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Aug
17
2010

O grito veio de mim e de todos nós.

Escritor: Patrick Martins de Carvalho

Decidi que iria almoçar com Pedro.

Travis Bickle é um idiota – argumento Pedro – ele se sabotava, quem é o idiota que levaria a namorada para assistir um filme pornô?

- Ele era um taxista frustrado, insone e claramente estava com problemas psicológicos..

- Manhatan fede, disse Pedro virando seu copo de uísque.

- Como assim, o que isso tem a ver?

- Você não vê nos filmes, toda aquela podridão, prostitutas, travestis e desajustados mentais vivendo no mesmo mundo que nós? É patético, o governo devia prender todos eles ou levar para um campo de extermínio.

- Você fala como Travis agora, idiota.

Estávamos em um bar de segunda categoria, tocava uma música baixa, era bom para conversar, havia grandes janelas que davam para a rua, a mesa em que sentamos o vidro inteiro estava quebrado, costumo vir com Pedro até aqui. Pedro tinha pouco cabelo, boca grande, sobrancelhas cerradas, sua cabeça tinha o formato de uma bola de futebol americano, era moreno, baixo e pessimista, me identificava com ele.

Sentia-me bem ali, o lugar era sujo e eu já tinha visto um rato ou dois, mas me acostumara, não gostava de mudar velhos hábitos. A luz do sol me agradava. Amanda me agradava.

Amanda é a garçonete de lá, jovem, branca como lã e seus cabelos são ruivos como fogo, tinha uma pinta na coxa esquerda. E que coxas! Amanda me agradava, ela gosta de mim, percebo isso em seus olhos castanhos e fundos, era noturna como eu, por isso criara bolsas palpebrais, isso me atraía. Amanda me agradava. Fiz um aceno com a mão para que ela viesse. Quando me viu, arrumou o cabelo para trás da orelha e soltou um sorriso de canto de boca. Logo ela veio em minha direção, que pernas! E lá está a pinta! Gostava do vestido curto que usavam lá.

Pedro não me viu olhando e continuou concentrado na conversa – O filho da mãe era um veterano da guerra do Vietnã, tinha razão em ter os miolos fundidos.

Desvencilhei-me do feitiço.

- O que você disse mesmo, Pedro?

- Disse que poderia dirigir um taxi.

- É mesmo? Qualquer idiota pode dirigir um taxi.

- Menos idiotas solitários como você – disse ele.

- Ao menos eu tenho minha Besty – Disse a ele enquanto olhava Amanda se aproximando. Pernas. E lá está a pinta. Gosto dela.

- Vai acabar levando ela para assistir a um filme pornô, disse Pedro quase sussurrando.

Ela chegou.

- E aí, o que vai ser hoje, huh?

Disse ela enquanto gesticulava insinuosamente com a sobrancelha. Gosto disso. Só ela consegue fazer.

- Betsy – disse quase como hipnotizado.

- O que disse?

- Quero dizer, uma coca cola e um misto quente na chapa.

Pedro riu.

Amanda fingiu não vê-lo.

- É pra já.

Pernas brancas. Acendi um cigarro.

- Não sei o que você vê nessa barata branca e esnobe, disse Pedro.

- Ela tem pernas. – disse quase delirando.

- Paraplégicos também.

- Paraplégicos não movem as pernas como ela.

- Ela engoliu um sapo, certeza.

A voz de Amanda era baixa e rouca, como se ela estivesse sempre gripada ou algo assim.

- Amanda me agrada, disse a ele.

- Bom argumento, você não gosta de ninguém e quando gosta não consegue encontrar um bom motivo.

- Ela também faz aquilo com a sobrancelha. Esse é um bom motivo.

- Você é sujo.

- Travis me entenderia

- Você não dirige Taxi.

- Sou o homem solitário de Deus. – disse a ele.

Traguei o cigarro, olhei para Amanda cozinhando na chapa, sentia o cheiro de comida. A chefa de 120 quilos e lésbica brigava com ela. Sabia que algo aconteceria. Ninguém vive sozinho sem conseqüências. Senti fome. Acreditava estar sentindo gosto de suco gástrico na boca. Precisava do meu misto quente. Eu era um fracassado, mas só eu ainda não havia notado isso.

