Astério e Kentauro
Escritor: Vitor Vitali

Próximo a Taberna, onde nenhum homem pode chegar com as próprias pernas, estava a Casa dos Irmãos – Letes e Inspiratio. Nos fundos da Casa, no jardim onde a luz, se não a das tochas, jamais chegava, estava o grandioso jardim que Letes encabeçava, onde sem números de corpos estavam enterrados esperando um dia serem retirados da terra por seus donos que ainda deixavam ali suas lembranças ao morrer. Seu irmão, Inspiratio, passava, no entanto, suas noites em sua suntuosa biblioteca de livros em brancos, tendo as mais impensáveis idéias enquanto fumava seu escurecido cachimbo de madeira e poucas visitas recebia.
No interior da casa, em um grande salão de arquitetura clássica, onde estavam as mais incríveis tapeçarias de guerra e objetos de coleção de valor único e inestimável, sentavam-se a frente de um tabuleiro no centro do salão, em lados opostos, um ser com tronco e membros de homem, mas cabeça de touro chamado Astério ou Asterios; e um outro com cabeça de homem, mas dorso em pelos e da cintura para baixo cavalo, chamado de Kentauro. Jogavam e eram apaixonados pelo jogar. Naquele momento concentravam-se à jogar quando as grandes portas do salão se abriram e os dois irmãos entraram.
–Aprontem-se pois iremos a Taberna – diz Inspiratio bagunçando os cabelos. – Esquecimento tem muito… – percebendo ter pronunciado um nome que o irmão não muito gostava Inspiratio arruma – … digo, Letes tem muito o que contar e eu tenho muito a escutar. Seria bom a vocês que ouvissem também.
–Certo que tenho histórias boas para lhes entreter – respaldou Letes, simpático como sempre vestido em seu jeans desbotado, carregando sobre o ombro sua pá.
–Vão ambos, tu, Peregrino e ele, O Coveiro – respondeu Kentauro a Inspiratio sem retirar os olhos do tabuleiro. – Este Minotauro e eu temos um jogo a terminar e não temos tempo a perder. A qualquer momento pode vir um Teseu lhe retirar a vida mesmo que ele a esconda em um labirinto de emoções – brincou Kentauro, o Centauro.
–Tu esquece de minha força, irmão Kentauro e meu talento nato para o jogo – provoca Astério, o Minotauro. – Ao menos não terei que servir de mula de carga para homens como se fosse uma mera ferramenta, como tu é e sempre foi.
O Coveiro e O Peregrino se olham e como pais que desistem de carregar suas crianças, o que aqueles jogadores não eram, fecham as portas e partem sem eles, despedindo-se com acenos e cortesias, então os dois voltam a concentrar-se inteiramente em seu jogo.
–Acredita mesmo que irá ganhar? – Pergunta Astério. – Lhe falta um coração nesse peito animal, um ímpeto de batalha e dedicação, amor ao ato que tu nunca sentiu.
–Não preciso acreditar que irei ganhar, já é certo minha vitória – retruca Kentauro. – Lhe falta nesse corpo animal uma cabeça para pensar; a estratégia de um vencedor, o vento cortante e certeiro, não a turva e volúvel água que você sempre foi.
Os irmãos retomam suas jogadas, Astério baseando as suas em seus sentimentos, pois lhe faltava uma cabeça para pensar e Kentauro apenas na mente, pois lhe faltava um coração no peito.
Então Astério move uma de suas peças casas à frente e cria uma guerra entre famílias fazendo que um filho de uma se apaixone pela filha de outra, sendo ambas rivais. Kentauro faz sua jogada e cria atritos diplomáticos que acabam levando a uma guerra entre países do extremo norte. Então o irmão com cabeça de touro faz sua jogada ambiciosa, criando infindáveis guerras religiosas por todo o mundo enquanto o irmão de corpo de cavalo cria crises econômicas em um grande país e potencia industrial, libertando uma verdadeira e violenta guerra civil nas ruas. Astério incentiva os homens em sua curiosidade desenfreada para as pesquisas em genética aplicada e acaba gerando um acidente biológico que leva a extinção mais da metade de todas as espécies do planeta, gerando fome e pragas infindáveis por todas as partes. Kentauro responde a jogada do irmão movendo suas peças em ritmo de ataque e cria, utilizando as mais sujas jogadas sociais, uma sociedade enterrada em censura politica que acaba por sucumbir em si mesmo, abrindo as portas para uma invasão inimiga.
E os irmãos seguem noite adentro em seu jogo, ora gerando conflitos, ora guerras, ora atritos, ora tréguas; nunca paz. Até que por fim seu jogo chega a um final e eles riem consigo mesmos. Os irmãos se levantam; Astério em suas duas pernas com cabeça de touro, Kentauro em suas quatro patas com cabeça humana, e caminham para fora do salão conversando e praguejando em tom amigo, sobre o resultado do jogo que havia sido exatamente igual a todos os outros. Apenas um empate.
15 Comments»
RSS feed for comments on this post.






















Sobre livros e suas adaptações cinematograficas
#ficadica 004 – Escrever todo dia é a fórmula do sucesso?
A Máquina Diferencial
Resenha do livro "O estranho mundo de Tim Burton"

O inicio esta muito confuso. Sei la. Nao consegui passar da introducao, tirou todo meu animo. Sem numeros? Sei la, realmente me perdi no primeiro paragrafo.
Provavelmente você deveria ler todos os anteriores antes. Só clicar na Pizza ali ao lado ^^
Na verdade é uma divergencia de estilo.
-
Eu gosto de coisas mais concisas. “A literatura é dividida entre os concisos e os suculentos”. Eu prefiro os concisos,uma questao de gosto só.
_
Porem a historia esta bacana.As furias de seu mundo.Realmente o conceito foi interessante.
Me senti sentado na biblioteca vendo essas duas criaturas jogarem.
Estava ouvindo a trilha sonora do filme A Paixão de Cristo, e a música orquestrada, lenta, com coral, tensa e obscura deu um clima especial ao conto.
Gostei muito do contraste pensamento e sentimento.
Gosto muito de contos que mostram pouco, ou são tão oníricos que a cabeça viaja. Senti falta só de um pouco mais de explicação sobre os dois irmãos (Coveiro e Peregrino), desculpe se foi ignorância minha não ter entendido algo e estar falando besteira.
No mais, é isso aí.
Muito bom conto.
Parabéns!
O Coveiro e o Peregrino foram apresentados em contos anteriores.
No entanto, devo adimitir que eu escrevi esse conto mais para mim mesmo do que para publicação.
Ah sim, perdoe-me, então, o não conhecimento dos outros contos.
=D
Cara, adorei.. sério. Adoro essa fantasia, esse mundo que você vai criando Vitor. Quando você se mete por estes mundos fantásticos da sua cabeca, só sai coisa boa cara.
–
Se um dia teu livro sair, espero que seja neste estilo, neste seu estilo fantástico. Com certeza compro… e leio!
Adorei tb cara, demais
Belo conto!
Nomes muito interessantes!!!
Relendo agora eu nem gostei. Ficou pessoal de mais.
Mitologias e estados da mente são complicados de fazer, mas dão excelentes resultados, quando bem aplicados. Parabéns, Vitor.
“Relendo agora eu nem gostei” #mimimi
¬¬
Gostei do conto, dos personagens e do jogo, pois parece as coisas do mundo real acontecendo no mundo da fantasia. Guerras, maus governos etc. Muito bom mesmo.