Carlo – Parte 1
Escritora: Samila

A chuva era torrencial, e por isso poucos conseguiam ainda se espantar que quase todas as ruas e avenidas estivessem alagadas, especialmente as do centro comercial. Aquela era a parte mais antiga da cidade, afinal. Fôra lá que tudo começara, errado e sem planejamento.
Vias estreitas, nas quais o sistema de escoamento de água fora um detalhe quase esquecido, mas totalmente ignorado. Ineficaz, segundo a prefeitura. Inexistente, segundo a realidade. Afinal, tubos ficam debaixo da terra, não? Quem consegue ver tubos que se encontram enterrados? Se ninguém vê, está na cara que é um investimento inútil. Melhor mesmo usar o dinheiro desses tais desses canos para bancar a obra super-faturada de uma praça com chafariz, banquinhos de mármore e iluminação multicolorida.
Isso sim que é investimento.
Afinal, a praça estava muito bem localizada, em um terreno bonito e alto, no qual não importava o quanto chovesse, jamais seria invadida pelo lixo e pelos cadáveres de ratos que boiavam em seguida, arrastados pela verdadeira correnteza que se formava quando finalmente se encontravam alagados os becos mais imundos.
As pessoas que moravam nos altos de seus prédios de classe média-alta, é claro, se revoltavam ante tão vergonhosa e nojenta situação. Imagine você, em uma bela manhã de sol, abrindo sua janela e aspirando aquele delicioso aroma de esgoto, enquanto vislumbra sua garagem repleta de lama e lixo.
Logo se ouviam reclamações, e logo vinha a imprensa, e logo vinha o prefeito com suas condolências e com suas promessas.
E logo vinha o verão. Isso é um problema de Fevereiro, todo mundo sabe. Contra a natureza, ninguém pode! Mais importante, viram a nova praça que está sendo construída? Mais bonita ainda que a antiga! Com pista de skate e patinação! Ah, é claro, um chafariz maior que o outro! E todos sorriem e levam as crianças, felizes, sem qualquer lembrança dos ratos.
Todos, excerto Carlo, afinal, mesmo quando não alaga em Atlanta, ainda chove. Aquela maldita e constante garoa que já lhe rendera duas pneumonias. E os ratos ainda lhe assustavam quando passavam correndo por perto dos seus pés, e o cheiro de lixo e esgoto parecia já impregnado em suas narinas.
Isso porque ele não era um daqueles honrados cidadãos que moravam em apartamentos estrategicamente localizados no alto dos grandes prédios. Ele também não freqüentava as praças bonitas, pois quando ia lá, mães e policiais ficavam olhando feio para ele. Ele tinha que ficar mesmo era nas ruas baixas e movimentadas, muitas vezes com as botas imersas na lama, com um sobretudo velho protegendo-o dos pingos d’agua. A noite inteira, até que tivesse a sorte de encontrar alguém disposto a pagar por seu corpo. De preferência que tivesse a vontade de levá-lo a um hotel, onde ele poderia tomar um banho quente e descansar sobre lençóis limpos após realizar seu batente.
Mas geralmente o comiam dentro do carro, mesmo.
Mais importante que o hotel, só mesmo a bondade de dar-lhe uns trocados a mais, para que ele pudesse comprar pelo menos um Big Mac, a fim de combater a magreza excessiva que já estava prestes a prejudicar seu instrumento de trabalho.
Era assim que ele vivia, noite após noite, juntado grana para pagar pratos de comida e estadias em pensões vagabundas. O importante no momento era apenas sobreviver. Comer, dormir, tomar banho, e evitar que algum vagabundo roubasse sua mochila. Também fugir da polícia, às vezes.
Também aguentar a chuva, o frio e a solidão.
Naqueles momentos em que se encontrava sozinho, abraçando seu próprio corpo em busca de calor, sob o abrigo de uma parada de ônibus, um arrepio desagradável percorria sua espinha, e então ele pensava em morrer. Talvez tivesse sorte e um dos tantos relâmpagos que cortavam o céu naquele instante lhe acertasse.
Mas como era um legítimo pisciano, logo esquecia tais pensamentos e começava a sonhar acordado. Em sua mente se fazia sempre presente a utopia de uma casa com sistema de aquecimento, sofá confortável, pote de pipocas, televisão de plasma e um belo e carinhoso homem ao seu lado, que o envolvia e dizia que o amava.
-‘Bora logo, seu puto, não quer cinqüenta pratas?
