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(15) Orcs [poesia]

Publicado por The Gunslinger

– que publicou 1572 textos no ONE.

Ocupação: Analista de Sistemas de Colaboração, Escritor, Blogueiro.

Grupo a que é filiado: O Nerd Escritor, Blog do Gunslinger.

Base de operações: Corupá, SC – Brasil.

Interesses: Literatura, Cervejeiro, Internet, Teoria Computacional da Mente, Tiro com Arco e Futebol Americano.

Autor(es) Influênte(s): Stephen King, Bernard Cornwell, J.R.R. Tolkien, Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Paulo Coelho.

Livros que recomendo: A Torre Negra (Stephen King), Crônicas Saxônicas (Bernad Cornwell), Crônica do Matador do Rei (Patrick Rothfuss), O Silmarillion (J.R.R. Tolkien), Lugar Nenhum (Neil Gaiman), O Diário de um Mago (Paulo Coelho).

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Dec
10
2009

O Peregrino

Escritor: Vitor Vitali

o-peregrino

Entre as ruas de muitas cidades existem becos, vielas e ruas arrueladas pelo esquecimento onde somente o frio costuma entrar para sua rápida e insensível visita. No inverno, naquela cidade ao norte de onde antigamente havia existido um vale, o frio açoitava sutil os corpos pois não era extremo, mas era constante e disso bem sabiam aquelas crianças que dormiam amontoado uns nos outros e deitados em sacos de lixo, retalhos de papelão e tecido, enterrados do olhar médio entre os becos. Não nevava e o vento vindo da rua assoprava pelas paredes e entre-aberturas nas latas de lixo e seu assovio asmático bem como o cansaço eram como canções de ninar para quem não tinha quem as cantasse, e dessa forma todos ali dormiam, com exceção de um garoto encostado na parede mais ao fundo, longe da luz à piscar soturna que vinha dos postes da rua. No escuro. No silêncio.

Suas mãos tremiam até que ele resolvesse segurar uma na outra ou que cruzasse os dedos e apoia-se as mãos na barriga esfomeada. Seus olhos azuis piscavam pouco e o frio não o incomodava tanto, pois debaixo de sua roupa e dos trapos com que se cobria, suava cálido sem intermitência.

Sua mente balançava como em uma caótica montanha russa, chacoalhando de idéias vagas para silhuetas de pensamentos e de memórias para algo menos e nada fazia muito sentido, como se esperasse algo para dar razão e ele bem sabia o que era, e sabia onde estava, sabia também que poderia pegar o que desejava e sabia que podia ser agora. Enfiou a mão no bolso e a tirou de lá com algo entre os dedos cortados da luva de sua mão e a abriu. Em sua palma estava um pequeno saco e dentro dele o resto de um pó branco. Abriu o saco com ímpeto e apressou-se a lamber o dedo indicador, enfia-lo no pequeno saco e tirar de lá a maior quantidade de pó branco que consegui-se aderir a umidade de seu dedo. Levou o dedo a boca e esfregou a massa branca em suas gengivas e sentiu a tremedeira parar, dando lugar a uma calma sensação de paz e satisfação.

– “Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei…” – disse uma voz vindo da escuridão de uma ruela que surgia da interseção de dois becos -, “…dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.”

O Garoto tentou ver quem vinha lá, e sua visão acostumada com o escuro viu o homem que se aproximava das sombras e que continuava a falar.

–“Espinhos e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado” – disse o homem por fim ao emergir da completa sombra para a penumbra e o garoto pode ver que era um homem nem velho nem novo, vestido em jeans desbotados e cabelos bagunçados. – “Pois do pó vieste e ao pó retornarás.” Gênesis 3:19 – completou explicativo sua citação.

O homem se aproximou, do bolso pegou um maço e de lá retirou dois cigarros, dando um ao garoto. Julgando tudo aquilo a mais estranha de todas as alucinações que sofria quando utilizava seu pó branco, ele retirou do bolso um isqueiro e acendeu o cigarro, perguntando por fim ao homem: – E quem é você, nobre alucinação? Qual seria seu nome?