2

Aqueles dias eram longos e tristes. Estava desempregado, um pouco do dinheiro que me restou paguei um apartamento aos pedaços, onde passava a maior parte do tempo trancado, deitado no chão. O apartamento tinha apenas dois cômodos, um era o banheiro e o outro para todo o resto. O tamanho minúsculo não me importava. Comprava cigarros e álcool para a noite e me trancava. O dinheiro que reservei estava acabando. Às vezes comprava alguma comida, meu estômago se acostumou com o mínimo, se comesse muito passava mal e isso era bom, na situação em que estava. Eu odiava a todos, passava a madrugadas contando os segundos, quando completava uma hora o relógio fazia um barulho, na maior parte das vezes contava errado. Sempre me via perdido nos pensamentos e esquecia os segundos e enganava a mim mesmo de que estava concentrado e chutava os minutos para continuar a contagem. Remoia no escuro desejos suicidas, quando se está sozinho e sua vida é vazia e sem sentido, costumamos odiar com mais freqüência, mas quando não se tem ninguém para odiar, nos odiamos. Eu era um fracassado e notei isso.

3

Estava deitado no chão, ainda bêbado, minha contagem estava já as três da manhã, ouvi alguém bater na porta com violência, me virei no chão e pude ver abaixo da porta a sombra de dois pés. Bateu de novo, mas dessa vez ouvi chamar.

- Ei, está aí? Me responde AalllsqwQweKAWL!

Ele disse meu nome, fazia tempo que não ouvia. Imaginei ter sido uma alucinação, devia beber menos. Estava ficando amarelo, talvez ficasse doente.

Bateu a porta de novo, e novamente chamou. Sabia quem era. Philipe. Engraçado, dois amigos com a inicial “P” quando o meu nome também é. Devia haver alguma força cósmica que tinha muito tempo livre pra ficar inventando puzzles para essa vida que já é tão complicada.

Não sei se devo atender.

Está tarde.

Ele podia ser uma espécie de Norman Bates.

Ninguém me visita a essa hora, pensei em fingir que não estava, mas por fim abri a porta dizendo que eu havia saído. Não deu certo.

Philipe era alto, com cabelos e olhos pretos, acho que esse era seu triunfo. Tinha sobrancelhas grossas e voz grave, se não fosse tão esquisito se daria muito bem com as mulheres.

- Preciso da sua ajuda – Ele disse.

- Como assim? São três da manhã.

- Estou procurando uma saída melhor, mas sempre acabo voltando pro mesmo lugar – aqui.

- Quer dizer que você está andando em círculos?

- Exato – Disse ele.

- Envolta de árvores? – Perguntei.

- Não, idiota.

- Piada interna.

- Eu sei, estou nela.

- Ok, entre.

O cheiro do apartamento era nauseante, o vaso havia entupido e a dias transbordava, não queria falar com ninguém sobre aquilo, pessoas embrulhariam meu estômago mais que aquilo. Havia me acostumado com isso.

- Que cheiro de carniça é esse aqui?

- Lar doce lar. – Respondi – E então, o que quer?

- Você tem um cigarro?

Afirmei que sim com a cabeça.

- Bem, você vai precisar, acenda um.

Desconfiei, porém peguei os cigarros sobre a mesa, acendi e me sentei.

- Vamos, sente-se. E me diz o que aconteceu?

- Vamos, me passe um também, preciso me acalmar.

- Aqui está.

Ele tragou, mas tossiu muito, acho que aquilo não ia acalmá-lo.

- Bem – disse ele enquanto tentava recuperar o fôlego – Eu matei meu sogro, sério, eu matei mesmo!

- Caralho! Como assim? Como você fez isso? Por quê?

- Usei um machado.

- Um machado?

- É, aí enforquei até ele perder o fôlego.

- Você usou um machado, ele continuou vivo, aí você enforcou ele?

- Não, isso foi depois – Disse ele, tragando de novo e tossindo novamente enquanto tremia as duas mãos de nervosismo.

- Ah, é, bem, porque você o matou? Foi agora?

- Estávamos na casa da minha namorada. Ela estava se arrumando para sair comigo, enquanto eu esperava na sala, sentado mais ele assistindo a Tom e Jerry que passava na TV, ele começou a me fazer perguntas e quando vi, já havia passado a serra elétrica nele.”

- Como assim, serra elétrica? Você disse que foi um machado!

- É, bem, isso foi antes.