Ele então acordava de seus devaneios, e mesmo sentindo tanta dor em seu peito, obrigava-se a sorrir. Sorria docemente e entrava no carro. Falava docemente, e tocava lascivamente. Tinha que agradar, tinha que provocar. Tinha que provar para aquele babaca que valia mais do que cinqüenta dólares de merda.
Mas o que mais queria mesmo era provar que poderia ser um humano também. Algo que não poderia ser comprado, nem por todo o dinheiro no mundo.
Mas por hora, cem dólares estava de bom tamanho… Uma pena ser um feito raro.
Em boa parte, isso se devia à sua aparência, que embora fabulosa, não era das mais desejadas num país onde o racismo ainda era silenciosamente pregado e alimentado, especialmente num estado onde os hispânicos eram uma minoria marginalizada. E mesmo que Consita, uma das mais belas mulheres que o México poderia se orgulhar de ter gerado, jurasse de pés juntos que havia engravidado de um americano loiro e de olhos azuis, Carlo podia saber ao olhar no espelho que provavelmente seu pai fora um porto-riquenho.
A latinidade estava evidente em cada um dos seus traços: A pele morena e suave, os cabelos negros e quase lisos, os olhos escuros com nuances esverdeadas, as linhas fortes e as curvas quentes. O instinto sedutor mais do que nato, o sorriso branco e apaixonante, o jeito divertido e um pouco cínico. Tudo nele feito para encantar.
Mas que Deus abençoe a América, terra livre, onde sua pele não pode ser diferente.
As coisas só eram um pouco diferentes na sua terra natal… Nas suas remotas lembranças de infância, do tempo em que vivia em Santa Fé, no Novo México. Tempos em que tivera uma casa, embora não tivesse certeza que poderia realmente chamá-la dessa maneira. Moravam ele e a mãe em cortiço, num apartamento de dois cômodos: um quarto e uma sala. Carlo tinha que dormir na sala, enquanto sua mãe atendia os clientes no quarto. Consita ganhava um bom dinheiro, afinal, mexicanos gostam de mexicanas, especialmente as de quadris e seios grandes. Infelizmente ela gastava quase tudo em vodka, e o resto investia em tequila.
A situação só mudou quando Carlo estava com cerca de 15 anos, e sua mãe conheceu Vlademir.
Vlademir era realmente um homem em um milhão. Por mais que procurassem, dificilmente conseguiriam achar alguém tão bruto, animalesco, ignorante, machista e agressivo quanto aquele ‘espanhol de merda’, como Carlo gostava de chamá-lo. Ainda assim, sabe-se Deus como, Consita apaixonou-se por aquele homem, embora a teoria mais aceita fosse a que ela havia na verdade se apaixonado pelo dinheiro dele.
Independente destes detalhes, todavia, o ‘casamento’ –o qual fora uma simples mudança para a casa dele- mostrou-se muito eficaz no ato de mudar a vida daquela mulher: Consita parou de se prostituir e de beber. Vivia agora sob efeito de cocaína, a qual conseguia facilmente graças ao ‘emprego’ de Vlademir, que era um dos principais traficantes do estado.
Carlo, mesmo sem querer, acabou entrando na parada, afinal, Vlademir, como todo bom pseudo-pai, quer o bem de seu pseudo-filho, e por isso não tardou a iniciá-lo nos ‘negócios da família’, usando-o como transportador, moleque de recados, cobrador, e vendedor de portão de escola. Isso quando não estava ocupado em foder o seu enteado, é claro.
A mãe, já em estado de semi-catatonia, aparentemente não notou que seu filho foi obrigado a abandonar a escola, e em conseqüência, o sonho de ser médico. Não notou também os diversos hematomas no seu rosto e no corpo magro de Carlo. Não ouviu de noite os gritos de dor e desespero, e não viu o terror na face dele toda vez que o padrasto o chamava.
O jovem, pelo menos, não demorou muito a dar um basta na situação, fazer o que tinha que ser feito. Ao completar 17 anos, fugiu de casa. Andou de estado em estado, pegando caronas, se alimentando mal, dormindo mal e vendendo seu corpo.
Exatamente como fazia agora, com 19 anos.
Exatamente como deixaria de fazer em breve, mas isso é uma outra história…
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Nossa, Samila, achei sua história ótima. Realmente muito boa.
Parece com o livro “Sara” da J.T. LeRoy, em parte. Apesar de alguns erros de português e de pontuação no início, eu deixei de reparar nisso e mergulhar cada vez mais fundo no que você escrevia. Foi hipnótico.
Quero conhecer mais a história de Carlo, então tem todo o meu apoio para continuar!
