Filhos do Éden: Herdeiros de Atlântida: Livro 1
Papo na Estante 34 – Prêmios Literários
29 Dicas para se manter criativo:
Vaucarn
A Lenda de Fausto
Chat dos Nerds Escritores
Quer publicar?
Download do livro O Draconiano – Livro 1
Jul
11
2010
Conto em Série

Andamento nº5 – Adagio

Escritor: E.U Atmard

Ninguém ama neste mundo triste.
Houve uma noite em que fui a um Cabaret em Artemísia, e passei a noite sentado num canto. Sombras atravessavam-se à minha frente, rindo e sentindo-se como se estivessem no topo do mundo. Eu olhava-as, e ninguém me olhava. Ninguém era digno de pôr os seus olhos nos meus, ninguém sentiria os meus sentimentos presos.
Uma sombra parou uma vez, um dia. Tanto o seu corpo como a sua cara estavam desfocadas e eu não percebia o que se encontrava à minha frente. Ninguém se mantinha à minha frente. Ninguém estava na pista de dança, e ninguém queria saber.
Estávamos num Cabaret, não havia pista de dança.
Uma mulher cantava muito bem e de maneira muito nobre, e à minha frente havia uma sombra muito doce, que me olhava e me falava na sua vida, na sua linguagem estranha. Mas não era ninguém, era uma sombra como haviam naquele tempo mil e uma iguais. Em cima do palco, ninguém cantava e ninguém actuava, e uma sombra desfocada cantava muito bem. Lorena cantava, com o seu tom melodioso, e pedia que a levassem para longe.
Eu parei e olhei à minha frente, e sombras de carros andavam à minha frente.
Eu avancei e os tempos mudaram, e aqueles carros ganharam uma nova forma e uma nova força. Mas ninguém via, ninguém queria saber, todos o aceitaram como se fosse tudo normal. E ninguém queria ver o que estava por detrás da minha portinhola no meu peito. Não havia um só sítio onde as sombras de pessoas reais não pairassem. E aquela doce sombra encontrava-se à minha frente, uma criatura tão doce que ninguém se atreveria a não a olhar quando passava. Falava das suas ambições de sombra, daquele desejo que deixou de ser tabu com o século passado. Ninguém quer saber do desaparecimento desse tabu.
Estávamos num Cabaret, não podiam haver tabus.
Sentado no meu canto, sozinho, com uma bebida amarga desconhecida, via aquela menina cantar no topo do seu palco. Cantava como ninguém. Ninguém como cantava. Acreditava na altura que morrer junto àquela sombra seria algo muito bom. Morrer não me assustava. Ninguém teme a morte quando é novo. E os carros passavam, os tempos passavam, e aquela criatura continuava a abanar o seu cabelo estranhamente curto, e eu olhava para a tela onde cantava uma mulher nova.
Não havia ninguém que tocasse o banjo, e ninguém o tocaria melhor que eu. Eu tocara banjo, até o namorado da minha irmã o partir, momentosa antes de se ver estendido no chão perpetuamente. Estávamos num Cabaret, não havia lugar para pensamentos absurdos. E eu ardia de cansaço, e os meus membros inferiores, não os sentia. E tudo o que me parecera verdadeiro antes, parecia agora algo estranho. Ninguém era verdadeiro, até as sombras se enegreciam para as linhas projectadas pelas sombras. Imagino, se fôssemos objectos da quarta dimensão, uma sombra seria algo negro mas como um humano.
Sentado sozinho, com uma sombra bela e deliciosa à minha frente, e uma mulher desconhecida a cantar. E eu pedia, pedia, pedia a mim mesmo que houvesse uma forma de eu poder voltar a falar como eu antes fizera, e que as palavras não secassem na minha boca como normalmente acontecia. E eu andava. E tu andavas. E a sombra criatura mantinha a sua cara diferente à minha frente. Eu sempre me prezei de ser alguém que tem um óptimo desejo de manter uma vasta colecção de raridades, uma montra guardada na minha mente que mostra todas as mulheres e homens de rara beleza ou estranha forma. E o Cabaret parecia estar cheio dessas raridades. Apenas parecia, pois ninguém sem ser aquela menina com os seus 30 aninhos ou pouco mais era de valor para uma colecção completa como a minha. Não há uma única luz que se mantenha no ar pesado da rua.
