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Apr
21
2010

Indiferença

Escritor: Caio Martins

– Não há restrição num mundo de paz. – Dizia o professor. A sala de aula estava quase vazia. Havia um suave espanto nos alunos estudiosos, pelo milagroso silêncio.

Eram apenas três. Três alunos dedicados, que haviam comparecido à estas aulas facultativas apenas para tirar uma nota mais alta. Lawrence Perkins. Arthurius Adalberon. Christopher Kozerovitch. Nomes incomuns, poderosos. Mas, desses três, apenas dois se concentravam no professor. Um deles se perdia na sua admiração e ódio pelo mundo. “Não faz sentido ficarmos aqui”, ele pensava. “A morte faz sentido, a vida não faz”. E nesses diálogos mentais sobre o sentido, ele ia se perdendo. “O professor está falando alguma coisa importante. Provavelmente, eu teria de prestar atenção”, pensava. “O que é reflexivo. Não estou ganhando mais pensando comigo? Por que tenho de me fingir de esforçado?”. O garoto tinha poucos
amigos, e definitivamente Christopher não era um deles. Asqueroso, desengonçado e anti-social ao extremo, ele mal sabia conversar. E, como o garoto também era anti-social, não perdia tempo com tipos como Chris.

– … um mundo de paz é tão utópico quanto a falta de leis – dizia o professor. E o garoto só ficava mais confuso com esses trechos de aula que pegava, porque justamente parecia combinar com o que estava pensando no momento. “Erkstrom, Palloth, Newton… Não foram grandes PENSADORES? Tiveram de ser bons aprendizes antes, de fato, mas será que não divagavam nas aulas?”. Ficou surpreso quando viu
seus dois colegas se levantarem para ir embora. Se arrumou também.

Ele usava uma camisa preta, geralmente de gravata. Óculos, cabelos despenteados mas não rebeldes. Preferia o social fino ao esportivo. Seus colegas eram parecidos. Ele era violinista, e sabia que um dos outros era pianista e o outro violoncelista. No fundo, ele precisava daquelas pessoas, mas conversava muito pouco com o outro “dedicado”, quanto mais com o resto da sala. Achava-os indignos, e achava a si
próprio indigno. Havia um quê de arrogância ao arrumar a gravata. O professor, de cabelos brancos e olhos sofridos, o parou na porta.

– O que você entendeu dessa aula?

– Que o anarquismo seria o sistema perfeito de governo, na sua visão política, professor.

O professor sorriu.

– Não me ouviu dizendo que sou Marxista? E que parte do “utopia” você não entendeu, visto que isso tenho certeza que você ouviu…?

O garoto quase corou, mas se controlou.

– Lamento pela minha falha.

– Você sabe que essas aulas não são de presença obrigatória, não sabe?

– Quero aumentar minha nota.

– Está abaixando. Não jogue fora sua chave do paraíso assim.

O menino quase deu risada.

– Professor, temos concepções bem diferentes de paraíso.

– De fato temos. Um bom dia.

– Para o senhor também.

Na saída, viu o reflexo de dois olhos, e da pessoa que logo virou as costas e foi para o lado oposto, com um meio-sorriso. Sabia quem era; Pensou em seguí-la, mas achou empenhoso demais. Ele ainda estava reflexivo…

Sentiu um empurrão nas costas.

– Ei. Você está no meu caminho.

“Ah, é esse idiota.”

– E…?

– E… E se você não sair da minha frente, eu vou te bater.

“Esse cara é um retardado. Se acha o macho-alpha simplesmente por ter algum talento com esportes”. Naquele colégio, aquilo era comum, mas o garoto “dedicado” tinha uma antipatia em especial com o outro em questão. Este o odiava, pois a garota que ele “era afim” só andava com o “nerd”.

– Vai me bater? – Sua voz abaixou em tom de desafio. – Você não vai me bater. Suma da minha frente.
O “valentão” riu.

– Oooolha, o nerd querendo se pagar de machão…

Não chegou a terminar a frase. A mão do outro garoto vôou na sua boca, e rapidamente outra mão acertou-lhe o nariz, fazendo com que caísse no chão. “Ah, odeio isso, mas esse imbecil estava pedindo hoje. E as coisas não estão boas.”

Ouviu um “tsc, tsc” atrás dele.

– Que feio. Batendo em garotos. Isso é coisa de brutamontes.

– Ah, meu dia está ruim. Deu vontade.

