Doce Vida
Escritor: Lucas Durao
Boris estava sentado em seu sofá, assistindo à partida de tênis mais longa da história do universo quando uma coisa muito importante aconteceu. Ele coçava a própria barba mal-feita sem desgrudar os olhos da tela. Metido em um roupão agora já velho e encardido, com as meias dobradas sobre a canela e a camiseta suja de molho de tamarindo, ele suspirou. Aquilo estava ficando chato.
Boris fazia parte do clube dos 140 seres racionais que mais gostavam de tênis no universo. A bem da verdade, ele era o número 123 no ranking. O que significava que muitas pessoas tinham desistido do jogo antes dele, mas que 122 caras resistiriam mais. Ele, que estava querendo entrar para a lista dos 100, resolveu perseverar.
E lá estava ele, há quatro anos sentado naquela cadeira, bebendo suco de agaiaó e tomando sopa de tamarindo. Sua face estava ficando flácida, e seus olhos começando a se fechar. Estavam há três meses e catorze dias sem que se fizesse o ponto, e os olhos dele iam para cá e para lá. O narrador do dia já tinha dormido. O comentarista, ex-primeiro lugar no ranking, e agora terceiro do universo (os jogadores tinham tomado seu lugar há seis meses, quando bateram o recorde universal) tagarelava alegremente.
Em algum lugar em um lugar muito muito muito distante em um canto da grande galáxia, numa terra chamada de Acre, um feijão saltitante escapou de uma lata que co-habitava com sardinhas.
Mas essa não era a coisa importante que aconteceu.
O que aconteceu foi algo muito mais fenomenal.
Boris refestelou-se em seu sofá, sem saber exatamente o que isso significava. Os olhos, acostumados a seguir o movimento da bolinha, continuaram automaticamente indo e vindo.
Não tinha sido sempre assim. Antes de entrar para o seleto grupo dos 140, Boris tinha uma vida comum. Como um bom cidadão da galáxia e Fargo, Boris acordava diariamente às 14 horas da pré-manhã e preparava um desdejum adocicado basicamente constituído de doce de tamarindo das luas de Bagadó. Após essa refeição deliciosa, ele ia até o seu banheiro, onde aplicava uma generosa camada de creme de camélia no rosto e em suas mãos antes de sair de casa. A brincadeira do creme de camélia é bem simples: na galáxia longínqua de Fargo, a atmosfera é constituída de pequenos táquions de energia cinética-silicílica, que eram extremamente prejudiciais às peles macias dos Fargaranos, que eles faziam questão de preservar aplicando uma dose de hidratante monange todas as noites antes de dormir. O creme de camélia protege o rosto desses táquions, e mantém a pele jovem.
Enfim, depois de sair de casa, Boris ia para o seu emprego de testador de canetas. A galáxia Fargo é onde fica a lendária e famosa Casa de Reposição e Depósito das Canetas BIC Usadas. Pequenos homens de Fargo – uma espécie engraçada conhecida como piriguetes-de-areia por uns e como ticoticozinhos da mamãe por outros – se distribuíam por todas as galáxias recolhendo canetas BIC que sofreram uso indevido (a lista de uso indevido é gigante e seriamente questionável…). Basicamente, o trabalho de Boris era pegar essas canetas que eram recolhidas e testá-las em uma folha de papel. As que funcionassem ele despejava em um tubo coletor que dizia CANETAS QUE FUNCIONAM PARA REPOSIÇÃO, enquanto as que não funcionavam depois de três testes eram colocadas em um outro tubo, um pouco mais largo, cuja inscrição era CANETAS QUE SERÃO ENVIADAS PARA O ACRE.
Era um trabalho muito divertido, mas um dia Boris tinha recebido um telefonema.
- Boris Altognikoff – tinha dito o próprio. Dizer o próprio nome era a maneira correta de atender o telefone em Fargo.
- Saulo-Paulo Automatish Kalinov – tinha dito Saulo-Paulo Automatish Kalinov. Então, vinha a alcunha e em seguida o assunto. – Sócio-fundador e número 2 no ranking das pessoas que mais gostam de tênis do universo. Assunto: Parabéns, você faz parte do nosso top 140!
- Pode falar.
- Parabéns, você faz parte do nosso top 140!
Boris, que não gostava nem um pouco de tênis, e nunca sequer tinha visto uma partida, ficou intrigado. Mas o que aconteceu com todos os outros fãs do esporte?, pensou.
- Mas o que aconteceu com todos os outros fãs do esporte? – perguntou.
- O jogo mais extenso do universo está passando há 74 anos. Quase todos os que acompanharam desde o começo ou estão mortos, ou enlouqueceram, ou estão escondidos em um bunker em Cuba ou se suicidaram.
- Puxa, isso é mal.
- Não para você, número 140!
- Mas espera aí. Os que se suicidaram não entram no grupo dos que estão mortos?
Ele ouviu o som muito peculiar e facilmente reconhecível do outro lado da linha: tapa na testa.
