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Aug
23
2010

Mestre dos Fantoches

Escritora: Ana Bourg

mestre-dos-fantoches

Do céu, o Mestre segurava a fio da vida;
E de Seu balanço de madeira observava a vós
e comandava cada passo vosso

(Livro de Odo 1:1)

Havia um mundo habitado por fantoches. Bom, eles eram pessoas como eu e você, mas todos possuíam cordinhas invisíveis amarradas nos pulsos e nos tornozelos. Eles sabiam que as cordinhas estavam lá, entende?

Havendo cordinhas, era claro que um mestre era responsável por dar puxões nesses barbantes.

E não havia criança ou adulto que não soubesse que lá em cima, para além da abóbada estrelar, ele ficava sentado em sua cadeira de balanço, esculpindo humanos com os enormes blocos de madeira que haviam em sua moradia infinita.

O povo daquele mundo amava profundamente o Mestre, pois sabia que se ele não estivesse lá, para puxar os fiozinhos invisíveis, a Vida não seguiria seu rumo. Sem alguém para puxar os fios, você não levantaria, não se alimentaria, não iria trabalhar e depois, festejar com seus amigos. Cada aspecto da vivência de um ser humano estava presa às mãos hábeis, capazes de controlar incontáveis homens e mulheres, os fantoches que, de acordo com a vontade desse Mestre, esculpiram uma civilização bastante complexa e organizada.

Enquanto isso acontecia, nasceu um homem chamado Odo. Era um sujeito comum em todos os aspectos, mas um pouco mais esperto que seus pares. Odo dominou logo a arte da escrita e, com ela, a arte da retórica. Todos gostavam de ouvir Odo falar e, dono de uma imaginação prodigiosa, começou a escrever mensagens do Mestre aos seus fantoches em um enorme livro.

“Mas, como você tem certeza que o Mestre fala contigo?” perguntaram os fantochezinhos, pois era um povo muito literal.

Odo então, subiu em uma montanha, onde ficou até suas barbas crescerem e suas roupas se tornarem andrajos. Somado ao seu ar de intelectual, parecia um ser respeitável, que sabia mais das coisas que os outros. Ele chegou com o livro pronto e, por sorte, no dia de sua descida houve uma tempestade de relâmpagos, o que foi considerado o Mestre fazendo experiências com eletricidade, algo muito misterioso naquela época.

A população das regiões mais próximas – e alguns viajantes de lugares distantes, pois aquele mundo era bem pequeno – juntou-se ao pé da montanha para ouvir Odo, que acabara de descer carregando um enorme livro debaixo do braço. Ele explicou que o Mestre movera suas mãos sobre as páginas, escrevendo ali suas próprias palavras – como era óbvio que tal ser era o senhor de toda inspirarão, ninguém contestou.

Odo falou as multidões e tornou-se aí, um Profeta.

“Através das linhas da Vida, o Mestre fala a seu súdito
E Ele traz toda a inspiração e toda a Verdade
Cabe a vós ouvir a bela narrativa e amá-la e honrá-la sobre todas as coisas”
(Livro de Odo 2:10)

Antes as pessoas se contentavam em apenas acreditar nas cordas invisíveis e que alguém as puxava. Mas isso não era suficiente. O Profeta havia dito que deveriam “amar e honrar as palavras”. Como fazer isso? Bem, havia a resposta no Livro de Odo, assim como havia resposta para tudo que pudesse afligir o coração dos pequenos fantoches. Dizia, aliás, que a aflição era coisa de um coração desencaminhado, que se alguém sentisse inclinado fazer algo que não queria realmente fazer, era claro que não era a vontade do Mestre e, portanto, não deveria ser feito. Assim o Profeta ensinou alguns escolhidos como prestar culto ao Mestre dos Fantoches. Explicou como todos deveriam se reunir em construções com o teto bem alto e então proferir palavras escolhidas por esses novos sacerdotes e sacerdotisas, repetir gestos e tudo o que deveria ser feito por verdadeiras marionetes.

Por muitos anos, tudo ocorreu bem. Após a morte de Odo, que obviamente ascendeu para além da abóboda estrelar sendo puxado por seus fios para o lado do Mestre – coisa que ninguém presenciou – os Sacerdotes se organizaram em uma grande hierarquia, se pondo ao lado de líderes políticos de todos os tipos. Tudo ocorria como deveria ser e ninguém tinha dúvidas sobre a veracidade do Livro.

Havia uma sacerdotisa cujo nome era Mona e ela gostava muito de mandar e dizer às pessoas o que deveriam fazer. Então ela foi escolhida pelo Mestre para levar suas Ordens aos humanos. Mona sabia que muitos sacerdotes não iam gostar dela ter sido escolhida, os invejosos, por isso ela tratou de procurar um rei muito poderoso, com um exercito muito grande. Foi fácil convence-lo a casar-se com ela, sendo muito inteligente e bela. Depois do casamento, Mona ordenou que erguessem um enorme palácio e subiu na torre mais alta, dizendo que não podia controlar-se, pois o Mestre a arrastava. Todos estavam impressionados, Mona era uma escolha perfeita, claro. Depois de quinze noites, ela surgiu na janela, com marcas de barbantes no pulso e um longo pergaminho totalmente escrito com uma caligrafia miúda.

“É um milagre” gritou o povo. E como os soldados olharam feio para os outros sacerdotes, estes não demoraram a se juntar a população.

O Mestre havia narrado a Mona tudo que considerava apropriado aos humanos. Uma enorme lista de tudo que podia e não podia ser feito, sendo que a segunda ocorria muito mais que a primeira.

“A necessidade de tal texto é óbvia” explicou Mona “Pois somos muitos e o Mestre precisa descansar de tomar conta de cada ação nossa”

Alguns caíram de joelhos e choraram, outros riam e se abraçavam. Os sacerdotes concordaram entre si que Mona tinha razão em prescrever as vontades do Mestre, isso tornaria o trabalho de conversão muito mais didático.

“Jamais contestará a vontade do Mestre.
Obedecerá a palavra Dele acima de teu desejo
Quando não souber o caminho, vós aconselhai com o sacerdócio.”
(Livro de Mona 1:2)

Quando Mona morreu, construíram uma enorme estátua de mármore perfeitamente igual a ela, com o rosto voltado para o Céu, o dedo apontado para o observador e um enorme pergaminho em mãos, cuja extensão dava uma volta pela barra da saia da figura. Muitos caminhavam até lá, acendiam velas e deixavam miniaturas de fantoches espalhadas pelo grande pedestal sobre o qual apoiava-se a estátua de Mona. O culto ao Mestre dos Fantoches tornava-se cada dia mais forte e real na vida dos habitantes daquele pequeno mundo distante do nosso.

Decorreu um século até que alguma novidade acontecesse. Por conta de um impasse comercial, dois países situados em uma região densamente habitada daquele mundo começaram a brigar. E a briga tornou-se maior e maior, com agressões mútuas e mortes diárias, até tornar-se oficialmente uma guerra. Era a primeira vez que isso ocorria naquela mundo. Não que não conhecessem o militarismo, mas nunca os soldados tiveram outra função além da segurança interna, aliados aos governantes e aos sacerdotes, cujos interesses jamais eram conflitantes. Dessa vez, porém, dois reis acusavam um ao outro de crimes diversos, em nome de seus povos. Algo assim jamais fora visto e os vizinhos tinham medo. Por bem, acharam que era sensato aumentar seu aparato bélico e treinar o máximo de soldados que pudessem. Será que o Mestre impelia seus bonecos a se destruírem? Não era ele bom e semeador da Ordem? Concluíram que tratava-se de um teste.

“E quem vencer a guerra, será porque foi escolhido pelo Mestre.” diziam os Sacerdotes, aliados aos vendedores de armas.

Como ninguém sabia o que era uma guerra e que jamais havia vencedores, os cidadãos se armaram, vestiram uniformes elegantes e partiram para o fronte cantando canções. Afinal, era a vontade do Mestre.

