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Aug
03
2010

ADV cap.1 – A Última Pedra do Muro

Escritora: Sofia Negri

AQUELA NOITE ESTAVA MAIS FRIA do que as anteriores e, ali onde estávamos, o vento castigava com força nossas costas, chicoteando-nos o aviso de que o inverno havia chegado. Lá em baixo, as ruas estavam vazias e escuras, mas, olhando de cima dos telhados das pequenas casas, eu ainda podia ver um ou outro grupo de humanos. Eles não tinham noção de nossa existência, mas com certeza ouviriam falar de nós mais uma vez em seus noticiários e jornais pela manhã.

Ao meu lado, Chuck procurava por uma janela iluminada com seus olhos cinzas e fundos. Suas olheiras eram especialmente evidentes essa noite. Claire abraçava minha cintura enquanto eu a envolvia pelos ombros. Seu casaco parecia não ser o suficiente para aquela noite.

Pude ouvir, mesmo que bem distante, uma badalada do grande sino do Big Ben. Era quase meia-noite. Isso me lembrou que logo completariam 24 horas desde a última vez. Não sabia se conseguiria adiar mais algum segundo.

- Ai, não aguento mais esperar! Nós precisamos mesmo achar uma família acordada? Não seria muito mais rápido e fácil uma que estivesse dormindo? – parecia que Claire também estava com sede.

- Não! – eu disse um pouco mais alto do que eu esperava. Tentei corrigir logo. – Não, é muito mais divertido ver suas reações do que simplesmente pegá-los dormindo.

Meu tom não pareceu ser convincente o suficiente para mim, mas para Claire pareceu funcionar.

- É, tem razão – ela disse com uma voz risonha. – Mas se demorar muito mais, eu troco a diversão por um serviço rápido.

Aquela ideia me afetou de um jeito estranho. Por que essa resistência de tirar vidas humanas estava crescendo em mim? Ela não era útil em nenhum sentido. Pelo contrário, ela era como um grande muro que eu precisava contornar todas as noites para silenciar a sede dentro de mim.

De repente, Chuck parou e apontou um quadrado reluzente a uns duzentos metros para a direita. Seus cabelos loiros socavam-lhe o rosto sem piedade.

- Quantos? – Claire perguntou de dentro de seu capuz. Seu interesse me incomodou.

- Não sei dizer. Um adulto e duas crianças, talvez três.

- Vai servir. Minha garganta já está um deserto.

Claire se soltou de mim e abaixou seu capuz, se expondo ao vento incansável. Seus cabelos loiros e muito curtos a deixavam ainda mais idêntica a seu irmão.

Os segui hesitante. E se eu não conseguisse de novo? Mas, antes que pudesse pensar mais sobre a noite passada, Chuck já estava em frente a uma janela no terceiro andar de uma casa. Lá dentro, na frente de duas camas pequenas, uma humana adulta estava sentada em uma cadeira de balanço com um livro em mãos. Duas crianças, com os mesmos cabelos escuros e cacheados da adulta, a ouviam atentamente deitados no chão.

- A maior é minha – sussurrou Chuck rapidamente, jogando sua cabeça de um lado para o outro de seu pescoço, provocando altos estalos. – Se eu não aguentar tudo, eu deixo você ficar com o que sobrar – disse em resposta à reclamação pronta para sair da boca já aberta de Claire.

- Está bem – ela concordou com mau humor. – O pequeno de pijama camuflado é meu, então – ela disse, enquanto estalava os dedos das mãos.

Com um chute, Claire quebrou o vidro e entrou no quarto, se posicionando de frente para a família. Chuck foi logo atrás, parando ao seu lado. Foi só quando eu entrei que a humana que parecia ser a mãe conseguiu vencer o choque e se levantou, pulando instintivamente na frente dos menores, abrindo seus braços. Seus olhos grandes e castanhos pareciam determinados a proteger os menores, mesmo que seu medo já começasse a lhe escapar em forma de lágrimas.

Chuck não hesitou. Logo a humana estava com as pálpebras pesadas que quase escondiam seus olhos já sem determinação ou medo, apenas voltados na direção da janela quebrada atrás de nós. De repente, seus olhos se arregalaram e estreitaram-se de dor e ela caiu para o lado, se debatendo e gritando alto.

- Não, por favor! Não nos deixe aqui sozinhos, ainda amo você!

Ela mirava o vazio, mas o medo ainda estava ali, acompanhado agora com o desespero de ser abandonada. Eu quase podia ver refletido no castanho de seus olhos a imagem de seu marido fechando a porta enquanto partia.

