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(15) Orcs [poesia]

Publicado por The Gunslinger

– que publicou 1572 textos no ONE.

Ocupação: Analista de Sistemas de Colaboração, Escritor, Blogueiro.

Grupo a que é filiado: O Nerd Escritor, Blog do Gunslinger.

Base de operações: Corupá, SC – Brasil.

Interesses: Literatura, Cervejeiro, Internet, Teoria Computacional da Mente, Tiro com Arco e Futebol Americano.

Autor(es) Influênte(s): Stephen King, Bernard Cornwell, J.R.R. Tolkien, Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Paulo Coelho.

Livros que recomendo: A Torre Negra (Stephen King), Crônicas Saxônicas (Bernad Cornwell), Crônica do Matador do Rei (Patrick Rothfuss), O Silmarillion (J.R.R. Tolkien), Lugar Nenhum (Neil Gaiman), O Diário de um Mago (Paulo Coelho).

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Nov
03
2009

Brumas de Sangue – Capítulo I

Escritora: Tabata Scorpioni

brumas-de-sangue

Canto sobre uma vida passada

In a world far away
We may meet again
But now hear my song
About the dawm of the night…

Exaustão. Não conseguia sentir nada além disso, não conseguia continuar. Minha Deusa, por que diabos estavam guerreando? Liberdade? Engraçado, dizia-se que lutavam por liberdade, livre-arbítrio, mas eu, particularmente, nunca o havia visto, sentido ou degustado, se for uma sobremesa. Tudo isso era ganância, ambição, cobiça. A ruína do homem…

Fui arrancado de meus devaneios. Seria mais algum Albion¹ querendo morrer? Virei-me lentamente, olhos e punhos cerrados de ódio. Estava pronto para matar, ou morrer. A Excalibur que foi confiada a mim, cortaria fora a cabeça de meu inimigo. A Espada Sagrada foi de encontro com o pescoço do infeliz. Estava quase… Parei. O homem de cabelos amarelos e olhos azuis engoliu em seco. Gawain.

– Perdoe-me, Gawain, pensei ser mais um Albion. – Apoiei minha mão em seu ombro e abaixei a cabeça, estava acabado. Senti o vento bater nos meus cabelos negros e molhados de suor, levando toda minha honra e auto-estima para Poseidon. Somente naquele momento, percebi que havia um corte bastante profundo em minha perna. Doía e o sangue jorrava.

– Está tudo bem, meu senhor. – Gawain estava com um olho enfaixado. Passei meu braço por cima de seu ombro e ele me ajudou a andar. – A guerra acabou. Nós vencemos.

Larguei-me na primeira pedra que vi. Aquela perna doía demais, Gawain fez um torniquete para tentar estancar o sangramento, o que não funcionou muito. Ordenei aos outros Cavaleiros que recolhessem os mortos e feridos. Sentado olhando o céu de do Dia que cedia seu lugar a Noite, eu sorria.

– Não, Gawain, nós perdemos. – Ele me encarou assustado como se dissesse: “Esse homem é louco? De que diabos está falando?”. Alarguei mais o sorriso ignorando o olhar espantado do rapaz. – Não há vitória na morte, e há muitas. Eles perderam a guerra, mas nós perdemos uma coisa muito mais valiosa: nossa honra.

– Mas o Reino está salvo. Esse era o objetivo e o que importava. – Ainda me encarava espantado.

– Para quê serve um Reino, terra, água se não podemos usufruir destes? Diga-me, Gawain, meu amigo, você escolheu o seu destino? Você acredita que seu destino é traçar o caminho de sua vida de mãos dadas com a sua morte?

Vi a dúvida brilhar em seus olhos. Ele não sabia me responder. No fundo, ele sabia que tudo que eu disse é verdade. Nós, Cavaleiros da Távola Redonda, tínhamos uma vida de cão. Não, um cão vivia melhor. Nascer livre e ter que servir a uma civilização de mercenários que acima de tudo, tirou-nos a liberdade que um dia havíamos provado e aprovado. Não estou criticando o Rei Uther, de maneira alguma. Ele foi bondoso e justo, e nos respeitou. Entendeu-nos. Afinal, ele também já foi um Cavaleiro como nós. E se está onde está hoje… Fui privado de meus devaneios, de novo. Dessa vez não o tentei matar. Apenas me limitei a olhar para trás e perceber que era Merlin.