Milhões morreram, plantações foram incendiadas e vilarejos foram transformados em poeira. Todos queriam ser escolhidos, então uma devastadora Guerra Mundial espalhou-se por todo o pequeno mundo. Ninguém imaginou que fosse possível haver tanta tragédia, tanto horror.

“Nós fizemos algo errado, o Mestre está nos punindo!” gritavam, mas ninguém parecia capaz de baixar as armas.

Foi então que surgiu Kali, um homem muito jovem e de coração valoroso. Kali queria a paz e dizia para as pessoas pararem de lutar. Ninguém o ouvia, então, juntou um grupo de pessoas que também queriam a paz e disse para tornarem-se Peregrinos. Eles deveriam dizer ao povo que o Mestre desejava que parassem de guerrear e fazer o possível para convencê-los disso. Os Peregrinos deveriam dizer a todos que o importante era viver em paz, trabalhar e ser uma pessoa boa, se não, os barbantes seriam cortados e, em vez de serem erguidos para além das estrelas no Dia do Fim do Mundo, conforme profetizado por Odo, ficariam à deriva, bonecos de madeira apodrecida e sem movimentos. E mais: Kali dizia ter recebido mensagens do Mestre, de Odo e de Mona e eles haviam dito que um mundo perfeito, de alegria e paz, esperava os de bom coração.

Aquilo foi magnífico. As ideias de Kali se espalharam como areia soprada pelo vento. As pessoas gostaram daquilo, os Reis não viram desculpa melhor para não mais atenderem às cobranças de vingança atrás de vingança. A fórmula de Kali era tão perfeita que um de seus peregrinos escreveu um terceiro livro, contendo todas suas mensagens.

Depois de quase meio século, a Grande Guerra chegava ao fim.

“Cada um de vós trará o coração puro
E seguirá a mensagem em paz.
Todos os bons serão elevados pelos cordões ao além das estrelas”
(Livro de Kali 5:14)

Após a Grande Guerra aquele pequeno mundo tornou-se tão desolado que as pessoas estavam certas de que o fim se aproximava. Assim, tentavam seguir a risca as Ordenanças presentes no Livro de Mona, para então serem perdoados e recompensados, conforme Kali ensinou. A humanidade tinha medo, sentia os cordões invisíveis como se quase soltos. Estariam abandonados? As coisas pareceram ainda mais perdidas quando o já idoso Kali, dizendo que a crença em fios e mestres não fazia sentido, desapareceu na neblina oceânica, remando um bote pequeno e frágil.

Porém, algo de peculiar havia ocorrido: durante o período de guerra, cada Capital desenvolvera alguma maravilha tecnológica, entre veículos, bombas, raios e máquinas voadoras. Em tempos de paz, não houve ideia melhor que aproveitar essas invenções em fins pacíficos. Aplicaram as máquinas na construção civil e no campo. A civilização dava um enorme salto, conquistando o mar e o ar. Ainda havia muito a progredir, certamente, mas o pequeno mundo ressurgia das cinzas e a esperança, pouco a pouco, voltava ao coração dos indivíduos.

Enquanto noite e dia se revezavam indiferentes aos humanos, o Alto Circulo do sacerdócio discutia com líderes influentes sobre os três Livros que tinham em mãos. O primeiro, escrito por Odo, explicava a Origem de Tudo, a Verdade e o Fim. Mona trouxera aos humanos as Ordenanças – algumas um tanto absurdas e aleatórias, diga-se, mas funcionavam bem para que as pessoas entendessem o culto ao Mestre. Por último viera Kali, falando de salvação e bondade, além de reafirmar os trabalhos anteriores. Não que não estivesse bom, mas tinham a preocupação de que poderia surgir novos escritos, “certamente mentirosos” conforme disse um dos sacerdotes, mas que pudessem induzir crenças discordantes ao que estava estabelecido. Se aparecesse alguém empolgado e cheio de novas ideias, o que poderiam fazer?

O Sumo-sacerdote Gantifia, que não chegara a esse cargo à toa, levantou-se de sua cadeira alta e disse que deveriam passar a publicar os três Livros como uma única obra, escrita diretamente pelo Mestre. Assim haveria um Cânone a ser obedecido e o resto…

“Será heresia!” Gantifia explicou em um tom ameaçador.

