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Aug
19
2010
Conto em Série

Humor negro de um crioulo (1)

Escritor: Israel Duarte

humor-negro-de-um-crioulo

Auto-apresentação

Oi!

Sou Uoxinton, tenho 14 anos e moro na comunidade da Bacia. Meu pai é meio preto e minha mãe é meio índia, mas acho que nasci todo preto por que volta e meia tem alguém me chamando de crioulo. Tenho um irmão de 11 anos, Uélinton, e uma irmãzinha de 3, Merimar. Sou alto e magro e tenho um pequeno problema nas pernas, sou cangaia da esquerda e zambeta da direita. Esse pequeno detalhe não me ajuda muito com as pirraias, mas me ajuda na hora de jogar bola.

Meu sonho é ser jogador de futebol. É o único jeito d’eu ficar rico, porque não gosto de estudar e não acho que roubar seja uma boa saída. Meu pai quer que eu seja kombeiro, igualzinho a ele, mas minha mãe quer que eu estude pra ser “alguém na vida”. Minha mãe, que é domestica, acha que eu nasci com um estrela. Mata e morre por mim, nunca entendi bem o porquê. Paulo, meu melhor amigo, diz que é dengo, frescura. Uma vez ele disse que se eu fosse filho único seria “homossexual” e eu tenho quase certeza que isso quer dizer viado.

Paulo é meu melhor amigo desde quando eu consigo me lembrar. Ele é branco e magro, até mais magro do que eu e só vive doente, talvez seja essa razão da sua magreza… Não sei. Ele é o cara mais inteligente que eu conheço, nunca o vi tirar nota menor que 9. O pai dele, Seu Thomas, trabalha na biblioteca duma faculdade do centro e traz um mói de livros sempre que ele pede, o que é quase todo dia. O pessoal daqui vive pegando no pé dele, o chamam de “Catarrento”. Se ele não fosse meu amigo acho que ia ser pior, iam acabar com ele. Eu sou rochedo por aqui, ninguém bole comigo, tenho padrinhos fortes.

Dizem na TV que a Bacia é o bairro mais violento do Recife, não acho. Aqui só se ferra quem faz por onde, basta usar a cabeça que você não morre. Se alguém pedir dinheiro na rua, dê. Se tiver tiroteio, fique abaixo da janela. Se a polícia perguntar besteira, diz que não sabe. Se tiver perto das 9 da noite, vá pra casa.

Tou dando uns importantes passos ser jogador. Sou o camisa dez do mais famoso time da Bacia, o “Bode”. E o treinador de lá, Seu Bill, diz que eu tenho futuro. Todos aqui da comunidade já me conhecem como “Garrinchinha”, os mais velhos dizem que eu lembro um tal de Garrinha. Sei quem é esse não, mas me disseram que ele traçava mais de quatro numa jogada só, dava “já vai” sem tocar na bola e deixava até o Todo-duro no chão.

Enfim, sou um negro, feio, troncho, liso, filho de um kombeiro com uma doméstica, que sonha em ser jogador de futebol. Acho que já falei o suficiente e fica por tua conta ler mais e descobrir toda a minha luta atrás desse sonho.

42 Comments»

  • Samila says:

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    desse eu nao gostei… o personagem é realístico, mas foi exposto como uma anedota. ele próprio se menospreza demais, sei lá.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Hehe… Uoxinton, grande Uoxinton.
    -
    Ele é a minha personagem mais antiga, escrevo coisas dela ha anos. É um anti-heroi critico,esperto, sinico, sofrido, azarado. Acho que ja escrevi boa parte da sua carreira… so falta o gran finale
    -
    Paulo é o seu fidel escudeiro, vez ou outra um narrador emocionado e que anos mais tarde ganha vida propria.
    -
    a linha da vida dele é mais ou menos dividida assim:
    Pivete, amador, promessa, time do coracao, europa, volta ao brasil, time feio futebol clube, bebidas e lesoes, ponto de mutacao, o fundo do poço, ultima chance e grand finale

    • Rainier Morilla says:

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      Obrigado pelo BAITA SPOILER maledito! hehe.

      Eu gostei. O personagem é muito realista. Creio que quem vive numa situação dessas ri da própria desgraça. Já participei de ONG’s em favelas e já vi muito “pirraio” assim.