Também eu sinto que estou para lá do que é normal, ou aceitável.
Sempre que uma barracuda nasce, a igreja de Renata oferece-lhe um mafagafo para que ela o devore e aplaque a sua Fúria de barracuda mestra. Depois, eles pegam no grandioso peixe e deitam-no num tanque com centenas de outras barracudas iguais a ela, para que ela deixe de sentir que é especial. As barracudas são animais deliciosos, e comem animais de sabor horrível como os mafagafos. Funciona como uma roda dentada.
Ninguém liga às barracudas.
No Cabaret eu me mantinha, com a minha sombra à minha frente, pairando no lugar à minha frente. Eu olhava para ela, e queria ver quanto tempo podia ela aguentar sem pôr os seus lábios numa parte do meu corpo. Imaginei até algo bastante engraçado. Um camião de dez toneladas caía em cima dela e matava-a, e eu estava lá, e ela punha os seus lábios no meio das minhas mãos para as abençoar. E o filho do dinossauro caía de uma altura gigantesca e destruía-nos. Um relógio gigante batia as badaladas, e o dinossauro caía, e nós mantínhamo-nos ali, abraçados um ao outro, incapazes de fugir devido ao tamanho gigantesco do animal.
Sinceramente, se eu fosse um dinossauro, preferiria ser algo como um grande bicho que aterroriza vilas e aldeias, com o intuito de se divertir e de fazer ver às pessoas que elas estão a cometer um erro ao provocarem todos estes dinossauros. Os dinossauros são criaturas naturalmente amistosas, que gostam que gostem deles. Afinal, se não fossem os dinossauros, o que seriam as barracudas? Mas não, não foi isso que aconteceu, e eu não me transformei num dinossauro, e no Cabaret todos se mantinham no mais perfeito silêncio barulhento e nauseabundo. E aquela mulher cantava, com algo que batia lentamente dentro do seu coração, e que a sua mente comandava. A mente mente. Mas alma ama.
Não havia um só ser vivo naquela amalgama de sombras mortas que me pudesse dizer o que estava a sentir e não mentisse. As sombras mentem. Sombras são criaturas que atravessam a minha mesa e riem, e me afastam do meu canto pois é tarde e eu tenho de ir embora. Mas porque tenho de ir, se as sombras não vão, se a mulher não vai? Que tenho eu, que não possa ser justificado com apenas um toque de um digeridoo, que sou eu que não possa ser explicado com o bater de asas de uma borboleta.
Ninguém estava sentado nas cadeiras, ninguém, ninguém, pois era tarde, e o meu canto tinha de ser tomado de volta.
A mulher continuava lá, e pedia que nos deixassem mais um pouco.
Em casa da mulher, sentei-me a um canto do sofá, e ao meu lado estava uma sombra de mulher-criatura. Não havia ninguém naquela casa que não fosse um absoluto. E não havia nada que não possuísse um canto ou uma habitação.
Quem sou eu que não sou ninguém?
Quase nunca senti os meus pés. Está sempre frio.
Aquela sombra parecia sentir o desejo de fazer amor comigo. Que amor é esse que não tem nada de amoroso, e que não ama o outro apenas o fazer sentir melhor? Se amar é morrer, então Deus é morte.
Morte é Deus.
Se a noite acaba quando o sol raia, então o que acontece às sombras da noite é que elas devem recolher-se na sua casa para poderem sentir o amor a correr nas suas veias de noite, como heroína nas de um drogado, ou amor nas de um apaixonado, e tudo é noite, e morrem todas as noites, junto ao seu amado, uma sombra junto a outra.
E aquela sombra quis-me morrer, mas ninguém lhe deu ouvidos.
O meu nome não é ninguém.
As barracudas são animais de grande porte, e os que servem Renata nunca sabem o que fazer com os animais devoradores de alma que deixam o corpo intacto, sombras passeando na noite como se fosse a sua casa. Se todas as noites alguma morresse, neste caso morrer no sentido original da palavra, que seria das barracudas? Os mafagafos tornar-se-iam uma praga.
Ninguém toma os mafagafos como ameaça.