– Que raro o grande gênio se descontrolar. – Era uma garota baixinha, sempre com um meio sorriso no rosto, e era o par de olhos que tinha visto. Era, inclusive, a garota pretendida pelo garoto estendido no chão…

– Blá, blá, blá. O que você quer?

– Qual sua concepção de paraíso? – Ela olhou-o, diretamente.

Ele abaixou a cabeça, voltando à sua reflexão.

– Estive pensando nisso.

Ela sentou-se num murinho, ele ficou de frente para ela. Ela sorriu. Para variar.

– Oh, lá vamos nós. Declarações que mereceriam um prêmio nobel.

Ele gostava desse sarcasmo dela, mas se fingia de ofendido.

– Blá, blá, blá…

– Me diga seus pensamentos, então.

– Muito bem, espere…

Ele começou um discurso que seria aclamado até por Freud.

– O paraíso é imaginário – disse. – Só temos uma noção do que é estar bem e estar mal, e dessas duas noções tiramos nossas ideias de céu e inferno respectivamente.

Mas isso é psicológico, afinal, não sabemos institivamente o que é bom e o que é ruim, só vivemos sendo condicionados para sabermos. De modo que somos tão vulneráveis a manipulações e semelhantes…! E também mostrando o quão infindável é nossa ideia de mal e bem. Vide o tempo que eles demoram para resolver…

A garota sorriu, e piscou os olhos. Admirava o garoto em questão por conseguir dizer tais coisas.

– Isso faz mesmo muito sentido. Mas que utilidade tem? – Amava mais provocá-lo do que a ele.

O garoto não se fez de coitado.

– Alguma utilidade. Mais do que essas aulas extras idiotas.

– Então porque vem para elas?

Ele suspirou.

– Nada é inútil.

– Nem as aulas, nem o tempo que você ficaria em casa dormindo. – A garota sorriu denovo, continuando a provocá-lo e achando extremamente divertido.

– Receio que elas tendam a ser mais útil que algo como “sono”. Afinal, se eu não tivesse vindo para essa aula, não estaria conversando com você…

O sorriso morreu nos lábios dela.

– Isso foi… um elogio?

– Não, foi uma comemoração ao fato das Olimpíadas virem para este país de merda.

Ela riu. Nessas horas que sentia vontade de pular nele.

– Obrigada…

– Não é algo para se agradecer, visto que só estou brincando com você. – Ele riu, e se afastou. A garota ficou meio boquiaberta, sem conseguir responder.

Ele pretendia sair dali, ir para casa, talvez. Ia ter mais aulas no dia, mas estava sem paciência. Algo raro. Ele gostava das aulas, lhe davam tempo para pensar.

Entretanto, no meio do caminho, deu de cara com um inspetor, que parecia, no mínimo, a ponto de matar um mendigo.

– Ora, ora, se não é o encrenqueiro!

– Encrenqueiro? – Ele quase havia se esquecido que tinha mandado um garoto para o hospital.

– Se fazendo de cretino, de coitado, como sempre! Mas eu conheço muita gente da sua laia.

– Pois devia ocupar-se mais com gente da sua. Com licença. – O garoto era muito desbocado. Não se importava em absoluto com o que pensassem dele… Gostava de tão poucas pessoas…

– Como assim, “com licença”? Aonde o mocinho pensa que vai, hein? Você vai me acompanhar até a pedagoga…

“Puta merda”, pensou o garoto. “Esse cara não vai me deixar sair daqui, numa das únicas vezes que eu de fato quero…”. Ele tentou fazer cara de deboche para o inspetor, mas estava irritado demais, e só conseguiu mandar um olhar de raiva.

– Cara feia para mim é fome, pirralho. Vamos logo.

Ele respirou fundo.

– Eu não vou.

– … você não vai? E desde quando você tem idade para se mandar, pirralho?

O que o “gênio” mais odiava nesse inspetor, era isso. Para ele, até dezoito anos era criança, que não tem cabeça para nada. Mas o menino sabia muito bem que podia contra-argumentar com qualquer pessoa… Seja mais velha, ou não. E naquele dia, em específico, ele não estava muito bem. E não sabia porque; E isso, somado ao fato de ser cara-de-pau e arrogante, fez com que desse uma resposta não muito educada ao inspetor, que ficou muito furioso.

– Você não é nada pra falar assim comigo, pivete! Agora vai me acompanhar, ou serão DOIS os garotos que irão para a ambulância hoje!

O menino respirou denovo, e aproveitou a oportunidade.

– Ah, isso é uma ameaça? Que interessante… Isso dá pena de dois anos, eu acho. O que seria uma maravilha, livrar esse colégio de uma praga.

– Eu nem preciso sujar minhas mãos com você… Muita gente ficaria feliz em receber uns trocados, entende, e eliminar algumas porcarias. – os olhos do inspetor estavam apertados, e ele parecia estar se controlando ao máximo.

O garoto riu de verdade. “Que homem idiota! Entrar num joguinho de uma ‘criança’, como ele mesmo diz! Imbecil…”. Nisso, sentiu uma mão segurar a dele, e uma voz firme, mas feminina, falou:

– Desculpe, sr. Tobias. Ele não está em perfeitas condições mentais hoje. Amanhã ele vem, e fala com a pedagoga. E por favor, não pague ninguém para atacá-lo.

– Ele é louco, isso sim. Vou providenciar para que seja encaminhado para um psicanalista…

O sr. Tobias, o inspetor, era um homem muito simples. Para ele, crianças não tinham idade para pensar, nem sonhar, nem refletir: Deviam jogar futebol com seus amiguinhos, beijar garotinhas, falar besteiras e respeitar os adultos, como todos faziam. Não entendia como uma criança como o garoto em questão podia preferir ficar quieto, lendo, a participar de algum esporte. Por isso, tinha raiva e um tanto de medo do menino, e vivia forçando-o a se enturmar.

Já o garoto sentia-se puxado pela menina, e ainda ria. Não fazia força para detê-la, mas não ajudava-a. A garota – a mesma do par de óculos, e uma das poucas que aguentaria conversar com ele – jogou-o num banco (precisou de toda a força que tinha para isso) do pátio da escola, e ficou observando ele rir, sentando-se numa cadeira na frente dele. Quando se encheu de ouvir as risadas, perguntou:

– O que foi isso? Nunca te vi assim.

Ele parou de rir, e respirou fundo.

– Pensamentos demais… Raiva, decepção. Eu sou assim. Devia já ter se acostumado.

Ela meneou a cabeça.

– Para mim você sempre foi um garoto frio, que não se importa com esse tipo de sentimentos idiotas. Então, também estou decepcionada.

– Eu não me importo, mesmo; Por isso, na maioria das vezes, nem tento refreá-los.

Eu só estava muito preocupado com alguma coisa que nem me lembro mais o que é, e isso me fez acreditar que eu estava tendo um dia ruim, e uma série de fatores me comprovou isso. Então, me irritei com o babaca do inspetor, e ele teve o que merecia.

Foi a vez da garota respirar fundo.

– Na verdade, eu sei o que lhe falta… Vamos sair deste pátio, quero conversar mais com você.

Nada o deixaria mais feliz que sair daquele pátio, então aceitou de bom grado. Já tinham saído do colégio, e estavam num ponto de ônibus. Eles pegavam o mesmo ônibus para ir pra casa. Ela teria prova hoje, mas não se importou; Preferia conversar com o garoto.

– Então, o que me falta? – Ele olhou diretamente para ela, dentro dos olhos. Na verdade, a garota sentia medo quando ele olhava assim, e desviou o próprio olhar.

– Não é nada. Foi só pra te deixar curioso e te tirar de lá.

Ele estalou o pescoço, ainda no ponto de ônibus, e coçou o queixo.

– Artifício interessante… Embora eu seja bom para ver quando as pessoas estão mentindo. Em especial, você, que eu já me acostumei…

Ao ouvir isso, a garota não aguentou mais. Virou o rosto para ele, aproximando-se rápido, e teve de ficar na ponta dos pés. Deixou os lábios tocarem-se por uma fração de segundos, o suficiente para ver as pupilas do garoto dilatarem-se. Depois, se afastou, ficando em pé novamente, suspirando e sorrindo para ele, deliciando-se com o fato de que tinha pegado-o completamente desprevenido e deixado-o surpreso. Ela
esperou ele dizer algo, mas ele parecia não querer falar nada, e ainda estava meio atônito.

– É isso o que lhe falta, moleque.

Ele piscou os olhos e também sorriu.

– Fiquei surpreso…

– Capitão Óbvio. – Era uma frase que fazia o garoto lembrar-se de Lawrence, que sempre dizia esse tipo de conotação.

– … porque esperava que você me dissesse “eu te amo, gosto de você desde a primeira conversa que tivemos, admiro muito o jeito que você fala e como acerta em cada palavra que diz”.

A garota sentiu irritar-se, e sentiu que estava diminuindo.”Não acredito.”