Estava tentando entender mas tudo era absurdo demais, quem sabe ele só estivesse louco, mas depois notei que sua blusa estava manchada de sangue, decidi acreditar.

- E então – indaguei – onde está o corpo?

- Ainda está lá, coloquei um pano por cima do corpo e o escondi em baixo da cama. Minha namorada perguntou onde ele estava, respondi que “o rato caçou o gato” ela não entendeu, mas deixou pra lá, preciso fazer algo, juro ter o ouvido murmurar de baixo da cama.

- Ok, se acalma. Vou fazer um café.

Algo estava errado. Eu sempre imaginei que seria eu a matar uma pessoa primeiro. Acho que me falta fúria. Fui até o outro lado da sala onde ficava meu fogão. Acendi o fogo. Pus água para ferver.

- Eu não gosto de café – disse ele.

- Eu bebo.

- Você não matou ninguém, sou eu quem precisa relaxar.

- Mas foi você que veio a minha casa depois de matar alguém. Também estou estressado.

Sentia-me um pouco triste e com inveja, procuro em meio aos remédios um para relaxar. Engulo. Porque logo ele? Eu sou o fracasso aqui. Engulo mais quatro comprimidos. Preciso dormir.

- Aqui está o café.

- Eu disse que não bebo.

- Ok, e o que posso fazer por você?

- Podia me ajudar a sumir com o corpo.

- Já tentou usar o liquidificador? Conheço uns truques de mágica.

- Sério?

- Não.

- Então, o que faremos? Pensei em emparedá-lo na parede lá de casa, como aquele conto.

- Gato preto?

- É.

- Não daria certo.

- Por quê?

- O gato te incriminaria.

- Mas lá não tem gato.

- Nesse caso…

- Vamos emparedá-lo!

- Um minuto, pensei em algo. Traga o corpo essa madrugada até aqui e eu dou um jeito nele, e então você volta para casa para não desconfiarem de nada.

- Então está certo. Trago o corpo o quanto antes, valeu!

- Sem problemas, vai logo.

E lá está, ele falou meu nome de novo antes de ir embora. Cada vez que ouço me parece mais estranho. Lembro da coxas de Amanda e sua pinta. Isso me acalma. Não sabia ainda qual a idéia que tinha tido. Falei apenas para ele sair do meu apartamento. Estava triste, havia perdido as contas dos segundos. Levei-o até a porta, ele acenou feliz. Fechei a porta. Sentei na poltrona e bebi café. Havia esquecido o açúcar novamente. ARHGH. O relógio da parede faz de novo o barulho. Quatro horas da manhã. Perdi a contagem e ainda não sabia o que iria fazer com o corpo. Decidi ir até o bar. É sujo, mas gosto de lá. Amanda me agradava.

4

Levanto-me e vou até o espelho, vejo meu rosto velho e marcado, forço um sorriso, mas só o que vejo são meus dentes amarelos. Desanimo. Lembro que Amanda gosta de mim. Visto uma jaqueta. Está suja e fede a cachorro morto, como todo aquele apartamento, como eu. E logo federá como o sogro do Philipe. Preciso sair e pensar em algo. Guardo as chaves no bolso e saio à rua. Está frio. E lá estão as putas, bêbados e travestis. Acendo um cigarro. Eu sou diferente desses merdas. Fazia muito tempo que andava sozinho. Ser sozinho sempre foi parte de mim, socializar me embrulhava o estômago. Sempre me sinto meio mal depois de me relacionar com pessoas. Algo me diz que em toda conversa algo de mim é mordido e engolido as pressas. Essa dor silenciosa costuma durar, aí volto a estar sozinho e me sinto melhor novamente. Não existir é a maior dádiva de Deus. O seu melhor truque.

Chego ao bar. Noto Pedro sentado em uma mesa no canto falando sozinho com um recipiente de sal.

- Aí você percebe que sua vida é uma merda mesmo não vendendo algodão doce.

Me aproximo. Ele nota que cheguei e fica embaraçado.

- É, e aí…

Ele disse meu nome de novo. Sinto que esse seja meu nome mesmo no final das contas.

- E aí, por que está falando sozinho?

- Eu não estava falando sozinho.

- Estava sim.

- Não estava não.

- Ta bom, então o que faz aqui a essa hora? Podia estar vendendo algodão doce, mas está aqui, há uma razão.