– Meu senhor, precisamos ir. Por mais que os Albions tenham desistido e recuado, ainda podem voltar. É perigoso aqui. – Enquanto falava, olhou de esguio para os lados e sua mão apertou mais meu ombro. Ou ia com o pelotão ou tinha um ombro deslocado. O pelotão me pareceu uma melhor opção no momento.

– Tudo bem, Merlin.

– Gawain, vá buscar o cavalo do Comandante. – Gawain e Merlin. Os dois nunca se deram bem.

– Como quiser, “senhor”. – Fez questão de enfatizar o “senhor”. Merlin cerrou os punhos e os olhos, rangeu os dentes. Não consegui evitar o riso. Ele sempre foi um ótimo guerreiro e experiente, mas parece uma criança que cresceu demais. – Com licença, meu senhor.

Fez-me uma breve reverência e saiu. Merlin o seguia com o olhar como se esperasse que o rapaz fizesse algo errado, para que assim, pudesse repreendê-lo. Mas para a sua infelicidade, isso não aconteceu. O que o deixou ainda mais irritado. Ri. Ele percebeu e ficou envergonhado por sua infantilidade. Pelo menos, o percebeu.

Enquanto isso, Gawain vinha com Nerilz, meu cavalo. Negro como a noite, com a crina e a cauda lisa e solta ao vento. Ganhei-o, ou melhor, conquistei-o quando ainda era pequeno. Um cavalo selvagem para uma criança de onze anos. Porém, eu já não era mais um recém-nascido em Camelot, já era quase um total Cavaleiro. O mais experiente. O primeiro Cavaleiro da Távola Redonda.

Como o conquistei, vocês perguntam. Contarei, pois foi rápido, contudo, me exigiu uma grande quantidade de energia.

XXX

Flashback.

“Havia barulho, gritos, urros e sussurros. E claro, havia gente. Muita gente. Uma inteira multidão sentada numa arquibancada improvisada de madeira e que a cada passo dado em cima desta, parecia que iria desabar, o que fazia todos gelarem.

Seria uma bela queda.

Os meninos ao meu lado riram ao ver um homem extremamente gordo se espremer para sentar em um dos bancos, ao lado de duas menininhas ainda mais espremidas por seu excesso de gordura. Ele tinha seios, e dos grandes.

Rimos.

Riso que não durou muito tempo. Havia chegado a hora. A hora de se tornar homem perante tudo e todos. Ter responsabilidades, mas o melhor era: poder ir a festas e se embebedar.

Dou-lhe um de meus braços se não for isso que meus amigos estavam pensando. Muitas festas, muito vinho, muita cerveja, muita comida e conseqüentemente, muitas mulheres.

Não víamos a hora para que tal dia chegasse.

Pois chegou.

E agora nenhum de nós queria se levantar do banco.

Finalmente havíamos entendido. ‘Não há como voltar’, pensamos. E não havia. Nesse dia, nessa hora, nesse minuto. Não. Não nos tornaríamos apenas homens e sim cavaleiros. Cavaleiros que irão brandir suas espadas, e tirar vidas.

Nesse dia, nessa hora, nesse minuto. Veríamos nossos irmãos sucumbir em sangue. Veríamos o sofrimento daqueles que perdem seus amados. Veríamos o mundo em apenas duas cores: vermelho e preto.

Dever.

‘Sim’. Mas nosso coração gritava ‘Não’.

Honra.

O Forte Mão-de-Machado soou suas trombetas. Aquele era o sinal.

Medo.

Estávamos sendo chamados para a glória. E foi com esse pensamento, essa esperança que levantamos e paramos no meio da arena.

‘Seremos imortais’.

Já somos.

Nossa vida nunca mais foi a mesma, claro. Muito treinamento, muita luta, muitos hematomas e muitos tombos também.

Todo cavaleiros precisa de um cavalo, certo? Certo se tiver pensado: ‘Mas não um simples cavalo.’ Eram nossos cavalos que diziam quem éramos, nossa posição social, nosso posto.

E eu, bem, estava destinado a possuí-lo.

