Res Ips Loquitur
Escritor: Zaratrusta Almeida
Três anos passaram de facto desde que os abandonámos na ilha.
Avancei por entre a doce ilha, e encontrei um homem deitado sob uma palmeira. Ele virava-se e revirava-se, e acabou por adormecer de vez. Acordei-o, e perguntei-lhe quem era. Ele simplesmente disse que estava a cumprir ordens de dormir.
-E quem foi que te deu essas ordens?
-Um senhor que estava a acabar uma escultura. – disse o homem, com uma voz doce de criança escondida. Eu larguei-o.
“Kraken.”, pensei, “Pelo que parece já deve ter acabado o seu trabalho. Vamos fazer-lhe uma visita.”. ‘Onde está esse senhor?’, disse secamente ao homem que ainda estava em pé, à minha frente.
-Ele está ali, por detrás dos portões de madeira e ferro. Mas cuidado, ele pode ficar um pouco…temperamental, se o vir entrar sem autorização. Convém tocar na campainha, está ali por detrás das plantas. Sim, exactamente, aí. Muito bem. Olhe, e digo-lhe mais, eu não volto mais aqui. Vou voltar com o meu barco, esta ilha não dá para se descansar decentemente…
Eu já não estava a ouvir. A floresta que antes se tinha erguido nesta parte da ilha, a par de todas as outras, estava reduzida a uma autêntica metrópole, criada pelas mãos de um homem. Apenas as folhas que circundavam a cidade estavam intactas. Eu agarrei as mãos da minha querida Erica, dei-lhe um beijo, nervoso de entrar numa selva urbana. Toquei à campainha, e quase instanteanamente os portões abriram-se para a minha entrada. A entrada era puro metal e puro aço que se erguiam até ao céu. Música, celestiais sons vinham de um altifalante. Era o som de tambores e o bater repetetivo em cordas electrónicas. Sons belos de um tempo futuro, algo que me embriagou num êxtase inacreditável.
Avancei, e vi que a cidade estava deserta como raramente se vê. Nenhum ser vivo ou não vivo se mexia. Só a música tocava, incessante na sua beleza, enquanto o homem me olhava a mim e à minha esposa de cima. Meia-idade, cabelo muito grisalho, olhos azuis e muito líquidos que pareciam conter toda a tristeza do mund, com uma roupa cinzenta prateada muito brilhante. Ele sorriu ao ver-nos, e logo escondeu esse sorriso, descendo da torre com uma máscara de aço muito pesada. Ele cumprimentou-nos, apertando-me a mão com a sua luva negra.
-Como passas caríssimo Raphael? Já não te via há bastante tempo. E a encantadora Erica, doce como sempre, tens passado bem? Bem vindos, entrem, entrem. – Disse ele, com um sorriso falsamente forçoso, indicando-nos o caminho para a sua casa. – Espero que, desculpem a desarrumação, cuidado não se magoem, espero que gostem da minha obra. Foram de facto três anos que consumiram muito do meu tempo e muita da minha sanidade mental. Mas antes de vos apresentar o meu magnum opus, vão ter de me perdoar se eu quiser fazer uma breve apresentação da minha metrópole Lornuy.
»Ora, a própria entrada é culpa da minha educação. Eu sou um filho de pessoas ricas, abastadas em dinheiro e em fama, que não podiam permitir que maldições e loucos entrassem logo pela porta fora. Por isso, eles tinham um grande portão de metal que só abria se identificasse o sinal da campainha. Um dia vim distraído de uma festa, enganei-me no meu próprio toque. Fiquei fechado ao frio durante dois dias antes que os meus pais dessem pela minha falta.
»As ruas são do metal puro, pois sempre trabalhei e vivi entre paredes de aço, em vez do cimento que seria uma escolha muito mais óbvia. O meu mundo foi sempre um mundo de tecnologia desprovida de amor, um mundo onde qualquer coisa era substituível por qualquer coisa, pelo menos algo que o dinheiro comprasse. Por isso, habituei-me a viver num mundo frio e duro, resistente às vagas impiedosas mas também dotado de uma beleza angelical. E essa beleza, era a música. Oh, o som dos tambores e do metal a bater um no outro, a sinfonia do ferro frio e a eterna reunião do que está perdido, foram as únicas coisas que me mantiveram inteiro. Em homenagem, eu compus músicas inteiras criadas apenas com o som do metal e do ferro, instrumentais lindos que ninguém senão aqueles que já sofreram do torpor da madrugada a atacar o corpo. Deduzo que tu entendas a música, não é verdade Raphael? – Kraken olhou para mim, e eu sorri acenando a minha cabeça em sinal de aprovação. – Mas chega de falarmos da música e do meu mundo de ferro e aço. Mostremos-te a minha mais bela criação.
Ele destapou uma pequena escultura, do tamanho de Erica, que era uma mulher, um híbrido de humano e metal. Estava perfeita.
Kraken agarrou-se à sua escultura, e abraçou-a como faria a uma pessoa normal, dizendo adeus e até mais logo, esperando que quando eu a devolvesse estivesse exactamente como a deixara. E aí, talvez o erro seja meu, mas eu vi-o beijar a estátua de metal frio e pedra crua, agindo como se de nada se tratasse. E naquele momento em que Kraken se despedia da sua criação, pareceu que a própria estátua tinha ganho cor e estava agora a sorrir em resposta ao seu maestro que por ela chorava. Levei-a comigo, atravessando a dura cidade de metal cruo e pedra fria, vendo ninguém e ouvindo a música celestial que tocava.
E a música foi ficando mais distante, mais distante, até que nada se ouvia, nada a não ser o longíquo ronronar de motores e o roncar dos portões a fechar lentamente.
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