– Inspiratio, Ispirazione, Inspiração, Idéia, Insight, Mestre dos livros em branco, Senhor de todas os pensamentos e … – percebendo excesso de teatralização em sua apresentação, ele aparentou murchar, sentou-se ao lado do garoto, emprestou o isqueiro e acendeu seu próprio cigarro dando por fim uma profunda tragada seguida de uma longa baforada e completou. – … ou somente um bom fumante, mas pode me chamar de Peregrino se assim desejar.

–E porque eu haveria de te chamar assim? – Indagou o garoto. – Viaja muito?

–Pode-se dizer que sim – respondeu o Peregrino apreciando seu fumo. – Já fui a muito lugares, muitos períodos, muitas idéias. Viajo bastante, sim – concordou por fim. – Diferente de meu irmão, aquilo é tão “caseiro” quanto um túmulo – comentou e o garoto não entendeu completamente a analogia.

–E o que faz por aqui? Está em uma de suas viagens? – indagou ao Peregrino.

–Certamente, apostei com meu irmão e estou atrás de um resultado. Ele me disse que após enterrar tantos, percebeu que lá no fundo todos vocês são bons e eu vou contraria-lo – respondeu ao garoto.

–Seu irmão enterrou… Ele enterra pessoas? É um coveiro?

–Certamente que é – concordou o Peregrino. – Mas diga, o que acha você disso: Acredita que todos são bons assim como ele acredita? – perguntou soltando uma baforada de fumaça na face do garoto que retribuiu o gesto e respondeu: – Nem todos; existem bons e maus por todos os lugares.

–Bons… Maus… Isso é meio estranho para mim, em fato, às vezes, parecem tão semelhantes que eu perco de vista os contornos. Venha – chamou levantando-se e abanando as calças. – Vou mostrar-lhe algo – e caminhou ruela adentro até sumir nas sombras. O garoto achando que sua alucinação sumiria agora, continuou a ouvir seus passos e estranhou, pensou então em segui-lo e o fez. Caminhou ruela adentro e o encontrou sentado em uma larga lixeira nas portas de um beco que dava para a rua oposta a que estavam. Sentou-se ao seu lado.

–Olhe lá – disse o Peregrino apontando com o cigarro para um casal que brigava frente a um carro na calçada oposta. Estavam sozinhos na rua, pois era madrugada. – Estão discutindo, ele por ela tê-lo traído, e ela por ele não tê-la tratado bem. Ignorando os detalhes meandros, me pergunto, quem está certo? Quem tem a maldita da razão?

–Sabe, você é de longe a melhor alucinação que já tive – respondeu o garoto sorrindo em baforadas que subiam em espirais no vento e se dissipavam. O Peregrino sorriu.

–Venha – disse ao garoto. – Cheguemos mais perto e não te preocupes, eles não podem nos ver ou ouvir.

Então ambos caminharam à se aproximar e imitando o Peregrino o garoto sentou-se sobre o capô do carro e lá ouviram a discussão sem serem notados. Então por fim, após alguns minutos em que o casal já partira para as agressões físicas o Peregrino quebrou o silêncio.

–Já inspirei as mais belas ações e obras de arte que fariam-no ter arrepios. Também já inspirei as mais sangrentas e desoladoras guerras que você mal poderia imaginar. Já me disseram, no entanto, que hora sou Mau, que noutra sou Bom, que sou por fim volúvel. Mau… bom… onde fica o Justo nisso tudo? Claro, poderia eu parar o casal, mas dessa forma eu não seria Inspiração e sim Ordem. E é a inspiração que gera todo faixo de pensamentos que tornam-se apoteoses ou as mais rápidas das inúteis reflexões. Eu não sou nem bom, nem mau. Sou somente Eu, sou somente o que vocês inspiram a vocês mesmos e não cabe a mim, e sim a vocês, decidirem o que é e o que não é.

