As Dores de Um Adulto
Escritor: Andrey Ximenez

Olá, meu nome é Felipe. Sei que isso não tem muita relevância, mas me apresento assim mesmo.
Estou aqui para lhes falar de um pequeno dia da minha vida, o dia em que deixei de ser um garoto para finalmente me tornar um homem.
Obviamente terei que lhes mostrar minha infância, serei breve, prometo.
Fui uma criança extremamente problemática, pode-se dizer que por pouco nem mesmo nasci. Tenho uma doença congênita conhecida popularmente por “Ossos de Vidro”.
Não preciso nem falar de quantas fraturas foi feita minha infância. Braços, pernas, costelas. Inúmeras vezes.
Nunca sai de casa. Afinal, se com apenas uma pancada na cômoda ou com uma trombada contra aquelas malditas quinas de objetos que atraem os dedinhos dos pés, já me quebrava todo, imagine se fosse lá pra fora, na vida dos adultos, empurra-empurra, esbarra-esbarra, o que sobraria de mim?
Tinha aulas particulares, nenhuma amizade real e meu computador pra me divertir. Uma vida no mínimo confortável.
Bem, é aqui que a história começa de verdade.
Não tendo amigos e muito tempo de sobra encontrei-me na internet. Lia blogs, entrava em redes sociais, tinha até Orkut. Logicamente fiz inúmeros contatos virtuais, porém uma garota em particular chamou minha atenção.
Seu nome era Pâmela, deveria regular comigo em idade, dezoito ou dezenove anos. Tinha cabelos castanhos na altura dos ombros, olhos de um tom mel faiscante e um sorriso perfeito. Ao menos, era isso que sua foto mostrava.
Fora a primeira vez na minha modesta vida que senti um calor se apoderar de minhas pernas. Não um calor como aquele que sentia quando via filmes de sacanagem. Não, era um calor que ela por si só transmitia.
Ela tinha que ser minha.
Após ter nascido meu espírito competitivo, dediquei-me a conversar com ela. Eram longas e alegres as noites no MSN. Do lado de fora da janela em frente minha escrivaninha o mundo passava sem que eu percebesse. Filosofia, diversão, filmes, musicas, perversões, sobre tudo conversávamos. Mais e mais sentia vontade de te-la, me desdobrando em planos para poder efetuar o encontro… dentro da minha casa.
Em meio aos meus planos, recebi um golpe dela:
- Poderíamos nos encontrar um dia desses não? Tem um parque bem bonito perto de sua casa.
Ao ler aquilo gelei, fervi e escorri por dentro, tudo ao mesmo tempo. “Agora deve ser a hora em que conto sobre minha doença e nunca mais a vejo”, pensei no momento. Porém, embora o medo fosse grande, nunca mentiria para Pamy.
Falei pouco a pouco sobre minha infância, explicando-lhe as razões de não poder sair de casa. Sua resposta?
- Lipe, você tem que crescer, já é grandinho suficiente pra atravessar três quadras sem esbarrar em ninguém. Seu bairro nem é tão movimentado assim.
Minha resposta foi que iria pensar. Naquela noite, após desligar o computador, não dormi.
Queria muito vê-la, tocá-la, senti-la, mas como? No mundo de fora, onde um mero deslize me quebraria todo, esse desejo tornava-se quase impossível de concretizar. Um tropeço, um galho que batesse mais forte em mim, seria suficiente para sair de meu primeiro encontro numa maca, destruído na honra e no corpo.
Mas ainda assim, em meio a pavores internos e trovões do lado externo da casa, embaixo das cobertas, sua imagem tomava minha mente.
Dia fatídico.
Olhei-me no espelho. Camisa pólo branca, uma calça jeans em dia, um tênis confortável, cinto, cabelo penteado, dentes escovados, perfume colocado, bala de menta no bolso. Estava pronto. E nervoso.
Nem meu pai, nem minha mãe estavam em casa no dia, caminhei a passos lentos pelo hall de entrada checando as horas, tinha vinte minutos para atravessar as malditas três quadras.
Abri a porta, olhei o pátio, limite máximo do meu mundo até então. Foi com um passo indeciso que iniciei minha caminhada até meu destino.
Foi estranho, sentir o calor do asfalto quente contra meu sapato, o vento parecia vir de todos os lados. As nuvens dançavam pelos céus, deixando pouco rastro da chuva que caíra no dia anterior. Pela calçada fitava o caminho à frente, meus passos iam ganhando confiança e força. Até que um resvalo quase me levou ao chão. Santo seja o muro afiado em que cortei minha mão ao me apoiar, e maldita seja a poça de lama e a chuva que a formara.