Dessa forma, trataram os poderosos de vigiar atentamente todas palavras proferidas por homens e mulheres comuns. Se alguém dissesse uma mínima coisa errada, seria levado ao Palácio Maestro – aquele que fora erguido a mando de Mona – e teria que se explicar. Os Sacerdotes tornaram-se os olhos e o braço do Mestre, agindo ativamente em seu nome. Não era difícil, afinal aquele mundo era pequeno o suficiente para que as noticias rodassem rápido e chegassem aos ouvidos atentos de Gantifia e seu séquito.

E as Perseguições começaram a se tornar cada vez mais graves. A princípio, bastava apenas desmentir as próprias palavras, mas conforme a rigidez do cânone crescia, as penas passaram de multas e encarceração, de desfile público e desterro, a tortura e morte. Não havia nada mais terrível do que ser acusado de “desgarrado”.

Particularmente, a primeira pessoa a morrer foi May, descrita pelos seus conhecidos como gentil e quieta, um dia ela começou com uma brincadeira de cortar o ar com uma tesoura, como se cortasse fios invisíveis. Quase matou sua mãe de susto quando fez isso. Todos pediam que parasse, mas ela insistia, dizendo coisas profanas e horríveis.

“Vejam, não há fio algum! Eu corto apenas ar. Se fosse verdade essa crença, teria morrido”

Como ela jamais negou, sendo uma menina inocente e pura, só restou aos Sacerdotes a enforcarem, fazendo questão de atar barbantes aos seus pulsos e tornozelos. Gente comum divertia-se com espetáculos deprimentes feito esse.

Depois da pequena May, muitos outros foram castigados e era difícil traçar uma linha coerente do que seria o “bom coração” descrito por Kali, ainda mais que o conhecimento avançava diariamente, pois cientistas de todas as partes trabalhavam no aprimoramento das velhas máquinas.

“Toda Sabedoria é escrita através do Mestre
Toda Palavra que não for a do Mestre, é inimiga e maligna
E deve perecer, pois essa é Sua vontade”
(Manual do Cânone Gantifíaco 3:22)

Novamente o sangue banhava o pequeno mundo dessa história. As pessoas oravam ferozmente para que todos Inimigos do Mestre fossem logo desmascarados e então, os olhos poderiam descansar de tamanho sacrifício. Surgiu uma crença de que quando o último Desgarrado fosse pego, o mundo terminaria, afinal, se todos os maus fossem punidos, não havia mais motivos para o Mestre adiar a ascensão de seus Fantoches.

A vida rigidamente controlada era estressante e houve diversos surtos de histeria coletiva, com pessoas correndo nuas pelas vias públicas e cortando linhas invisíveis, pedindo para serem libertas.

A Sumo-Sacerdotisa daquela época terrível, Tula, preocupava-se em achar um modo de trazer ao povo a calmaria dos tempos arcaicos. Tentou tocar música durante os rituais, diminuir a pena capital para prisão perpétua, pedir que os Inquiridores tratassem melhor os réus… Ela segurava as próprias cordinhas com os braços esticados acima da cabeça, mas não era capaz de ouvir o Mestre. Será que ela também era uma Inimiga? Ou será que aquela jovem que morrera a mais de cem anos atrás, a pequena May, falava a verdade?

Enquanto Tula lamentava os rumos pelos quais o Mestre conduzira sua criação, pessoas se encontravam secretamente. Eram intelectuais, homens e mulheres da Ciência, que sob um pesado véu de segredo, discutiam questões físicas e filosóficas, invenções e ideias e tudo que acontecera até então. Esses subversivos sabiam ser arriscado, mas elaboravam um enorme livro, maior que os livros dos Sacerdotes, em que propunham teorias revolucionárias e novas. Pretendiam fazer cópias desse escrito e distribuir ao povo, pois, depois de muito debate, uma conclusão era certa:
“O Mestre é uma mentira.”

