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Jan
11
2010

Enigma

Escritora: Bruna Maria

enigma

Conforme eu ia atravessando de uma extremidade à outra do extenso e mal iluminado corredor, um vulto, quase imperceptível, ia, aos poucos, se definindo à minha frente. Quanto mais eu me aproximava, mais aquele espectro se tornava materialmente visível. E, assim, eu logo reconhecia que se tratava de alguém conhecido. Supus ser Carina.

Permaneci caminhando. Meus passos, tranqüilos, escondiam o tremor ansioso de avançar e de me aproximar, em definitivo, daquele vulto ainda intuitivo. Este, por sua vez, vinha vindo sem tréguas em minha direção. Parecia estar acompanhado de mais duas ou três pessoas, desconhecidas e secundárias na compilação de meus interesses.

Logo, o longo espaço que nos separava momentos antes, se diluiu. E pude reconhecer, de uma vez, que o vulto que tanto me atraia, a suposição que acendia meus pensamentos e o mistério ainda material, era, de fato, Carina.

Ela passou do meu lado. Sorri rapidamente, reprimindo a intensidade que aquele encontro furtivo era capaz de me causar. Dei o tom do corriqueiro, para me desvencilhar de toda a responsabilidade que uma mostra de ânimos para com uma pessoa pode trazer. Disse-lhe objetivo “olá” e, em seguida, lhe ofereci, como de costume, o meu automático sorriso. Em momento algum parei de caminhar – apenas desacelerara o meu passo a fim de poder ouvir a sua voz, em resposta ao meu cumprimento.

Em seguida, me senti livre para me entregar à pura rememoração de Carina, ainda que em flashes esquivos, fragmentários, recolhidos naquele instante fugaz em que ela passou ao meu lado. Esta precária reconstrução de sua figura aos meus olhos sempre me pareceu a única forma cabível de apreendê-la.

Recordo: Carina sorriu de volta quando me viu cumprimentá-la, mas, como sempre, dedicou-me um sorriso brumoso, quase imperceptível. Carina, então, sorriu Carina. E talvez essa seja a única maneira de falar do movimento de seus delicados lábios, insustentáveis por mais de dois segundos no desenho de um sorriso; talvez, seja a única saída para reter nos contêineres de uma palavra o sentido para aquele afrouxamento tímido de sua face, para aquela intrigante mostra de seus dentes. Carina sorriu de uma forma que somente ela é capaz de fazer, e que somente nela é belo e faz todo o sentido.

Na minha rápida passagem ao seu lado, pude ainda ouvir, emanando de sua boca, atravessando língua e lábios, crispada por entre os dentes – porém, amaciado por sua saliva – a retribuição à minha capacidade de discerni-la no fluxo incessante e escurecido do corredor que nos unia. Disse-me, com sua voz sonora, algo como “olá”, ecoando a minha própria fala. Era eu mesma falando a mim, mas pela sua voz.

Então eu a tive ao meu lado, por alguns poucos segundos, porém materialmente composta, ela mesma, Carina, aquela que eu gostava de rememorar por todos os meios possíveis. Tive a impressão – recorrente – de que, no momento em que falava comigo, ela estava ali, realmente, sendo a Carina que eu tanto procurava discernir. Naquele momento, ela passava por mim e emitia sua voz. Eu a tinha descoberta por instantes passageiros e a cultivava como figura esboroada e informe. Era como se em instantes como esses algo além de material, na emissão de sua voz, fizesse a sua presença, a sua existência vibrar em mim. Em momentos como esse, eu vivia a inútil realização de minha esperança em preencher alguém que em mim causava intrigante interesse, povoando-a com aspectos pessoais sempre supostos por mim e, por isso mesmo, geralmente falíveis.

Assim eu ia me dedicando à tortuosa mãe de meu prazer, a prisão que eu sofria em uma atmosfera peculiar e escorregadia, na qual minhas chances de cometer algum acerto sobre quem era Carina eram mínimas. Ia eu, a partir desse leve encontro, supor a sua vida, os seus segredos, e, como sempre, sofrer integralmente pela incapacidade de decifrar os seus mais tenros mistérios. E a tortura de estar apegada à idéia de reconhecer Carina começava, assim, sem vistas de terminar. Permanecendo emaranhada em seu sorriso trêmulo e veloz, encantador, e também insustentável, eu seguia pelo corredor, já completamente distraída.

Enquanto isso, talvez, na outra extremidade do corredor mal iluminado, Carina nem desconfiasse que um simples gesto seu detonasse um desejo voraz por compreensão em alguém – compreensão que, à propósito, jamais veio.


Written by The Gunslinger in: Bruna Maria,Contos | Tags: ,

15 Comments»

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    Primeiro conto da Bruna aqui no ONE e primeiro conto depois do meu período de férias! =)

    Achei meio confuso… uma dúvida, a pessoa que encontra a Carina no corredor, é uma mulher ou homem? :o
    =)

  • Danilo Luiz says:

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    Cara eu tive a impressão de que a Carina fosse a própria personagem principal.
    Como se ela estivesse olhando no espelho.

