O Tocador de Sino
Escritora: M. Maciel
Havia um homem no topo da catedral de plástico. Todas as manhãs e todas as noites ele tocava o sino pelo maravilhosamente moderno sistema de engrenagens e fios elétricos que ligavam os gigantescos e antiquados instrumentos de cobre a botões no topo da escada. Os botões poderiam estar em qualquer lugar, é claro. Poderiam estar ao lado do altar. Poderiam estar no lugar dos olhos de conta da estátua de acrílico de Jesus Cristo no centro da nave. Mas você tinha que subir um lance absurdo de degraus de madeira e metal e PVC para apertar dois botões. Diziam que era para ser uma ação prazerosa em respeito a Deus Todo Poderoso. Diziam que era para os padres serem menos ociosos. Então entre o ócio e a verba, o pároco preferiu contratar alguém a subir e descer degraus todos os dias de sua vida.
O homem no topo da catedral de plástico era um tocador de sino profissional. Legalizado. Carteira assinada. Décimo terceiro e férias. Plano de saúde, plano dentário, auxílio transporte, auxílio alimentação.
O homem no topo da catedral de plástico era ateu. Astrônomo. Pintor. Formado em qualquer faculdade onde se usa um absurdo do senso lógico, e formado com mérito. Sem mulher, sem filhos, sem família, sem história.
O homem no topo da catedral de plástico era uma gárgula.
Muito se especulava na cidade sobre aquela contratação. Nada relacionado ao fato da preguiça e fartura monetária do pároco, é claro. Tudo relacionado com quem seria, de onde viria, para onde iria. E por que, apesar de todos os benefícios do cargo valerem o esforço, ele simplesmente não saía da torre depois de tocar os sinos. Havia toda uma vida ativa na cidade, interior ou não, comerciante ou não. Pessoas e lugares e música. E ele permanecia sobre a torre, fosse tempo que fosse.
Logo, ele não podia sair de lá porque estava fixado a torre, diziam, tal qual um ornamento ou totem. É claro. Corcunda de Notre Dame, Drácula, monstro de Frankestein. Gárgula.
Mas o homem no topo da catedral de plástico era só um cientista triste.
É claro que com o tempo o assunto perdeu a graça, os comentários se redirecionaram pra outras situações tão relevantes quanto, o boato foi deixado em paz. E o homem seguiu sua rotina de nunca sair da torre.
Com perfeição os sinos eram acionados todos os dias, apesar de não ter ninguém ali que entendesse o que era ouvi-los. O dia transcorria com a catedral de plástico de portas fechadas. O tocador de sino sentava-se entre Fobos e Deimos e observava as fábricas no horizonte. Aquelas portas sim, nunca se fechavam. Quando seu relógio avisava que era hora outra vez, acionava os botões. Sinos. Portas fechadas. Noite.
Sentava entre Fobos e Deimos para ver suas fábricas pixealizadas no horizonte, iluminadas e abertas dia e noite. Cego e surdo e triste.
O homem no topo da catedral de plástico era uma estátua de sal.
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Gostei bastante.
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A comparação com as fábricas foi muito feliz. Poucos dão importância para sinos de igreja hj em dia. Em compensação os sinos das fábricas…
Gostei!
Texto muito bom!
A apologia à vida contemporanea é uma ferramenta que me atraí.
Parabens!
Gostei …Diferente de tudo que já vi até hoje!