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Apr
21
2010

A Barqueira

Escritora: Luciana Nogueira Soares

Estavam parados a frente de um ancoradouro, observando as gôndolas ondularem ao sabor da respiração de veneza. Eram uma manhã gelada, pálida e difusa. Um homem, muito bem vestido em seus trinta anos, arrumava o cabelo castanho com alguma angustia enquanto, a seu lado, o que poderia ser descrito como uma criança de dez anos aguardava.

A pequena tinha cachos compridos e volumosos cascateando até quase seus joelhos, usava um vestido branco diáfano e nada nos pés. Como os cabelos, os olhos eram cor de mel, muito vivos. Enquanto os cabelos de ambos brigavam com o vento, conversavam. O homem parecia exasperado, gesticulando vez ou outra – se algum conhecido o visse, em seu terno, pensariam que estava brigando com algum subordinado.

A menina contudo parecia divertida, então desceu para junto das pequenas embarcações. O piso ali estava um pouco úmido, mas não se importava. Estavam sozinhos ali – ainda que as sombras de outras pessoas flutuassem ao redor deles como fantasmas.

– Não fique tão chateado – pediu a menina. Mas já havia pedido isto mais de duas vezes na ultima meia hora, então decidiu tentar outra abordagem – Sabe – volveu em tom casual – você tem… uhn… potencial.

– Para que? – tornou o homem, agressivo – Para adubo? Para estatística? Para comida de peixe? – elevava a voz cada vez mais, mas a pequena não parecia perder o bom humor – sabe, você poderia ter sido mais gentil. Eu estou no fundo, no fundo! Quando minha família vai me encontrar? Alias, vão me encontrar? E aquele desgraçado que me assaltou ontem? Ele por acaso vai ter um fim tão ruim quanto o meu?

– Eu não sei, mas com certeza um dia ele terá um fim. – Sorriu – E não se preocupe tanto. Você não é o que vão encontrar no fundo dos canais de Veneza, isso se encontrarem – a pequena não poderia deixar passar a chance de provocar – quanto a gentileza, tenho pedido com toda a educação para me acompanhar…

– E porque daquela maneira? Porque fui morrer daquela maneira? – Esbravejava. “Aquela maneira” ainda estava marcada em seu corpo, embora sua pequena acompanhante já houvesse explicado que ele não precisava portar as marcas de sua passagem. A barriga do homem possuía um corte, e dali, um pouco do recheio macio escorria em tons de vermelho-viceral.

– Há muitas coisas que fogem de meu conhecimento.

– Então a morte não sabe porque… – começou a argumentar, mas logo foi cortado. A pequenina encontrou ali uma brecha – possivelmente a que lhe ajudaria a cumprir sua tarefa.

– “Como a morte pode ser tão pequena?” -atalhou, com sua voz e maneiras aveludadas. Já havia dito a ele que não era um anjo, nem um espírito guardião. O homem parou um instante, em dúvida e quando tentou falar, ela o cortou mais uma vez:

-Eu não sou “A Morte”…E… Tudo bem, eu posso parecer um pouco baixa para a maioria das pessoas que fazem a travessia – para as crianças não, por um motivo óbvio. Se eu fosse chutar minha altura, diria que deve ser a média dos dez anos. Alias as pessoas dizem “você é só uma criança”. Bem, é difícil ser uma criança, sendo que eu nunca fui humana.

Respirou fundo, retirando o blazer danificado. A mãe havia chamado-o de Theodore, a esposa e amigos íntimos de Theo. Ele gostava do som, e agora iria deixá-lo para trás.

– Claro que não é humana, você não entende! Se entendesse… não…. – ele viu o sorriso perene no rosto da baixinha, seus modos suaves, e enervou-se – não estaria assim.

– Assim?

– É. Feliz.

Afinal morrer era uma coisa triste.

Os olhos cor de mel titubearam por um instante. Creio que por isso a maioria deles tem uma severa dificuldade em lidar comigo, pensou.

Ela não tem nome – não como humanos esperam ao menos – ou uma função que consigam compreender. Também não possui uma boa resposta para perguntas como “como é o céu?”, “existe inferno?”, “O paraíso é como me falaram?” – e a melhore delas na opinião da baixinha: “Então minha religião estava errada?”. Era um tanto desconcertante porque ela acabava sempre rindo e os humanos pareciam ser muito sensíveis quanto as suas dúvidas e temores.

– Vocês se preocupam muito. – Limitou-se a responder. Tinha em mente que a maioria dos seus encarregados não esperava encontrá-la. Os humanos não acreditavam de fato na morte, pois sempre ficavam muito surpresos com ela. E havia o medo. A pequena supunha que todos eles tratavam a passagem como uma fera – algo selvagem, bruto, que pode ser afastado.

– E você não tem preocupação alguma.

