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May
16
2010

Psicose Materna

psicose-materna

Escritor: Rainier G. C. Morilla

Eu amo minha mãe.

E antes de qualquer coisa eu precisava de dizer que a amo, pois caso contrario após ler este relato vão pensar que a odeio. Entretanto as coisas não são bem assim. Eu a amo desde que nasci e terei esse mesmo amor por ela até o dia em que morrer.
O problema não era se amava ou quanto amava ela, mas o quanto ela amava outra coisa. A nossa casa.

Minha mãe é perfeccionista. E tudo para ela deve estar no seu devido lugar, sem espaços para erros, ou falhas. Tudo, disse exatamente tudo deve estar alinhado, organizado e catalogado.

Os primeiros problemas surgiram, que eu me lembre no dia em que disse a primeira palavra. Minha avó e meu pai conversavam na sala onde estava, minha mãe na cozinha preparando o almoço. Engatinhei e puxei a calça do meu pai e disse olhando nos olhos dele:

- Papa!

Todos na sala ficaram emocionados. Foi aquela festa. Meu pai começou a gritar para minha mãe ouvir e minha avó deve ter falado que gracinha umas trezentas vezes. Quando minha mãe chegou disse alegre esticando os braços em sua direção: Papa!
Ela com um sorriso fechado simplesmente disse:

- Não é papa, é papai. Quando você falar direito podemos comemorar.

Creio eu que essa foi a primeira coisa que me lembro sobre o perfeccionismo dela. Dizem que eu já usava o penico quando engatinhava e quando aprendia a andar, já me limpava sozinho, mas isso eu não me lembro.

Quando eu cresci, me sentia a criança mais frustrada da Terra. Chegava em casa após o colégio, esperando um abraço de minha mãe, entretanto era recebido com uma vassoura.

- Essa casa está imunda. Temos que limpá-la. – Essa era sua frase mais recorrente.

- Mas mãe, eu acabei de chegar do colégio e nós já limpamos a casa ontem.

- Ninguem mandou vocês sujarem – Ela respondia. – E eu estou limpando a casa desde que acordei. – Mesmo que tivesse sido duas horas depois que eu acordei para ir a escola e ela ter vinte e quatro anos a mais que eu.

Aos dez anos de idade abraços e beijos da minha mãe, eram raros e frios. Nesta epoca meu pai trabalhava muito e só o via nos fins de semana quando estudava. Logo cresci frustrado esperando que alguem me amasse e desse valor ao que eu faço.

Dias e mais dias eu passava limpando a casa, lavando banheiros, quintais e a rua inteira.

Quando estava livre em casa tinha medo de fazer qualquer coisa. Comer era um tormento, pois sujar um prato era certeza de que iria ouvir um sermão de dez minutos. Somando os talheres, o copo seriam meia hora. Se a mesa sujasse eu já começava a chorar.

Sair? Isso raramente acontecia. Era mais facil matar aula do que sair de casa. O problema foi a primeira vez que tirei uma nota oito, após algumas aulas assassinadas para jogar fliperama. Castigos, deveres, estudos exaustivos de cinco horas diarias não é algo que um garoto prestes a entrar no ensino médio deseja.

E foi assim até os meus quinze anos, quando comecei a trabalhar pois não aguentava ficar em casa. Dinheiro não me era tão importante. O que eu faria com quatrocentos reais? O importante era me manter longe de casa.

Mesmo assim o tormento era continuo, chegar em casa após estudar pela manhã e trabalhar pela tarde era cansativo. Mas chegar em casa e ter que lavar a louça e varrer o tapete é a coisa mais desagradavel do mundo.

Aos dezessete comecei a fazer a faculdade pela manhã e trabalhar até as dez horas da noite. Saia de casa as sete e meia da manhã e chegava em casa meia noite.

Foi a época mais tranquila da minha vida, tirando os fins de semana. Sem trabalhos em casa, a não ser arrumar o quarto, pois senão haveria algum sermão quando chegasse. E tudo o que eu queria era dormir.

Mesmo assim o medo de jogar a almofada de um sofá no outro para me acomodar melhor era constante. Deixando um sofá com três almofadas enquanto o outro só tinha uma era tenebrosamente perigoso.

Terminando a faculdade as torturas começaram novamente. Casar é uma opção razoavel, mas toda mulher que aparecia em casa desistia do casório.

Nunca consegui conversar com minha mãe a não ser limpando a casa. Nunca conseguimos ficar em familia, pois sempre algo estava errado, sujo, e que demandava mais necessidade do que a familia. E também sermões sobre não sujar a casa.

A residencia era sua prisão e ela não se preocupava com isso. Ou pior, ela se preocupava demais com sua própria cela. Como um viciado não consegue largar as drogas, ela não consegue para de trabalhar.

Claro que somos sempre os culpados por usar um prato, ou dormir numa cama. Nós nunca faziamos nada para ajudá-la, mesmo que fizessemos tudo. Nada estava perfeito para ela.

Morar sozinho então foi minha opção. Mas não saí só porque não aguentava, mas porque minha mãe ficou doente. Tendinite, devido tanto trabalho. E um filho a mais em casa significava mais trabalho para ela.

Mesmo proibindo ela de arrumar meu quarto, lavar minhas roupas e as louças que sujava, ela não se aguentava. Ela tinha que arrumar tudo.

Um filho a menos era preocupações a menos, limpeza a menos, menos roupas para lavar e passar. Enfim, estaria livrando-a de um problema.

Saí.