      Quero ver a continuação. Quero ver até onde este garoto vai, embora já saibamos. =D

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        uehauaeheauh…
        -
        imagina isso como o nome dos capitulos dum livro. Vc sabe maios ou menos o que vai rolar, não muito, sabe o suficiente pra ficar torcendo e intrigado

        • Rainier says:

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          É por isso que não leio o Índice! ¬¬’
          hehe…

          De qualquer forma fico esperando logo conhecer a vida desse “pirraio”.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    essa introduçao foi algo que eu escrevi so pra dar uma visao geral de quem é ele, o tipo de humor que ele tem… nao era pra ser um texto com sentido fechado ou coisa do tipo.
    -
    vejam esse texto como uma nota do autor de uma obra bem maior!

    :P

  • Andrey Ximenez says:

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    Buenas, é um prologo. Mais o opiniões, só com o “resto” xD

  • Asami says:

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    Muito legal a introdução, ri bastante do humor de Uoxinton, como você disse é um personagem bem crítico e em minha opinião, divertido. Gostei muito da visão dele acerca de sua própria vida, como dizem às vezes é rir pra não chorar. Espero os próximos capítulos. Very good! :D

  • E.U Atmard says:

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    E um óptimo prólogo na minha opinião. Mas como se diz por cá, “prognósticos só no fim do jogo” (até se aplica e tudo…) ;)

    Só um apontamento, podias cortar um bocadinho nos adjectivos. Não que eles não estejam óptimos lá, mas sequências muito grandes tendem a cansar o leitor, e eu notei
    que isso pode saturar a história. Por outro lado, na sua qualidade de prólogo, acho que isso é aceitável.

    Israel: No conto “Rumo” poderás encontrar um e-mail que me pertence. Eu gostava de te enviar a proposta de um projecto. Se estiveres vagamente interessado, envia um e-mail para o e-mail explicitado lá, e eu enviar-te-ei os detalhes.

  • Tomás Kroth says:

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    Incompleto pra dar opinião… Falta base pra dizer se gostei ou não….Até agora, não cativou como os outros.

  • Vitor Vitali says:

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    Cara, adorei. Seu domínio com as palavras da uma fluidez ao teu texto que eu sempre quis ter e nunca consegui. Sinceramente, muito bom. Não sei se tem continuação, mas por mim, podia parar onde está que já seria ótimo.
    -
    “Paulo, meu melhor amigo, diz que é dengo, frescura. Uma vez ele disse que se eu fosse filho único seria “homossexual” e eu tenho quase certeza que isso quer dizer viado.”
    O que é isso? Muito bom, ri muito disso. To rindo até agora inclusive, haha. :)

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Concordo plenamente com o Vitor.
      -
      Acho que o texto se sustenta, tem vigor e só precisa que o leitor preencha as brechas que ele deixa com sua imaginação. O personagem real, num contexto real.
      -
      Parabéns.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    EEii, Guns! Nem pense em censurar esse comment do Vitali. Nem consigo acreditar que ele escreveu isso
    -
    OO
    -
    quase choro!

  • Vitor Vitali says:

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    Ah, ficou realmente muito bom. Tenho a impressão de que ele foi escrito por si mesmo, e não por um escritor. Não sei explicar muito bem essa sensação, mas é o tipo de coisa que se sente quando se lê um obra ímpar por aí; a sensação de que o texto existe, e não que foi escrito. Tive essa sensação quando li meu livro preferido e teu texto e o livro tem muitas diferenças, a começar que um foi escrito lá pelo século XV e possui uma linguagem bem pesada, além de tratar de um tema completamente diferente, no entanto a sensação é a mesma. Realmente faltam textos assim por aí, é uma pena, em especial por que eu acho que esse tipo de coisa não pode ser treinada, apenas acontece ao acaso. Mas bem, é isso. A beleza do conto não está nas palavras em si, na história, mas na maneira como é contada; no sentimento de “originalidade” ou algo assim. Não sei realmente explicar.

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      Então Vitor!
      -
      nem te agradeci pelo outro comentario pq ainda nao foi ao ar… mas, bixo, a minha intencão ao escrever esse prologo aí era reencar uma personagem minha que tava ha um bom tempo parada. Li tudo dele, comentei com minha “amiga” e achei uma boa ideia escrever dessa forma.
      -
      “nada mais chato que pessoas que não falam naturalmente”…. sempre acreditei nisso e tentei ser ele.
      -
      Valeu Vitor!