– A quanto tempo… Você sabe?

– Desde a nossa primeira conversa, é claro. – Ele parecia inocente, mas a garota agora sabia que ele só estivera brincando com ela. “Como ele tinha dito…”

– Então, você falava as coisas para mim, me considerava sua amiga, dizia que valia a pena vir para a escola porque ia me ver… Para se divertir?

Ele sorriu, abaixou-se e beijou-a. Mas dessa vez, foi um beijo de verdade, não apenas um encostar de lábios. Ela o afastou, irritada.

– Não adianta, não vou deixar que brinque com meus sentimentos, também!

– Não estou brincando com nada. De fato, eu apenas lhe dava bola porque era divertido. Mas eu gosto de você. O máximo que eu posso gostar de alguém, eu diria.

O ônibus chegou, e a irritação da garota deu lugar a uma felicidade irreprimível.

“Ele gosta… Ele gosta de mim…?”. Ela estendeu a mão para ele, sorrindo, para entrarem no ônibus – não conseguia falar nada, mas ele apenas meneou a cabeça.

– Nada disso. Eu vou no próximo, e você vai neste. Preciso raciocinar um pouco.

Sozinho.

Ela se decepcionou um pouco, mas assentiu, ainda sem conseguir falar nada. Virou-se para ele, olhando-o, e sussurrou:

– Tchau, então…

Ele deu um selinho nela, falando muito baixo.

– Tchau.

Ela entrou no ônibus, e quando o ônibus saiu, ele sentiu que queria rir. Tentou se controlar, mas o estômago estava com calafrios, e ele não conseguia mais se segurar.

Explodiu em risadas. “Ela é uma garota definitivamente interessante…”.

Já a menina, no ônibus, estava pensando. Não sabia se de fato gostava dele, parecia bem mais uma hipnose. Ela adorava conversar, e definitivamente o achava atraente, e já havia se divertido pensando nele, mas… Ficara pensando em como seria namorar sério. Era a primeira vez que beijava alguém. Não lhe parecia cedo, mas, de alguma forma, ela achava que podia dar algo errado. Ele era um garoto perigoso, perigoso demais. E ela sabia que ele não se importava com os sentimentos de ninguém, e que
ela não era uma exceção à essa regra. Acabou dando-se conta que já estava em casa, e parou de pensar naquilo tudo. Ela era inteligente, mas até isso tem seus limites.

Disse um “oi” apressado para sua mãe, que estava fazendo panquecas, e foi ao banheiro, tirando as roupas e tomando banho. Não conseguia pensar em outra coisa exceto no beijo, e foi com dois dedos que ela se acalmou.

Alheio a isso tudo, o garoto já estava no ônibus, que demorara apenas uns três minutos. Ele parara de rir, e estava lendo um livro que estava em sua mala, que falava de religiões. Nem pensava mais na garota. Chegou em casa, e percebeu que havia um carro a mais. Era uma BMW vermelha. “Ah, não… Meu tio, justo hoje?”. Ele odiava seu tio. Entrou em casa.

– Ora, mas se não é o bandido! – ouviu a voz trovejante de seu tio Rubens.

Tio este que nunca havia perdoado completamente o que o garoto havia feito com sua filha. Quando eles eram mais jovens, mais precisamente, tinham catorze anos, a garota tinha sido a primeira namorada dele – mesmo sendo primos. O menino era bem pervertido, e não parava de excitar a garota, mesmo meio que sem querer. Acontece que um dia Rubens viu isso, expulsou o garoto da sua casa e ele, com raiva, terminou com a garota. Depois, o tio veio pedir desculpas, dizendo que era normal pelos hormônios, e o garoto também pediu desculpas, mesmo sem saber o motivo exato. Mas foi tão desajeitado e obviamente falso no seu pedido, que o tio percebeu, e começou a chamá-lo de “bandido”. O garoto não dava a mínima, e até se divertia com isso, mas ainda tinha raiva – e vergonha – do tio.

– Olá, Rubens. – Ele tinha o péssimo hábito de chamar seus familiares, exceto pais,pelo nome.

– Eaí, se divertindo muito em sua escola? Ligaram para cá hoje, sabia?

– Por incrível que pareça, tenho consciência das minhas ações. Óbvio que ligaram para cá.

– Você parece irritado! – O tio riu dele.

– Nem um pouco. Com licença.

Nisso, sua mãe apareceu na sala.

– Nada disso, mocinho. Que houve na escola?

– “Mocinho”? Agora vai começar a me chamar assim também?

– Desculpe, filho. O que houve na escola?

– Nada relevante. Um idiota me falou besteiras, o dia não estava bom, apenas descontei nele.

– … você bateu no menino?

– É. Achei que já soubesse.

– Mas ligaram aqui dizendo que você tinha respondido um inspetor… Não agredido alguém.

O garoto sentiu como se tivesse tomado um banho de água fria, e respirou fundo.

Nisso, o tio interferiu.

– Deixe-o, Elisa. Agora conte tudo, menino! Que mais tem feito na escola? Quem sabe, sexo com garotas de quinze anos?

Agora, o garoto sentiu-se explodir.

– Sua filha tinha catorze, idiota. E não fizemos sexo. E agora, eu tenho dezessete.

E não estou mais afim de ouvir sua voz fanha, e nem de ouvir um sermão seu, mãe.

Vou para o meu quarto, e por favor, não me aporrinhem.

A voz do garoto foi tão forte e decidida ao dizer isso, mesmo sem gritar, que os dois – mãe e tio – ficaram meio assustados, e não falaram nada. O tio, mesmo sendo um poço de vaidade e hipocrisia, tinha algum respeito pela estrutura da família e não comentou nada com a mãe do menino. Ele ficou lá deitado um tempão, até que sua mãe abriu a porta.

– O tio Rubens já foi.

– Ah, ótimo.

Ela estava preocupada.

– Que houve com você?

– Tive um mal dia.

– O que houve no seu dia?

– Nada importante.

– Nada o quê?

Sua mãe tinha o péssimo hábito de ficar fazendo perguntas desnecessárias. Era óbvio que ele não queria contar – na verdade, ele não sabia o que contar.

– Nada nada, mãe.

– … tudo bem. Quer comer algo?

– Não. Pode ficar despreocupada, estou bem.

– Então tá. – Obviamente ela continuava preocupada. – Vou viajar amanhã. Apenas um dia, volto na noite de quinta-feira. Pode ser?

– Claro. Só deixe comida. – Ele riu, lembrando-se da vez que a mãe viajou e ele ficou sem comer.

– Claro que sim. – Ela também riu.

O que o garoto adorava na sua mãe é que ela o entendia facilmente, e o tratava como alguém responsável e maduro. Era um pouco imperialista em alguns aspectos, mas no geral, era menos que a maioria das mães. Além disso, sua mãe era esforçada e nunca tivera muito tempo para ele.

Acostumado a viver sozinho, o garoto lamentava bastante quando o importunavam. Mesmo assim, sentia-se preso à pessoas e coisas, e isso era irritante… Nunca se importara com elas. Decidiu tirar isso a limpo.

No outro dia, de manhã, pensou que não queria ir para a aula. Apenas mandou uma mensagem para a garota de óculos, pedindo para ela ir até sua casa. Meia hora depois, ela batia na porta – havia matado mais uma vez a aula.

– Onde está sua mãe? – perguntou ela, meio sem jeito.

O garoto não respondeu, apenas beijou a menina. Ela, pega de surpresa, devolveu o beijo, mas ele já estava tirando sua camiseta.

– O que você está…? – Ela gemeu quando percebeu o que ele estava fazendo. Mais ainda quando sentiu as mãos dele dentro de sua calça.

– Pare com isso…

– Não quer experimentar? – Ele ergueu uma sombrancelha.

Ela não conseguiu responder. Gemeu denovo. Ele tirava a própria calça. Ela ficou assustada.

– Ei, pare, não somos namorados nem nada…

Já era tarde demais. A garota começou a meio gemer e meio chorar, nervosa. Apertava o lençol com a mão, e deixava-o mexer em suas pernas, sem poder fazer nada. Eles ficaram naquilo bastante tempo; Uma hora e meia, talvez. O garoto tinha limpado o sangue dela com o lençol da sua cama. Ela sentia dor, mas não ousava falar alto, e no fundo estava gostando daquilo.

O garoto parou, e vestiu suas roupas denovo. Atirou as dela nela, e ela vestiu-as apressadamente, também. Se levantou, mantendo-se o mais ereta que suas pernas trêmulas permitiam, e olhou para ele, com medo, e meio chorosa ainda.

– Já imaginou… Se eu engravido…?

– Não será da minha conta. Já fiz o que eu queria fazer com você, e você é bem idiota ou necessitada, não sei bem. Afinal, depois de dois dias… Bem. Ou eu sou talentoso com as palavras mesmo, não sei. Saia da minha casa. E não apareça mais aqui.