– Na verdade eu tenho. Se eu não levar você…

– Vai ser punida? Porque se for, eu realmente vou pensar em ficar!

Era sempre assim. As emoções daqueles a quem deveria guiar transitavam entre o medo, decepção, raiva, alegria… e quase sempre misturadas a muita surpresa. O humor deles oscilava ainda mais por causa de suas dúvidas. E haviam muitas. Contudo, a pequenina não podia descrever como é o lugar para onde vão, porque nunca esteve lá. Tão pouco sabia por quanto tempo ficarão – pois era certo que um dia voltarião. Era difícil explicar que não importa se estava correto ou não o caminho religioso que tomaram – a verdade é que o que conta é o que vai no seu coração.

Mas por eras, a pergunta que sempre lhe dera mais trabalho era “O que – ou quem – é você?”. Quem a melhor a definira – a ela e seus pares – foram os gregos. Lembrou-se disso com certo prazer quando seu próximo encarregado a fez pisar em Veneza.

A pequenina poderia escolher um modo de guiá-lo para além daquele mundo de carne – fosse por uma porta de luz, por uma estradinha, fazendo-o fechar os olhos. Mas ali, pensou, era apropriado pegar um barco não? Algumas pessoas se sentiam mais seguras assim, deixando o mundo de uma maneira bem humana – como da vez que tivera de dirigir uma limusine para uma idosa senhora rica.

Claro, às vezes ela perdia uma alma. Não é como se elas pudessem fugir ou esconder-se. Simplesmente não queriam partir, prisioneiras dos restos de sua vida, agora, passada. O que era muito triste, pois esses humanos estavam fadados ao “lugar nenhum” e quanto mais demoravam mais difícil ficava deixar aquela terra. Mais presos ficavam aos dramas de suas antigas famílias, aos farrapos de sua existência.

A dor daqueles que conheceram os intoxicava como mel envenenado – tão doce, tão perigosamente paralisador. Depois, com o tempo, o esquecimento aqueceria os corações desses pobres espíritos humanos com raiva, desgosto e desprazer. E ainda haviam aqueles que movidos por vingança, ódio e revolta, se colocavam a interferir no mundo que não era mais deles. E como iria explicar para aquele homem, tão amargo com sua morte, que havia pressa na partida? Porque a dor de um companheiro assassinado, de um filho morto, eram incrivelmente poderosos. Ele escutaria as vozes, sem dúvida. Logo os dois ouviriam o lamento dos queridos de Theodore fazerem o espaço a volta deles quase pulsar. Enquanto não descobrissem seu corpo no fundo de um dos muitos canais de Veneza, haveria tempo. Mas ela nunca podia contar muito com o tempo.

– O que foi isso? – Theo perguntou assustado.

Isso, pensou a baixotinha, é o aviso de que devo me apressar. Respondeu:

– Sussurros.

– Eu sei. Mas de quem? Deus é mulher? – Estava confuso. Havia uma voz feminina murmurando, irreconhecível, ao menos agora.

– Deus É o que É. Vamos. – a mãozinha infantil apontou – Tomar o barco.

– O barco?

– É… veja, não é como seu houvesse um Aqueronte… ah, antes que pergunte, alguns de vocês me contaram sobre o Tal Caronte, mas não, eu não sou ele.

-Caronte?

– Ah, achei que conhecesse esse mito. Bem, é um mito apropriado. Uma pena.

– Tenho de conhecer mitos para entender o que esta acontecendo?

– Sabe, seria mais fácil se você tentasse parar de ficar zangado com tudo. Eu não sou a morte, tão pouco escolhi a forma da sua passagem. Eu não sou um anjo – nem o seu anjo da guarda – ou qualquer coisa que o valha. Eu sou o que sou. E nesse momento, sou sua guia.

-Guia… e não sabe para onde vou, não é? – Resmungava cínico. Fora uma das primeiras respostas que receberá. Frustrante, como muitas outras.

– Não é meu destino, nunca estive lá.

– E você, não morre?

– Não é como se eu tivesse um “corpo”. E você não esta morto. Só não esta mais, bem, não esta mais vestido para aquela terra.

– É fácil para você, não é?

– É claro.

Ela sabia que ele ficaria irritado, então lhe deu as costas e entrou no barco. O homem era o tipo que briguento, que não aceitava outra realidade que não fosse a que ele esperava. Então seria melhor deixá-lo inseguro, mas só um pouco.

– Onde vai?

– Onde vamos, certo? Vamos pegar um barco.

– São sempre barcos?

– Ah não, podemos caminhar se quiser. Eu posso fazer um porta para você, ou, se preferir, simplesmente feche os olhos.

– Você esta brincando comigo.

