Guerras e Povos – Parte 2
Escritora: Mariana Belinotte

- E o que vocês vão fazer?
-Já perdemos homens demais, não podemos obrigar nossos soldados a enfrentarem de novo esses selvagens.
-O que? Como assim? Vão deixar um amigo para trás?
-É a política do Rei, quanto menos baixas, melhor. Pense, não é justo que cinquenta crianças fiquem sem o pai só para que talvez, entenda, talvez, consigamos salvar o seu.
-Mas…
-Não se preocupe, você tem três opções agora. Você pode escolher entre se juntar ao exército, ir trabalhar nos campos do Rei ou estudar para ser clérigo. Não vai estar desamparado, entende?
-E se eu não quiser ser agricultor, soldado ou clérigo?
-O que mais você poderia querer? Enfim, você receberá vinte moedas por semana, acho que com isso pode se virar. Com licença.
-Espera, mas ele ainda está vivo, não está?
-Está, mas não sei que diferença isso faz, visto que também está trabalhando como escravo nas minas.
Leo se afastou. Odiava aquele cara, que uma vez havia dito à ele que não era feito do material necessário para os grandes guerreiros.
E depois de todas aquelas palestras promovidas pelo Exército sobre honra e coragem, eles procediam assim?
Isso era culpa do Rei, aquele louco Rei. Os chamados “selvagens” nada mais eram que um povo descendente de anões e humanos das tribos que o Rei havia decidido atacar pois queria mais ouro, mais prata, mais jóias, tudo para ele e aquelas esposas esnobes dele. Aquela guerra não era do povo, que era obrigado a servir no exército ou trabalhar nos campos.
A maior parte das pessoas só conhecia a versão espalhada pelos clérigos de que os “selvagens” comiam crianças e que atacariam o Reino em breve. Leonard só conhecia a verdade porque seu pai lhe contara. Seu pai era contra tudo isso, só continuava a lutar pelo Rei pois isso lhes proporcionava a melhor vida possível para pessoas que não fossem para a nobreza.
Mas essa vida não era para ele, órfão de mãe e com o pai seqüestrado. E talvez os selvagens não fossem tão maus quanto se dizia no Reino.
XXX
Passou no Comitê e pegou as vinte moedas da semana, aquelas moedas que, na opinião do Governo, pagavam a perda do pai. Passou em casa, pegou sua mochila, que já estava arrumada, suas economias e sua adaga. Como não tinha pais, podia ser considerado emancipado, certo? Então tinha direito ao porte de arma, como todos os adultos.
Esperou em casa até faltar quinzes minutos para que os portões fossem trancados. Aproveitou um grupo de camponeses que entravam na Cidadela, atravessou a porta e correu para as sombras da muralha. Seguiu por ali até entrar na Floresta do Velho.
Quando era menor havia explorado várias vezes aquele bosque, mas sempre sozinho. Os pais de seus amigos não permitiam nem que eles chegassem perto daquele lugar, onde diziam morar um louco.
Seu pai, pelo contrário, estimulava essa prática, e Leo desconfiava que ele conhecesse o ermitão que morava ali. Porque realmente morava um velho, e talvez até um pouco louco, mas eles nunca haviam encontrado.
Leo só havia deduzido isso por ter visto a cabana dele e visto a fumaça saindo da chaminé. No fundo tinha um pouco de medo do homem, porém nessa noite era diferente. Ele precisava ir falar com o eremita e perguntar se ele conhecera seu pai.
Algum tipo de sexto sentido o estimulava a isto.
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