Esquizo-frenesi
Escritor: Elcio H. Pereira Jr.

- E o que tu pensas que é isso nas tuas mãos?
A pergunta não era somente retórica. Minhas mãos estavam pegajosas, sujas de sangue ainda fresco. Eu me sentia drenado, usado, dolorido. Há dias eu não conseguia me concentrar. Estava sem dormir direito, há algumas noites. A falta de sono já me causava delírios e eu não tinha ideia do que era real e o que era imaginário… ou alucinação.
Ele falava com a naturalidade e com a arrogância de sempre. Eu conhecia aquela ironia e não gostava nada. Estudei o ambiente em que me encontrava e não vi nada anormal, a não ser o rastro, quase invisível, que deixara ao entrar. Algumas gotas vermelhas haviam marcado uma trilha até onde eu me encontrava. Olhei-me no espelho à minha frente e quase não me reconheci. Meus olhos mostravam a loucura que nunca tive e havia profundas olheiras ao redor deles. Eu parecia velho e cansado. Logo eu, que tantas vezes havia proferido o quanto me orgulhava do facto de minha aparência esconder a minha verdadeira idade. Pensei em tomar um banho quente e me barbear. Precisava daquilo…
- Não se faça de santo. Achas que tentar me ignorar vai mudar o que fizeste? Não mesmo!
Será que ele não podia se calar, por uns instantes, somente? Minha cabeça doía. Precisava tomar algum analgésico e um estimulante. Qualquer coisa para me manter acordado por tempo suficiente. Odeio ficar na dependência destes químicos, mas não tenho saída e nem tempo…
- Tente…tente…quero ver se consegues deixar de me ouvir… Achas que podes te livrar de mim, assim tão fácil? Não lembras da outra noite?
Ele ria. E era o riso de um louco. Na outra noite, que mencionava, agora, com sarcasmo, ele havia se deitado na minha cama, perto de mim e me dito para não perturbá-lo, porque eu não ia conseguir vencê-lo. Meu corpo todo tremia, de medo e de frio, mas não tive coragem de enfrentá-lo, nem de puxar a coberta para cima de mim…
Eu só queria voltar a ser aquela criança que ainda tinha um pingo de fé e que acreditava em orações, que rezava quando tinha medo e adormecia tranquilo, livre para sonhar. Tornei-me um adulto amargo, sem fé, sem esperança e sem coragem de enfrentar meus próprios demónios. Mas não sinto saudades do meu tempo de criança. Não quero voltar a ser torturado pelos fantasmas que rondavam a casa, nem pelas vozes dentro do quarto, quando as luzes apagavam. Não gosto de acordar no meio da noite, sem saber onde estou…
Cheguei há pouco, da rua. Ele me perseguiu, por horas, pela cidade. Eu o via em cada esquina, em cada porta de bar de subúrbio que eu entrava. Quanto mais eu o evitava ou me escondia, mais inútil era o esforço. Parece que tinha um localizador posto em algum lugar do meu corpo… em algum lugar em baixo da minha pele. Quando se aproximava de mim, ele ria, saboreando os momentos em que me fazia sentir medo. E aquele riso… maléfico, escarnecedor, enlouquecido… aumentava na minha cabeça, como se ele tivesse o dial de um amplificador.
Peguei o carro e dirigi até a ponte, sobre a estrada. Parei no ponto mais alto e saí, fui até a amurada e não tive dúvida. Ele não ia me vencer. Mergulhei no vazio, mesmo sabendo que me jogava de encontro à morte. Eu via o chão se aproximar de mim e já respirava aliviado. Aquele pesadelo ia acabar ali mesmo…
…Só que não acabou. Ele mergulhou atrás de mim e me segurou pelo tornozelo direito.
- Ainda não. Tu ainda não tens o direito de morrer. A tua hora não chegou.
Ele dizia aquilo como se fosse o senhor da Morte… ou de meus dias.
Ao olhar para além das garras que me seguravam o tornozelo e me traziam de volta ao topo, foi que eu percebi que ele tinha asas. Asas de demónio. Negras. Enormes. Asas que me traziam de volta para a borda da ponte – longe da possibilidade de suicídio. Ele tinha controle completo sobre mim.
O que podia fazer um homem que tentava se suicidar e era trazido de volta à vida por um demónio? Voltei para casa, sem muitas esperanças. Eu só queria poder dormir. Quando entrei pela porta da frente, eu já não tinha mais forças. Ele estava de pé, à minha espera. E riu… Alto… Como um louco ri…
Olhei-o com desprezo. Eu já não sentia medo. Era impaciência que eu sentia. Me joguei no sofá da sala e me entreguei ao cansaço. Fechei os olhos. Já considerava que sonhar seria melhor que aquele pesadelo que eu vivia acordado. Foi então que uma ideia me veio à mente. Eu poderia ter uma saída… mas teria somente uma tentativa.
Levantei-me e fui até a cozinha. Ele não me seguiu. Peguei a maior e mais afiada faca que havia na gaveta e voltei à sala. Ele ainda estava lá, no mesmo lugar. Olhou-me como se uma faca enorme na minha mão fosse a coisa mais natural do mundo. Eu não pensei duas vezes. Com um movimento rápido, perfurei logo abaixo da linha do esterno, perto da última costela esquerda. Ele apenas riu.