– Não, mas, deixe-me falar, com todo o respeito. Você esta com receio – havia escolhido a palavra com cuidado, pois medo não seria adequado, apesar de que de certa forma, era o que dominava o homem – de seguir. Não posso dizer que entendo. Também não posso dizer se a viagem será agradável ou segura. Não encontraremos perigo algum que ameasse sua alma – porque ela é imortal. Eu só posso dizer que garantirei que você chegue a seu destino, se assim você desejar.

– Se eu desejar?

– Sim. Humanos são dotados de livre arbítrio. Com ou sem corpo.

– E porque eu não posso escolher ficar vivo?

– Porque outra pessoa escolheu matar você. A liberdade é assim. Não garante segurança.

Tentou não achar graça na dúvida que se instalou no homem. Eram suas proprias experiências borbulhando ali, suas próprias culpas. Procurou nos olhos daquele homem e viu que ele, assim como o homem que tirara seu direito a caminhar pelo mundo carne, haviam abusado de seu livre arbítrio.

– Eu fui punido?

Será que ele havia matado alguém? Ou talvez tivesse feito algo muito ruim. A pequena guia sabia que essas perguntas só brotavam quando a culpa ganhava voz. Lembrava-se de que, algumas vezes, eles a tomavam por um tipo de confessora também. E a muito desistira de explicar que não era assim, que quer lhes contasse seus erros ou não nada mudaria. Não era uma redentora, tão pouco uma juíza. Quando entendeu que alguns deles precisavam simplesmente desabafar, decidiu não mais explicar, a não ser que perguntassem. Aquilo muitas vezes facilitava seu trabalho – era como uma isca.

Quis sorrir. Não sabia se Theodore seria punido.

– Quais são suas culpas? – Perguntou de forma casual, enquanto pegava um grande bastão. Havia feito o objeto aparecer ali no momento que decidira usar uma gôndola em seu próximo trabalho.

– Você não sabe?

– Você sabe? – Sorriu, e tomou o lugar dos gondoleiros. Gostava do mito de Caronte. Se esse homem tivesse humor, ela poderia pedir a ele alguma coisa pela viagem, só pela poética.

– Eu vivi, foi o que eu fiz. Tentei crescer na vida. Como todas as pessoas, eu busquei o sucesso.

A guia suspirou pesadamente, rindo por dentro.

– E como buscou o sucesso?

O homem titubeou. A pequenina decidiu então usar um apelo teatral. Apontou a longa haste para ele, e esperou um instante. Aquele movimento não tinha significado algum, ao menos não para ela. Ele tremeu.

– Porque sussurram?

Agora era mais de uma voz. Antes, a voz feminina havia chamado poucas vezes, agora outras haviam se juntado ao coro. Ao menos não estavam gritando. Ainda.

– Posso lhe contar, se embarcar.

– Não quero.

– Claro que não. Como não queria ser morto. Como já não quis muitas coisas.

– Eu deveria… ter feito o que eu queria então, é isso.

– Querer é um constante problema, não é? Porque o que você quer pode ir contra ao que deve fazer. Tendo em vista que sua liberdade de escolha lhe da direito de decisão, bem… A verdade é que, se você entender que liberdade implica em responsabilidades, vai entender que muitas das suas ações, apesar de serem a contra vontade, foram bem feitas, sob certo ponto de vista.

– Como é?

– Eu lhe disse. Liberdade não oferece segurança.

– E você?

– Lhe asseguro que chegará a seu Destino. Nada mais.

Era alguma coisa. Theodore estava confuso. Queria refutar, queria brigar, queria matar o infeliz que o matara. Queria muitas coisas. Contudo sua vida havia lhe dado algum bom senso. Foi preciso apenas uma pequena lasca dele para fazê-lo seguir o ser que se apresentara a ele. Ela sabia o que fazer. Ele não, apesar de ter muitas vontades.

Foram as passadas mais duras de toda sua existência, ao menos a que recordava. Por fim, quando o barco balançou em protesto ao peso do homem, perguntou:

– Porque balança? Eu estou morto.

– Sim, mas não quero que se sinta mal. Pelo contrario. E acredito que se sentirá mais a vontade se o barco oscilar enquanto nos conduzo.

– E eles? – fez um movimento de cabeça, indicando os fantasmas diáfanos que avultavam a volta deles mais intensamente agora. Theodore sabia serem pessoas dotadas de corpos. Estavam vivendo suas vidas carnais – ao menos fora o que a pequenina dissera.

– Talvez nos sintam, se é o que quer saber. Um ou outro poderá nos ver. Quem sabe escutem.

– São eles que sussurram?

A pequenina deixou sem resposta a pergunta. O homem começava a divagar. Como poderiam chamá-lo, se não o conheciam?

– Vamos demorar um pouco – disse, sem lhe contar que era porque ela queria assim. A verdade é que achara o rapaz interessante.

– Posso perguntar algo?

A pequena olhou para cima, pensando consigo mesma “Ele já não o fez várias vezes? “.