- Ah, droga, vou ter que refazer as estatísticas. – Então o homem desligou.
Então Boris, que viu nesse momento uma oportunidade de subir na vida, sentou em seu sofá, ligou sua tevê no canal 283719843271423534058349620 e começou a assistir. Tinha sido há quatro anos. Ele tinha deixado na mesma uma sacola contendo um pote de maionese, um suco de tamarindo, uma ratoeira-desintegradora e um pacote de torrões-de-açúcar DOCE VIDA.
E esse pacote é muito, muito importante para essa história.
Um estalo alto surgiu de dentro do pacote e tirou a concentração de todos os seres vivos do universo.
Boris engasgou e perdeu o foco da tevê.
Uma maçã caiu na cabeça de um homem chamado Isaac, que dormia.
Um garoto chamado João colou uma figurinha de ponta-cabeça em seu álbum.
Uma mulher em um lugar estranho teve uma idéia estranha de escrever um livro sobre vampiros adolescentes e chamá-lo com um nome bobo.
Outras 140 pessoas tiveram a mesma idéia.
Um gigante espirrou uma ilha.
Os jogadores de tênis intergaláctico perderam o foco e a bolinha caiu. O jogo mais longo do mundo tinha acabado.
Tudo isso porque, na cozinha de um homem chamado Boris Altognikoff, número 123 no ranking universal de seres que mais gostam de tênis intergaláctico, um pacote de torrões de açúcar DOCE VIDA cumpriu seu propósito obscuro.
De um dos torrões de açúcar surgiu a vida.
–
- Cara, isso é muito estranho.
Esse comentário fez Boris pular alto de sua poltrona. Em algum lugar dentro de sua casa, havia alguém. E pior, pensou Boris, agora com a mente destreinada voltando aos eixos, embora os olhos continuassem correndo de um lado para o outro atrás de uma bolinha que não existia mais, essa pessoa pode estar aqui há quatro anos!
Tentou procurar de onde vinha o som, mas os olhos não pararam com seu movimento de um lado para o outro.
Em cima de sua bancada, o pacote de torrões de açúcar DOCE VIDA se abriu. Na verdade, foi aberto por dentro. Ele não viu isso, mas ouviu o barulho característico do pacote, que disse, em voz alta TORRÕES DE AÇÚCAR DOCE VIDA, ALEGRANDO BOCAS PELA GALÁXIA DESDE 1704 PERDIGUTOS ANTES DA REVOLUÇÃO GITAMARIANA DOS GRANDES APELOS BUZ-BUZ.
- Cara – repetiu a estranha voz. – Isso é mais estranho ainda.
Quando os olhos finalmente pararam com o movimento, Boris conseguiu se aproximar, trôpego, da bancada da cozinha.
- Olá, criatura inferior informalmente conhecida como babaca – disse alguma coisa recém-saída do pacote de torrões de açúcar.
- Ahn… Oi?
A coisa suspirou e, neste momento, ficou parecido com uma criança de 45 anos enfiando o dedo do pé no nariz. Mas isso logo passou, e ele voltou à sua forma normal, que era a de um pequeno homem-feijão vestido de bombeiro.
- Ah, deixa pra lá.
Boris cutucou a orelha com seu dedo mindinho.
- Um feijão que fala!
A forma de vida inteligente jogou a mão na testa. Tinha pelo menos o tamanho de dois dos polegares de Boris somados.
- Pelo infinito galáctico dividido por zero, eu pareço um feijão? – Então, sem esperar resposta: – Não, eu acho que não! Eu sou uma forma de vida evoluída, fracassado. Agora, se me dá licença….
Boris colocou seu dedo no caminho da coisa.
- Onde você vai?
- Onde mais eu poderia ir? Inventar a hidro-internet? Claro que não, seu tolo, estou simplesmente indo passear num campo de cenouras falantes. – Bufou. – Eu vou dominar o mundo, ora.
E contornou o dedo de Boris.
- Cara, eu queria um torrão de açúcar – disse Boris.
Então pegou um copo e colocou-o sobre a coisa.
- Ei!
- Coisa, eu queria um torrão de açúcar.
- Eu não sou uma coisa! Sou uma forma de vida superior, e meu nome é Titikala Domatus Ar-rajhad Maned Lincoln Paulie.
E Boris, que não ligava se ele se chamava Paulie ou Ralf, ou Michael Corleone ou feijão, virou-se e foi apanhar o telefone. Ele queria seus torrões de açúcar, tinha pagado por eles, e iria ligar para o serviço de atendimento o consumidor para reclamar.
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Tem continuação?
Bem hiperbólico esse conto, mas não consegui entender completamente seu significado. Alguns trechos do conto ficaram um incoerentes, dificultando um pouco a interpretação dos fatos (ou então fui eu mesma que não captei a mensagem principal do conto). A pergunta que fica é: tem continuação? Pois acho que alguns fatos apresentados merecem ser esclarecidos pra mim e eu achei esse conto tão louco que em minha concepção ele merece uma sequência