Aquele lá. Aquele bem ali. Que me encarava, que fugia das mãos do domador. Que se empinava e dava coices quando alguém o tentava montar. Que tinha olhos negros assassinos de almas. Aquele.

Selvagem. Malvado. Indomável.

Como um dia eu fui. Talvez seja por isso que nossos destinos se cruzaram. Ou talvez, ele apenas gostou de meus olhos e cabelos tão negros quanto os seus. Éramos irmãos, um entendia o outro.

Aproximei-me do ‘Arisco’, como o chamavam. Esse nome não era digno de tal corcel. Não aquele, não o meu corcel.

Ele me encarava, ele sabia. Sabia que seria eu a domá-lo e que estaríamos juntos a todo o momento.
Riram de mim. Gargalharam. ‘Ele não vai conseguir’, disseram entre dentes.

‘E se conseguir, o que ganho?’, olhei desafiadoramente o domador que riu mais uma vez, convicto de sua sabedoria. ‘É seu. Dou-lhe de presente, não precisará me pagar um tostão’, estava tão certo de seu trunfo, pobre alma.

E eu respondi: ‘Feito’.

(Mais tarde daquele mesmo dia, ele tentaria me esganar.)

Comecei minha jornada em sua direção. Os olhos. Olhos cheios de ódio e mágoa que deixavam a qualquer um nervoso. E eu não fui uma exceção.

Meu coração batia tão forte e acelerado que pude ouvi-lo a alto e bom som. Minhas mãos tremiam e o suor molhava minha testa e pescoço. A camisa verde escura e de mangas compridas que usava estava encharcada, havia um mar ali.

Já podia ouvir sua respiração pesada, conseguia cheirá-lo, também suava.

A minha idéia seguinte não foi das melhores. Eu ultrapassei os limites: dei um passo à sua frente.

No próximo segundo estava no chão, com os olhos cobertos pela sombra daquele espírito selvagem e imponente. Meu peito doía. No outro dia, duas marcas de ferraduras poderiam ser encontradas cravadas naquele local.

Riram de novo. ‘Esqueça, menino’. O problema era: não havia menino, havia um homem.

Mas aconteceu algo para a surpresa do tal ‘Arisco’.

‘Não. Ele vai ser meu.’

Eu não desistiria. Não desistiria até ele se render a mim. ‘É meu. É meu. É meu. É meu’. Meu cérebro entoava esse mantra com tamanha intensidade digna de um monge.

Com o Sol do meio-dia rachando meus ombros e com as mãos no peito, levantei-me e retomei minha jornada. Dessa vez, ele não escaparia. Pois se ele queria ser maldoso, eu seria três vezes mais. E eu fui.
O tempo parou. A Terra parou. O Sol parou. Os deuses pararam. O Tempo estacionou o universo e deu-nos a sua ampulheta. Não havia pressa. Afinal, a pressa é inimiga da perfeição. Seria perfeito. Todos se lembrariam.

Apontariam-me nas ruas dizendo: ‘É aquele menino cavaleiro que domou o cavalo selvagem’.

Estiquei meu braço em direção de sua crina, ele deu alguns passos para trás, porém eu não recuei. Ele não tinha mais para onde ir. Parou, mas continuou se movendo. Inquieto, como eu estava.

‘É meu. É meu. É meu. É meu.’

‘Será meu. Será meu. Será meu. Será meu.’

Alisava sua brilhante e negra crina. Tão negra quanto meus próprios cabelos. Almas tão singulares e parecidas. Oh sim, Arisco, somos parecidos. E seremos companheiros, pode apostar.

Ele estava se entregando. Finalmente, havia entendido que não havia como lutar. Será meu. Será meu.

Continuo minha pequena e importante jornada. Arisco não reclama quando enrolo meus dedos em sua crina e dou o impulso para montá-lo. Perfeito. Certo. Isso é certo.

Silêncio. Todos se calaram. Onde está aquele riso, aquele sorriso sádico e prepotente, domador? Onde está? Não pensaram que eu chegaria tão longe, não é?

Agora é a hora.

‘Calma, calma. Está tudo bem.’ Eu disse a ele, enquanto olhava para os que zombaram de mim e dava um sorriso cínico. ‘Iá!’ Ele disparou e por um único momento eu achei que ia cair e morrer pisoteado. Mas o destino é lindo. E ele nos uniu.