- Não há uma razão.

- Ta bom.

- O Philipe te disse que matou o sogro?

- Ah, falou sim. No fundo todos querem matar alguém mesmo.

- É…

- Podia ter sido a minha vez.

- Mas não foi.

- É, deixa pra próxima.

Procuro nos bolsos o resto dos comprimidos. Acho cinco deles. Três amarelos e dois vermelhos. Engulo-os. Não me acalma. Olho em volta e procuro Amanda. Não está.

- Você viu a Amanda por aí?

- Vi, foi demitida hoje à noite.

- Como assim? Por qual motivo?

- Sabe a dona Augustona? A chefa gorda e lésbica dela? Ouvi dizer que tentou agarrar ela no banheiro, ela resistiu, e então a demitiu.

- Vaca gorda! Cadê ela?

- Lá dentro.

Não sabia o que fazer ainda. Mas estava furioso, entrei no balcão e procurei por ela. O balconista foi em minha direção para me parar. Quebrei uma garrafa que estava próxima de mim em sua cabeça. Pobre garrafa. Devia ser cara. Não encontrei a gorda. Voltei. O balconista me ameaçou de morte enquanto segurava um pano junto a sua orelha para conter o sangue. Olhei em sua direção. Ele correu. Enquanto uns gritavam “esse homem é looouco!”.

Pedro ainda estava sentado encarando o recipiente de sal.

- Chama ela pra sair logo.

- O que disse?

- Esquece.

- Você não devia ter feito aquilo com o balconista.

- Ele merecia.

- Ele não fez nada.

- Não gostava do jeito que ele movia as sobrancelhas, parecia mesquinho.

- Ah, é verdade. E sua mão está sangrando.

- Ficou uns cacos de vidro, nada de mais.

- E o que vai fazer agora?

- Procurar Amanda, ela gosta de mim.

- Sério?

- Sim. Não vê como ela me olha?

- Não.

- Então vai vender algodão doce.

- Vai se tratar.

Saí porta a fora. Velha gorda. Lésbica maldita. Preciso voltar ao meu apartamento. Philipe deve estar levando o corpo para lá.

Voltei para meu apartamento. As pessoas do prédio sempre me olhavam, talvez fosse o cheiro. Já haviam reclamado três vezes para a chefa do condomínio sobre o mau cheiro que vinha do meu apartamento, ela pedia para que arrumasse tudo para não existir mais discussões. Não ligava muito, em breve estaria fora dali, só tenho mais três dias antes de abandonar aquele lugar. Só tenho quarenta reais no bolso e nenhuma comida em casa. Só café. Aproveitei durante o caminho para passar em um mercado. Comprei uma garrafa de vodka e uns cigarros, a noite seria longa. Pensei em arrumar a casa, mas desisti, pensei que seria melhor deixar como estava assim não desconfiariam do cheiro do morto. Subi as escadas. Apartamento número duzentos e seis. Não esperava por aquilo. Amanda estava na porta me esperando.

5

Amanda me agradava. Lá estava ela. Em minha porta, meia calça, botas e corset preto. E lá estavam as coxas. E suas sobrancelhas faziam aquilo de novo. Ela me queria. Sabia disso. Eu avisei.

Ela me disse que já estava para sair. Um femtossegundo atrasado e não a veria. Isso corresponde a um bilionésimo de segundo, porra, como sou sortudo.

- Olá cowboy. Quer fazer sexo?

- Quero.

6

Acordei na cama com batidas na porta.

- Ei, está aí?

Estava com dor de cabeça, mas não vi Amanda na cama. Talvez ela tenha ido embora ou mesmo foi algum efeito dos remédios em excessos que havia tomado. Levantei ainda tonto, estava só de cueca. Vi a garrafa de vodka pela metade no chão. Não lembro de ter bebido dela. Vesti uma calça e uma blusa vomitada que tinha escrito “don´t hate me now”. Era Philipe. Notei pela voz. Abri a porta dizendo que não estava. Não funcionou muito bem. Philipe estava segurando nas mãos um monte de sacos de lixo preto. Clichê. Acho que a parte da serra elétrica era verdade.

- Pensei que tinha dito que o corpo estava inteiro.

- Não dava pra trazer como estava. Iriam desconfiar, aí o cortei com um motosserra.

- Pensei que tinha dito serra elétrica.