– Pergunte.

– Como você sabia que eu iria morrer?

Não era a pergunta certa, mas tinha potencial.

– Para mim é como ver uma rosa prestes a florecer. – Explicou enquanto empurrava a embarcação para longe da margem. – E da mesma forma eu percebo os indícios da morte, como você perceberia um botão ainda imaturo em uma roseira. Ele esta lá, crescendo a cada dia. Assim é morte. – Sorriu, e depois de uma breve pausa, deu seqüência. – Mas para vocês, isso só é verdade se estão doentes. Não é bem assim. Eu estou guardando você há dois meses, mas apenas algumas horas sua flor desabrochou.

– Meses?

– Isso mesmo. – E deu um impulso mais forte, fazendo o bramido da água abafar os murmúrios por alguns instantes. Se ele quisesse voltar agora, seria desconcertante. E, era certo, começavam a se preocupar com ele no mundo da carne. Talvez seus conhecidos estivessem se comunicando, perguntando onde ele estava. – Meses. – Continuou a pequenina – Você pediu desculpas a sua esposa ontem por ter estado ausente não foi? Telefonou pra sua sobrinha com quem não fala a tempos… e mês passado fez questão de reunir seus velhos amigos.

– Fazia muito tempo que eu não fazia essas coisas…

– Exatamente. E quis fazê-las mais uma vez. Veja, em vida, matamos muitos de nossos companheiros de caminhada, simplesmente porque não os vemos mais. Eles não estão verdadeiramente apartados da carne, mas a pessoa simplesmente não existe mais na sua vida. Quando setem que sua hora de deixar o reino da carne se aproxima, simplesmente dizem adeus. Quer dizer, a maioria. Seus espíritos se lembram de nós, os Guias – e os espíritos de seus queridos também. Vocês todos nos sentem por perto. Por isso uma mãe sente o coração apertar quando vê o filho sair, e a noite, quando descobre que ele morreu, sabe que pressentiu a passagem. Um amigo que pede para você não sair na chuva. Um irmão que pede para você tomar cuidado no trânsito. Seus espíritos sabem. – A menininha tomou um suposto fôlego e continuou. – Então é bem comum que você encontre alguém que não via a muito tempo, mesmo que sem querer. Que peça desculpas por algo que sabia estar errado, mesmo que o outro sequer lembre do que você fez. Vocês nos percebem, sabem e não sabem. Então seus espíritos se despedem do mundo.

– Mas eu não me lembro de você, como podia saber? E havia tanta gente da qual eu sentirei falta…

– Sim, mas não se preocupe. Deste lado, ou do outro, um dia vocês se reunirão. Podem não se reconhecer, talvez vejam-se apenas uma vez, e por alguns momentos. Mas seus espíritos saberão.

E a barca deslizou, suave. A pequenina achou apropriado que ele se despedisse devagar do mundo que deixara, então havia bruma. E nela a embarcação penetrou.

Para trás ficava a carne e com ela um sem número de coisas inacabadas. Mas elas nunca haviam importado, e Theodore logo saberia. Que o que o definia não eram seus problemas, nem suas façanhas, mas as marcas que deixara no coração daqueles com quem convivera. Então um dia entenderia porque a barqueira não tinha nome. Porque “Theodore” não era quem ele era, mas sim um estado passageiro. Quando voltasse, se a baixinha estivesse correta, então não precisaria de um nome, uma aparência para ser reconhecido por aqueles que o amaram e odiaram.

Um dia.

– Você ouviu isso?

A condutora sorriu, tendo ouvido o primeiro grito. Seria sua mãe? Sua esposa? Talvez a sobrinha de Theo tivesse recebido a notícia primeiro e gritado. Meditava sobre isso enquanto empurrava a barca. Para longe, para a bruma.


Categorias: Agenda |

6 Comments»

  • Lord Jessé says:

    Nossa!
    Gostei bastante da forma como escreveu.
    Foi incrivel, fiquei viajando aqui no conto.

  • Asami says:

    Adoro textos sobre espiritualidade *-* Esse então, ficou lindo, divino. Luciana, é maravilhosa a forma como você consegue transformar um assunto complexo como a vida após a morte em algo tão singelo, tão fácil e tão belo. Como consegue trazer à tona, de uma forma pacífica, todos os anseios humanos sobre o que nos aguarda depois dessa vida. Espero por outros contos teus 😀

    • Lord Jessé says:

      E na ultima vez em que comentei esqueci de mencionar.

      A ideia da morte leva-lo numa barca, faz lembrar a mitologia grega, quando para ir para o mundo dos mortos era preciso atravesar com o barqueiro.

      Continuao com minha opinião de que é um bom texto.

      • Asami says:

        Sim… também acho que essa barqueira tem outras estórias a contar. Espero que a Luciana apareça e dê continuidade a esse conto -_-

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