Completamente desprevinida, a garota olhou para ele. Não, não podia ser. Aquele amigo dela, a pessoa que ela mais considerava e amava, do nada se transformando…

Naquilo? Ela sentiu-se arrasada… E saiu da casa, sem se importar onde ia.

Ele teve a confirmação que precisava. Era mesmo indiferente e alheio, e nada nem ninguém ia mudar isso. “Este, então, é o sentido da minha vida!”, e não conseguia mais parar de rir quando pensou nisso. Saiu da casa também, apanhando seu violino e indo até uma avenida. Começou a andar no meio fio, rindo, e entendendo tudo que era, o monstro que ele havia se tornado, e tudo que ele dissera para todas as pessoas, tornou-se mentira num instante. Seus olhos não brilhavam mais, e o garoto – que não sabia disso – mais inteligente do mundo, se viu em um estado de loucura. Ele podia ter ganhado prêmios Nobel. E agora começava a se dar conta disso. E começava a entender porque Newton, Ekstrom e Palloth foram inteligentes… Não eram mais sábios que ele, mas conseguiam controlar sua inteligência. Embevecido e enlouquecido, corria, e tocava melodias perfeitas. Pensou nas pessoas, nas garotas que conhecia.

Pensou que então, assim, cumpria-se sua vida. Passou por uma ponte, olhou pra baixo por instinto e viu o par de óculos, tão lindos – e tão usados e desperdiçados por ele – caindo de seu rosto. Sentiu que não fora em vão, e mais atentamente, viu um outro par de óculos refletindo lá embaixo. Sentindo-se cortado, despedaçado, e no mínimo desumano, gritou por perdão. Não foi ouvido… Também já era tarde demais. Em
um último desespero, passou a avenida, sem ter noção que era mesmo uma avenida.

Todas as pessoas em carros olhavam para ele. Só conseguia lembrar-se de seu tio.

“Bandido”, dizia o tio. Ele sorriu quando sentiu algo chocar-se contra sua perna.

“Sou mesmo um bandido”, pensou, ainda sorridente. O violino escapou-lhe das mãos e vôou, caindo da ponte também. Ele mesmo sentiu-se suspenso no ar. Então, não viu mais nada…

No dia seguinte, foi confirmado como morto o garoto Arthurius. Sua mãe chegou de viagem, e não encontrando o filho em casa, ligou em desespero para todas as pessoas de sua lista de contatos – o celular estava em casa. Descobriu que a amiga dele, Marina, que já era uma conhecida, havia sido encontrada morta num rio, próximo à avenida dos Trabalhadores – a maior avenida da cidade, que era inclusive próxima à sua casa. Foi encontrado sêmen do garoto dentro da vagina dela. Temendo pelo pior, ligou para um hospital e descobriu que o garoto havia, também, sido encontrado atropelado muito próximo à ponte. O depoimento do inspetor Tobias disse que o garoto era anormal, e muitos também achavam Arthurius louco. Disse, inclusive, que tinha socado um garoto – Alan – no dia anterior à morte, sem motivo algum, e que tinha sido extremamente perturbador ao tentar ser convencido ir para a diretoria. Tobias também recitou que pretendia indicá-lo a uma psicóloga. A polícia envolveu-se no caso, tentando descobrir tudo o que podia. Alan, mentiroso, disse que já tinha visto Arthurius e Marina beijando-se várias vezes, e que provavelmente haviam brigado, pois também brigavam muito – e, dado o comportamento louco de Arthurius, devia ser culpa dele. A avenida era caminho para a casa dos dois. Suspeitava-se que os dois tinham brigado a caminho de casa – ambos tinham faltado a aula, então podiam ter ido a algum outro lugar -, e a garota, irritada, terminou o “namoro”. Fora de si, Arthurius a estuprou próximo ao rio, nos matos que tinha ali, para ninguém ver.

