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Jul
26
2010

Contraste entre o feio e o belo

Escritor: Thomaz Lucas Alves

As paredes do estúdio radiofonico eram fofinhas.

Estofadas para evitar que o som interno vazasse para as salas do outro lado da porta.

Ou para evitar que o barulho das salas do outro lado da porta entrassem no estudio, sem pedir licença.

Na verdade, o que importa, é que as paredes eram fofinhas.

A esponjinha cinzenta e ondulada do estofamento acustico da parede se desfazia cada vez que eu a tocava.

Meus dedos remexiam na fofura da parede e os pedacinhos de cor sem graça grudavam na minha camisa.

Eu espanava a sujeira com a mão em forma de leque e tornava a me encostar naquela parede macia.

Então tudo recomeçava.

Uma sinfonia silenciosa de peadacinhos fofos de parede e carne humana raspando em tecido de algodão.

Mas tudo isso também não importava.

Sério.

A voz, somente a voz, importava.

A voz dela.

Não ela.

A moça.

Alvo de meu amor, existindo do outro lado do vidro, a salinha de controle de audio, junto do técnico.

Não ela, ninfeta cunhada de maneira perfeitinha, toda miudinha, me observando atentamente com aqueles olhinhos meio esverdeados, como se soubesse tudo aquilo que eu pensava.

Talvez realmente soubesse.

Mas não era dela a voz.

O som que eu ouvia provinha das cordas vocais da mulher.

A mulher, de pé na minha frente, tomava toda a minha atenção.

Não por sua beleza.

Não pelas curvas do corpo ou os dedos misteriosos.

Criteriosos.

Nem pelos lábios sensuais por natureza, que mexiam-se com leveza ao pronunciar cada palavra.

Cada sílaba era música.

A mulher tinha mais idade do que aparentava e ainda mais idade do que as pessoas imaginavam.

Não era uma ninfeta como a moça.

Era mulher feita.

Embora mantesse o jeito alegre e verdadeiro da juventude dos vinte anos.

O jeito festeiro e divertido.

E ainda melhor era a voz.

A locução estava perfeita.

Fazia-nos sentir como se estivessemos em uma noite de inverno, debaixo da luz da lampada do poste.

Toda a cronica destilava por sua garaganta como vinho tinto.

Agraciava meus ouvidos com a sincronia da melodia das Valkirias.

O texto trágico, exagerado, contornado pela macies e precisão do som emitido pela mulher.

A combinação provinda dos contrastes entre o feio e o belo.

A beleza dela e a feiura dele.

Do texto. ?

3 Comments»

  • Andrey Ximenez says:

    Thumb up 2 Thumb down 0

    Kra… eu gostei bastante da extrutura… mas acho que é o tipo de texto que terei de ler de novo.

    “Toda a cronica destilava por sua garaganta como vinho tinto.”
    -
    Corrigir o garaganta ;)

  • Asami says:

    Thumb up 1 Thumb down 0

    A narrativa deste conto foi muito legal, especialmente nas comparações e descrições profundidas, passando intensidade da paixão que o narrador sentia pela voz de sua locutora. AS frases simples e curtas ao meu ver, deram toda uma beleza ao conto, que, pra mim ficou de uma exímia qualidade.

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Publicado por thomazcaitiff

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Vagabundo profissional e jornalista nas horas vagas.

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