ficou cinco minutos lá dentro e então houve três disparos. A polícia chegou e encontrou três mortos e esse ferido.
- Arthur, você é o mais indicado de todo o hospital para ajudar. – disse
o médico – E eu não estou falando do seu conhecimento profissional.
De fato, Arthur era conhecido no hospital desde os tempos da faculdade por estar lendo na maior parte do tempo. Em qualquer brecha de tempo que houvesse ele tirava um livro da mochila e lia, alguns funcionários periodicamente pediam para que ele indicasse livros. Era o exímio leitor. Rato de biblioteca, diziam alguns.
- Você tem que se comunicar com ele – continuou Dr. Alves – Acredito que seja o único a conseguir fazer isso.
Mesmo sem ainda compreender totalmente o que era esperado dele, foi levado ao leito onde encontrou o homem com uma grande bandagem na cabeça e olhar meio sonolento. O inspetor ficou esperando do lado de fora, mas observando pela cortina entreaberta. Meio sem jeito, pegou o prontuário e começou a ler: Desconhecido, entre 30-40 anos, estado geral diminuído, acianótico, anictérico, afebril ao toque, hidratado, hipocorado (1+/4+)…
- O que o senhor está fazendo aqui? – disse o moribundo
- Bom dia! Sou o Dr. Arthur e vim ver com está o senhor.
- Arthur? Ha! Por acaso essa é mais uma das suas identidades Jekyll?
Jekyll? Agora ele entende, eles não estavam mentindo. O Médico e o Monstro.
- Não senhor, meu nome é mesmo Arthur, veja aqui o meu jaleco. Gostaria de saber como se chama.
- Você vai ser preso homem! Aquela criatura Hyde não pode ficar à solta.
- Senhor, como se chama? – ele falou ainda atônito.
- Ora! Sou Lanyon, não finja que não me conhece.
E agora, o que ele deveria fazer? Resolveu entrar no jogo.
- Dr. Lanyon, o senhor estava em uma livraria há algum tempo atrás
quando houve um assalto?
Ele pensou por algum tempo… – Acho que sim.
O inspetor do lado de fora do leito se remexeu, será que iria conseguir algo?
- E o que o senhor viu ao chegar lá?
Nesse momento entrou uma enfermeira interrompendo a conversa. Elas adoram atrapalhar os médicos. Paolo quase entrou para dar um soco nela.
Ela foi trocar o soro, mas quis fazer tão rápido que acabou derramando um pouco sobre o braço dele, pegou uma toalha que estava sobre a mesa e começou a secar. A expressão do desconhecido mudou totalmente. Arthur continuou:
- O senhor sabe a resposta para a minha pergunta?
- Sim, 42.
Ah, não.
Não demorou muito para que percebesse que ele mudava o livro de acordo com o que aparecesse. Mas seus esforços foram adiados para o dia seguinte. Não conseguiu convencer o desconhecido de que ele não era Zaphod Beeblebrox e que aquela bandagem na cabeça não fora uma cruel remoção da sua segunda cabeça. Por isso tiveram de anestesiá-lo.
No dia seguinte ele iria preparado.
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Gostei da história, uma pessoa que é um personagem de livro. Criativo, pelo que lembro nunca vi esse enredo. =)
–
Eee… agora que vi, você ja enviou a segunda parte
–
A noite agendo ela! =)
Muito bem escrito e criativo, gostei.
Parece início de seriado heh.
Mas uma coisa você vai ter que explicar:
Como diabos vc conhece tantos termos médicos e tantos procedimentos? Tú é aluno de medicina??? Namora uma clínica geral???
Hehe
Abraços
Eu me perguntei a mesma coisa, minha conclusão foi “Seriados de Medicina” … hehehe.
–
Mas é uma boa pergunta. =)
Ta ai!
Comentou no meu conto e agora deu a cara a tapa Doutor, =D
Gostei… concordo com o Guns, não me lembro de ter lido nada parecido! ^.^
Esse conto eu publiquei há algum tempo num jornal da faculdade, o pessoal gostou.
Mas tive que adaptar pra ficar menor e caber em duas partes aqui no blog, não queria que ficasse muito dividido.
Conheço os termos porque como comentei antes com o Andrey faço faculdade de medicina aqui no rio.
-
Esperem a Parte II porque fica bem melhor.
Guns, só umas coisas, onde está escrito duas vezes “Jekyll?” há um parágrafo entre elas:
“…suas identidades Jekyll?
Jekyll? Agora ele entende…”
acho que pode prejudicar a compreensão se deixar assim.
E onde está escrito “toalha” vê se dá pra sublinhar, é o mote pra entender o porque da troca do livro.
Alterado. Da uma olhada para ver como esta agora. =o
Perfeito, valeu.
Acho que essa é a primeira vez que leio um conto médico, e o melhor, com um plot maneiro. Estou ansioso pelo resto 8D
Uma excelente narrativa, o enredo está perfeito, estou louco para ler o resto e espero que ainda tenha várias intrigas, mistérios e suspense. Parabéns pelo seu notável conto!
@Gustavo Não dá pra ter várias intrigas, mistérios e suspense porque é só um conto, então tive que ser bem sucinto. Mas daria pra desenvolver um livro bem se fosse o caso.
Puxa, gostei pra caramba! Quando já estava viajando com a história percebi que estava no fim da primeira parte ¬¬’
Gosto de literaturas que envolvam medicina e psicologia =D
Achei bem interessante, mas para que faça completo sentido, eu precisaria de previamente ter lido os livros que são colocados na história.
Como assim “eu precisaria de previamente ter lido os livros que são colocados na história”?!?
–
não ter lido O Médico e O Monstro, ja é estranho.. mas passa. Agora. não ter lido O Guia do Mochileiro das Galáxias!! Isso é um pecado mortal para um nerd… vc é mesmo um nerd!
–
hehehe… =)