Desesperado, afogou-a. Depois, arrependido, jogou-se na frente dos carros, em estado de loucura. Vários motoristas – todos os que puderam servir de testemunhas – confirmaram que ele estava rindo ao ser atropelado. O que o atropelou jurou inocência, e disse que o garoto tinha algo estranho nas mãos, que vôou e caiu no rio. A polícia procurou, mas não encontrou nada. Entretanto, todos os professores elogiavam o menino, dizendo que nunca viram sinal algum de loucura e que ele sempre tivera boas notas. Inclusive, o senhor de idade que tinha dado aula para ele antes de tudo acontecer, o mais respeitado dos professores, disse que conhecia Arthurius muito bem e que a chance de estupro era zero. Realmente parecia haver algo entre Arthurius e Marina, e muitos colegas confirmaram isso, mas provavelmente não fora um crime, apenas uma relação sexual normal, que devia ter acontecido ali mesmo, próximo à ponte. Sendo a primeira vez dos dois, saíram meio aturdidos, e foram atropelados por acaso. Sem provas mais convincentes, a polícia arquivou o caso, a família de Arthurius foi inocentada de qualquer problema. O garoto foi enterrado, à despeito de seu pedido de querer ser cremado. Como as famílias davam-se bem e nenhuma delas considerava Arthurius um criminoso – ele era educado e cortês – Marina foi enterrada ao seu lado, mas o enterro só foi feito depois de concluídas todas as investigações – o que demorou uma semana e meia. A frase do túmulo dele era algo que Lawrence, provavelmente seu amigo mais próximo, disse que ouvira-o falar: “O paraíso não existe, apenas sua vida, e o que você faz nela”. No túmulo da menina, escreveram “diga-me com quem andas e lhe direi quem és”. Havia essa frase escrita num diário dela. A única frase. O violino não caiu na água, e sim, sobre uma gaveta de madeira que boiava lá, e foi rapidamente levado pela correnteza. Esse rio, inclusive, era muito extenso – e limpo. O instrumento molhou-se muito pouco, e ainda podia ser utilizado. Foi parar numa aldeia indígena, não muito longe dali… Um jovem índio – muito jovem – o achou, sem a rebeca – é claro, e fez um som muito bom com o tamborilar dos dedos nas cordas. Decidiu aprender a tocar, foi para a cidade com sua mãe para saber mais sobre o instrumento e descobriu o que era. Teve aulas e progredia muito rápido. Aos vinte e nove anos, esse índio ganhava o prêmio Grammy internacional de música e era uma das pessoas mais ricas do mundo.

Nenhuma vida é inútil…


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7 Comments»

  • vinicius machado says:

    Essa é só a minha opinião sincera sobre o teu texto. Eu não escrevo melhor que você. E já peço desculpas, caso ofenda, ou você se sinta ofendido com minha opinião. E lembre-se xD essa é minha opinião de merda:

    Cara tem que cuidar com a formatação do texto. Tem algumas partes ali que estão estranhas. Outra coisa que me incomodou foi o aluno lá, o moleque falando:
    – Lamento pela minha falha. (eu entendo que ele era um gênio e tal, e era totalmente doente)
    Po xD é aluno…ficou muito estranho, ainda mais que as outras falas dele não seguem o mesmo linguajar(acho que pode se chamar assim). Eu não entendi o porque colocar aspas em certas palavras como: Nerd, Valentão e dedicado…. Não precisa, parece(minha opinião) que tu esta tratando as palavras com ironia…sabe?! Voltando aos diálogos, tem partes que eu tenho a impressão que tu te segura para não escrever um palavrão. E cara…se tu acha que vai dar mais efeito coloca mesmo escreve: Oooolha, o merdinha querendo se pagar de machão… ao invés Oooolha, o nerd querendo se pagar de machão… Ficou(de novo, minha opinião de merda xD) muito americanizado os diálogos…eu não consigo imaginar isso no Brasil, ou como uma situação real, apenas em filmes. Outra coisa…e aquela briga com o valentão…o que aconteceu com o cara, ele morreu? Desmaiou? É que não ficou claro se ele saiu de perto u não…a menina veio puxar um papo com o cara e ficou por isso mesmo? O outro se perdeu…Ele foi para o hospital? Com dois socos? E era o valentão…

    Eu não entendi muito bem esse personagem, acho que até foi a sua intenção mostrar ele meio maluco… O cara responde para todo mundo, assisti aula sem prestar atenção, ao invés de uma mochila ele usa MALA O.o!!!! E ele bate na mãe dele?:
    – Nada disso, mocinho. Que houve na escola?
    – “Mocinho”? Agora vai começar a me chamar assim também?
    – Desculpe, filho. O que houve na escola?
    Po! ela parece ter medo dele…xD É totalmente irreal esse carinha xD
    A cena que ele estrupa a garota….que lençol ela apertou? Eles foram para o quarto?…Que isso cara xD Maluco esse moleque em…
    Tu diz que ele era cortês e educado? Onde…nenhum momento tu passou a sensação de que era apenas momentâneo aqueles acessos de raiva, e resposta arrogantes.

