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Mar
29
2010

A Estante de Livros

Escritor: Isaque Criscuolo

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Ele começou a caminhar pela rua deserta. Estava perdido, nervoso, desesperado e sem rumo.O que poderia fazer com todos os seus pensamentos aterrorizantes? Como suportaria viver tanto tempo sufocando a raiva, os desejos e tudo o que pudesse machucar as pessoas?

Qual o motivo dele pensar tanto nas pessoas?

Talvez ele fosse um pouco dramático ou somente estivesse em mais um de seus momentos de tristeza mórbida. No fundo, queria fugir para bem longe e poder voar por entre as nuvens, sentir o frio congelante passar por seus ouvidos, fazendo-o esquecer do mundo, dos familiares, das pessoas, mas tudo não passava de imaginação, utopia.

Diversas vezes pensou em amar alguém, mas tinha certeza de que não era capaz nem mesmo de amar a si próprio. Nunca seria capaz de ser feliz com outra pessoa. Nascera para ser sozinho, sólido, frio.

Nas sombras da natureza morta escondia-se e sussurrava poemas de amor para a noite, sua mais singela e simpática companheira. A noite silenciosa e não mais solitária, já que contava com sua presença. Sentia-se dramático, constantemente dramático. Era assim e nada mais.

Lembrou-se de sua estante de livros. Parou. Sentou-se na calçada. Podia ficar horas contemplando sua bem ornamentada e cuidada estante de livros já que todos os seus tesouros estavam ali; toda sua fonte de conhecimento, diversão, paixão, sonho.

Levantou-se e parou no meio da rua escura, suspirou e deu meia-volta. Não iria fugir e deixar seus livros para trás. Precisava planejar, juntar dinheiro. O melhor a fazer era pensar e ser cuidadoso, detalhista. Pôde sentir um sorriso dentro de si e ao mesmo tempo um desânimo. Iria voltar…

Quando chegou, a casa estava fechada, escura e silenciosa. O que acontecera com seus indesejáveis familiares?

Provavelmente haviam ido mais uma vez ao cinema e esqueceram-se dele.

Ótimo, pensou. Agora poderia ouvir um Cd de Vivaldi, tomar um banho quente, trancar-se em seu mundo, contemplar a estante de livros e planejar uma fuga.
Deitado em sua cama lembrou-se da conta poupança em que guardava suas economias. Precisava encontrar um lugar para ficar. Quem iria apoiá-lo nesta aventura?

Depois que ficou mais calmo, no aconchego de seu quarto, começou a refletir sobre sua tão desejada fuga. Tudo ficaria mais difícil, precisaria de um emprego e todos os seus ideais – que estavam na estante -, onde iriam ficar? Perdê-los-iam.Pensando bem, era melhor desistir dessa loucura toda. Deixar passar o restante da mágoa de horas atrás, encostar a cabeça no travesseiro e dormir.

Quem sabe ao amanhecer tudo ficasse mais claro e mais calmo.

Lá fora a lua brilhava poderosa, rodeada de diamantes distantes e cintilantes. As pálpebras de Ricardo pesaram quando se aconchegou e puxou a coberta. Ele estava prestes a entrar no mundo dos sonhos, onde tudo é possível. Um mundo onde estantes de livros são feitas de ouro e os livros têm vontade própria, escolhendo suas estantes. Neste mundo Ricardo sentia-se leve, livre e feliz, ainda que fosse somente por algumas horas…

O dia nascera nublado. Estava um pouco escuro quando Ricardo abriu os olhos e encarou o teto de seu quarto. Ele estava mais calmo, pensava mais lucidamente. Durante um longo tempo fixou o olhar na lâmpada apagada, perdeu-se em pensamentos, mas logo voltou ao mundo real.

Colocou os pés para fora da cama e caminhou até a porta do quarto. Antes de abri-la inspirou profundamente e continuou o trajeto até o fim do corredor, onde ficava o banheiro.

Seus pais já estavam acordados e conversavam ruidosamente na cozinha, que ficava no andar de baixo. Sua irmã provavelmente ainda estava dormindo. Era cedo.

No banheiro, mirou no espelho o seu rosto amassado, seus cabelos desgrenhados e sua inconfundível cicatriz no queixo. Sorriu para si mesmo. Não conseguia esquecer os pensamentos da noite passada, o turbilhão de sentimentos e desespero. Mais uma vez sufocaria tudo isso e continuaria a viver tranquilamente, como se nada estivesse acontecido, até que explodisse novamente… Embora fosse impossível saber quando ou como esta explosão iria acontecer.

Escovou os dentes, lavou o rosto e voltou para o quarto. Abriu as cortinas, deixando que a pequena quantidade de luz penetrasse o recinto. Olhou para a estante de livros, de madeira suntuosa e percebeu o que não tinha percebido na noite passada.

A estante era sua estrutura, o que fazia com que ele suportasse toda aquela vida medíocre e sufocante. Cada livro era um motivo que firmava seus sonhos, seus ideais, seus medos e que o ajudava a superar a dor constante. Enfim se deu conta de todo o significado da estante. Fora ela que o fizera retornar.


Written by The Gunslinger in: Contos,Isaque Criscuolo | Tags: , , ,

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