No lado oposto do quarto, Claire balançava lentamente em seu colo o menino que ainda segurava um pequeno soldadinho de chumbo nas mãos. Ele não conseguia parar de olhar para sua mãe contorcida pelos seus piores pesadelos.

- Shhh… shhh… tudo vai ficar bem – Claire sussurrava ao ouvido do menino. – Você não vai querer ver isso,vai? Aqui, deixe-me ajudá-lo.

O menino então olhou para sua assassina pela primeira vez. Seus olhos eram indiferentes ao que viam, sem lágrimas ou medo, apenas com uma centelha de curiosidade. Claire soltou uma mão que o envolvia e a passou pelos olhos dele.

O menino não gritou. Não chorou. Ele apenas levantou levemente suas sobrancelhas e voltou com sua cabeça na direção dos gritos de sua mãe. Suas íris antes tão castanhas agora eram de um branco opaco, e suas pupilas já não reagiam à mudança de luz da lareira acesa.

Só então dei pela falta da terceira humana, a menor de todas. Olhei em volta. Consegui ver à luz fraca e oscilante do ambiente um urso de pelúcia jogado à frente de um pequeno armário. Pude ver escapulindo pela pequena fresta aberta a ponta de uma meia grande demais para quem a usava. Atravessei o quarto, ignorando os gritos incansáveis provocados por pesadelos e driblando o pequeno soldadinho de chumbo que rolara da mão de seu dono, que já não podia mais segurá-lo.

Quando abri o armário, uma pequena humana, com não mais de seis anos, estava com o rosto na quina interna do armário, com os dedos enfiados em seus ouvidos com tamanha força que eles estavam sem circulação. Estendi meu braço em sua direção, abrindo caminho por entre os pequenos vestidos pendurados nos cabides e toquei seu ombro com a ponta dos dedos. Ela se virou assustada, olhando-me com grandes olhos castanhos, encharcados pelo medo. Foi difícil acalmá-la, mas, depois de um minuto, consegui fazê-la se concentrar apenas em meus olhos.

Eu sabia o que aconteceria agora. Mas, a questão é: eu conseguiria entrar em sua mente, mentir fazendo-a acreditar que estava tudo bem e paralisá-la para que ficasse mais fácil morder seu pescoço? Essa noite, o muro parecia ser grande demais para contornar.

- Ah não, Brendon! Chuck, o Brendon vai fazer aquilo de novo! – ouvi Claire dizer do meu lado direito, logo antes de um baque surdo de algo grande sendo jogado no chão. Parecia que ela já havia acabado com sua parte.

- Inacreditável – disse a voz do outro gêmeo, do meu lado esquerdo. Dava para perceber que ele não largara o pescoço da humana para falar. Só então percebi que os gritos haviam parado. – Qual o problema, Brendon? Ela é fofinha demais?

Chuck soltou a cabeça de sua vítima sem cuidado, fazendo-a chocar-se fortemente com o chão. Ele se aproximou da menina que ainda estava em transe hipnótico.

- Se você quiser, a gente pode te dar uma mãozinha… você não está com nem um pouquinho de sede? – ele sussurou em meus ouvidos. Ele parecia gostar do resultado disso em mim.

Sim, eu estava. E com muita. Mas aquilo não estava certo. Não havia outro jeito de calar essa sede, sem que fosse preciso fazer aquela sessão de horrores toda noite?

De repente, senti uma grande dor na parte de trás da minha cabeça. Parecia que eu havia acabado de levar um chute na nuca. Tombei para frente, caindo ao pé do guarda-roupa onde a menina continuava alheia a tudo.

Pude ouvir então os passos apressados de Claire até meu lado e sua preocupação comigo. Virei-me em seus braços, e tudo que eu consegui ver foi a silhueta de um homem e a de um grande cão vermelho, talvez um lobo, se jogando para cima de Chuck. Minha vista começou a escurecer e me pergunto se o que vi depois foi real. Foi só quando vi o cão encolher e se transformar em um pequeno pássaro vermelho que tive certeza de que tinham me acertado com realmente muita força.

Senti meu sangue escorrer de minha nuca para o colo de Claire enquanto o pássaro, o corpo caído de Chuck e o homem que tudo observava desapareciam.

Longe na noite, doze badaladas ecoavam pelas ruas frias e vazias, na primeira noite do inverno.


Written by Sofia Negri in: Agenda,Contos,Sofia Negri |

2 Comments»

  • Andrey Ximenez says:

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    Bem… bacana. Remete a inúmeros lugares comuns. A técnica está boa, a brutalidade tb, embora pudesse ser mais detalhada. Mas em suma, está bom.
    -
    Vamos ver qnd sai a continuação.
    =]

  • Thainá Gomes says:

    Thumb up 0 Thumb down 0

    nossa!Muito massa!

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