Sonata
Escritora: Nina Rocha

Escutava uma sonata qualquer enquanto planejava o assassinato. Não faria sentido proclamar nenhuma bela citação se o ódio corrompia seu interior por completo. Não restara nada. Como seria capaz de oscilar entre extremos tão rapidamente? Perguntas irritavam a pele pálida. Dedicou suas últimas três semanas articulando e rabiscando como seria o fim que alguém tão medíocre mereceria. Não merecia atenção muito menos uma morte cinematográfica. Mas isso de fato não incomodava. Só queria estabelecer, em algum momento, o máximo de sofrimento que pudesse.
Vingança. Escorria pelos poros, seu suor cheirava a revanche. Algum desconhecido se ofereceu para fazer o seu serviço. Mas onde o prazer de esconder as mãos sujas de sangue por trás dos casacos enquanto o metrô não chega ficaria? O que contava era o mérito de vencer a sua própria obsessão. À medida que os graves do compositor até então desconhecido se intensificavam, mas perto do plano perfeito chegava. Algumas vezes desafinava, e era difícil restabelecer o ritmo. Parecia impossível estancar um final como aquele. Quando ficassem cara a cara, seria então capaz de apunhalá-lo pelas costas ou simplesmente o silenciar com o estrondo de um tiro? Determinação não faltava. A coragem brilhava em seus olhos claros, avermelhados pelo choro intenso das noites passadas. As conseqüências já não importavam. O futuro não fazia dife rença. Passaria mais de vinte anos em uma cela isolada, se a madrugada de quinta-feira sucedesse como planejado. Arranhar os seus discos preferidos, levar todo seu dinheiro e quebrar os vidros da casa não fora suficiente. Sua sede era de ainda mais. Os danos de outrora eram irreparáveis. Os que viriam também seriam. O esboço se concluía aos poucos. Faltavam poucas horas. Poucos minutos. Poucos segundos. Precisava daqueles segundos de glória como qualquer outro precisa de ar.
Caminhou pela neblina densa. As cópias das chaves já não mais serviam. Mas o lugar onde guardava as reservas não mudara. No silêncio, adentrava pelos ensaios de salas, até chegar ao quarto. Outro alguém já ocupava o seu lugar no canto esquerdo da cama. O trabalho seria dobrado. Mas a culpa, essa seria a mesma. A intrusa fora eliminada facilmente. Não sentiu nada, muito menos remorso. Chegou então o esperado, o planejado com tanta rispidez. Nove facadas. Quatro, no peito. Os gritos acordaram os vizinhos. As lágrimas borravam a maquiagem de três dias atrás. Ele ainda respirava. Um tiro desfigurava a face com a qual sonhara por tantas noites. O vermelho ensangüentado corria pelos lençóis brancos. Pareciam ter sido postos especialmente para a situação. Sabia que se renderia. Mas fez questão de tratar pessoalmente do leito de morte, sem derramar nenhuma gota de compaixão. Antes que a emergência chegasse, deixou uma nota avisando que nada disso foi por amor. Observou o seu crime primordial enquanto sacava do bolso algumas moedas. Seriam elas suficientes para pegar o metrô? Indiferente. Não havia mais com o que se preocupar. O transporte a partir de agora seria gratuito.
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Nina, tomei a liberdade de escolher o título do conto! Não havia um no seu e-mail!
ah, sem problemas. eu devo ter me esquecido do título mesmo
Acho que no outro você também esqueceu… ou não. Bom .. não lembro. Só sei que não é a primeira vez que tenho de usar meus poderes de editor para escolher um título hehehe… as vezes eu tenho sorte.. as vezes não. =)
Quase deu para sentir a faca em minhas mãos…
Pude visualizar o assassinato e até mesmo ouvir os gritos e as sirenes das viaturas policiais. É um conto cheio de sentimentos perturbadores, o que é bárbaro. Não poderia ter gostado mais
Suspense bem construído, com uma narrativa bem à la Hitchcock ( o final a gente já sabe, o que importa mesmo é o desenrolar da trama), extremamente detalhista e nos faz sentir o que o protagonista sente, ou melhor, sofre…
Gostei do estilo, mas queria mais texto. Fiquei com vontade de mais agora. :/
Também fiquei com vontade de mais texto. Fiquei completamente envolvido no pouco tempo que demorei para ler.
Pena que acabou tão rápido… pena.
Então que a autora escreva mais. Pode ser que os próximos sejam tão captores de nossa imaginação, quanto este conto! =)
ah, que bom que gostaram! vou tentar não economizar nas palavras da próxima vez ^^
digno do meu ídolo Hannibal Lecter.
Sensacional. Gostei mesmo, dá até vontade de saber sobre o que aconteceu antes e o que acontecerá depois, dava até um bom filme hehehe.
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Me lembrou um pouco do filme Watchmen e do novo do Sherlock Holmes. Talvez o background do ONE tenha me feito imaginar um cenário antigo hehehe.
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Parabéns.
Humm.. uma coisa que tenho de aprender a fazer, é utilizar melhor este background. Só mudei ele uma vez até hoje, durante o dia da toalha. .. … bom mas isso não tem a ver com o conto. hehehe.. chega de spam por aqui. =)
Caramba! Muito bom! Gostei demais da intensidade do ódio do personagem, de seu instinto assassino… muito legal, adorei
Gostei muito.
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E, Guns… Parabéns! Foi bem sucedido na escolha do titulo. Até mesmo porque foi o titulo que me fez ler.
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Quero ler mais contos seus Nina. =)
Também foi o título que me fez ler,eu quero ver mais textos seus aki tbm vc é boa.