A chocante frase surgiu em uma manhã qualquer, estampada em paredes das principais as capitais. Ninguém sabia como tinha acontecido, afinal a vigília não era pouca, mas na calada da noite pessoas corajosas e bem organizadas haviam espalhado uma mensagem que muito afligia o coração de diversos cidadãos. No dia seguinte, haviam surgido ainda mais frases chocantes em tantas outras cidades. Os Sacerdotes diziam que o Inimigo estava em toda a parte, que precisava ser urgentemente abatido. Tula, a Sumo-Sacerdotisa reuniu-se em segredo com o Alto Sacerdócio e os Inquiridores. Disse que evitassem o alarde e que apenas encontrassem os líderes de tamanha baderna. Ela queria falar com eles, quem quer que fossem.

“Você é livre. Cordas invisíveis não existem.”
(Anais das Frases de Ordem Proferidas Ante a Revolução p.14)

Muito eficientes em sua devassa, logo os Inquiridores chegaram aos responsáveis pela desordem. Eram dois tecnólogos, uma moça que atendia pelo nome de Nini e seu consorte, um rapaz chamado Mog.

A Sumo-Sacerdotisa os olhou de cima a baixo, sentada em um trono alto o suficiente para que fosse necessária um escadinha para alcançá-lo. Perguntou o motivo da revolta contra a Crença, a ponto de negá-la.

“Primeiro, observamos que somos livres para fazer escolhas à própria vontade.”

Um sacerdote resmungou que havia livre-arbítrio, mas que seriam condenados os que não escolhessem corretamente. Tula e seus dois prisioneiros o ignoraram. Mug continuou a explicação de Nini.

“Posteriormente, percebemos que cada escolha influencia outras escolhas, seja do próprio individuo, seja de outrem.”

“Além, através de testes laboratoriais pudemos constatar uma série de efeitos contínuos e regulares…”

“…que estão de acordo com toda observação Astronômica, tão duramente combatida por esta Instituição.”

Então eles mostraram para Tula o livro, também apreendido, que vinham elaborando com a ajuda de vários intelectuais. Passaram longas horas explicando tudo que a Ciência tinha desenvolvido nos salões de pesquisa.

“Bem de baixo de meu nariz.” resmungou a Sumo-Sacerdotisa, indulgente e severa ao mesmo tempo.

Nini e Mug terminaram a conferência, então se afastaram do alto trono, de mãos dadas, esperando que a furiosa Lei do Cânone, como era então chamada, se abatesse sobre eles. Desde o começo sabiam que estavam se metendo em algo perigoso, mas era difícil viver em um lugar tão dado ao obscurantismo quando se tinha descobertas maravilhosamente iluminadoras em mãos.

Tula sabia o que deveria ser feito. Não havia dito nada, mas reconhecia que os dois jovens estavam certos. Porém, como o povo obedeceria, como faria o certo, sem a orientação dos Livros? Sem a orientação do Mestre, mesmo que ilusória? Fechou os olhos por um segundo e então tornou a abri-los. Ocorreu-lhe que as pessoas deveriam fazer atos bondosos de boa-vontade, não porque tinham medo de… morrer.
“O que acham da morte, revolucionários?”

“Apenas o fim.” responderam juntos.

O Inquiridor que os havia capturado, zombou:
“Então, atrasarei esse fim o máximo que puder. Você clamarão para que o Mestre faça-me parar, mas ele bem sabe como gosto disso.”

“Calado.” disse Tula. Ela esmagava uma das muitas fitinhas de suas vestes entre o indicador e o polegar.

“Senhora, escolha por você e não pelo que julga ser a vontade do Mestre.” Nini falou, antes de ser amordaçada por um dos Inquiridores.

