Revelações – Parte 1 a 4
Escritor: João Paulo da Rocha

PRIMEIRA PARTE
A multidão se aglomera. Repórteres folhetinescos com suas câmeras apontadas pra o alto. Os bombeiros estão a posto. Um helicóptero sobrevoa o prédio. Uma equipe de resgate já está tentando chegar ao terraço. Na extremidade, lá, no ultimo dos cinqüenta andares, está ele. Vinte e cinco anos, jovem, corpo bem trabalhado pelas horas gastas na academia. Cabelos pretos, pelos ombros, agitados ao vento, que sopra incessantemente. Os olhos negros cansados e sem esperança.
Todos olham para ele. Há uma hora ele apareceu lá. Esta olhando para o infinito, e todos temem que a qualquer momento pode cometer uma loucura. Os bombeiros estão se aproximando, vão a todo custo tentar evitar o suicídio do rapaz. A multidão aumenta. Todos apreensivos. Ninguém sabe quem ele é. Por que quer fazer aquilo. Sua imagem já está circulando todos os programas policialescos da televisão. Anunciam com rapaz desesperado. Mas ninguém sabe de onde veio. Ou nem mesmo seu nome. Os bombeiros estão perto. Tentam falar com ele. Ele não lhes dá ouvido. A cada minuto que passa aumenta mais a tensão. As pessoas em casa, acompanham aflitas este drama. Os populares especulam por que ele quer faze isto. Será a namorada que o deixou, falta de dinheiro, terá ele pego aids. Todos estes cochichos nem chegam aos ouvidos do jovem, que continua a olhar para o infinito.
Os bombeiros estão cada vez mais próximos. Pensam uma estratégia para pega-lo. Mas ele não fala com eles. Esta perdido em seus pensamentos.
De repente ele se mexe. Seu corpo jovem flutua no espaço, em queda livre, como um pássaro a alçar vôo. A multidão grita horrizada, os repórteres cancelam sua transmissão para não transmitir um espetáculo macabro. ELE SE LANÇARA PARA A MORTE.
SEGUNDA PARTE
Ele corre. Desesperadamente. Sente dores pelo corpo. Está com a respiração ofegante. seus pés doem, mas ele ainda corre. Sabe que precisa correr mais ainda. Ele é jovem, magro. Tem a aparência cansada. Todos olham aquele jovem correndo desesperado, mas ninguém o segura, ou mesmo pergunta por que corre. Passa pelo meio das pessoas, esbarra nelas, mas nem sequer lhes diz desculpas, apenas corre. Chega a uma rua impedida pela feria livre, muita gente reunida. Para um pouco. Pensa em descansar. Mas acha melhor continuar andando. Anda olhando para os lados, desconfiado, e sempre apressado. Precisa chegar em seu prédio logo. Segura as chaves de seu apartamento com força nas mãos. Passa a feira. As pessoas o olham. Ele volta a correr. Está próximo de sua casa. Sabe que lá estará seguro. Finalmente seu prédio já começa a aparecer. Chega suado. – Oi Pedro, parece assutado – o porteiro, estranho o comportamento do inquilino sempre disposto a papear, mas ele sobe sem dizer uma palavra. Sobe pelas escadas. Tem medo de tomar o elevador. Com dificuldades, muito cansado, chega em casa. Com as mãos tremulas abre a porta do apartamento, entra apressado e em seguida fecha-a atrás de si. Toca o telefone. Uma, duas, três vezes. Ele não quer atender. Quatro vezes, atende. Ouve uma voz familiar do outro lado. – Não, por favor, isto não – grita ele no telefone. – Por favor!. Começa a chorar. Deixa cair o telefone. Olha pela janela. Está no 10º andar. Corre para a porta, abre-a, e tomando coragem, chama o elevador. Está vazio. Sobe até o terraço. Sempre ia ali para descansar e ver o movimento. São cinqüenta andares. Aproxima-se da ponta. Fica olhando para o infinito. Chora. Começa a aglomerar gente. Gritam para ele. Ele não escuta. Apenas olha o infinito, e sente o vento acariciar-lhe o rosto. Apenas olha o infinito.
TERCEIRA PARTE
Do meio do campo de trigo alguém se mexe. Rasteja-se. Está cansado e nu. Seus pulsos têm marcas de corda, sinais de muito tempo tendo permanecido amarrado. Está molhado. E agora, por se rastejar pelo campo de trigo, sujo. Precisa alcançar a estrada. Precisa voltar para sua casa. Quer o conforto de sua cama. Quer ver este pesadelo ter fim. Continua se arrastando, protegido pelo campo de trigo. Por baixo, já começa a ver a estrada. Está faminto, com sede. Em sua costa tem uma marca feita com ferro quente, mas já cicatrizada. Suas mãos e seus joelhos sangram. Mas ele precisa continuar. Aproxima-se da estrada. Cada vez mais fraco. Mas continua a rastejar. Percebe que tem um carro parado. O motorista está a alguns passos do carro. Sozinho. Ele grita socorro. Desmaia.
- Quem é você? Qual seu nome?.