    • Samila says:

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      HUahaua
      sim sim, Israel ficou todo feliz quando eu disse para ele que o Vitor tinha comentado de maneira tão positiva! =D

  • Vitor Vitali says:

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    Acho que palavra que eu procurava é sinceridade. Esse texto é sincero com o leitor; ele é o que é e está ali para isso. Não quer te enrolar com palavras bonitas, trejeitos, sombras e idiossincrasias.
    -
    Tive essa sensação aqui quando li alguns textos da Scorpioni e de alguns outros que não me lembro. E também em alguns livros, como o Elogio da Loucura, do Rotterdam, que é meu livro preferido.

  • Lord Jessé says:

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    Curti bastante.
    -
    Adorei a parte ” Uma vez ele disse que se eu fosse filho único seria “homossexual” e eu tenho quase certeza que isso quer dizer viado.”
    -
    Rachei de rir nessa parte.
    -
    ´tá muito bom, continue assim.

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      Isso remete a um colega meu que veio de fora e nao sabia quase nada das girias locais… so por sacanagem ensinamos tudo errado.
      -
      perverso, mas muito divertido
      -
      :D

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Guns, quando esse daki sair da agenda bota a fatia de pizza do mal. Uma segunda parte desse já ta na agenda, humor negro de um criolo: o mito

    :D

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Gostei do conto Israel!

    Muito gostoso de ler. Apesar de como já comentado lá em cima, ele se menosprezar… boto fé nesse garoto! :-)

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      Muito boa a foto Guns!
      -
      eu não falei nada, fiquei só imaginando o que iria colocar. bola? campo de barro? pernas tortas? garrincha?
      -
      superasse minhas expectativas e colocasse um pirralho com um sorriso que traduz o humor de Uoxinton…. Show de bola!

  • Tati says:

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    Israel, massa o texto… sobre o fato dele se colocar para baixo é a expressão da realidade dele, a falta de expectativas futuras que incidem diretamente na auto-estima de qualquer adolescente pobre e negro. Mas ele sonha, sonha em ser jogador de futebol, é um sujeito solidário com o amigo turbeculoso… Muito real, nesse meu trabalho conheci e conheço vários Uoxintons… Vc captou, e nos ofereceu muito bem e essa capacidade de rir da própria história, da malandragem, da bela maneira de driblar as fatalidades que o ser humano tem.
    Parabéns!

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      Grande Tati…quanto tempo!
      -
      fikei com a impressao que tu escreve comentarios, melhor que eu escrevo os textos.
      -
      :D depois saca a continuação

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    que fake mais bonitinho!

  • Tati M says:

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    Muito boa a história, a realidade de muitos,sem dúvida um anti-herói, pícaro. Continuarei lendo o que escreveres.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    esquizito, esquizito…nao sei se lerei o resto…veremos.. *-)
    mas ah: (Y).

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      heheheh… então vou apelar. lê ao menos a primeira parte desse conto aí. isso foi so uma intro. clica na pizza ou busca “humor negro de um crioulo: a lenda”
      -
      hehehe… se gostar é pq gostas desse estilo de humor. Mas eu tenho muitos textos por aí. um dia tu acha algum que gostes.
      -
      :P

  • Franz Lima says:

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    Israel, o bom-humor presente em seus trabalhos é algo muito legal de ler. Há passagens que me lembram as personagens de “O auto da Compadecida”, seja pela simplicidade ou pela malandragem, o jeito “sobrevivente” típico do nordestino.
    Vou continuar acompanhando saga deste negro bom e lutador.
    Obrigado por compartilhar esta história.
    Abraços.
    Franz.

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      pouts… “O auto da Compadecida” é a minha série de tv favorita ever.
      -
      caramba… nunca tinha pensado nisso, já vejo os paralelos.
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      e o didi mocó… sem frescura
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      mas tá mais pra joão grilo
      -
      como eu nunca vi isso.
      -
      tenho que continuar uoxintos… nessas ferias

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    Eu gostei! Ele é realista e explica bem o cotidiano do lugar. Possui uma visão ampla e limitada ao mesmo tempo. Ampla, ao falar sobre o cotidiano, e limitada quanto ao conhecimento que uma criança possui. Realmente interessante…
    Parabéns.

  • Lucas M. de Freitas says:

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    Muito bom, tu fica com um sentimento de culpa, mas mesmo assim ri. kkkkk

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