Não perderia essa chance.

Ele continua a galopar, galopar, galopar… E quando chega a Torre Vigia de Asgaloth, agarro sua crina e faço-o contorná-la, de volta a arena.

E ele corre. E eu vôo.

Quando para, ambos estamos ofegante, Arisco pela corrida e eu pela emoção.

‘E então, domador? A proposta ainda está de pé?’ E ri.

Mais tarde do mesmo dia, eu me arrependi de ter rido, pois a surra que o homem irado me deu ficou marcada nas minhas costas e na história.”

XXX

Monto em meu cavalo e sigo na frente do pelotão, rumando à cidade. Não havia muitos rostos felizes por ali. Como havia dito a Gawain, não há vitória na morte e na perda da honra.

Depois de doze horas cavalgando, finalmente, chegamos a Camelot. Amanhece. O povo nos recebe com alegria, mas alguns choram e se desesperam ao perceber que seus entes queridos estão mortos. Viúvas e freiras jogam flores pelo chão. Estas são pisoteadas por nossos cavalos. E o Rei nos espera no alto da cidade, que foi construída em volta de uma montanha rochosa, Amnril.

Ele tem um sorriso estampado no rosto, mas seus olhos transparecem tristeza. Já sabia da perda de seu filho mais novo, Karadoc. A princesa Morgause chora compulsivamente nos braços de Guinevere, a governanta do Palácio. Não se conformava que seu irmãozinho havia morrido. Ao me ver, lança-me um olhar reprovador e desapontado. Ora, a culpa não é minha. Não posso protegê-lo no meio de uma guerra.

– Não ligue para ela, meu senhor. – Quem falava era Isolda, sobrinha do Rei, enquanto desço de Nerilz e subo mancando as escadarias. Sorri para ela, é um doce de menina.

Pessoas me olhavam com admiração, crianças principalmente. Como se eu fosse o real Rei. Pobres coitados. Não sabem desta história metade. Não sabem do que se passa no coração de uma pessoa que já matou. Não sabem o que o destino nos reserva. Mas essa é outra história. Vamos continuar com essa…
O Rei me abraça e me beija. Exibe-me para o público como se fosse um monumento histórico. O pior de tudo isso é que eu gosto. Sempre fui muito bem tratado nesse Reino, amigo das pessoas, querido por elas.

Mas essa não é a minha terra. A minha casa. Onde estão as montanhas no horizonte? Onde está o céu sem fronteiras? Onde está aquela vasta extensão de verde, sem fim? Onde está a liberdade de andar pelas terras sozinho, sem preocupações? Onde estão os cavalos selvagens? Os pássaros do amanhecer?

É o que perguntam.

Uma meia vida que passou. Não volta mais. Já era, Comandante. Tenho minhas obrigações em Camelot, não posso fugir delas. Fiz um juramento e vou cumpri-lo, defendê-lo mesmo que custe a minha miserável vida. Oh, levem-me daqui!

– Pensando em nossa terra, meu amigo? – Meu único e verdadeiro amigo se juntou a mim em minha pequena taciturnidade na sacada da Sala Mestra. Enquanto todos os outros bebiam e comemoravam, eu observava as estrelas. Silêncio. Não o respondi. Não precisava. – Ficar remoendo o passado só o faz sofrer mais. Você, mais que todos os outros, deveria saber disso.

– Eu sei, Lancelot. Mas não é assim tão simples. Vai me dizer que não pensa em nossa terra?

– Claro que penso. Mas não a desejo e idealizo como você. Isso torna tudo menos… doloroso.

– Quer me ensinar a fazer isso? – Rimos. Com toda essa guerra maldita, fazia muito tempo que não falava com Lancelot. Meu mais fiel amigo. Sempre me protegendo, aconselhando, ajudando. Quase irmãos. Não que eu queira roubar o lugar de Galahad. Jamais.

Ficamos olhando as estrelas. Debruçados na sacada, um ao lado do outro. Minha amizade com Lancelot não precisava de palavras. Nossas auras se entendiam silenciosamente. É como se elas abandonassem nossos corpos, sentassem-se em roda e conversassem. Maravilhoso.