- Tem diferença?

- Sim.

- Então, isso foi depois.

- Vamos, entre.

- Ok, segura esses aqui, que eu carrego esses outros pedaços – me disse enquanto passava-me um dos sacos, pude ver a mão do lado de fora do saco. Se alguém tivesse visto isso, estaremos numa fria.

- Amanda esteve aqui.

- Sério? O que ela estava fazendo?

- Você sabe He He!

- Não sei não.

- Deixa pra lá.

- Onde vamos colocar?

- No banheiro, lá fede como ele.

- Cara, eu tava pensando e eu já li umas coisas sobre… Acho que foi o desenho que me influenciou.

- Mas vocês estavam assistindo TOM E JERRY!

- Justamente. Aquilo é demoníaco, cara.

Cansei. Alinhei o cabelo com as mãos. Encarei-me no espelho novamente, não tinha certeza se me conhecia. Lavei as mãos na pia e segui para minha poltrona na sala. Liguei a TV. Lá estava Clint Eastwood, no clássico “O bom o mal e o feio” de couro no pé, arma na cintura. Tá se sentindo o cowboy não é? O velho oeste não é mais o mesmo. Sérgio Leone é um gênio. Philipe ficou na porta do banheiro em silêncio encarando os sacos de plásticos com o seu sogro. Acho que se arrependeu. Ele foi um rato cruel. Devia chamar a polícia e entregá-lo. Sentia-me meio louco acobertando um louco. Procurei por vestígios de Amanda, mas não encontrei nada.

- Você me parece deprimido.

- Não fui eu que matei um cara, quem devia estar deprimido é você.

- Mas não estou.

- Devia.

- Devia?

- Devia.

- Você devia voltar e contar para sua mulher.

- Eu não tenho mulher e foi você que matou o cara.

- Ok, certo. Então fui eu que matei.

- Sim.

- Certo.

- Não me sacaneia.

- Ok.
- Certo.

7

Chovia lá fora, e aqui dentro só frio. Estava de madrugada, não conseguia dormir, os pedaços do corpo do sogro de Philipe eram barulhentos, resmungava a noite inteira. Pela imundície do banheiro ou de ter Philipe como genro. “Nunca gostei daquele maldito! ’ lamuriava alto. Tinha medo que algum vizinho ouvisse o maldito velho. Tomei asco. Asco. Asco. Asco. Asco. Asco por aquele quarto. Tinha medo que o velho levantasse a noite e tentasse me matar enquanto uma música triste tocaria no fundo, eu espernearia e o maldito me atacaria com seus braços, tronco e orelhas, tentaria me desvencilhar de sua vingança e ele me morderia os braços e por fim arrancaria meus olhos com uma manobra arriscada com seus pés. Bem, o que importa é que ele ainda não havia feito isso. Tranquei a porta e voltei a dormir. No outro dia tive uma idéia – moveria todos os móveis para a porta, deixando-o trancado do lado de lá. Tinha certeza que aquele amontoado de pedaços havia batido na porta uma ou duas vezes… ou quatro! Dez vezes! Maldito. Estava destruindo a minha porta. E o cheiro do banheiro junto com o cadáver já havia infestado o apartamento inteiro. Asco. Asco. Asco. Asco. ASCO. Por que inventei de tomar partido nisso? Pela manhã denunciaria Philipe. Qualquer dia desses faço isso, ele vai ver. E se o defunto fugir aos pedaços e entrar pela janela? Maldito, não havia pensado nisso. Agora ele já deve ter imaginado isso. Maldito seja esse velho. Philipe, Pedro e Amanda. Amanda me agradava, mas maldita seja ela também. Esse amontoado de rostos milimetricamente ajeitados da melhor forma possível, mas por dentro só há um vazio. Espere. Esse posso ser eu. Digo, a parte do vazio, o primeiro atributo também não tive tanta sorte. O fato era – um morto queria me matar, sabia disso. Não conseguia mais aturar suas ameaças. Algo em sua voz rouca, baixa e pausada me deixava em pânico. Denunciaria Philipe… aí então…

- CALA A BOCA MALDITO LOUCO!

Tremi. Parei para pensar em algo. Estava assustado demais para conseguir dizer algo. O velho esquartejado falou comigo em alto e bom tom. Vocês ouviram? Eu ouvi. Pode ser coisa da minha cabeça.

