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Jul
26
2010

Gaarth e o Medalhão das Visões – Parte 1

Escritor: Luis Oselieri

Um homem magro colocou uma enorme pedra em suas costas, e caiu no meio dos outros que também não pareciam menos cansados. Outros dois se esforçaram e suspenderam a pedra com as mãos cobertas de sangue, mas caíram rapidamente no meio da lama. Gaarth jogou na terra o cigarro de palha que havia acabado de terminar, olhou para aqueles homens e mulheres, exibindo ossos debaixo das peles queimadas de sol, eles poderiam estar mais seguros e bem alimentados naquele lugar. O guerreiro sabia de que eles iriam continuar morando naquele vilarejo esquecido pelo mundo, mas não os deixaria abandonados, junto com suas crianças doentes. Ele então jogou sobre a terra avermelhada da estrada um pano sujo de poeira, que cobria um grande cesto de palha, repleto de pedaços de pão, queijo, maçãs e garrafas de leite. Crianças começaram a correr na direção do cesto, enquanto se empurravam, desesperados para pegar os alimentos.

Em uma noite fria de inverno, desde o dia em que havia perdido a mãe, o pai e a irmã, durante cinco anos esta era a rotina diária de Gaarth. Ele nunca mais havia conseguido dormir em paz, pois as lembranças que invadiam sua mente, das feras da lua cheia, uivando no meio dos arbustos da floresta, lhe traziam tormentos que ecoavam na escuridão. O vilarejo do Rio de Prata sempre foi uma região onde a paz reinava, mas depois da invasão das criaturas humanóides, de rostos deformados e corpos cobertos de pêlos, centenas de camponeses perderam suas vidas tentando se proteger dos constantes ataques.

Numa tentativa de defender o vilarejo das aberrações, paladinos e clérigos se juntaram, e após quatro meses de uma guerra que parecia interminável, Rio de Prata finalmente conseguiu se livrar dos invasores selvagens. Gaarth não suportou ver todas aquelas mortes em sua terra, decidiu que começaria a fazer o rigoroso treinamento dos guerreiros, que era ensinado pelo mestre Yadnos, considerado o guerreiro mais habilidoso de todo o continente. Cada dia que se passava era mais um progresso com as técnicas de combate com espada larga.

- Por favor, moço, não vai embora! – uma menina de cabelos negros gritou, com lágrimas escorrendo pelo seu rosto de traços suaves.

- Volte para casa, garota. Aqui fora é perigoso ficar sozinha. – disse o guerreiro, se preparando para montar em seu cavalo branco.

- Não. Gaarth, quero ir com você. Eles vão voltar aqui, aqueles monstros, eu sei disso.

O guerreiro se ajoelhou na estrada e tocou os cabelos da menina, que parecia ter uns doze anos de idade. Seus olhos azuis carregados de lágrimas brilhavam, ela demonstrava de que ainda tinha esperanças de que um dia tudo iria mudar para melhor.

Os ventos da noite trouxeram um leve aroma de orvalho, misturado com a  umidade das folhas que se desprendiam dos galhos das árvores. Gaarth passava sobre as chamas de uma fogueira um espeto de ferro com pedaços de carne atravessados, enquanto olhava para a garota, que parecia curiosa, sentada ao seu lado.

- Tem razão. Não posso deixá-la aqui. Mas também não posso levá-la para a cidade mais próxima. Qual é o seu nome?

- Me chamo… – a menina caiu para trás com uma flecha que varou seu pescoço.

O guerreiro imediatamente sacou sua espada larga de aço e olhou para a frente. Vinte homens montados em cavalos negros se aproximavam, enquanto alguns deles seguravam bestas, outros empunhavam machados de guerra.

- Gaarth… seu maldito demônio! Sem nossa companhia, mas andou se divertindo? – gritou Rufus, o líder dos mercenários.

- Não sou um de vocês, e sabem muito bem disso! Pela morte dela… vão pagar caro!

O guerreiro correu, enfrentando uma chuva de flechas que acertavam contra seu escudo grande de ferro. Três homens saltaram de suas montarias, e partiram girando seus machados com muita habilidade. Gaarth esperou que eles se aproximassem, e então sua lâmina cortou o braço direito do primeiro, que se desesperou ao ver o próprio sangue jorrando para o alto.

Correndo para acertar o segundo homem que preparava seu machado, o guerreiro recebeu um violento chute no queixo, e sua espada caiu no meio da grama vermelha encharcada. Sentiu a visão se distorcendo, mas percebeu alguns vultos se aproximando, enquanto recebia numerosos socos no estômago e no rosto.

- Traiu Rufus, e merece morrer! – gritou um dos homens, se preparando para acertar seu machado no pescoço de Gaarth.

- Esperem, deixem ele ir. Sozinho na estrada este lixo não vai conseguir sobreviver .

Se levantando com dificuldades, o guerreiro procurou limpar a boca suja de sangue enquanto resmungava, aqueles homens pagariam caro, ninguém nunca havia lhe tratado desta forma em toda sua vida. Segurou o cabo de sua espada caída na terra, e tombou de volta sobre a estrada, com o impacto de um chute que quase quebrou sua costela.