    Ou em outra hipótese, a personagem principal fosse Carina e ela estava pensando em sorrir para alguém.

    Ou ainda, a personagem principal seria um homem tomando coragem para falar com Carina.

    Por favor autora, help us!

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    É eu pensei no homem tentando falar com a Carina.

    Mas ai também imaginei que fosse uma garota, que gostasse da Carina.

    É que tipo, a maneira que é escrito, parece uma mulher pensando, nõ um homem. =)

  • Bruna Maria says:

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    Gunslinger e Danilo Luiz, obrigada pela leitura!

    A proposta do conto é causar a confusão mesmo. Quando escrevi, esperei que ele pudesse levantar questões e hipóteses à medida que fosse lido. Por isso, para mim, é muito legal ver que vocês se questionaram a respeito! =)

    Dito isso, posso responder com alguma cautela (pra não tirar todo o “Enigma” da coisa) a vocês.
    Quem narra é uma mulher, sim. Carina acaba sendo a personagem principal por provocar o interesse da narradora.
    Adorei a ideia do espelho, Danilo. Confesso que não escrevi nessa intenção, mas é uma leitura bastante rica de sua parte.
    Enfim, espero que o “Enigma” siga enigmático (rs)!

    Obrigada pelo espaço de publicação, Gunslinger!

    Beijos!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    humm.. então era uma narradora mesmo. =)

  • Danilo Luiz says:

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    Eu sigo @onerdescritor no Twitter. Vou lendo quando posso. Hehehe.

    E o Enigma continuará servindo o seu propósito: ser um enigma!

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Com uma obsessão assim, imagino borboletas no estômago da personagem principal, ao cruzar o olhar com o de Carina… Muito legal!

  • Vitor Vitali says:

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    Achei meio confuso também, mas gostei 8)

  • Andrey Ximenez says:

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    Um Devaneio baseado em um desejo. Interessante, mas não me causou mimese.

  • Báthory says:

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    Bah, Bruna. Achei tri teu conto. Confuso sim. Bem escrito também. Mas ficou faltando alguma coisa, tipo uma epifania à la Clarice Lispector, ou Lygia Fagundes Telles. Talvez uma coisa mais light com Lya Luft, mas algo para fazer a gente pensar em algo mais do que “é um homem ou mulher o narrador?”. Continua que tu chega lá!

  • Bruna Maria says:

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    Obrigada pelas leituras e comentários, mais uma vez! =)
    Vou tomar a liberdade de debater com você… rs…

    Andrey, a mímese é um processo verificado na construção literária e não propriamente algo para ser causado naquele que lê. Digamos que seria uma “apropriação” do que consideramos “mundo real” que, através da mímesis, se transforma num texto ficcional. Talvez você tenha desejado dizer que não te provocou catarse (identificação ou repugnância, mais ou menos, em termos gerais). Enfim, deixo minha opinião! =)

    Báthory, quando escrevi o conto não quis que os leitores se prendessem a querer saber se o narrador era homem ou mulher. Isso é secundário, vem a partir do momento que alguém lê e se interessa por esse ponto. Vou pensar na questão da epifania, pode deixar. =)

    Um abraço a todos!

  • Andrey Ximenez says:

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    Bruna, falha nossa não me causou “sensação de” mimese. Catarse seria realmente a emoção q eu sentiria, que varia desde reconhecimento a surpresa.
    Qnd digo q não deu Mimese, é q não vejo muito como fato real. Tlvz ai catarse venha ai. Não sinto nada ao ler. Não especificamente por que. É estranho, como se vc falasse de um mundo q pra mim não existe, enfim não sei.
    Qnt ao comentario do Báthory, que fez referencias a grandes escritoras, acho q é bom ter como base, mas acima de tudo acho q o mais importante é soltar a escrita. Acho q toda a extrutura está ótima. Então é questão de praticar sempre pra sempre melhorar
    =D

  • Nath says:

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    Olha Bruna, não entendo nada de cartase, mimese e etc e tal, mas adorei o conto que você escreveu. Não concordei com Báthory disse sobre seu conto. Apesar dele ter rebuscado o comentário com autoras celebres, não concordei. Amei a história, apesar da dúvida de ser ou não um homem.

  • Bruna Maria says:

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    Oi, Andrey!
    Acho que entendi seu ponto de vista =)
    Também concordo com o “soltar a escrita”. Muitos grandes escritores me inspiram, mas ao sentar pra escrever, procuro achar a minha própria forma de escrever.
    Um abraço e boa semana!

  • Bruna Maria says:

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    Oi, Nath! Fico feliz por você ter gostado do conto! Obrigada pela leitura e, claro, pelo comentário. Um abraço!

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