Ia agora caminhando com os olhos no chão, não seria pego de surpresa novamente. Pressionava o pequeno corte na mão. Não sangrava – menos mal – pensei. Parei na faixa de pedestres, lá esperei o sinal abrir como em todos os filmes que já havia visto e atravessei. Meu destino não estava muito longe.
Cheguei até o local marcado: um banco em frente a uma árvore, um pouco depois da entrada do parque.
Ela ainda não estava lá. Bom, conseguira chegar antes.
As crianças riam e corriam por ali, jogavam futebol. Que inveja. Sentado, para disfarçar meu nervosismo, abri um livro. Obviamente não conseguia ler sequer um parágrafo dali. Mas distrai-me.
A hora do encontro chegara e ela não estava ali. Conclui que era normal, talvez algumas estradas estivessem alagadas, algo bem comum naquela cidade. Foi nesse momento que mandei o livro aos ares, quando a bola estrondou no espaço vazio do banco. Fora tão rápido que não dera nem tempo de sujar as calças. Olhei com uma expressão congelada para as crianças que, entre sorrisos tensos e encabulados, pediam desculpas. Não disse nada, assenti que tudo bem, enquanto secava o suor que me descia pela testa.
Meia-hora se passou, e Pâmela ainda não estava ao meu lado.
Estava mais nervoso do que antes, minhas mãos suavam terrivelmente, e a raiva crescia dentro de mim, junto com a vontade de amaldiçoar aquelas crianças e seu maldito sol.
E foi-se uma hora.
Levantei-me e pus-me a caminho de casa. Atravessei a rua, esquivei da poça, desviei do desnível da calçada. São e salvo.
Abri a porta de casa, meus pais ainda não tinham chegado. Definitivamente este seria um dia que não acontecera. No quarto a roupa ficara pelo chão enquanto me deitava. Embaixo das cobertas, lágrimas espessas queimavam-me o rosto.
Nesse dia descobri que, na vida de um adulto, as dores do corpo não representam muita coisa.
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Milagre! Não achein nenhum erro gritante!
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O.O
Muito bom.
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Achei que veria um clone de “Unbreakable” mas não. Surpreendeu minhas expectativas.
Fiquei o conto inteiro imaginando como o coitado ia se quebrar inteiro. E na verdade, ele se quebrou, mas de uma forma completamente diferente do que eu esperava.
A idéia partiu desse filme, é inegável.
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Mas o desfecho pedia pra ser diferente
-
Valeu peolo elogio.
Campbell descreveria isso como o primeiro limiar do herói. O rito que transforma o menino em homem.
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É muito bom você ver ele vencer seus medos para não magoar alguém, e esse mesmo alguém te magoar.
-
E mesmo assim o personagem saí ganhando, pois venceu seus medos, e aprendeu que ele é capaz de vencer suas dificuldade físicas.
Ao mesmo tempo que ele é apresentado à nova aventura que os sentimentos são. E é aí que o herói terá que provar seu valor.
-
Bom demais, já li esse conto umas 3 vezes…
Isso me faz lembrar que preciso criar coragem e ler esse livro;
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U.u
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O choque pro personagem realmente fora grande. As fico pensando o q ele faria depois desse dia. É complicado chegar a uma conclusão.
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Que bom que leu mais de uma vez. Espero que tenha pegado toda a essência do conto
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=]
Cara, o herói de mil faces é muito bom. Te dá uma percepção louca de desenvolvimento de histórias.
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E quanto ao que ele faria? Depende, está pensando em escrever uma continuação?!?!
Não estou… =]
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Mas sempre gosto de divagar sobre um depois.
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E mais legal é quando não encontro essa resposta, quer dizer que o personagem se tornou autêntico. Pelo menos é o que eu sinto.
Muito bom, tb reparei nisso.
Gostei!
-
Bem bacaninha!
Valeu pela força!
