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– que publicou 282 textos no ONE.

Oi!

Sou o ONEbot. Se esse texto esta em meu nome, provavelmente ele foi publicado no ONE nos primórdios de sua existência.

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Apr
21
2010

Moby

Escritor: Ronie Von Rosa Martins

Abriu um olho-claridade, brilho, luz-piscou uma, duas-três, várias vezes ligou e desligou o mundo. O outro.

Aberta as janelas, fronteiras entre o sono e o despertar, talvez entre a morte e a vida, pensou… (ultimamente pensava demais.)

Precisava levantar- “levanta filho da puta, levanta vagabundo.” – ouvia os quase inaudíveis insultos que o cérebro – entidade funcionário público – gritava. O corpanzil velho gordo e suado lascivamente afundado qual Titanic ou Pequod em um mar de cobertas também velhas e também suadas.

Girou os olhos pelo quarto, como fazia sempre; examinava o local-cela-quarto-prisão… grades?

No chão entreaberto… Moby Dick – sonhara estar preso no mortal arpão de Ahab;

Baleia, Moby como era chamado – a baleia era branca; ele era a própria noite. …o zunido… Sempre o zunido daquela miserável… Um dia a pegaria.

Barulho lá fora. Valia a pena sair? Na superfície o Pequod o espreitava. Sentia o seu suor, seu odor de negro fujão; de escravo. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, quis cuspir no chão. Achou melhor não. Dane-se o Pessoa. Tão louco que seu duplo era dobrado. Louco de merda. “Pelo menos eu sei quem sou, sei o que faço: Eu sou……….. faço………”

Bobagens. A sombra do Pequod estava quase sobre ele. Piscou os olhos. Mergulhar mais fundo. O mar era seu território, seu universo.

A mulher gritava para que não esquecesse a chave… “A chave! A chave!” e ele em desespero se apalpava. Bolsos do casaco, da camisa, da calça… “A chave! A chave!” “Levante, levante” implorava o cérebro; mas o corpanzil sorria constrangido na sua incapacidade de produzir ação. “Desculpe… respondiam todos os músculos, todos os nervos-neurônios–veias tudo. Todo o organismo em sussurro, depois lamentos depois em berros gritavam-berravam-ganiam-gemiam-murmuravam.

Procurou pelo quarto – sempre o silêncio, abraço profundo; forte e sufocante como o da mãe “Não vá se sujar meu filho… não vá se sujar meu filho…” o perfume adocicado e enjoativo lhe invadindo as narinas e nauseando-o. A tentativa desesperada de fugir dos tentáculos maternos… “Não vá se sujar meu filho…”
Fuga!
Rua!
Corria livre o sorriso fácil riscado na face gordinha e rosada. “Brincar, brincar, brincar” lhe ordenava a alma infantil, e era a mesma alminha que se encolhia tal qual o corpo, assustado e humilhado quando os meninos da vizinhança o colocavam na roda e o chamavam de baleia, “Moby Dick!”, Moby Dick!”

Chorar?

Não. Quando o pai lhe encontrava chorando batia com violência no seu rosto “Home não chora bundão! Home não chora!” E ele, a baleia, engolia as golfadas de lágrimas em proporções desumanas.

Na escola era o centro das atenções; as meninas riam e chamavam-no de Bolo fofo, A baleia sempre fugindo das ameaças. Fundo mergulhava.

E o pai?

Ausência presente. Presente indiferença. Vazio. Poltrona vazia, garrafa vazia. Uma lembrança… Vaga lembrança…

A mãe?

O abraço tentacular tão indiferente quanto à indiferença paterna “não vá se sujar meu filho, não vá…..”

O arpão rasgando o mar. As lágrimas, as lembranças… Ahab. Vários Ahabs insanos em seu encalço.

Afundar…afundar. Cada vez mais afundar.

A mãe-perfume
Perfume-amante.
Chances de amor?

Sim, tivera a chance de ser normal. ( O que é ser normal?) Ela até que gostava do cetáceo, mas não tinha condições de suportar a pilhéria da marujada: “Não dá mais Moby, não dá mais.” “Por que fulana… por quê?
Por quê?

O coro da turba surgia em uníssono vociferando: “Gordo, Gordo!”

Nos ouvidos as mãos, tampões exatos na exatidão da dor.

Chorar?

Não, Moby jamais chorava – o pai não deixava – Moby só mergulhava. Sempre o mergulho. Fugia incessante do arpão, para o arpão…

Ar…

Pra que serve o ar se há a imensa e delirante dor; pra que ar se o arpão da infelicidade lhe atravessa as costas numa gargalhada horrenda.

A cama-mar- acamar- acalmar…

Dor!Dor!Dor!

Ardor e febre. Suor. O corpo se despede enorme. Abandono. Imensa nódoa escarlate que tinge a água e sufoca até Ahab.

Os olhos – longe a baleia, na superfície arrasta para o inferno o navio, a fúria e a intolerância.

Então chegaram calmos, quase sorriam – os carcereiros-enfermeiros-amigos-sombras-marujos…sonhos.

“O gordo foi pro saco.”

“É”

“Pois é.”

O cérebro ativa a última luz…

“Suicídio?”

“Desde que nasceu.” Sorriu o outro.

“É.”

Parados e abertos os olhos. A visão.

Ahab. Dentes arreganhados, toda a tripulação, todos os meninos, a mãe, o pai, a amante – o arpão.

O corpo. Corpanzil de graxa, baleia imensa negra-branco cetáceo. Morte.

Morte?

Sim, por que não, só mais um grande mergulho…

“Ta morto mesmo?”

“Não sei…”

O salto. O berro!

Joga-se! A gordura imensa o peso intenso sobre os olhos claros os olhos parvos, o pânico definido pela indefinível morte.

Sufocados-esmagados-triturados…

Apagada a fornalha fecha-se o livro os olhos fecham.

Mais um mergulho.

Encontrariam no outro dia dois enfermeiros esmagados pelo paciente do quarto 56.

A vida… e a morte também podem ser ridículas.

Não havia nenhum Ismael para escapar ao naufrágio.


Categorias: Agenda |

2 Comments»

  • E.U Atmard says:

    O texto tem um ritmo estranhamente quebrado, que lhe dá uma espécie de musicalidade. Eu também escrevo neste estilo, o qual chamei de literatura bizarra, mas na realidade é escrever como se se tratasse de andamentos. É excepcionalmente bom para tornar os pensamentos de um personagem nítidos, sem ser preciso com isso alongar as ideias.
    O texto está muito bom, e a semelhança entre a vida dele e a de Moby Dick invoca a técnica de Joyce de tornar semelhante a acção com o mito histórico, ou neste caso, no livro determinado.
    Muitos parabéns, tirando alguns erros, o texto tem uma qualidade estilística extraordinária!

  • Thainá Gomes says:

    Ficou co um ritimo bem legal de ler,parabéns.

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