Puxei a faca, com as duas mãos, joguei-a no chão da sala e vim directo para o quarto onde estou agora. Eu ainda o ouço… Ele fala e escarnece de mim.
- O que tu pensas que é isto, nas tuas mãos, afinal?
Ele repetia a frase, no meio daquela confusão toda na minha cabeça.
- Olhe para si mesmo. Tu não passas de um farrapo humano, que nem consegue se livrar de seu demónio. Olhe bem para o que fizeste…
Eu não entendi o que ele queria dizer. Olhei em volta. O rastro vermelho era tão subtil, que parecia nem existir. Minhas pernas fraquejaram. Aquela mancha, sobre o tapete do quarto, aumentava à minha volta… Passei a mão na minha camisa e percebi que estava encharcada e pegajosa. Uma pontada de dor partia de um ponto, abaixo do esterno, um pouco para o lado esquerdo, de onde o sangue escorria sem trégua.
Minha visão começou a ficar turva e a risada dele, ao perceber que eu ia me perdendo, se tornava cada vez mais distante. O que eu sentia, finalmente, era uma paz e um silêncio confortante. Uma sensação que não se parecia nada como o frenesi das noites anteriores. O quarto escureceu, devagar e, então, não o ouvi mais…
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Este conto também foi baseado em sonho. O título é uma brincadeira com as palavras, mas lendo vocês podem entender o porquê.
Hehehe, isso não foi baseado num sonho… foi baseado num pesadelo!
–
Muito bom! =)
Pesadelo, na minha concepção, é quando a gente perde a batalha… Aqui, acho que foi uma vitória! Hehehehehe… Sei lá…
Embora não seja muito fã de temas sombrios, tenho de admitir que este me instigou. O cenário e personagem se desenvolvem e se desmistificam progressivamente, somente nas ultimas linhas compreende a situação, mas achei o desfecho muito simples.
Sem contar a frase: “Com um movimento rápido, perfurei logo abaixo da linha do esterno, perto da última costela esquerda”. Eu pergunto. Em quem?
A intenção é mesmo confundir quem lê, até perceber, no final, quem foi ferido mortalmente…
Esqueci de dizer que amei o titulo!
Estou melhor em títulos, que em nomes de personagens… Heheheheh
Oieee!!!
Cara achei bem legal, e interessante. Parabéns!
Bom… pedir a você a mesma coisa que pedi a Samila que escreveu : O Espelho
Cara, eu to criando uma mangá sobre vampiros, mas o problema é que eu não tenho todo esse talento de vocês para escrever, então minha história ainda falta muita coisa.
consegui criar a idéia, que é a briga entre clãs, e tal…
Mas preciso de algo mais, e achei interessante essa parte “A falta de sono já me causava delírios e eu não tinha ideia do que era real e o que era imaginário… ou alucinação”.
e também a parte em que ele vê as asas.
E assim preciso de ajudar pra criar esse clima na história, entende?
então qualquer coisa, se quiser me ajudar, ou alguém mais que escreva histórias e quiser me ajudar. Meu msn: jesse.rockandroll@hotmail.com
É isso ai
Valeu!^^
No problem. Vou te adicionar ao msn e, qualquer coisa, estarei on line o fim de semana inteiro… se me vires, dê um toque…
Sombrio. No ponto da loucura. Instigando a um frenesi junto a personagem.
-
Acrescentaria um pouco mais de drama, tragédia, descrição do alívio da personagem no parágrafo final.
Fora isso, tranquilo.
Muito legal o conto!
Obrigado pelo input, Alex. Embora o final tenha sido um pouco anti-clímax, minha intenção era mesmo diminuir o ritmo. Mas acho que teus comentários/expectativas fazem bastante sentido… seria bom criar mais drama.
Mas, pensando bem, drama, nesta hora, não seria a melhor idéia… Não ficava bem com o personagem que eu imaginei…
Eita, gostei. Bem legal
Obrigado, Vitor. É sempre bom receber comentários positivos.
Gostei muito! A parte da ponte e a do final foram muito bem feitas. =]
Valeu, Saika. Imagine isso, sendo sentido de verdade, num sonho…
ola nerds. o conto e agradavel… to de volta ao site. mal apareci sumi. mas aqui esto eu. valeu
Agradável… o comentário pareceu-me meio morno…
Narrativa impecavel.
Prende o leitor com facilidade…
Parabens, gostei mesmo.
Obrigado, Vinicius. Impecável eh elogio de muito alto nível… Hehehe
E depois ainda fala que não é escritor e sim amador!
Realmente, Elcio, você escreve muito bem e o conto ficou ótimo apesar de curto.
Fiquei encabulado, agora… (ainda se usa esta palavra???) Obrigado, Sara. Acho que não ficou curto, ficou denso, mas no tamanho ideal para se querer mais…
Eu queria mais.Ficou fantástico!muito bem.
Prendeu minha atenção e deixou aquele desejo de ler uma continuação.