A Imagem da Inveja
Escritor: Rafael C. Trovão
- Laura! Venha ver o que eu achei!
Ao ouvir o marido, Laura deixou de lado as peças delicadas, envoltas em jornal amassado, que servia de calço dentro de uma das caixas da mudança. Saiu correndo pelo corredor da nova casa, com um sorriso estampando a felicidade da nova fase que se iniciava em sua vida.
A casa era grande e antiga, um dos poucos casarões que sobraram na cidade e que ainda não haviam sido demolidos por alguma construtora ou haviam sido transformados em algum tipo de arquitetura moderna por donos ditos modernos.
Saiu do quarto das crianças onde estava e percorreu o corredor, ainda cheio de caixas com etiquetas, que levava à escada de mármore e à sala principal que tinha um pé-direito bastante alto. conferindo um ar de amplitude ao ambiente.
Ao descer as escadas deu uma olhada nas crianças que brincavam no jardim. A imponente porta de duas folhas estava aberta e permitia que se visse o casal de filhos pequenos brincando com liberdade. Laura mal podia acreditar que estava lá finalmente, depois de anos convencendo o marido de que aquela era a casa perfeita!
Jonas, sendo um homem muito prático, nunca se apegou a futilidades como ostentação ou luxo. Achava importante ter espaço e conforto, mas não sentia a necessidade de impor seu crescente status. Já Laura gostava de ver a reação das pessoas ao verem sua ascensão social, talvez porque viesse de uma família com algumas posses e muita pose, que sempre a criticou por ter se casado com um, na época, “Zé Ninguém”. Isso a afetava e por mais que tentasse evitar ou disfarçar se via desejando ter um status social ao qual não pertencia. Sofria muito por não ver no marido o mesmo desejo e inconscientemente sempre o cobrava.
Sempre que saiam do prédio onde moravam acabavam por passar por uma rua sem saída que se tornara uma destas vilas que os moradores transformam em pequenos condomínios.
E desde a primeira vez que Laura a viu, sabia que um dia iria vir a morar alí.
A casa ficava nos fundos da vila, e era realmente grande. A frente era coberta de vegetação com árvores de grande porte e um jardim que um dia foi suntuoso. Pararam para apreciá-la e até mesmo Jonas quis vê-la mais de perto. A varanda do hall de entrada era toda decorada com azulejos portugueses, uma raridade. Tinha dois andares sendo que do segundo andar uma outra varanda saía de onde provavelmente era o quarto principal.
Um detalhe nada discreto despertou a atenção principalmente de Jonas. Literalmente dezenas de placas de imobiliárias se amontoavam em seu portão principal. Não era um bom sinal e ele tentou chamar a atenção da esposa para este fato, no que foi prontamente taxado de neurótico.
Na varanda, sentado em uma desconfortável cadeira de madeira e lendo um jornal amassado do dia anterior, estava o “corretor”. Um homem de idade avançada e com cara de poucos amigos. Ao ver o movimento do casal na frente da casa, abaixou o jornal e usando de seu melhor sorriso, lapidado em anos de experiência, foi recebê-los.
O homem se mostrou atencioso e se prontificou a ciceronear o casal pelo interior do imóvel. Neste pequeno passeio souberam através de seu guia, que a casa fora construída no início do século XX e que seus donos originais eram imigrantes europeus que sempre viajavam pelo mundo. Não entrou em maiores detalhes alegando que não conhecia bem o resto da história, o que ficou claro que não era verdade, porém não houve insistência por parte do casal.
Tudo na casa encantava Laura, que já imaginava todas as reformas e melhorias que poderiam ser feitas no velho imóvel. Jonas apenas acompanhava, claro que também achava a casa bonita mas já imaginava que estaria fora de sua realidade financeira. Porém, gostava de ver Laura nestes momentos, como ficava cheia de vida. Ao chegarem a cozinha Jonas notou uma pequena escada estreita que levava a um tipo de porão. Perguntou ao homem do sorriso de mármore aonde a escada dava e recebeu a fria e óbvia resposta – Porão.