E as estrelas. Oh, as estrelas. Essas coisas minúsculas num manto de ébano. Tão pequenas, mas tão significantes para nós. Astros, constelações, signos. Sempre fui um amante das estrelas. Fico maravilhado com seu brilho, sua luz. Quando morrer, gostaria de ser uma estrela lá em cima.

– Eu não sinto tanta falta da Arcádia. Quando vim para cá, para me tornar um Cavaleiro, já havia visto muito de nossa terra. E você, meu amigo, chegou aqui muito antes de todos nós. Posso ser o mais velho em idade, mas você é o mais velho em batalhas. – Deu-me tapinhas nos ombros, uma forma de consolo, talvez. Pare, meu amigo. – Talvez seja pelo fato de ter visto tão pouco de casa, que você sinta tanta vontade de voltar.

Não havia uma mentira sequer em tudo que Lancelot disse. Tentava negar a mim mesmo. Cheguei aqui com quatro anos de idade. Quatro anos. Um bebê aprendendo a tirar vidas alheias. Crueldade pura.

A Arcádia, nossa terra natal, nem sempre foi como descrevi a cima. Quando os bárbaros chegaram, devastaram toda a região. Matas. Campos. Vilas. Tudo foi destruído. E todos foram mortos. Eu não vi nada disso. Os bretãos já haviam me trazido para Camelot, para ser Cavaleiro. Talvez, apenas um sutil talvez, tenha sido bom eu ter saído de minha casa tão antes. Não a vi ser destruída.

– É, Lancelot… Talvez seja isso mesmo. – Dei um grande gole no vinho. E baixei a cabeça. Sentia vontade de sumir. Angústia. Vergonha. Por mais que lutar seja a única coisa que faço, e que por sinal faço bem, não é nada bom ver um corpo se esvaziar pela sua espada. Mortificante. – Seja lá o que for, amigo, passou. Não volta. Minha casa agora é Camelot, ou pelo menos, eu quero que seja.

– Agora só precisa arranjar uma mulher!

– Melhor nem começar, Lancelot. Você sabe que…

– Sim, eu sei. Mulheres só servem para complicar as coisas. Mas e daí? Às vezes, complicações sexuais deixam a vida um pouco mais interessante. – Lancelot, Lancelot. Sempre o mesmo mulherengo. Nunca muda. – Vamos lá, Comandante! Não precisa casar. Casar é mal. Apenas se divirta um pouco.

– Você não tem jeito mesmo, Lancelot.

– Ora, não há mal nenhum nisso! Há menos que goste do mesmo sexo, como aqueles dois. – Ele apontava para um casal homossexual. Natural. E eu conhecia aqueles dois. Eram Guardas Reais. – Mas isso já é uma opção sua. Se preferir um homem, eu lhe arranjo um.

Tive que rir. E rir muito. Balancei a cabeça negativamente e Lancelot fez sinal para voltarmos ao Salão. A festa rolava solta. Casais, heteros ou não, se atracando. Bêbados caindo. Cantando. Dançando. Divertindo-se.

Enquanto nos dirigíamos ao centro, companheiros me cumprimentaram, abraçavam, beijavam. Alguns até me ofereceram suas esposas (ou maridos). “Você merece, meu Comandante”. Era o que diziam. Será que realmente mereço?

O centro do Salão estava repleto de comida e bebida. E pessoas também. E no centro dele, a nossa mesa. A Távola Redonda. Onde todos os vinte e dois Cavaleiros de Camelot se sentavam e discutiam notícias, idéias, estratégias ou apenas conversavam e bebiam. Igual para igual, homem para homem. Era assim que o Rei Uther nos tratava. Sem descrições ou privilégios.

Todos os vinte e dois se encontravam sentados em volta da Távola. Menos eu e Lancelot, claro. No momento que me aproximei, levantaram e me saudaram.

– TRÊS HIPS PARA O COMANDANTE! – Todos gritaram três vezes “Hip! Hip! Hurra!”. Até mesmo o Rei. Porém, uma voz se sobressaltou as outras: Bors.

– RUS! – Todos que estavam em volta o seguiram. Segurando suas espadas no alto. Para mim. Por mim. Encaminhei-me até minha cadeira. A décima para a esquerda do Rei. Lancelot ao meu lado esquerdo e Galahad a minha direita. Cada cadeira tinha o nome de um Cavaleiro gravado, apenas este poderia se sentar nela.