    Depois disso eu tenho que admitir que uma coisa você passou com maestria…a personalidade do garoto. Da raiva dele mesmo!

    Mais uma vez desculpa se ofendi!

  • Andrey Ximenez says:

    Substitua o nome dele por Sasuke e o dela por Sakura e teremos um fanfic de péssima qualidade de Naruto. Sério… já vi dessas coisas. Um Linkin Park de fundo cairia bem tb.

    Sério tche… Vamos tornar isso uma critica construtiva ok?
    Ja diria Charles Kiefer “P.E.N.T.E.”.
    Personagem, Enredo, Narrador, Tempo, Espaço.
    Vc tem que ter um controle absoluto sobre tudo isso. E imaginar como as coisas vão se entrelaçar.

    Os personagens principais são persoangens de uma fanfic juvenil. Carregados de uma psicologia de boteco terrível. Enfim. Trabalhe eles melhor. Não tenho muito o que dizer aqui, acho que o vinicius disse bem. A mãe baixar a orelha pro piá e coisa e tal.

    O enredo tá frenético. Até agora não entendi o que vc quis dizer com tudo. Em partes ele é respeitador, noutras parece um malokeiro. Uma doidera. Deve-se seeguir uma linha coerente o texto. E não há coerencia alguma aqui.

    Narrador? Quer dizer… um personagem frenético sendo o narrador. Sem contar o narrador final, que coloca tudo como se fosse uma matéria de jornal, dando detalhes desnecessários.

    Tempo? Como assim? uma hora ele ta na porta, na outra ja tirando a virgindade da menina. Uma hora ele ta no corredor dando um soco no cara, um segundo depois ta no murinho com a mina.

    Espaço. Da porta pra cama, da cama pra rua. Correr tokando violino divinamente.




    Enfim man… muita coisa pra revisar, muita coisa msm. Mas analisando seu linguajar da pra ver q vc tem conhecimento. Só falta um pouco mais de prática e técnica.
    ^_^

    • Sanchez says:

      Pera lá! tem que ver que eu por exemplo ignorei TODAS as “dicas” que o Kiefer deu em aula, escrevi como eu quis/do jeito que quis e ainda assim ele gostou e disse qu eu posso ter futuro! escrever bem não tem receita, não é bolo! o próprio Kiefer pensa em parar de dar aulas por causa disto! como tu vai ensinar alguém a escrever algo que valha a pena ler? ainda mais se for alguém sem vocação? dicas até poem ajudar, mas não fazem milagres.

  • Sanchez says:

    diferentemente dos migues aí em cima eu gostei muito! ok, sou super fã de blockbusters e acho que essa história daria um ótimo filme/livro. sei lá, simplesmente entendi teu personagem. talvez tenha me identificado com ele em alguns pontos (a indiferença/tédio com seu dia a dia por exemplo). Mas eu vejo potencial nesse enrredo! minha opinião: esse garoto é apaixonantemente perturbado. e o fim jornalistico fechou de maneira fria e eficaz um conto sobre um garoto frio e cético. Gostei mesmo!

  • Samila says:

    o início estava até bom, bem filosófico… mas depois tudo desmorona.
    a narração fica confusa, os cenários não são descritos. O protagonista se torna surreal, ‘fodão’ demais. Desprezível.
    Muito corrido, muito sem motivo, sem noção.
    Falta maturidade na hora de construir os personagens.
    continue tentando, mas tome cuidado… Deve-se tomar cuidado mesmo quando o objetivo é chocar.

  • Me desculpe, mas não consegui terminar o texto.

    Em um momento ele está batendo em um cara. Quase na mesma hora, falando com a menina. Depois o inspetor ameaçando um menino. Entretanto me pareceu que tudo aconteceu no mesmo tempo. Quando apareceu a ambulância eu já não sabia o que estava acontecendo…

    Ainda assim há boas descrições e você lida bem com a escrita. Precisa corrigir o tempo com que as coisas acontecem.

    Continue praticando, você tem um grande potencial.

  • Chuck says:

    Achei que voce se perdeu em determinada parte do texto, escreves bem e deves continuar cada vez mais escrevendo pra amadurecer tudo isso.
    Construa melhor a personalidade do personagem, ele era formal ou informal? frio ou louco?
    isso ficou muito vago devido aos diálogos supérfluos que ele tinha com os outros.
    Mesmo assim acho que voce deveria insistir e nao parar de escrever .
    Parabéns

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