Apesar da ironia, Jonas não deixou se abater e convenceu o homem a descer e abrir a pequena portinhola. O cheiro de algo fechado há anos inundou o ambiente. Cheiro de mofo, de coisas antigas. Com uma pequena lanterna que o “simpático” guia sempre trazia consigo iluminaram o ambiente e, para deleite de Jonas, descobriram que um dia aquele porão fora um adega. A partir deste momento Jonas fora fisgado. Apesar de seus costumes simples, estava se tornando um colecionador de vinhos. E aquele ambiente era perfeito para sua futura coleção. Laura ficou mais do que feliz em perceber a inédita empolgação do marido, porém a empolgação durou pouco assim que o corretor dissera o valor da casa.
Alguns anos se passaram, Laura e Jonas tiveram um casal de gêmeos e as coisas iam tranquilas, apesar de Laura cada vez mais desejar o padrão de vida de pessoas mais bem sucedidas do que ela. O desejo começara a se tornar inveja e Laura chegava a incomodar, querendo saber tantos detalhes do dia a dia da vida alheia. Então o trabalho de Jonas começou a dar frutos. Comunicativo como era, conheceu as pessoas certas no momento certo e de repente a construtora começou a crescer. Com tudo dando certo, dinheiro entrando e sonhos materiais se realizando, Laura achou que era a hora de escalar o “Monte Everest” dos bens materias, o casarão do fundo da vila. Apesar de estarem bem acomodados no pequeno, porém charmoso, apartamento em que viviam desde sempre, Laura achou que aquele era o momento para a mudança.
Teve que gastar alguns dias para convencer o marido a fazer uma proposta para uma das dezenas de imobiliárias que ainda mantinham placas no local. Após uma negociação relativamente fácil, onde o apartamento em que moravam entrou como parte do pagamento, fecharam negócio.
Jonas havia finalmente entrando no clima e já planejava sua linda adega climatizada. Após 3 meses de reformas ininterruptas, período em que a família morou em um flat da região, finalmente se mudaram.
Era um dia perfeito de sol, o caminhão acabara de descarregar a mudança e deixou o local. Laura começou a desempacotar a mudança e não se importou de Jonas ir direto para o porão conferir sua adega.
- Laura! Venha logo! Você vai adorar isso!
O novo chamado do marido tirou Laura de suas lembranças e ela retomou o caminho para a cozinha onde ficava a entrada para o porão.
Ao se deparar com o pequeno lance de escadas que levavam para o andar inferior é que se deu conta de que nunca havia descido. No dia que visitaram a casa pela primeira vez somente o marido e o corretor entraram no porão. Laura por algum motivo preferiu ficar de fora e mesmo durante as reformas nunca se interessara ou sequer lembrara em conferir a adega do marido.
Desceu os degraus e passou pela porta de madeira escura. A sua frente um não muito longo corredor com prateleiras de madeira com não muitas garrafas de vinho dispostas frente a frente forrando as paredes. Estas e o teto haviam recebido um acabamento rústico, a luz era indireta vindo detrás das prateleiras. Um ambiente bastante aconchegante, fresco e não muito claro. Seguiu por entre as garrafas e o fim do corredor se abria para uma pequena sala com uma mesa e uma confortável cadeira. Iluminando a mesa apenas uma luminária que pendia do teto lembrando aqueles filmes policiais antigos em que o suspeito era posto sob interrogatório. Finalmente atrás da mesa estava Jonas com o olhar de uma criança que acabara de encontrar um tesouro. Em suas mãos um martelo e ao chão pedaços da parede dos fundos da adega.
Percebendo o olhar preocupado de sua esposa diante da cena Jonas se pôs a explicar o que havia acontecido.
Estava lá embaixo conferindo sua coleção e resolvera abrir uma garrafa para comemorar a mudança. Escolheu um bom vinho e foi até a mesa onde estava o saca-rolhas. A luz da luminária era forte e refletia no vidro da garrafa, que por sua vez refletia uma luz avermelhada no ambiente. Então, conforme Jonas moveu a garrafa em determinada posição percebeu um novo reflexo que durou apenas alguns segundos vindo da parede do fundo da adega.