Ele acorda. Está no carro, um coberto lhe esconde a nudez. A pessoa que está à direção lhe é estranha. Um homem, bem vestido. Percebe que estão indo para a cidade, e o homem tenta em vão completar uma ligação do celular.
- Pedro! Fui seqüestrado e fugi.
- Estamos muito longe do local onde me achou?
- Sim, uma hora mais ou menos. Teve sorte. Não passa muita gente nesta estrada em feriado. É uma estrada meio deserta rural. Estava visitando umas comunidades, e tenho quer ir a sede da Diocese. Sou padre.
- Então Deus ainda não me abandonou. Preciso ir para casa.
- Mas antes vamos passar no posto policial, e em um hospital também, você está todo machucado.
- Não, por favor, não posso ir a policia nem a hospital. Pelo amor de Deus.
- Mas olhe sua situação. Está todo machucado. E mais, a policia tem que ser acionada.
- Pelo amor de Deus padre. Por tudo que lhe é sagrado, por suas ordens sacras e por sua Igreja, não faça isto. Só quero ir para a casa.
- Você quem sabe. Mas o que fez de tão grave?
- Prometa-me segredo de confissão.
- Como?
- Sim, padre, quero me confessar. E sei que não poderá dizer a ninguém o que fiz.
O padre apenas tem que concordar. Pedro lhe confessa sua história, andam muitos quilômetros ainda. O padre ouve horrizado a história dele.
- Sabe que se não se arrepender não posse lhe absolver meu filho. E o arrependimento vem com o desejo de consertar as coisas erradas que fez!
- Mas padre, eu não posso concertar nada. Não diga nada, apenas me deixe na cidade, por favor.
- Tudo bem, mais vai chegar na cidade assim. Vai ser preso por atentado ao pudor. Espere. – o padre para o carro e pega uma sacola. Tira uma batina negra, que ganhara de um paroquiano. Começa a se despir e entregar a roupa ao rapaz.- vista isto. Somos quase do mesmo tamanho. Eu coloco a batina.
Pedro vestiu a roupa do padre, e este desceu do carro para se arrumar. Estava abotoando a batina. Trinta e três botões romanos. Toca o celular.
- Que bom, já deu sinal. Alô? Como? Pedro? Ei jovem querem falar com você.
- O que o senhor disse?
- O telefone? Alguém quer falar com você!
- Padre, rápido, entra no carro…
Um tiro se ouviu no silêncio perturbador da estrada. O padre cai, com uma bala cravada em sua cabeça. Pedro, sem esperar liga o carro e sai em alta velocidade. Esta próxima a cidade. Já começa a ver os prédios. Mas não tem mais ninguém na estrada. Ele acelera. Que o mais depressa possível chegar em casa. Quando entra na cidade para o carro. Não pode aparecer com ele. Desce e começa a correr. Tem que correr. Ele sabe que precisa correr.
QUARTA PARTE
Pedro sai do rio. Nadara muito. E a correnteza o arrastar para muito longe do local onde caíra na água. Devem estar pensando que ele morreu. E isto é ótimo. Ele está nu, e seus pulsos machucados pelas cordas que o prenderam. Ele sabe que está longe da cidade. Mas não sabe onde está. Já não tem mais medo. Porém sabe que precisa de ajuda. Mas quem? Não pode ir a policia. Não depois de tudo que fez. Está perdido e sozinho. Caminha nu. A sua frente somente mato. Não vê mais ninguém por perto. Gostaria de descansar, dormir, mas sabe que não pode. Não se lembra a quanto tempo está acordado. Sabe que precisa continuar. Tem que chegar em sua casa. Tem que sair daqui. Avista um acampo de trigo. um imenso campo de trigo. Começa a andar. Pelo campo, sentindo a brisa. Por um momento parece ter paz. Paz! Palavra que ele não sabe o que significa a dias. Está tranqüilo, quando sente que alguém o observa, ele corre pelo campo de trigo. Cai. Suas mãos e seus joelhos se encontram com pedras. A dor é aguda. Sangra. Ele se abaixa. O trigo arranha seu corpo nu. Ele continua se arrastado pelo trigal mesmo com dores nas mãos e joelhos. A sensação de alguém o observar continua. Ele ouve o barulho da estrada. Está perto. Tem que continuar andando. Se arrasta. Dói muito seus ferimentos. Está faminto, com sede e cansado. Mas tem que chegar a estrada.
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Olá, gostei do conto…a lógica das partes não é direta, demorei um tempinho pra completar o quebra-cabeças mas no fim gostei do texto…
Dae André, Blz. Que bom que gostou do texto. Ja mandei as demais partes . Acho que em breve devem ser publicadas aqui. Vlw
Não entendi muito, mas gostei. Vou reler mais tarde e tentar entender melhor.
Ae Vitor, que bom que tu curtiu. entao. eu enviei o restante da historia. Espero que seja publicado, ai tu vai entender melhor a historia.
O restante será publicado sim. Tenho que re-organizar a agenda! =)
Valeu Gunsliger. Ah, curti pacas a arte do conto.
Bacana o estilo. Me lembrou um pouco o filme Amnésia, com narrativa inversa. Vai ter continuação?
Quem é o Pedro? De quem ele foge? Quem falou ao telefone com ele ?