Eu somente sou. Nunca obriguei ninguém a nada, somente os servi.

Nesse momento o casal se estapeia mais agressivamente e então o homem se solta dos agarres e arranhões da mulher e adentra seu carro dando a entender que a briga havia terminado.

–Meu irmão acha que no fundo todos vocês são bons – repetiu. – Talvez esteja certo – diz o Peregrino.

O homem volta de dentro do carro carregando em sua mão um revolver prateado com cabo de madeira e o aponta na direção da mulher.

–Mas ao meu ver, alguns parecem precisar de mais de uma vida para notar isso – completa.

O homem atira e o sangue de sua mulher explode na parede atrás dela e seu corpo cai sem vida. O garoto assusta-se com o tiro que ecoa na rua e então o Peregrino se levanta e caminha até o homem que cai de joelhos chorando. Ele pega a mão do homem que segurava a arma pelo pulso e a levanta vagarosamente até que o cano da arma esteja dentro da boca apontando diretamente para o topo de sua cabeça.

–A questão não é quem é bom ou mau, e sim o que é que você quer inspirar para si mesmo.

Então o Peregrino sussurra palavras no ouvido do homem e este puxa o gatilho fazendo o crânio, a pele e os cabelos serem rasgados pelo projétil com violência única. Seu corpo rechonchudo cai no chão e o buraco em sua cabeça deixa o fluido sair e formar uma poça de sangue no chão.

O Garoto acorda assustado com os braços balançando a frente do corpo como se tentassem ancorar-se em algo. Olha em volta, está em seu beco. Guarda o saco com o pó branco no bolso assim como seu isqueiro e caminha pelas ruelas esperando não encontrar nada de diferente. Mas seus temores se concretizam. Na rua que visitara em sonho na noite anterior havia um grupo de pessoas ovalizadas em volta de um canto da calçada. Ele se aproxima e observa o que lá havia para olhar. Duas manchas de sangue, uma no chão, outra na parede. Tapa a boca com a mão para não gritar e seu coração dispara. Tenta acalmar-se e caminha até um bueiro entre-aberto. Palavras reverberam em sua mente.

“O que é que você quer inspirar para si mesmo?”

Ele retira o isqueiro e o pó branco do bolso e os atira após um momento de trepidação, bueiro adentro. Suas mãos tremem e sentem falta da droga, mas agora não havia o que fazer, ela já havia se desfeito no esgoto lá de baixo. Caminhou então para longe das pessoas que cada vez aglomeravam-se mais e sentou-se na rua. Sentiu algo de diferente dentro de si. Tirou do bolso o canivete que usava para assaltos e o atirou em um canto. Estranhamente, sentiu-se cansado, mas livre. Sentiu-se bem.

Ao longe, em um beco, nas sombras dois homens observam toda a cena.

–“Então disse o Senhor: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal” – citou um deles que possuía os cabelos extremamente descabelados e um cigarro aceso entre os dedos, então completou. – Parece que você ganhou essa aposta, querido irmão.

Ambos sorriram, e dali caminham beco adentro, um fumando seu cigarro e outro carregando sobre os ombros sua pá, até sumirem na escuridão.


Categorias: Contos,Contos da Taberna |

3 Comments»

  • Patrick says:

    Legal, gostei de como flui o enredo e de como você torna poético a descrição do cenário.

  • Gostei muito do conto.Muito boa história, mesmo, Vitor. Uma dica: tente encurtar as frases do primeiro parágrafo. Dá um efeito mais teatral, que é a tua intenção, pelo que percebi…

  • Me fez viajar… Lembrei de várias coisas ao ler as linhas… e o coveiro continua hehe.
    Muito bom, a última vez que estive em SP vi um rapaz magricelo (mendigo) e junto estavam um grupinho que ao cheirar ou se drogar iam para dentro da “cabaninha”. Me fez lembrar isso tbm.

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