- Me responde, seu babaca!

Eu disse que ele disse. Eu não estou louco.

- Vou te matar, cabeção!

Uma coragem súbita me subiu as faces, passou pelos ombros, voltou-me a garganta e saiu à boca – NINGUÉM ME CHAMA DE CABEÇÃO!

- Achei que fosse justo dizer uma verdade.

- você quer uma verdade, quer?

ASCO. ASCO. ASCO. ASCO.

- Sim, quero! – disse ele com convicção.

- Então aí está sua verdade – Procurei algo de impacto para dizer, aí está, pensei em algo, HAHA, ri por dentro, ele estava na merda, transbordei de alegria, iria acabar com ele ali mesmo. E então… – Sua bunda está na pia! – Certeiro, fatal, venenoso como uma flecha, ele não suportaria essa. Eu havia vencido!

- hahahaha, é só isso que tem?

O maldito velho acabara comigo, logo eu, no auge da minha perspicácia intelectual, perdendo para um velho que muito provavelmente sofria de Alzheimer. Havia desdenhado do meu insulto. Acabou comigo com um sorriso. Pela manhã denunciaria Philipe por ter me colocado nessa. Ia sim. Ninguém zomba de mim e continua vivendo… Ou morrendo. Resolvi dividir os móveis, metade na porta do banheiro do defunto e a outra metade para tampar a janela. Sinto-me seguro agora.

8

Eu estava em minha caixa de sapatos e me escondi de você.

Estava só, porém acompanhado. Precisava de privacidade, o corpo já não respeita o meu direito de não me assustar.

Algo de essencial me faltava. Mas não conseguia ver com precisão. Minhas costas doíam, a cabeça latejava, os olhos coçavam, o cansaço implorava-me por um tempo a sós, um tempo só nosso. O medo me alertava, o cheiro me nauseava, queria ter matado alguém antes de Philipe. A culpa de não ter matado alguém primeiro talvez sumisse de mim, pararia de me corroer aos poucos. Pensamos a maior parte do tempo do que nos arrependemos de ter feito, mas a dor mesmo está nas coisas que sentimos vergonha por não ter feito. Eu, por exemplo, me arrependo de não ter sido o assassino que queria, eis o privilégio de poucos.

Injustiça. Injustiça, injustiça.

Agora o velho está aqui, atormentando meus sonhos. Devia botar fogo no que resta. Ou juntar tudo enrolar em um plástico preto e jogar em alguma lixeira pública de madrugada. Ninguém perceberia. NÃO. Arriscado demais. Achariam o corpo. Do  corpo deduziriam o envolvimento de Philipe. Philipe me acusaria. Achariam provas no meu apartamento como sempre acham e BAM! Estou na cadeia pagando por algo que não tive a chance de ter experimentado, três, seis, dez, vinte anos preso por algo que não fiz, comendo arroz grudento e com pentelhos do saco de algum cozinheiro sacana, apanhando e sendo feito de mulherzinha. Isso não era para mim. Eu sou durão.

Denunciaria Philipe pela manhã, ele veria. Não. Arriscado demais.

Não poderia ficar sem usar o banheiro para sempre, precisava encarar o maldito velho. Meu estômago estava cheio de merda. Mais cedo ou mais tarde teria que entrar. Tenho que entrar, tenho que entrar.

ENTREI!

Não devia ter entrado.

Assustador.

Como poderia explicar aquilo?

Lá estava em pé, junto a pia, Amanda, encarando-se no espelho. O cabelo desgrenhado. Pensei em gritar impropérios, vitupérios, a maldita esteve escondida ali todo esse tempo? Espezinharia ela. Amanda NÃO me agradava.

Eu todo esse tempo pensando estar louco e aqui está ela, nesse banheiro com esse amontoado de pedaços, tripas e sangue, e lá está ela, passando batom, apertando os lábios rosados um contra o outro, olhando-me com seus grandes olhos castanhos, seu cabelo vermelho brilhando por sob a luz e lá está as coxas da facínora e logo mais a pinta, desgraçada seja a pinta. Tudo começou com a pinta. Tinha certeza absoluta. Eu estava no bar, Pedro também, Amanda também, a pinta também. Talvez fosse Pedro, mas foi Philipe quem matou.