Apesar de ter sido rápido, foi o suficiente para que Jonas soubesse sua origem e só neste momento ele percebeu um pequeno vão na parede. Deixou o vinho em cima da mesa e se aproximou da parede. Tentou olhar pelo vão mas o ambiente era muito escuro. Voltou a mesa abriu uma gaveta e pegou uma lanterna que estava lá, caso uma lâmpada queimasse. Direcionou a luz da lanterna para dentro do buraco escuro e novamente um reflexo veio de dentro da sala escondida. Tentou abrir mais o buraco com as mãos mas não teve êxito. Se lavantou e pensou por alguns segundos. Então saiu correndo da adega para logo em seguida voltar com um martelo nas mãos. Em alguns minutos havia uma passagem grande o suficiente que ele pudesse passar. Então, com a luz da luminária agora entrando na sala exposta e com a ajuda da lanterna pode vislumbrar o segredo guardado por detrás da parede.Móveis antigos, vasos decorados, grandes baús, tudo isso parecia cenário de fundo para o que realmente chamava a atenção, um espelho.
Foi neste momento que chamou por Laura.
Era um espelho grande e de formato retangular, do tipo que têm pedestal. Sua moldura continha pequenas inscrições e desenhos que pareciam muito antigos e que lembravam os hieróglifos que se costumava ver em programas do Discovery Channel. Laura se aproximou da peça e o marido a acompanhou. Sentiu um arrepiu subindo sua espinha ao vislumbrar seu próprio reflexo no espelho oxidado pelo tempo. Jonas por sua vez continuava empolgado.
- Não é uma peça linda? Praticamente descobrimos um tesouro aqui Laura!
O marido a abraçou e a beijou. Formavam um casal bonito e eram a imagem da felicidade. Chamaram pelas crianças que ficaram tão encantadas quanto o pai com a descoberta. Todos se abraçavam e riam, e enquanto participava do momento de felicidade com a família, Laura viu o reflexo de todos no espelho, e ao olhar para si mesma viu algo que fez seu coração disparar. Sua própria imagem olhava para a família do lado de fora do espelho. Apesar de repetir os mesmos movimentos, os olhos de seu reflexo observavam e acompanhavam os movimentos da família se abraçando e comemorando, para então desviar o olhar e encarar Laura diretamente lhe oferecerendo um sorriso artificial e com seus olhos se tornando turvos e cinzentos.
Tudo acontecera em segundos. Laura piscou, desviou o olhar e voltou a encarar novamente o reflexo para descobrir que não havia nada de sobrenatural na imagem refletida, apenas a família.
Quis sair dali o mais rápido possível mas, para não assustar as crianças e nem preocupar o marido continuou sorrindo e os direcionando para fora da sala. Laura não pode ver, mas enquanto saiam, seu reflexo lentamente olhou para trás para observar com inveja a felicidade da família unida.
O dia passou rapidamente. Com todos os afezeres que a mudança exigia todos estavam cansados ao cair da noite. Laura não havia conseguido parar de pensar na visão que achava ter tido na adega. Os olhos cinzentos e sem vida de sua própria imagem a encarando e cobiçando sua família. Um olhar desejoso. Um olhar de inveja. Um olhar que Laura conhecia bem.
Jonas colocou as crianças para dormir no novo quarto.
Laura o esperava sentada na cama. Havia planejado uma noite de amor com o marido para comemorarem e demonstrar sua gratidão pela realização do sonho. Se entregou aos carinhos de seu homem e finalmente se esqueceu do que havia visto.
- Laura…
Ela acordou num salto, meio desnorteada devido ao novo ambiente. Olhou para o lado e viu que o marido dormia profundamente. No mesmo instante se lembrou do espelho. Tentou tirá-lo de sua mente, porém, a imagem daqueles olhos cinzas e a maneira como encarava a família não saía de sua cabeça.
Num impulso se levantou e saiu do quarto.
Passou pelo quarto das crianças, desceu as escadas e se encaminhou à cozinha. Conforme ia passando pelos ambientes ia acendendo as luzes. Queria sentir que tudo era real a sua volta.
Chegou a cozinha e se pôs de frente a entrada da adega. Hesitou por alguns momentos e desceu.
Acendeu as luzes fracas e se encaminhou a mesa no fim do corredor.
