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Aug
12
2010

Rumo à Batalha

Escritor: Atreus

rumo-a-batalha

“Existem punhais nos sorrisos de um homem”
Macbeth – Shakespeare

Algum local da floresta de Escu

A floresta se calara ao ouvir o exercito passar. Os pássaros e as lebres se escondiam em recantos perdidos, fora do alcance das botas.

Calada demais veio o pensamento do Heitor. Havia oito dias que marchavam sem cessar. Desde que desembarcara na maldita ilha que não parava de caminhar. Sua cota de malha pesava.

“Quem dera eu ter um cavalo” sussurrou para si enquanto chutava um galho ressecado

Não tinha cavalo, não por falta de vontade. Por falta de meios. Herdara poucas terras de seu pai. Pequena nobreza que era. Quase sem dinheiro para lavrar seus proprios campos. Partiu rumo a guerra. Pelo um Rei que diziam que era o seu. Partira uma manha, ele, sua espada e uma vontade de conquistar o mundo.

“Estamos chegando!” veio a voz de um cavaleiro montado a sua esquerda.

“Juntem-se. Migrem para o estandarte mais próximo!” veio a ordem

Seguiu sua Fila. Estavam se aproximando do final da maldita floresta. A densidade arbórea começava a ceder lugar a pedaços de terra plana com arbustos inferiores. A luz se fazia mais abundante. Clara. Viva.

Ajeitou seu haubergeon. Serrou suas luvas compostas por trama de malha.

Esfregou uma luva contra a outra, sentiu o couro abrasivo na face palmar. Estava ansioso.

Marchava rapidamente.

“Escudos nas mãos Infantaria!”

Uma voz da esquerda gritava ordens – lanças a mão, escudos em posição. Uma trompeta soava ao longe. Estavam perto, perto demais.

Finalmente passou a ultima arcada da floresta. Um campo verde abriu-se diante dele. O sol o cegara. A luz do meio dia contemplava a planície por inteira. Ao centro duas colinas verdes. Pareciam os seios fartos de uma mulher.

Riu interiormente. Não por longo.

Quando sua visão finalmente se adaptara a claridade; viu que os peitos pareciam estar infestados por formigas negras. Um contingente de homens os esperando.

“Ah merda,” disse pro seu companheiro ao lado

“Pois é, agente atrasou.” viera a responsa resignada do homem. Trajava uma armadura de couro endurecido – couro bouille. De baixa qualidade.

Esse morre logo, pensou o Heitor maliciosamente.

E aos poucos a hoste tomava suas posições. A infantaria leve afrente. A infantaria pesada, ele, atras. Os arqueiros. Besteiros com seus escudos frágeis. Cavalaria no flanco esquerdo.

Andaram mais um pouco, pela suas estimativas, uns quinhentos pés.

Ao longe vira uma nuvem esburacada e negra se esboçar no céu.

“E começa,” disse por entre os dentes.

Acariciou o pomo de sua espada. Correu seus dedos por entre a argola dourada que o compunha.

Sua única fonte de verdadeira riqueza. A batizara de Hellen. Sua Hellen. Sua espada.

Ajoelhou no momento em que as flechas chegavam. Ergueu seu escudo ogival de madeira. Recitou uma rápida prece. Fixava do olhar seu lado esquerdo. Aguardando o impacto. E chegaram.

O zunido aterrorizador soava por entre o vento. O sol eternamente impassível. O sacana do sol sempre imparcial.

“Aaaaaah!” veio um grito de pura dor.

Esse daí morreu, pensou enquanto acidentalmente mordia seu lábio inferior. O grito o havia assustado.

Uma flecha caiu ao lado do seu pé esquerdo. Não percebera de primeira, mas agora a observava calmamente.

Não sentia muita coisa. Ficara impressionado com sua falta de compromisso com o medo. Não suava. Não tremia. Era o que tinha de ser, era como se ele nem estivesse ali.

“De pé!Vamos!” gritou uma voz autoritária. Esses cavaleiros sempre berrando. Achou graça em seus pensamentos.

Levantou. Sorriu enquanto olhava para seu companheiro da armadura de couro. Este tentou esboçar algo em retorno. Não conseguira, as gotas de suor pingavam de sua fronte.

Pararam. Os arqueiros enviavam salvas de flechas rumo ao inimigo. Recebiam o troco em dobro. Uma flecha viera arranhar sua espaldeira de couro. Rasgara parte da túnica branca que o recobria.

Gargalhou quando sentira o tranco e não fora ferido. Alguma entidade estava ao seu lado esse dia, tinha certeza disso. Tocou seu peito em reflexo. Retraçou o relevo de seu brasão bordado. Uma serpente enrolada envolta de um arvore. A mesma que ornava seu escudo.

Fora interrompido quando a trompeta do ataque soara.

A primeira onda de infantaria se pôs em um trote acelerado. Corriam em direção ao tumulo. Tinham de subir o morro. Sob flechas. E depois, ainda tinham de combater.

Eram bolas de catapultas (Nota do Autor – equivalente de bucha de canhão alguns 300 anos mais tarde =P) como dissera um fidalgo montado ao seu lado.

Armados de lanças precárias e piques, esse peões não tinham a menor chance.

Só eles, a infantaria pesada conseguiria os detronar de la, isso se chegassem com folego até os inimigos. Eles ou a cavalaria afirmava o tal fidalgo.

E veio a ordem.

Ajeitou sua coifa. