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Mar
08
2010
Conto em Série

Conto Pirata de Isadora Rocha – Parte 4

Escritora: Fernanda Rodrigues

pirataria-galeao

Olhei ao redor. Ninguém parecia estar realmente feliz. Tinha a nítida sensação de que todos eram contidos, fingindo satisfação. A primeira semana se passou e me aproximei de um artesão. As conversas eram superficiais, mas boas. Até o momento em que questionei a respeito de onde ele veio e se estava feliz ali. Vi sua expressão tranquila mudar ligeiramente e tentou mudar de assunto. Insisti, e ele segurou firmemente meu braço olhando ao redor discretamente. Um dos integrantes da Cúpula passou por nós e nos cumprimentou.

Ele sabia que eu não deixaria de insistir no assunto e me contou, sem deixar seus afazeres e quase sem olhar para mim, que vinha de uma terra próspera, banhada por um grande rio, e seus reis eram deuses. Trabalhava nas embarcações que transportavam materiais pelo rio, quando uma tempestade chegou subitamente e com violência. Perdeu seu barco e desmaiou; ao acordar foi recebido pelos habitantes da nova terra. Ele e seus amigos tentaram voltar algumas vezes, mas foram severamente punidos. Entendeu que não havia saída e se conformou. Como todos ali. Ninguém podia se expressar. Ninguém podia ser diferente. De fato, ninguém tinha liberdade para ser. Era como um rebanho.

Um arrepio frio percorreu minha espinha. Não poderia viver em um lugar assim! Naquele momento, lembrei do Ourives. Ele ainda estava inteiro, com poucas avarias, e poderíamos utilizá-lo pra sair dali. Tinha um plano e passei para meus companheiros. Alguns já estavam se adaptando ao local, mas sua lealdade falou mais alto. Aos poucos observamos aqueles que pareciam menos satisfeitos em estar ali. Tive certa dificuldade para convencer o artesão, mas quando consegui ajudou-me a convencer os outros. Foi um processo lento, pois não queríamos despertar suspeitas. Três fases lunares se passaram até o Ourives ficar pronto para partir e reparei que meus cabelos começavam a ficar prateados. Havia chegado o momento mais crítico: trinta pessoas deixarem a cidade tentando ir o mais longe possível sem que a Cúpula percebesse.

Esperamos a noite cair e a cidade calar. Saímos em pequenos grupos e passamos pelo portal. O último grupo chegava à praia quando ouvimos aquela sinistra e odiosamente conhecida melodia. Imediatamente gritei para todos taparem os ouvidos e correrem para o Ourives, mas para alguns já era tarde. A enorme criatura apareceu por entre as árvores, acompanhada dos integrantes da Cúpula, tal qual um cachorro de estimação fica disciplinadamente ao lado de seu dono. E foi naquele momento que muitas coisas ficaram claras para mim. O propósito da existência da criatura era alertar a Cúpula da chegada de novos forasteiros, além de funcionar como a desculpa perfeita para que eles parecessem logo de início os grandes salvadores que nos protegeriam dos perigos daquela terra. Se nós nos curávamos dos ferimentos, isto também aconteceria com a besta.

Içamos velas, enquanto o artesão e mais dois companheiros atiravam flechas para manter os integrantes da Cúpula e a fera afastados de nós. Entramos em mar aberto o mais rápido possível, enquanto os que ficaram na praia olhavam para nós com uma expressão enfurecida. Vi quando alguns que não conseguiram alcançar o Ourives foram mortos e desmembrados. Pensei em como temos que lutar e nos arriscar para sermos livres. E quanta dor é necessária para isso.

Alcançamos águas calmas, mas não precisamos de muitos dias para perceber algo estarrecedor. O tempo não passou da mesma forma para nós. O que pareceram apenas alguns meses, foram dois séculos para o resto do mundo. Não poderíamos retornar às nossas vidas. Meu organismo tinha sequelas do tempo que passei lá, mas não eram tão visíveis, além do cabelo com um leve tom prateado. Entretanto, a maior parte daquela nova tripulação do Ourives estava completamente transformada, e logo percebemos que era irreversível. Decidimos navegar sem rumo certo e conhecer novos lugares, mas eles não poderiam ser vistos. O Ourives se tornou uma nova casa para todos. Muitos anos depois, decidi que era hora de seguir um caminho diferente, e nomeei o artesão como novo capitão.

Foram muitas aventuras. Passei por momentos bons e ruins, dores e frustrações, prazeres e alegrias. Amei e fui amada. Aprendi muitas coisas e ensinei outras. Fiz minhas escolhas e tive alguns arrependimentos, mas vivi a minha vida, da maneira como achei melhor, e isso faz tudo valer à pena. Finalmente começo a sentir o peso de tantos anos passados, e me sinto feliz. Hoje vivo como uma rica e velha senhora longeva, com meus bisnetos construindo uma vida nova no Novo Mundo. E ainda hoje há quem fale da lenda do incrível navio pirata fantasma que navega pelos mares tripulado por estranhos e imponentes seres.

8 Comments»

  • Fernanda says:

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    E chega a última parte do conto! Estava ansiosa pra sair aqui… =)

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    Sabe aquela tristeza que dá quando terminamos um livro, uma história. Eu sei que não vai rolar e que toda história tem que ter um fim, afinal isso é uma das coisas que faz dela uma história. Mas bem que poderíamos ser contemplados com outras histórias desse incrível navio pirata fantasma que navega pelos mares tripulado por estranhos e imponentes seres.

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    Sem pressa meu querido.

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    Nossa, muito bom o final. =)

    Da aquela lição de, a vida é feita de escolhas, boas ou ruins o importante é viver a vida. :)

    Só achei que foi meio rápido esta ultima parte e também que você repetiu “o Ourives” muitas vezes. Mas foi um bom final.

    • Fernanda says:

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      Pois é, também acho que ficou acelerada… mas é que a história foi começando a ganhar proporções maiores na minha cabeça e preferi concluir o conto pra, quem sabe, escrever uma história maior depois… vamos ver… =) Obrigada pelas observações e fico feliz que tenha gostado!

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