Ursinho de pelúcia
Escritor: Marcelo Vinicius

No aeroporto de Salvador, uma garotinha, bastante inteligente, que escondia seu rosto na barriga do papai, segurava com força o seu ursinho de pelúcia. Estava assustada com um senhor de barba branca e comprida, o qual segurava uma bengala. Apesar de ser apenas um senhor que esperava por seu voo e nem notara a presença da menininha, esta evitava olhá-lo, pois sua aparência lhe causava medo.
Seu pai sorriu e disse que não precisava ficar receosa, afinal, era só um velhinho. Óbvio que a garotinha não deu atenção àquela explicação. Seu medo era muito maior do que qualquer justificativa.
Ela se agarrou ainda mais ao ursinho de pelúcia, como se ele a protegesse do perigo. Acreditava que ele não a deixaria sozinha. Para o papai, que a observava naquela situação, era só um brinquedo, entretanto, para ela, era um amiguinho que sempre estava ao seu lado, como na escuridão da noite, sozinha na cama.
Então disse a menina:
— Papai, tenho medo do velho!
— Não se preocupe minha querida, ele não faz mal a ninguém. É um só um velhinho — disse o pai, sorrindo.
Mas nada parecia aliviar sua aflição e a garotinha prosseguia inquieta, se mexendo no colo do pai. Ele, o pai, era um homem muito religioso e para tentar acalmá-la, pediu que segurasse um terço do rosário, que sempre carregava consigo nas viagens.
A menininha o apanhou e perguntou:
— O que é isso, papai?
— Isso é um terço. Serve para falarmos com Deus sempre que estivermos com medo — disse o pai, sabendo que não poderia aprofundar-se em sua explicação.
— Então isso me protege do velho, papai?
— Protege sim. Deus nos ajuda e tira nossa insegurança e nosso medo.
— E cadê ele?
— Deus?
— Sim!
— Ele fica no céu, nos olhando e nos protegendo.
— E como é ele, papai? — perguntou a garotinha curiosa, como toda criança.
— Ele… Dizem que ele é um velhinho de barba branca e longa, que segura um cajado e fica sentado num belo trono observando-nos — explicou o pai, fantasiando o comentário de forma que a criança compreendesse.
A menininha, então, olhou para o seu pai, assombrada com aquela explicação! Ora, qual era a diferença do velho que lhe causava medo com o Deus que seu pai descrevera? Assim, a garotinha largou o terço, que caiu na cadeira do aeroporto e começou a se agitar, balançando as perninhas e abraçando o seu ursinho contra o peito.
Como já estava perdendo a paciência, seu pai falou com veemência, mandando-a se aquietar. Ela obedeceu. Ficou com uma expressão de choro e fez “bico”. Porém, não foi tanto por causa da bronca que tomara de seu pai, mas porque o velhinho já tinha partido para o seu voo.
No meio daquela “desordem”, o destino do embarque, o qual correspondia ao voo deles, foi mencionado no alto-falante do saguão. O pai e a filha levantaram-se apressados. Ele a levou em um dos braços e no outro carregou a mala. Entregaram as passagens e entraram no avião.
Quando já estavam acomodados em suas poltronas, o pai percebeu que sua filhinha não estava mais com o terço que ele emprestara, o que o deixou tenso. Perguntou:
— Cadê o terço que lhe dei, minha filha?
— Não sei papai — respondeu a garotinha, com os olhos graúdos de susto.
Ele começou a ficar nervoso, com ares de preocupação, e, deste modo, despertou a curiosidade da menina:
— O que foi papai?
— Nada meu bem, papai só está rezando.
— Por quê?
— Porque papai não gosta muito de viajar de avião.
— O senhor está com medo?
— Só um pouquinho, querida, mas vai passar.
Vendo a aflição de seu pai e querendo de alguma forma redimir-se por ter deixado o terço no aeroporto, exclamou:
— Então segura o meu ursinho, papai!
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É um história .. infantil. Mas não infantil do estilo que gosto, pois gosto de infatil/fantasia.
–
E bem.. não discuto religião. Por isso passo a explicação divina. =)
Um puta de um conto legal. Adorei, parabéns
É por isso que eu queria outra opiniões, é que eu achei estranho… É bom ter mais pessoas dizendo o que acharam mesmo! =)
Gosto da temática religiosa em especial por ser ateu. Mas acredito esse conto vai além disso; parece ter uma pegada mais psicológica, o que me agrada mais do que religião e mitologia, enfim, um conto maneiro ^^
A frase do final se descontextualizada não teria efeito nenhum, mas o conto esconde um perfeccionismo muito bem camuflado em cada fala, para dar ênfase no final. Legal o conto.
Caramba.. eu vou ler o conto pela quarta vez… =/
Bom conto. Acho que o que importa é a inocência e ingenuidade da criança.
“Dizem que ele é um velhinho de barba branca e longa, que segura um cajado e fica sentado num belo trono observando-nos” – boa descrição, acho que vou falar isto para minh irmã mais nova.
Mas, também não gosto deste tipo de conto infantil, prefiro como o guns uma fantasia.
Um ponto para o Eryk.
Não faz mt meu gosto, prefiro fantasia tb, embora o texto tenha sido mt bem escrito e q nem diria um sábio na cultura brasileira: Bem bolado.
Po! muito bom adorei! muito legal!
Muito bom, gostei do estilo. É uma forma de mostrar que de facto as crianças e os adultos não são assim tão diferentes, apenas mudam
O que eu adorei… e adoro… é a diversidade. Isso sim é magnifico =)
Ahhh gostei, muito legal a conexão que fez com o velhinho e Deus. O final foi muito bonitinho, até me emocionei… Show!
Achei interessante. No entanto, me desculpe o contista, não entendi o velhinho… Penso que se fosse uma analogia com Deus, ela não deveria ficar com medo, mas sim, extasiada de algo inexplicável, como se Ele fosse um gigante eletroíman, e ela, um simples cisco de ferro, ou como se estivesse de frente a sua célula-mater, a sua matrix geradora. Espero ter contribuído para germinar novas idéias! Parabéns.
Contribuiu sim… por falar em contribuição para novas idéias. Uma das novas areas da próxima versão do ONE, será especialmente para dicas de escritore. Uma lista de How To Write. =)
Po demais! eu iria aproveitar muito esta lista xD
Muito bom esse conto, me fez refletir sobre um monte de coisa! Ela passa uma mensagem legal nas entre-linhas!
ah, eu achei fofinho.
Não pelo lado religioso, acho que faltou um pouco explorar a relação dos ‘velinhos’… mas pelo lado infantil mesmo…
muito bonitinho
Também acredito que o lado infantil que empresta charme ao texto. As demais discussões de Deus e o velinho não me parecem ser o foco do conto.
O charme do texto realmente está em ser contado por um ponto de vista infantil e inocente.
mas que, pelo menos na minha leitura, as alfinetadas na religião foram muito boas (e de sutileza incrível), isso foram.
Parabéns pelo excelente conto! :3