- Chefe, os dedos, ele não vai precisar deles, posso cortá-los? – disse um dos homens, enquanto passava a lâmina de seu machado sobre uma pedra de amolar.

Gaarth não tinha qualquer opção naquele momento, a não ser esperar que desistissem de continuar lhe espancando. Eram vinte, eram muitos, e apesar de um deles não ter mais um braço, não conseguiria acabar com todos apenas com sua espada. Se ajoelhou e olhou para a terra encharcada do próprio sangue, aguardou ansioso que mais algum deles tentassem outro ataque. Não queria mais fazer parte da Guilda dos Mercenários, por isso seguiria seu caminho, mesmo que tivesse de sofrer as consequências. Não deixaria que continuassem tirando vidas de pessoas inocentes, deveria acabar com tudo aquilo. Um dos homens correu para acertar mais um chute, e Gaarth agarrou sua perna no ar, e então os dois rolaram no meio da terra.

O guerreiro grudou com força suas mãos no pescoço do pobre coitado, que se debatia, implorando para não morrer.

- Largue ele agora! – gritou um dos mercenários.

Gaarth o largou, e seu punho fechado foi em direção ao queixo do homem, mas imediatamente foi segurado por outros quatro.

- Deve deixar o vilarejo, se quiser continuar vivo. Suma daqui, não quero vê-lo na minha frente, nunca mais!

O guerreiro se levantou com as pernas tremendo, e guardou a espada larga de aço em sua bainha. Deixaria aquele lugar, não precisava de ser um mercenário, mas se lembraria para sempre daquele dia.

Três dias de viagem se passaram e Gaarth ainda não conseguia esquecer a flecha que tirou a vida da pobre garota. Havia deixado para trás o vilarejo, mas sabia de que seu povo continuaria morrendo, pelas invasões das feras noturnas, e pelos mercenários, por isso as últimas noites não foram muito bem dormidas. Também perdeu seu cavalo, mas isso não era nada para ele, poderia comprar outro em alguma cidade mais próxima. Mas ninguém iria trazer de volta aquela menina tão bela e inocente, que estava apenas pedindo proteção e um pouco de compaixão.

Caminhar no meio da estrada sem uma montaria não era uma tarefa fácil, e Gaarth sabia de que poderia encontrar ladrões e toda espécie de ameaças, mas ainda assim confiava em sua espada. Depois de atravessar por horas um extenso trecho sem qualquer sinal de vida, o guerreiro finalmente encontrou alguém que poderia lhe dar alguma informação.

- Senhor! Ei! Aqui por perto tem alguma cidade ? – ele perguntou, enquanto mantinha sua mão direita repousada sobre o cabo da espada.

O velho parecia distraído em seus pensamentos, mas fazia questão de acariciar um estranho medalhão que estava em seu pescoço fino. Devia ter uns sessenta anos de idade, e parecia não se importar com a presença de viajantes.

- Está me escutando? Procuro por uma cidade. – Gaarth disse em um tom firme, mas irritado.

O senhor se levantou lentamente de cima de um monte de terra, coçou o braço esquerdo repleto de moscas, e respondeu:

-  Na hora certa, você chegou na hora certa.

O guerreiro pensou por um momento sobre o que aquele velho homem queria lhe dizer, e arriscou:

- Senhor, não estou entendendo. Quero apenas saber onde fica a cidade mais próxima, sabe me dizer?

O velho continuou acariciando o medalhão, brilhante e magnífico, coberto de esmeraldas e símbolos especiais.

- Não tem cidade por aqui, Gaarth. Você chegaria na hora certa, foi o que ele me disse. E chegou, não é?

Seria difícil conversar com um homem que parecia estar delirando em sua própria fantasia, mas o guerreiro não tinha outra escolha. Talvez fosse melhor respondê-lo de acordo com o que ele mesmo acreditava.

- Meu nome… como o conhece? Está dizendo que não tem cidade, mas por que?

O senhor parou de esfregar o medalhão por um momento, e seus olhos revelavam uma tristeza que Gaarth ainda não conseguia entender o motivo. De alguma forma aquele artefato parecia estar lhe mostrando um caminho que o guerreiro nunca havia conhecido, mas sentia de que talvez fosse seu destino.

- Gaarth… as visões… você também as tem?

Estaria mentindo se dissesse ao velho que não tinha os sonhos, os mesmos sonhos que se repetiam durante noites intermináveis.

2 Comments»

  • Asami says:

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    Bem, gostei do início do conto. A narrativa pra mim precisava apenas de um pouco mais de descrições, para situar melhor o leitor acerca do lugar onde ocorre o conto e dos seres que habitam esse lugar. Creio também, que você deva tomar um pouco de cuidado com as repetições de palavras… no mais, gostei do conto, tem um enorme potencial, espero pela continuação.

  • Luis says:

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    Valeu, Asami ! Ainda bem que gostou, hehe

    O conto ja estah completo (tem mais 6 partes), e vão ir aparecendo aqui à medida que o pessoal for comentando e liberando as proximas partes :)

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