A passagem e o espelho estavam escondidos sob a escuridão. A luminária sobre a mesa não havia acendido, Laura mexeu na lâmpada mas nada aconteceu. Tateou sobre a mesa buscando a lanterna que o marido havia usado, logo a encontrando, bem como ao martelo. Pegou a lanterna e o martelo e direcionou o facho de luz através da passagem. Por alguns segundos não entendeu o que via. Num impulso para absorver melhor o que estava vendo Laura foi se aproximando do espelho. Conforme chegava mais perto ia percebendo e aceitando a bizarra imagem de si mesma porém de costas. Era sua imagem que se aproximava andando para trás conforme Laura se movia para frente. Sabia que era ela pois eram as mesmas roupas, os mesmos movimentos o mesmo cabelo comprido e negro, porém bizarramente de costas. Laura estava hipnotizada pelo reflexo. Os cabelos negros da imagem escondendo o rosto por trás do espelho. Sem se dar conta, levantou a mão lentamente para enconstar na superfície do espelho. A mão do reflexo fez o mesmo. Quando finalmente tocou a superfície sentiu um leve toque em seu ombro direito. Seu coração disparou e a vista escureceu por alguns segundos. A razão lutava selvagemente com o pânico que crescia, e por alguns momentos a fez pensar que era apenas o marido que viera buscá-la. Se virou e aqueles mesmo olhos cinzas com profundas olheiras estavam logo atrás dela. A pele seca e repuxada, a boca levemente aberta como se estivesse murmurando algo inaudível e a cabeça levemente caída para o lado completavam a visão sobrenatural. Laura gritou mas sua voz não saía, deixou a lanterna cair e se esqueceu do martelo que estava na outra mão. A coisa agora a segurava firmemente pelos ombros e a empurrava lentamente em direção ao espelho. Laura se debateu, lutou com todas suas forças até sentir um superfície fria envolvendo suas costas. Parecia água mas havia o barulho de vidro sendo pisado. Estava sendo empurrada para dentro do espelho. Gritou de pânico diante do inevitável. A coisa então a soltou e a ficou abservando. Laura tentou se livrar, mas o espelho a puxava cada vez mais. A “coisa Laura” apenas observava. Laura não acreditava no que acontecia, só podia estar sonhando um pesadelo muito real. Fechou os olhos e sumiu através do vidro.
Quando acordou, estava deitada no chão com o espelho à sua frente. Não sabia como mas devia ter ido parar ali com algum ataque de sonâmbulismo. Então ouviu Jonas chamando-a. Ouviu seus passos descendo a escada e se encaminhando até onde estava. Não conseguia parar de olhar para o espelho. Então viu a imagem de Jonas aparecendo e colocando a mão em seu ombro. Porém não sentiu o toque, e para sua surpresa, viu que estava sozinha. Olhou novamente para o espelho e viu sua imagem abraçada ao marido saindo da sala, ele pegando mais uma garrafa vinho e ela lhe dando um último olhar.
Seu cérebro trabalhava com velocidade na intenção de achar uma resposta racional ao que não tinha resposta. Então ouviu algo vindo do corredor da adega atrás de si. Não pareciam passos, mas sim algo que se arrastava e que respirava com dificuldade. Sentou encolhida, de costas ao espelho. Não pode conter a urina que escorreu entre suas pernas quando ouviu a voz que vinha do corredor:
- ………..?aaaruaaL
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Muito loco!
-
Confesso que de inicio achei chato. Mas depois ficou legal, e a melhor parte é quando ela toca o espelho e sente um toque em seu ombro.
Oi Lord! Respondi seu post mas coloquei como um comentário…abraço!
Obrigado pelo comentário! O começo é um pouco mais devagar porque senti necessidade de ambientar a história, para que na hora dos acontecimentos importantes, vc entendesse um pouco quem é a personagem principal.
Esse conto me surpreendeu. Começa calminho… calminho, depois o final cai como uma bomba na cabeça do leitor. Eu aqui fiquei ofegante ao terminar de ler, na verdade fiquei o tempo todo com a estória na cabeça depois que li. Parabéns!
Oi Asami! Que bom que gostou! Espero que goste dos outros dois contos que disponibilizei aqui no ONE: “Contos de Golianth: A Lâmina do Destino” e “Nilus Fortex e A Última Batalha Silicon”. Valeu!
Nossa! Depois de tanto tempo esse conto ainda continua entalado aqui na agenda!!! Eu achei até que já tivesse saído, na verdade, já merecia ter saído…
Muito legal!
Começa bem calmo e depois fica assustador. *_*