Jogo de Bolas de Gude
Escritor: Ramon Bacelar
Nota: Caçapa = pequeno buraco do tamanho de um pires cavado na terra para jogos de bola de gude.
Por Ramon Bacelar
O sol impiedoso e abrasador castigava, maltratava, pressionava a terra seca a tal ponto, que seu grito de sofrimento e agonia se fazia manifestar nas cavidades e rachaduras da terra erodida. As árvores, outrora frondosas e fulgurantes, agora agonizavam com suas parcas folhas cor de tristeza; de braços esqueléticos e suplicantes, ainda oravam para a desnaturada mãe natureza, aguardando impacientes o alimento primordial e em desesperada procura por amparo e consolo temporário, os encontravam no significado emocional das paisagens desérticas. Por todos os lados o abandono e desolação erguiam seus braços em gestos tirânicos e autoritários, clamando pela terra esquecida por Deus. Era uma terra rica em abismos, vazios e nadas: a existência tinha uma cara ruim.
Nesta região de infinitas impossibilidades, dois garotos, um maneta e um perneta, espantavam a fome, a sede e esqueciam a si mesmos com inocentes jogos de bolas de gude. Numa rara área de terra mole, atrás da casa da benzendeira Benedita, cavavam caçapas para os jogos de gude. Perneta, andando como um saci embriagado, finalizou as duas primeiras e dirigiu-se a sua casa para almoçar: a sopa de palma não alimentava, mas com breves exercícios de auto-engano e auto-ilusão espantava sua fome e sede para um cárcere temporário. Maneta, com hercúleo esforço, a mão solitária em forma de concha, cavava…cavava…cavava…
Perneta voltou e, com postura estatuesca e olhos vitrificados, observava os movimentos mecânicos e obsessivos de Maneta: há muito a caçapa não era uma caçapa, e Maneta não era Maneta. O sol continava a pino e o ar quente e pesado penetrava nos pulmões como uma fervente sopa de chumbo.
-Pare!
Berrou Perneta, mas Maneta cavava, cavava…
Segurou-o pelo braço tentando puxá-lo, mas já exaurido pelo calor sufocante, cedeu a força brutal do amigo. Maneta cavava, suava, babava, tremia, ria, ria, ria…
Perneta, com sua face borrada por um vermelho asfixiante, locomovia-se como um espantalho epiléptico em busca de auxílio; olhava para os lados, para cima, para baixo, e só exengava o nada, vazio, vazio, vazio…
Repentinamente um grito cortante e ensurdecedor, seguido pelo rugido de uma repentina tromba d’água rasgou seus tímpanos o obrigando a olhar para trás, e eis que, seguido de um súbito esmorecimento dos sentidos e enturvamento da visão, vislumbrou fugazmente o braço órfão do amigo desaparecer no imenso abismo terreno que em sua breve infância inocente fora um mera caçapa de bolas de gude.
-Tia!Tia!
Exaurido de qualquer resquício de vigor muscular, Perneta rasteja como uma cobra semi cataléptica à procura de Dona Benedita. Ergue o pescoço e entorpecido pelo disforme horror que o possuía, vislumbra a paisagem agonizante como um intenso delírio de metamoforse e transmutação, como um ciclópico abismo de fogo em cujo solo ardente brotavam com inefável abandono e ansiedade afortunadas papoulas, enrubescidas pela sua nova existência flamejante, coroas-de-cristo com seus espinhos vigilantes, irradiações misteriosas de radiância violácea, cogumelos gigantes de odor nauseabundo e textura leprosa; o céu, acima, antes triste e cinzento, agora ardia em chamas como a paisagem, abaixo. A existência agonizava.
Antes de alcançar o umbral desmaiou.
Silêncio.
A consciência da inconsciência…
-Onde ele está?
A voz leve e pausada de dona Benedita jorrou em seus ouvidos como um rio de água clara.
-Braço, caçapa, escuro, puxei…tentei…
As palavras saíam com dificuldade, fragmentadas e desconexas.
-Onde ele está?-Repetiu.
-Caçapa…fundo,escuro, caiu…
-Caiu? Onde?
-No…va-va…va…
Babava e gaguejava.
-Onde!!!
-No…no…
Tremia, babava, gaguejava.
No…no…no VAZIOOOOOOOOOO!!!!
Como um melão sustentado por uma frágil vara de bambu, olhos cadavericamente vitrificados, a cabeça de Perneta despencou por sobre o ombro, para nunca mais se levantar.
FIM
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“As árvores, outrora frondosas e fulgurantes, agora agonizavam com suas parcas folhas cor de tristeza” – Esse trecho é fodástico!
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Parabéns pelo texto cara. Eu gostei.
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Deve tomar cuidado com suas escolhas, pois o tom dramático ficou meio balançado quando os personagens, Maneta e Perneta, entram em cena. É inegável a comicidade da cena e fico imaginando se era a intenção real.
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Acredito que não havia a necessidade da NOTA sobre a caçapa, pois o texto explica isto de modo satisfatório.
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É importante criar o hábito de revisar os textos antes de mostrá-los a alguém, pois às vezes cometemos erros de digitação que não percebemos e uma segunda olhada nos ajuda a perceber 90% deles. Você não deu espaço depois de vírgulas e ponbtos muitas vezes
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“a sopa de palma não alimentava, mas com breves exercícios de auto-engano e auto-ilusão espantava sua fome e sede para um cárcere temporário” – Outra construção fodástica. Mesmo com o “a” minúsculo. Hehehe.
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Nunca se sabe quando entcontrará o inferno…
Aff, até eu esqeuci algumas letras e estava assinando Favio no lugar de Flávio.
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Eis um exemplo (bobo)de atitude: Se tivesse “descido a lenha” em você (ou em qualquer outro) pela escrita, teria de calar a boca agora ao alegarem que to errando até meu próprio nome.
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Hehe.
Humildade sempre.
Flávio, obrigado pelos comentários!
De nada, cara.
Quero ver mais textos seus por aqui.
Caro Flávio,
Graças a minha “ingnorança interneteira” me rebolo ao tentar postar meus contos por aqui pelo wordpress, mas certamente vou enviar mais alguns pelo email em anexo.
Caso queira conhecer mais textos de minha autoria convido a dar um pulinho nestes endereços. Comentários são muito bem vindos (:
A Vingança do Ghoul (conto aceito para publicação em livro):
http://casadasalmas.blogspot.com/2010/05/vinganca-do-ghoul.html#comments
Contos no recanto das letras:
http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=72546&categoria=13&lista=lidos
Abraço