– Cavaleiros… – Em pé, fiz sinal para que se sentassem. O que fizeram prontamente. – Companheiros. Irmãos de arma. É sempre uma honra estar entre vocês de novo. O que lhes asseguro que ainda acontecerá várias e várias vezes. Não, senhores, não será fácil se livrarem de mim. – Riram. A música tinha cessado, todos prestavam atenção em mim. – Brindemos. E bebamos. Bebamos aos nossos honrados mortos, que deram suas vidas as nossas. A nossa casa. Mas não vamos comemorar a morte hoje. Vamos comemorar a vida. A vida de nossa gente. A vida, senhores!

A taça de vinho que estava erguida em minhas mãos se esvaziou em poucos segundos, em um só fôlego. Todos repetiram o gesto. Um gesto de respeito aos que morreram e de futuro respeito aos que morrerão. Coisas de cavaleiros.

A música voltou a tocar, e os bêbados voltaram a rir das paredes. Finalmente, sentei-me. Os Cavaleiros bebiam, riam, conversavam, mexiam com mulheres ou homens. Todos estavam felizes. Lancelot se atracava com uma morena sentada em seu colo. Dagonet e Niniane lutavam para ver quem cedia primeiro. Afrodite atacava uma loira. E assim por diante. Uma verdadeira zona.

Eu continuei sozinho. Na minha. Apenas observava as pessoas. Suas ações, gestos, feições. Não que as julgasse, de maneira alguma. Apenas as apreciava. O homem é um bicho estranho, e engraçado.

Sorri. Fechei os olhos. Recostei-me na cadeira. E por um momento, pensei ter dormido. Viajei para outro mundo. Meu próprio mundo. Verde e azul. Um mundo de calma e tranqüilidade. Com palmeiras, sabiás, riachos. Onde qualquer homem seria feliz.

Paz.

É claro que não preciso viajar para outra dimensão para encontrar paz. Ela está em todos os lugares. Em todos os simples segundos de felicidade, amizade, amor. Está bem a nossa frente. Só nos basta enxergá-la e pegá-la. Cuidar dela e a preservar, para que não se vá com o tempo.

Ela é como uma roseira. É preciso cultivá-la com carinho, cuidado e dedicação. Precisa amá-la. Com todas as suas forças, porque se não o fizer, ela nunca lhe renderá flor alguma.

Silêncio.

Eu havia realmente viajado para um lugar mágico, estava louco ou o Salão realmente estava quieto?

Abri os olhos. E infelizmente, o Salão realmente estava quieto. As pessoas se calaram, os músicos pararam e os dançarinos congelaram. E todas as pessoas, inclusive o Rei, olhavam todos para um único lugar.

Levantei-me e virei para a porta. E lá estava.

Minha Deusa.

Não aquele homem. Não ele. Não ele que me tirou de casa. Não ele que fez da infância que não tive, adolescência e treinamento um verdadeiro pandemônio. Não ele, por favor, não ele.

Por que cruzar nossos caminhos mais uma vez? Não esperava vê-lo de novo, nunca. Maldito. Aliás, esperava sim vê-lo de novo, mas quando isso acontecesse ambos estaríamos mortos, no inferno, e lá, seríamos apenas duas almas perdidas, sem hierarquia, e aí sim, ele teria o que merece. Ah, e como teria.

Eu sinceramente, não acreditava no que meus olhos me mostravam.

– O que faz aqui, Mabinog? Pensei que havíamos deixado bem claro que você não é bem vindo em Camelot.
– Disparou o Rei, sem meias-palavras ou meios-modos. Ah, como eu amava e temia esse Rei.

Um sorriso totalmente irônico e sádico brotou em seu rosto marcado pelos anos e guerras. Um rosto horrível. De um homem que perdeu sua alma.

Eu sinto pena.

– Ora, querido Rei Uther, todos aqui sabem muito bem que estas terras não lhe pertencem. São terras livres. E eu, como um Homem Livre, instituído por seu pai, tenho todo direito de vagar como bem quiser. Não concorda, caro “amigo”?