Tula, a Sumo-Sacerdotisa do Culto ao Mestre dos Fantoches, jamais decidira algo para além do que já estivesse intrinsecamente decidido pelo status-quo. Sabia o que deveria ser feito, mas era torturante o olhar destemido e flamejante do casal de prisioneiros. E eles estavam certos, o que a insultava muitíssimo.
“Eu…”

“Seja feita a vontade de todos os Livres,
Mestres de si mesmos,
Pois somos Humanos, não meras marionetes.”
(Anais das Frases de Ordem Proferidas Ante a Revolução p.10)

Na noite posterior a execução de Nini Damia e Mug Tharog mais de duas mil pessoas invadiram o Palácio Maestro. Os sacerdotes foram expulsos e em catedrais espalhadas por todo o mundo aconteceu o mesmo. Houve até mesmo sacerdotes que se uniram aos revoltosos. Muitos ainda desconheciam a maior parte das descobertas cientificas, mas cópias do livro, agora chamado de Encyclopaedia Sapiense, circulavam e se propagavam.

Embora vários Inquiridores tenham sido executados, foi considerado melhor não pagar com violência a violência de tempos posteriores. Mudou-se a administração das Capitais e dos Estados, pois ninguém queria deixar que políticos associados ao sacerdócio continuassem a exercer sua função.

Milhões de punhos no ar pediam por liberdade e explicações coerentes, um fenômeno peculiar e, ouso dizer, raro. O grande turbilhão de vozes se voltando contra velha crença ecoou tão longamente, que se existisse algum Mestre, certamente teria ouvido e manifestado-se. Como nada aconteceu, até os vacilantes decidiram não mais ser Fantoches.

Os Livros Canônicos foram queimados, assim como estátuas e templos. Nada disso era mais necessário, pois algo neles havia mudado.

Então, acalmaram-se os ânimos e as pessoas passaram a dedicar-se à reorganização do pequeno planetinha em que viviam. Estavam empenhados em tornar-se a mais desenvolvida das civilizações, em destrinchar todos os caminhos do Conhecimento, através da Ciência.

E assim foi feito.

Levaram anos para re-erguer as estruturas dos governos e transformar as antigas catedrais em bibliotecas. Passaram por todas as dificuldades de quem começa do zero, mas jamais desistiram, pois essa era a vontade daquelas pessoas, assim como foi a vontade coletiva que promoveu modificações em toda História dessa gente que não tinha nenhum Mestre além de si mesmos.

Já não eram mais fantoches.

“Sua consciência será sempre a única responsável,
pelo que for.”
(Frase gravada no Memorial da Liberdade)

FIM


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37 Comments»

  • Asami says:

    Um ótimo conto… bastante profundo e rico em detalhes que certamente merecem ser analisados: a forma como faz alusão à religião e sua repercussão na história da humanidade e a lição de com a qual o texto se encerra, são algumas das que eu mais gostei… uma estória muito bem bolada, parabéns Ana!! 😀

    • Ana B. says:

      Valeu, Asami! 😀

      Bem que eu gostaria de ver o final dessa estória acontecendo por aqui.

  • Rainier Morilla says:

    Contos assim parados na agenda me fazem sentir vergonha de ter os meus publicados.

    • Ana B. says:

      Vou considerar um elogio, mas…
      Acredito que todos aqui escrevam bem. Tudo é uma questão de prática. 😛

  • Fabiany says:

    Nossa, fiquei sem palavras (‘:

    • Ana B. says:

      Obrigada 😀
      Demorei séculos para ver que havia comentários aqui >_<

      • Se acostume, Ana. Vc vai receber muito mais comentarios se continuar com essa qualidade.

        acho que nao recebesse tantos ainda pelo tamanho do texto… dá preguiça na galera

        XD

  • Samila says:

    Nossa… simplesmente genial, um dos mais filosóficos que já li!
    me fez lembrar de voltarie!
    está de parabéns, my dear! realmente incrível! Ótima analogia/releitura da evolução do pensamento humano!
    ahhh… estou encantada aqui!
    temos que tirar esse conto da agenda!

  • PQP… isso é um vergonha!

    como um texto dessa qualidade tá na agenda há meses?

    é longo, de um tema que nao curto… mas simplesmente é um dos melhores que já li aqui no ONE

    Parabens Ana!

  • Samila says:

    Ah
    acabo de notar uma pequena falha: seriam marionetes, e não fantoches

  • Vinicius Maboni says:

    Muito Bom!
    O estilo me agradou muito. Me predeu do inicio ao fim.
    Parabens e escreva mais, tens talento( e muito).