Parabéns Andrey, excelente conto… que bom que o desfecho de seu conto saiu diferente do filme Unbreakable, pois foi a parte que eu mais gostei. Devo admitir que seu conto me fez ficar agoniada, a cada paragrafo ficava imaginando que poderia ocorrer algum acidente com o personagem. Na hora da bolada no banco eu quase dei um grito, mas quando chegou ao fim, suspirei aliviada por não acontecer nada com ele, fisicamente falando. Gostei também, da determinação do personagem em encontrá-la, da forma como encarou sua doença só para vê-la, é uma pena o encontro não ter saído conforme seus planos…
É verdade! Eu fiquei toda hora pensando:”vai cair! vai cair” mas quando acabou pensei” Putz…não caiu…” XD brincadeira! Legal o conto, já tinha lido antes
Valeu pela força Asami e Viny… realmente a intenção que tive foi que ficassem pregados no texto esperando o personagem se quebrar, fato que não sucede, pelo menos não da maneira esperada.
-
O dia que eu tive a idéia pra esse conto foi bem engraçado.
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xD
um primor, esse final!
eu devo dizer que não estava gostando do início..
tava prestes a xingar o moleque frouxo, mas o final ficou tãoooo bom!
deu até peninha dele, sabe? XD
um texto bem fofo, eu diria
adorei!
Fofo?!
-
*risos*
-
É… eu tenho a péssima mania de escrever o inicio dos contos de uma maneira maçante e chata.
Kiefer se visse ja diria ” O conflito tem que prender o leitor no inicio “.
-
Mas mesmo assim prefiro deixar o choque pro final, mania minha.
-
=D
-
Valew pelo elogio, afinal.
Sim! minha concepção de ‘fofo’ é um pouquinho abrangente, sabe? xd
Andrey, cara, parabéns! Mais um conto seu que eu achei demais! A todo momento do texto existia a agonia de que o personagem se machucasse,quando ele chegou no parque eu temia que a qualquer momento ele levasse uma bolada na cabeça, e no final ele se machuca de uma forma pior.
Esta está bom também, mas ainda prefiro o do maloqueiro
Escuta Andrey, em ambos tive impressão de estar lendo um Cronica, o que me diz disso?
Tá de parabens de novo!
Hmmm..
-
Tche… a do maloqueiro pode até soar como crônica, uma vez que puxe pro lado real, fazendo o leitor pensar no cotidiano.
-
Porém nesse aqui, não foi a idéia.
-
Aqui o intuito era fazer uma reflexão sobre os medos interiores, e como lidamos com ele em determinadas circunstâncias. O que ocorre quando as vezes quebramos a cara.
-
O lado virtual também foi bem puxado nesse conto. Por isso dou a ele esse genero, mas tu podes estar correto. Pode soar como crônica. Deixo essa definição para o leitor.
-
=]
Pô, o Andrey de novo saindo da Agenda!!
–
Hehe.. dois dias seguidos. Parabéns!
Valew guns!
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A gente faz o que pode
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=]
Eita, ótimo conto. Gostei. 8D
Valew man! Vindo de ti é um puta elogio
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xD
Verdade =D
ah, adorei a img que o guns escolheu
Andrey, parabéns cara, muito bom o conto. Flui fácil, início, meio e fim.
Também a primeira coisa que pensei foi em Corpo Fechado (tradução horrível), que pra mim é um ótimo filme, mas você só pegou a idéia inicial, muito legal.
Fiqeu torcendo pra ele não cair,imaginei ele se quebrando em mil pedacinhos se caísse,é fui longe.
Que texto lindo. =3
Cliquei nele porque apareceu na janelinha de “Leia-me” e realmente valeu a pena.
Essa metáfora de crescimento sobre o rapaz que não podia sair de casa foi muito, muito bem bolada. Muita sensibilidade da sua parte de ter pensado nisso.
A leitura aflige o leitor, eu torcia e ficava com pena do protagonista e queria que ele fizesse alguma coisa para mudar sua vida. Uma coisa que poderia ser tratada, relacionada a essa metáfora de crescimento, é que podia ser falado que “não sair de casa” é um tipo de conformismo à esfera de influência dos pais. Ao se tornar adulto, ele precisa ver o mundo por contra própria e parar de se tolher por conta dos medos dos pais.
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Sobre o final, é o que o Rainier falou: “E mesmo assim o personagem saí ganhando, pois venceu seus medos, e aprendeu que ele é capaz de vencer suas dificuldade físicas.”
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Em fim, excelente texto.
Gostei muito.
E ai aninha!
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Valeu pelo o elogio. Realmente, poderia ter aproveitado mais a metáfora em relação aos pais, mas qnd pensei na história não tinha isso em mente. Quem sabe eu possa reescrever esse texto pra melhorar esse lado tb?
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Fico feliz que tenha lhe causado uma boa impressão, bj bj.