Opa!
obrigada!
que bom que gostou
peço sinceras desculpas pelos erros, e acho que vou procurar esse livro que você citou.
Muito obrigada, e pode deixar que eu continuarei a escrever
Muito Bom Samila!!!
Embora eu ainda perfira o Belial, este é muito bom também.
Me prendeu facil, quando vi já tinha acabado.
O tom de ironia é o que mais me agrade nele.
Parabens! E continue assim.
Opa, Valeu Vinicius
eu também prefiro o Belial, mas como ele está meio travado no momento, revolvi escrever um pouco sobre meu Carlo… E sobre o Águia também (acredito que o Guns colocará na agende hj a noite)
São histórias distintas, mas que num futuro se mesclam ^^
Que bom que gostou. O Carlo é bastante irônico ^^
Ainda não li esse.
Acho que vou boicotar a Samila, ela não leu o lenda vinicius. (Como se desse pra não ler a continuação de Belial).
>
Já já leio. Só o chefe se distrair de mim.
Boicota-me não, HIOTO… e pode deixar, que e vou ler… é que eu sou muito de humor, preciso de um homor específico para ler fantasia ‘-’
HUAhauaahaahu
e tb tenho que esperar o povo aqui se distrair XD
Eu sabia que este dia ia chegar. Eu li este conto no Nyah, e soube que cedo ou tarde tu o ias pôr no ONE. Está sem dúvida muito bom, muito cativante…mas já dá para ver por onde isto vai não dá…
—
A seguir é o Águia?
—
Diz por favor que no decorrer da história não vai haver lemon. Pelo menos muito lemon…
Sim sim, tudo eu posto antes no nyah, ara ver a reação imediata do pessoal, aí mando para cá ^^
que bom que gostou… mass diga, onde isso vai dar? XD
e sim, o Águia *-* (amo o Águia mais que qualquer outro personagem meu)
e não haverá lemon não. Esses são apenas prólogos curtos para a ‘Mais pura forma de Amor’, na qual ocorre um lemom, mas apenas um.
Mais uma vez a ironia entorpecente de Samila me prende em mais um de seus contos. Aí fica difícil de sair… como já foi dito anteriormente, devido ao enredo envolvente e imprevisível é difícil reparar nos pequenos erros. Grande conto Samila, parabéns, que venham os próximos!
obrigada, asami *-*
que bom que gostaste *-*
É Samila, um conto com uma ótima dose de realidade. Retratar a vida nas ruas é algo por si só difícil, mas a prostituição masculina é algo ainda mais radical. O texto ficou bom e está com um enredo coeso. Haverá continuação?
Sucesso…
Franz.
Note-se ainda que é prostituição masculina, para outros homens. Não sei se isso tem um nome a sério, mas agora a gozar um pouco, ele não morria à fome? Há assim tantos depravados?!
Pois é, Atmard. A prostituição, seja masculina ou feminina, voltada para o mesmo sexo ou não, é algo que sempre terá mercado. O sexo em si não é a única busca que homens e mulheres querem ao contratar um(a) garoto(a) de programa. Alguns buscam uma simples companhia ou alguém para encostar e abraçar. A carência neste mundo capitalista e consumista é enorme. Apesar da liberdade sexual, dos chats, do sexo fácil, enfim, os sentimentos e a solidão estão cada vez mais evidentes…
Fui moderado rsrsrsrs.
Please wait…
Nem vi nada passível de moderação no seu comentário……
mas sim, o que você falou é um fato notável… e se faz ainda mais presente na outra parte da história, o Águia (o qual o guns não postou ainda ç_ç POSTA Guns, pleaseee!)
Bem, a prostituição masculina é um pouco delicado, pois o preconceito vem em dobro, afinal, além de ‘put*’ é homossexual. Pior que isso, só sendo prostituto, gay w latino longe da fronteira com o méxico nos EUA….
Ainda assim, Carlo é do tipo bonito e andrógino, o que lhe conferia alguns clientes, os quais ainda assim não pagavam muito
Vida dura a dele… desde o período com a mãe até os dias atuais. Não há qualquer “refresco” para amenizar sua existência. É uma batalha diária pela sobrevivência, a todo custo.
e ainda assim ele consegue manter um bom-humor invejável, cínico como poucos conseguem ser…
Obrigada, Franz! e sim, há tempos que eu queria abordar esse tema, e a oportunidade surgiu graças a um romance sobrenatural que eu escrevo. Então tive a idéia de descrever a vida dos personagems (Carlo e Águia) antes de se conhecerem)
E sim, haverá continuação.