– Como ousa, seu crápula? Dirigir-se ao Rei com tanta falta de respeito e cordialidade? – Eu sabia que aconteceria. Ivain não suportaria sua presença. – Você pode ser bretão ou albion ou o próprio diabo, ainda deve respeito ao Rei! Ele ainda é seu superior! – Bateu seus punhos na mesa com tanta força que mais da metade de taças e pratos caíram.

Estava começando.

A verdadeira guerra estava prestes a começar.

– Ivain, acalme-se, por favor. Não vale a pena perder a cabeça. – Pediu Ector, enquanto segurava um Ivain extremamente irado, que queria partir pra cima de Mabinog. – Não por ele.

– Ivain de Lyon, controle-se, homem! – Kay berrou na cara do cavaleiro enquanto segurava seu rosto e o olhava nos olhos. E ele parou. Kay sempre foi o único que conseguia lhe acalmar. Sempre e somente Kay.

– Não muda nunca. Sempre nervosinho, não é… – Mabinog ia provocar, mas não conseguiu.

– Diga logo o que quer, Mabinog, e depois vá embora.

– Admirável Rei, já que não sou bem-vindo, vou dizer logo. Mas antes devo lembrar-lhes que esta atitude não passará despercebida…

– Mabinog, eu falo sério. Sem embolações. Diga o quer e depois nos deixe, é uma ordem. E não ouse desobedecê-la. Pois estou certo de que meus cavaleiros não hesitarão em executá-la por você.

– Sem a menor sombra de dúvidas e com muito prazer, meu Rei. – Soltou Mordred com olhos sombrios e um meio-sorriso cínico, sem pudor algum.

– Muito bem, então. – O sorriso havia sumido. O que havia agora era uma carranca, e das feias. Odiava ser contrariado. Ótimo. – O Primeiro Albion tem uma mensagem para vocês.

Coisa boa não podia ser.

E não era.

(Continua…)

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Notas da Autora:
¹ Albions eram os habitantes nativos da Grã-Bretanha antes dos romanos chegarem à ilha. Aqui, eles são os habitantes que lutam contra o Reino Bretão ou qualquer outro.

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Eu gostaria de dedicar esse romance à Célia Scorpioni, minha mãe, e a pessoa que mais me incentivou e me aturou falando sobre a história, obrigada. Ao Danilo T. C. Araújo, que criticou, ajudou, fuçou, mudou e betou o capítulo, mesmo não entendendo exatamente nada sobre os Cavaleiros, obrigada. E também ao Filipe Filgueiras por… bem, por nada a não ser por ter gostado e elogiado, obrigada.

Thabata Scorpioni.

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Começado em: 20/06/09
Terminado em:29/07/09


Categorias: Brumas de Sangue,Contos | Tags: ,

9 Comments»

  • O texto que a Tabata me enviou parece ser uma obra bem completa, bem estruturada. Não tive tempo de ler tudo ainda!! Mais tarde volto aqui, o texto merece ser lido simplesmente pela boa estruturação. =)

  • Alexandre Antolini says:

    “Tomorrow will take us away
    Far from home
    No one will ever know our names
    But the Bard’s Songs will remain”

  • Começou bem, mas só vou conseguir terminar depois 🙂

  • vinicius machado says:

    Shaman!
    (é isso né alexandre?)

    Vou ler quando chegar em casa!

  • Putz.. era Bard’s Song la em cima. hehehe. nem reparei. Não é Shaman Vinicius, é Blind Guardian. =)

  • Jones says:

    Blind Guardian Rulez, cara a Tabata tem talento mesmo, gostei muito deste conto, sou consumidor de quase tudo que envolva as lendas Arturianas he he he he

  • Thabata Scorpioni says:

    Hahahaha, próximo capítulo tá saindo do forno e também tem música no começo.
    Obrigada Jones.
    Também sou mega gulosa em relação às Lendas Arturianas. 🙂

  • Vinicius Machado says:

    putz é verdade xD
    e ta escrito ai em baixo ainda:
    “Bard’s Songs will remain”
    XD
    mas de blind a musica que eu mais gosto é:
    A Past And Future Secret
    \o

  • Asami says:

    Realmente a estrutura do conto está excelente e a estrória ficou ótima. Gostei demais… é uma pena que depois de tanto tempo ainda não haja o capítulo dois, mas quem sabe ele ainda não sai =)

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