Maioritariamente porque,
Nunca ninguém escreveu poemas sobre eles,
Nem sequer uma quadra crassa.
A sombra deitou-se em cima de mim, e a sua alma batia, e ela tornou-se uma pessoa, como eu só que com mente. Que seria das crianças se a sua mente não estivesse mirrada? Ninguém quereria responder.
Não há lugar no mundo para loucos e sociopatas que não admitem que são loucos ou sociopatas, porque eles são pessoas como os outros, de uma maneira curiosa…
Ora, eu sou o falecido Stevie Wonder.
Porquê? Primeiro, porque os dinossauros de pata grande discordam em grande parte da posição tomada pelas barracudas, e adjudicam que estas tomaram uma posição de nacionalismo extremo ao invadirem a cidade-estado de Lornuy. E tanto eu como ele concordávamos com os dinossauros de pata grande.
Depois, sigo a simples lógica. Ninguém é perfeito. Eu não sou ninguém. Portanto eu sou perfeito. Mas apenas Deus é perfeito, e assim eu sou Deus. Deus é amor, e o amor é cego. Stevie Wonder era cego. Portanto eu sou Stevie Wonder.
Perdoem-me o mau gosto.
A sombra não estava lá, estava só, e ela abraçou o meu corpo antes de cair num sono profundo. E eu senti como se nada no mundo fosse real, e a minha mente traísse o meu corpo e não deixasse mais que eu sentisse nada. E eu senti o meu corpo fora, apodrecendo a cada segundo que passa, fazendo da massa de carne uma massa de lixo orgânico que depois de decomposto se vai transformar em alimento para pequenos animais, que vão produzir alimento para uma árvore, que por sua vez vai viver uma vida longa como a nossa, e depois decompor-se em lixo que se torna em alimento para um animal, e depois para outro, e um terceiro que nós comemos, e depois nós tornamo-nos alimento para uma barracuda esfomeada. E num momento eu comia um pequeno pedaço que pertencera um dia a um dinossauro de pata grande, e eu comia um camarada de crenças. E aquela pequena sombra quase inexistente, deixava de fazer sentido, e começava a empecilhar-me, e começava a impedir-me de fazer a minha música e os meus actos de divina magnanimidade para com os pequenos povos que se estendem para lá do que a vista alcança.
Agarrei numa faca, e como tinha aprendido com a sociedade e com o camarada Agrastos, eu cortei a garganta da jovem mulher-sombra-criatura que se deitava à minha frente, calmamente esperando que eu o fizesse de uma maneira ou de outra. Tapei-lhe a boca e esperei que ela parasse de lutar contra mim. O sangue jorrou lentamente, e como faria uma barracuda, eu lambi-lhe a ferida, bebendo um pequeno golo de sangue. Anti-higiénico dizem vocês? Sim, mas as barracudas também não morrem disso.
O que haverá para além do fumo e do vapor?
O frio ecoou pelo meu corpo, e eu cheguei perto do corpo ainda quente daquela criatura-mulher-sombra-cadáver. Ela mantinha uma espécie de olhar delicioso para o tecto, e os meus pés frios percebiam que eu não era ninguém.
Como já disse, eu sou a favor das leis que criaram para defender os direitos dos dinossauros de pata grande. Por outro lado, estes são contra o ataque que as barracudas fizeram à cidade-estado de Lornuy. Esta última caiu facilmente contra um exército de peixes de presas grandes, atacando com a sua força mortal uma cúpula gigantesca. Tu estavas lá, lembro-me de te ver lá naquele dia. A igreja de Renata tinha acabado de soltar as barracudas para elas soltarem a sua Fúria implacável. Não havia mafagafo que conseguisse acalmar uma debandada tão potentosa, e Lornuy caiu.
Depois, tive de sair da cama e ir tomar um banho, pois o sangue começava a secar e ficar em grandes manchas no meu corpo, bem como a empapar os lençóis vermelhos de vermelho-escuro.
Malditas prostitutas, julgaram mesmo que lhe ia pagar?


Written by E.U Atmard in: Agenda,Andamento,Autores,Contos |

1 Comment»

RSS feed for comments on this post.


Leave a Reply

Powered by WordPress. © 2009-2011 J. G. Valério