  • Franz Lima says:

    Ana, iniciei a leitura de seu conto. Como estou um tanto quanto enrolado no PC, comentarei em definitivo em breve. Mas já dá para perceber que há muito talento em você.

  • Bem vinda, Ana. Adorei a alegoria do conto e a construção. Achei de uma “leveza” magnífica. Parabéns.

    • Vinicius Maboni says:

      Falou tudo Elcio, encontrei mais uma pessoa brilhante aqui.
      Já spu fã de mais uma autora!
      auhauha

  • Renan says:

    Já comentei no seu conto muitas vida atrás, então não teria sentido eu novamente lhe dizer minha opinião xDD
    Mas novamente parabenizo você pela obra e espero que tenha uma boa estadia aqui no ONE =ooo
    té mais ana o/

  • Peregrina says:

    Amei seu conto! *_*
    ele foi muito bem escrito e articulado.
    só que como a Samila já disse,Seriam marionetes e não fantoches.
    Beijocas sabor chocolate para todos.

  • Muito bom, muito profundo. Parece até uma lenda japonesa. 😮

    Muito bem escrito.. sem mais. Muito bom.

  • Vitor Vitali says:

    Fiquei de saco cheio e parei na metade. Não sei, não me apeteceu para continuar lendo.

    • Ana Bourg says:

      Minha mãe também não gostou muito.

      • Ana Bourg says:

        E valeu pela agressividade gratuita.

        • Pow, Ana. Como tu pôde ler acima, gostei do teu trabalho.

          Mas… dizer que esse comentario do VV foi “agressividade gratuita” foi um forcação de barra. Acho que ele foi sincero, disse o que realmente achou, e nao te agrediu de nenhuma forma.

          Ele só disse “achei o texto chato, não deu vontade de continuar”…

          Nem sempre dá pra agradar todo mundo… e é melhor ter um cara que diga assim na cara dura do que unm que fica concordando sem nem dizer o que realmente pensa

          • Ana Bourg says:

            Certamente não dá para agradar todo mundo, eu sequer imaginava que teriam tantos comentários nesse texto a ponto dele ter sido publicado (não sabia nem que existia essa possibilidade!)

            Achei o comentário do Vitor meio gratuito porque não tem nada muito construtivo além de “achei chato”. E ele realmente não precisava falar isso, porque até onde eu sei, ele não tinha obrigação nenhuma sequer de ler o conto, tampouco de comentar.

          • Samila says:

            ele é assim mesmo, Ana. Super sincero… não se ofenda, é o jeito dele… se você procurar em outros textos, verá o que falo. é o jeito dele de dizer ‘talvez vc pudesse dar uma enxugada’ ou ‘não gostei do tema’

          • Ana, veja assim: quase todo mundo mundo que frequenta o ONE, lê e escreve.
            Não dá pra dizer que é uma obrigação, mas é um pratica muito comum comentar os textos dos outros, mesmo nao gostando do conteudo. Por isso existem comentarios de parabenizacao, alguns com dicas e outros com criticas… e tumo mais que vc possa imaginar.

            Encare esse do vitor como uma critica de alguem que acho que teu texto tinha umas linhas desnecessarias. Ele costuma ser bastante critico com o que lê, não leve a mal. Ele é figura antiga daqui, estamos acostumados com o modo dele se expressar, peço desculpas em nome dele se vc encarou isso como insulto de algum modo… mas criticas existem aqui e, geralmente, são bem vindas.

  • Rainier Morilla says:

    Enfim o conto saiu da agenda…
    Merecia ser publicado, é muito bom.

  • Ana Bourg says:

    Pessoal, nem sei o que dizer. – Fazia um tempo que não passava por aqui e achei que meu conto tivesse sumido quando não o encontrei na agenda de contos *sim, foi um momento noob* – Daí procurei mais um pouco e achei ele com tantos comentários e uma capa tão bonita!

    Realmente, só posso agradecer. Obrigada mesmo. \o/

  • Thainá Gomes says:

    Muito bom adorei a ultima frase *-* parabéns Ana.

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