Minha mãe só não deu uma festa para não sujar a casa, mas em seu coração e sorriso no rosto eu sabia. Finalmente ela estava feliz em sua própria casa.


Written by Rainier Morilla in: Contos,Rainier G. C. Morilla | Tags: , ,

35 Comments»

  • Rainier says:

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    Cara, minha mãe me mata se ver isso. Lembrando é só um conto. Não é nada pessoal. rsrsrs…

  • Samila says:

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    HUHaauaaa
    adorei XD
    lembrou muito a minha mãe!
    lembro de uma vez que eu cheguei super feliz em casa, com uma prova na mão escrito ’10′ nela, sendo que a média da turma tinha sido 4/5 pontos…
    contei para minha mãe esperando um abraço, e o que recebi foi um
    “Não fez mais do que a sua obrigação” XD
    coisa de mãe mesmo, eu acho…

    • Andrey Ximenez says:

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      KKkk
      -
      Clássica.
      -
      “Nada mais que sua obrigação”
      -
      Bom o conto, xD

    • Rainier Morilla says:

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      Quem nunca ouviu essa frase de sua mãe que atire a primeira pedra! kkk…
      -
      Descobrimos enfim o que torna a Samila tão violenta. rsrsrs… =D

      • Andrey Ximenez says:

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        Uma hora teríamos que descobrir
        -
        xD

      • Samila says:

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        Ah, não, não descobriram não…
        isso não é nem metade XD

        • Rainier Morilla says:

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          Mas já é algum progresso!
          Peça por peça um dia descobrimos. Quem sabe?
          -
          Detalhe para o sorriso ao dizer que não é nem a metade. Isso é bom ou ruim?

          • Samila says:

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            Depende do ponto de vista, não?
            Algumas pessoas encaram uma desgraça como um castigo divino, outras como um aprendizado…

          • Rainier Morilla says:

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            Verdade Samila.
            Se lidarmos com os problemas como algo trágico, ficamos parados no tempo.
            Então seguimos a vida com um aprendizado, e por vezes uma cicatriz no coração…

          • Andrey Ximenez says:

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            Só faltou uma musica emo de fundo.
            -
            xD

          • Rainier Morilla says:

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            Pode ser Street of Dreams do Guns! Não é EMO mas deixa o momento mais emocionante! rsrsrs…
            -
            Vou escrever outro conto.
            Da comédia ao drama em 10 coments. kkk…

          • Andrey Ximenez says:

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            Desculpa Rainier, mas a piada gritou pra sair!
            -
            Pior vale mesmo um conto. Pq no fim dos contos o q separa humor e drama, humor sadio e humor negro é uma linha mt, mt fina.
            =]

          • Rainier Morilla says:

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            Pode ter certeza.
            Acho que isso que define o humor. O exagero de algo trágico. De tão grotesco fica engraçado!
            -
            E qnt a piada, fica frio. Eu também ri.

          • Samila says:

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            hUAHuahauahuhUAhaua
            Ah, Andrey
            Vai dizer que nunca na vida pensou em tomar chumbinho ou cortar os pulsos? u_u
            não é preciso ser amo para ficar assim… ‘-’

          • Andrey Ximenez says:

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            Por isso da piada. Não precisa ser emo pra fazer essas coisas. Mas um emo faz com muito mais estilo
            xD

          • Rainier Morilla says:

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            EMO não faz, coloca Ketchup no braço e tira foto!

          • Samila says:

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            Ketchup é para emo ridículo
            Emo chique usa calda de açúcar derretida com corante, que fica MUITO mais realista XD

          • Rainier says:

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            Samila, A diferença entre o EMO Chique e o EMO Ridiculo, não mudou muita coisa… =D

  • filonerd says:

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    Gostei do conto em geral, está bem trabalhado e muito bem escrito. Mas não gostei de o personagem lembrar de quando tinha 1 ano e falou sua primeira palavra. É completamente ilógico, além de que o bebê entende a mãe falando. Outro detalhe: “Dinheiro não me era tão importante. O que eu faria com quatrocentos reais?” Empregada doméstica!? Mas, como disse, são detalhes. Descartando-os o conto fica sensacional.

    • Rainier says:

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      Rafa…
      A intenção do conto é ser ilógico mesmo. Comédia tem que ser exagerado, ao meu ponto de vista.
      -
      E acredite. Tinha empregada doméstica, mas de qualquer jeito, eu tinha que trabalhar… rsrsrs..

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    Olha… vou te falar. Só muda de endereco!! :D

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    Muito bom! Narrativa enolvente e engraçada xD! Muito legal! É verdade…só muda de endereço xD!!!

  • Thainá Gomes says:

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    muito bom o conto!Ainda bem qeu minha mãe não tem diso,se não ela ia penar comigo.Parabéns eu ri muito.

  • Angela NadjaBerg Ceschim Oiticica says:

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    A leitura me prendeu. Há até filhas assim, perfeccionistas.

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      É verdade Angela, há muitas filhas e filhos que são chatos assim! Mas um dia eles serão pais! E a história se repetirá, rsrsrs…

      Ah! Como é bom reler este conto, eu mesmo dou gargalhadas com ele!

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    haha, mt real! minha mae tem dessas tb, mas c/ o tempo fui aprendendo algumas táticas ^^
    parabens!

  • Anna says:

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    Quer dizer que tudo o que eu preciso fazer é me mudar?
    Se bem que né? Ela disse que só quer cozinhar com panela grande e já me mandou casar e começar a reproduzir.

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