Estarei aguardando o desenrolar da trama, Samila. É um tema difícil de desenvolver, mas atual e provocativo. Parabéns…
o Carlo deve ter apenas mais uma parte, ao ponto que Águia deve ter cerca de 3 ou 4…
Acho que vou postar aqui ‘a mais pura forma de amor’, que foi que deu origem a essa história…
Já imagino o que virá… Por favor, não demore a colocar o conto em pauta.
Sucesso, Samila.
Gostei… sinceramente achei superior ao Beliel.
-
Mt bom… mt bom..
Sabe que eu também acho superior a belial? Acho que é porque a personagem é mais palpável, mais fácil de simpatizar
eu acho
Se for postar aqui The Purest Form Love pode crer que eu leio (de novo, pois já li no Nyah)! *-*
É muito boa, mesmo pra quem não conhece o Universo rpgístico de “Lobisomem: Apocalipse” e “Vampiro: A Máscara” (eu acho que são esses dois, pelo menos xP). Além do mais, não gargalhar com Carlo e Águia brigando… is impossible! xDDDDD
Já mandei o cap um de Purest.. agora é só esperar o guns colocá-lo na agenda… e o Águia também
“Mais um sucesso de comments no ONE por Samila em breve…” xDDDD
Quero mesmo é o capítulo 16 de Purest… Quando é que ele sai?!
espero por isso, my dear =*
Samila, para variar, sendo ela mesma, numa narrativa hipnotizante. Quero mais, muito mais!!!
Muito obrigada, Elcio *-*
Já saiu a continuação, Samila? Quero muito ler seu novo trabalho. Beijos.
Franz.
Ainda não, ainda não ç_ç
tenho que escrever, escrever!
*pirando*
Muito bem escrito Samila!! Ta de parabéns.
–
A trama até agora não faz bemmeu estilo, pois gosto de fantasia e literatura escapista… masss como ainda não sei bem qual o rumo que seu conto vai tomar, ficarei da espera da continuacão!! o/
–
A narracão esta muito bom, flui muito bem. Gostei mesmo.
Que bom que gostou, mesmo não sendo inicialmente seu estilo… mas se você ver o Águia (que por sinal tá há muito tempo na fila, Guns… Poe ele na agenda, pleasee!), vai ver que é fantasia sim… ou será…
é, será…
Por hora tratemos o Carlo como um pobre desgraçado comum… ^^
Obrigada, Guns =D
Aaaargh.. ta dificil de arranjar uma imagem pra esse conto! Estou me obrigando a ver fotos que não queria ver nunca na vida.. ali no google imagens.
–
Grrrr.. Samila fica me devendo essa
OH MAI GODI!
Gusn, o Carlo não é travesti, pelo amor de dadá, muda essa imagem! ç_ç
se não tem o que colocar, coloca essa, que foi a que eu editei para o Nyah…
http://fanfiction.nyah.com.br/fanfics/1951/images/1279018151_carlo_2.jpg
Pq essa botona de Trava tá demais, Guns.. xD
http://paroutudo.com/noticias/wp-content/uploads/2010/01/carona.jpg
esse aqui está engraçado… se o cara fosse moreno… hahahaha
Aaaa Samila.. eu fiquei por meia hora vendo fotos que irão me importunar para o resto da minha vida… depois de não achar nada.. fui obrigado a pegar o primeiro traveco que apareceu! hehehehe…
–
Vou trocar a imagem
Não é meio tipo preferido, mas está legalzinho. Bem escrito.
Opa!
parece que o Vitor voltou ao normal =D
Obrigada, Vitor!
Tá aí! sem vampiros, lobisomens ou coisa do tipo.
gostei do texto, muito bom… angustiante…. fiquei curioso quero ver mais.
ha… hah.. hahah.. HAHAHAHAHAHHAHA…. HAUHAUAHAUHAUAhUAha!
Essa risada maníaca indica que Samila está se divertindo com a inocência de suas vítimas (digo, leitores). xDDD
Eu preferia a imagem do Nyah… Mas depois do Guns ter sido traumatizado com esse negócio de imagens, melhor nem reclamar! =X
UAHAUHauaHauhUha
meu deus!
olha a img que ele colocou!não acreditoo! XD
pensei que ele fosse colocar a do nyah… essa ficou super cômica XD
mas eu nem reclamo mais XD
pelo menos não é mais a bota da trava XD
é.. deixa a imagem la quietinha
O que devo dizer…
-
Sempre curto seus textos
-
Mais ainda sim, sou mais Beliel.
HUAhahuA
normal, normal
mas deixa eu falar de novo… essa img… kkkk