- Oi, o que vai ser hoje cowboy – disse ela fazendo aquilo novamente com as sobrancelhas que só ela sabe fazer enquanto virava seu corpo em minha direção. Lábios rosados. Cabelos vermelhos e lá está a pinta. Amanda me agradava, vadia aproveitadora.

- Gosto de coxa de frango – disse engatando a primeira marcha em sua direção. Devia matá-la. Esquartejá-la-ia, usaria uma faca, ou enforcaria ou mesmo apelaria para o machado.

FACÍNORA, FACÍNORA, FACÍNORA, FACÍNORA.

Não há ódio que se sustente após um belo par de pernas.

9

Surpresa. – Disse ela com ironia. Eu poderia desfigurar aquele rosto branco dela, uma ou duas ou dez pancadas em Amanda e isso me faria sentir melhor. Como ousava? E como foi parar naquele banheiro junto ao cadáver mutilado repartido por todos os cantos? Por falar no defunto, encontrei um pedaço de seu dedo do meio, do lado da TV mais cedo, Philipe deve ter colocado lá de recordação para minha mobília que já é tão convidativa. Pensariam que eu era parte da yakuza. Isso não é tão ruim afinal. Poderia colecionar dedos e pôr em cima de minha TV, ou mesmo sair por aí pregando peças em desconhecidos, vi isso em um programa, era engraçado. Eu tinha um cadáver e uma semi-morta em meu banheiro, era assim que eu a imaginava – pálida e desfigurada sobre meus socos e banhada por sangue que se confundia com a cor de seus cabelos que se destacava com o chão branco e sujo do banheiro. Nunca a perdoaria.

Caminhei até junto a ela. Gostava de sua meia calça preta e justa, e o jeito como estava o colar adornado de penduricalhos ajeitados delicadamente por entre seus seios. Senti que iria falar aquilo, saiu quase que por impulso, precisava falar aquilo. Minha boca se encheu de orgulho para pronunciar pausadamente:

– VA-DI-A.

Amanda não se intimida. Amanda me encara. Chamo Amanda pelo nome. Amanda não tem medo de nada. Amanda vai até mim. Amanda leva à mão as costas e saca uma pistola. Amanda me aponta a arma. Amanda costumava me agradar.

- Amanda, não faça isso. Vejo em seus olhos que você não quer fazer isso. – Clichê. Eu sei. Mas sempre funciona. – Amanda, dê-me a ar…

BANG

Vadia, ela queria fazer aquilo.

- Ninguém me chama de vadia, cowboy. – Disse ela com um sorriso de escárnio, enquanto se dirigia em minha direção.

SANGUE. Eu estava sangrando. Acertou minha barriga em cheio, caí para trás e me apoiei na porta, depois levei à mão a barriga para conter o sangue.

- Que vadia! – Disse quase como um reflexo.

BANG, outro tiro, atravessa minha clavícula e suja de sangue toda à porta atrás de mim.

É impressionante a quantidade de sangue que existe dentro de nós, eu não era tão vazio como pensava.

- Eu tenho uma arma, a escolha é sua, cowboy.

Penso em urrar de dor, mas só o que sai é…

- A-A-A-A-Amanda vadia, você não me agrada mais.

BANG, outro tiro, dessa vez acerta-me a perna, caio no chão, sinto gosto de sangue na boca, a visão torna-se turva. Vejo-a como uma gangorra indecisa, apenas um amontoado de vermelho e preto que não tinha mais certeza se era sangue em meu olho ou era a imagem de Amanda.

- Não te agrado mais, hein? Devia ter me pagado uma dose de tequila enquanto pôde.

- Vadia!

BANG

É sempre a gente com a gente mesmo.

Quando se é um idiota, não há arma que tire isso da sua cabeça.

Apaguei.

Quando acordei não sabia exatamente onde estava. Percebi que era o banheiro. Estava sentado na porta do banheiro. Havia sangue por todo lado, principalmente a minha volta. Meu corpo doía, sentia uma dor terrível, ela me acertara um tiro no pescoço, maldita. Estava nauseado, engatinhei até o vaso e vomitei sangue. Puxei a descarga, mas não funcionou, ficou lá apenas bosta e sangue. Nada podia piorar. Lembrei de Amanda, olhei a minha volta, mas só estava a cabeça do velho do lado de fora de uma sacola, me encarando.

- Não foi uma boa noite, foi? – disse com um sorriso cínico sob aquele rosto cheio de rugas.

