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Mar
15
2010
Conto em Série

O que me deixa mais triste – Parte 5

Escritor: Lucas Schutz

O que a doutora me contou foi que, basicamente, eu vendi a porra da minha mulher. Eu vendi minha mulher para alguns traficantes de órgãos. Não sei se a amnésia muda a merda do espírito da pessoa, mas agora eu tenho pena daquela vadia. Ela não merece perder um pulmão por ser um pedaço de merda em forma humana, coitada, mas que eu posso fazer? Salvá-la? Não. Mesmo se eu quisesse não conseguiria, a essa altura ela deve estar em uma banheira cheia de gelo, sem um pedaço do fígado, sem um dos pulmões ou, quem sabe, sem as córneas. Não posso ficar chorando o leite derramado. Se eu sou tão merda assim que vendi minha esposa, tenho que aceitar, como dizem alguns filmes por aí “seja você mesmo”.

A doutorazinha, agora uma pausa, veja você eu fodi aquela doutora no mesmo dia que vendi minha mulher. Nem eu acreditei, não por ser o mesmo dia e essas baboseiras moralistas, afinal, quem disse que não se pode foder no dia em que se vende a mulher? Enfim, eu nem acreditei por que a doutora tá acabadinha. Gordinha, baixinha, rosto cheio de rugas, mais velha que eu, mal cuidada… Você, mal amado leitor, deve estar achando impossível, pensando que essa porcaria está virando história de ficção, afinal quem toparia foder com alguém que recém vendeu a esposa? Mas você se engana. Como já disseram por aí ‘A realidade é cruel’. A doutora que me arranjou a venda, ela conhecia os traficantes.

Pelo que eu entendi é um esquema antigo, com muitas mãos por debaixo dos panos. Cogitei por cima com a doutora a respeito de quantas ‘operações’ dessas ela já tinha feito, a porra do meu queixo quase caiu no chão quando soube que mais de 30 pessoas já haviam saído do pronto socorro sem um pedaço do corpo. Mais de 30 pessoas já tiveram seus órgãos tirados sem o consentimento, mais de 30 pessoas enriqueceram essa doutora gordinha que tem alto prestígio no meio acadêmico. Dizia-se que ela era santa por nunca ter aceitado promoções ou aberto uma clínica própria. Essa santa tem bem a cara de uma vagabunda, mas não sou eu quem devo julgá-la, eu vendi minha esposa.

Voltei do hospital com 5 pontos na sobrancelha e dezenas de novas dúvidas, as principais diziam respeito as pessoas que tinham me ligado, a origem do meu celular ‘novo’ e se eu vendi minha esposa para traficantes de órgãos, onde estava a porra do dinheiro?

Mais uma vez chego em casa, agora sento no sofá, levanto, pego um whyski, afrouxo o cinto, sento novamente, fecho os olhos e o telefone toca.

? Alô?! Essa merda de novo? Por que vocês não vão procurar alguém que saiba o que vocês querem, eu não sei, se vocês puderem me falar agradeço, ajudaria muito porra!

- Estou vendo que estamos com sérios problemas. Preste bem atenção. Se você não nos paga, nós não podemos pagar nosso chefe e, se nós não pagamos nosso chefe, nosso chefe não paga o chefe dele, assim sucessivamente. Por isso estamos sendo insistentes com você. Por mim você já estava morto. Por mim suas coisas iam parar em brechós ou coisas assim. Por mim eu te metia uma porra de uma no meio da testa agora, mas não. Nós temos que pagar nosso chefe, portanto, você tem que nos pagar. Até a noite de domingo, te espero. Eu sei que sua vida é uma merda, mas imagino que, mesmo assim, você goste da sua vida. Boa sorte.

Aquele filho da puta falava calmamente, devagar, pronunciava cada sílaba de cada palavra de um jeito horrível. Ele me fez ficar com dor de cabeça, ele quase fez eu me cagar nas calças. Filho da puta, FILHO DA PUTA! Onde eu vou conseguir essa merda desse dinheiro? Por que eu tenho que conseguir essa merda de dinheiro?

A essa altura eu já tinha úlcera e dor de cabeça, nenhum remédio resolvia, nenhum remédio cura o medo, o que é uma pena. Resolvi escrever o que eu tinha feito, ao menos o que eu lembrava. No papel meia dúzia de rabiscos desconformes, uma bola com olhos – simbolizando a doutora, minha cabeça explodindo – simbolizando, bem, você sabe…

Me irrito com meus amigos, nenhum deles está atendendo ao telefone. Não consigo entender esse merda, se você tem um telefone por que não o atende? Gente estúpida. Pode parecer exagero, mas se sua vida estivesse ameaçada por algo que você não faz idéia do que seja, se sentiria assim ao ouvir a caixa de mensagens dos seus amigos.

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Publicado por The Gunslinger

– que publicou 1688 textos no ONE.

Ocupação: Analista de Sistemas de Colaboração, Escritor, Blogueiro.

Grupo a que é filiado: O Nerd Escritor, Blog do Gunslinger.

Base de operações: Corupá, SC – Brasil.

Interesses: Literatura, Cervejeiro, Internet, Teoria Computacional da Mente, Tiro com Arco e Futebol Americano.

Autor(es) Influênte(s): Stephen King, Bernard Cornwell, J.R.R. Tolkien, Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Paulo Coelho.

Livros que recomendo: A Torre Negra (Stephen King), Crônicas Saxônicas (Bernad Cornwell), Crônica do Matador do Rei (Patrick Rothfuss), O Silmarillion (J.R.R. Tolkien), Lugar Nenhum (Neil Gaiman), O Diário de um Mago (Paulo Coelho).

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