Eu poderia passar a noite ali deitado sob a poça de sangue. Mas não daria a ela esse luxo. Nem mesmo a cabeça do maldito velho teria esse luxo.

Engatinhei até a cabeça.

O velho me olhava e sorria.

Eu olhei e sorri.

Ele olhou e temeu.

Peguei a cabeça para afundar no vaso cheio de bosta e sangue.

Minha mão estava cheia de sangue, então quando o peguei pelo rosto, ele ficou parecendo o Wilson do Náufrago. Sorri. Enfiei a cabeça do velho na privada.

Tirei a cabeça e olhei para aquele rosto velho e nojento pedindo por ajuda.

- hahahaha aqui está sua boa noite, engula tudo! O velho gritava, mas só eu escutava. Soltei a cabeça naquele monte de merda transbordando, depois fechei a tampa, deu tempo de ver o velho olhar em meus olhos e gritar – VOCÊ VAI VER SEU FILHO DA PUTA.

- Você precisa abrir o leque do seu paladar, pensa nisso, velho cretino.

Sentei-me no vaso por sobre a tampa. Pude ouvir o grito incessante do velho, enquanto tentava mordiscar a borda da tampa para não comer merda. Não daria certo. Estava cheio de mais. Traguei mais uma vez. A porra dos ferimentos doía. Vadia, atirou em mim. Eu a pegarei. Sei que pegarei. Eu sempre ganho. Ganhei do velho… Ninguém me chama de cabeção e saí vivo ou morto. Ouvi os passos de alguém na sala e chamar por meu nome. Levantei-me e pus um vaso de petúnias como peso em cima da tampa. Era Philipe. Gritei que não estava, mas não deu muito certo.

- Ei, você está aí? Abre a porta pra mim! Eu vejo sangue saindo por baixo da porta, o que aconteceu?

- Quem deixou você entrar?

- A porta estava aberta.

- Nesse caso saia e bata na porta.

- Da onde saiu à porra desse sangue, abre a porta do banheiro, você está bem? Sua voz está arranhada.

- É só que levei um tiro no pescoço, não é nada demais.

- Como assim, só um tiro no pescoço?

- Só um no pescoço, outro na perna, outro na barriga e outro na clavícula.

- Puta merda, abre isso aqui e te levo no hospital.

- É só arranhões, o velho viu.

- Que velho?

- Velho-seu-sogro.

- Mas ele está morto.

- Virou merda.

- Isso.

- Foi pro ralo.

- Isso.

- Ainda não.

- Quê?

Dei descarga.

10

Philipe arrombou a porta, quando entrou me viu em pé em frente ao espelho.

Havia quebrado o espelho com um forte encontrão com minha testa, eu precisava clarear as idéias, mas elas só apagavam.

E então, ouvi um estrépito alto.

Tirei a cabeça do velho do vaso e joguei sob o assoalho do banheiro e ele gritava como um porco, amaldiçoando todos nós, eu, Pedro, Philipe, Amanda, a pinta. Ele disse meu nome, fazia tempo que não o ouvia e não sabia como ele conhecia Pedro ou mesmo Amanda. Talvez o grito estivesse sido meu. Um som alto e grave como se atravessasse as ruas vazias da madrugada e perpetrassem nos recônditos solitários e escuros do meu pequeno apartamento, soando sem comiseração a nos arrancar a carne. Talvez Amanda tivesse gritado, ou mesmo Philipe ou Pedro ou o grito veio de mim ou de todos nós.

O grito veio de mim e de todos nós.


Categorias: Agenda,Contos |

4 Comments»

  • Franz Lima says:

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    Separei este para ler. Apesar de não concluí-lo ainda, pretendo finalizar e ler todos os outros que estão com zero comentário. Mas vale frisar que a leitura na tela de um texto tão grande é complicada e, por vezes, desestimulante.

  • Samila says:

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    Darei uma de Vítor agora:
    Não consegui sequer terminar de ler a primeira parte.
    Não prendeu, não surpreendeu, sequer agradou.
    O diálogo está confuso, parece desproposital demais, não leva o leitor a conto nenhum, não direciona enredo alg. A descrições são falhas, e as inserções machistas, preconceituosas e chauvinistas me encheram de desgosto…

  • whenyoustrange says:

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    Certo.

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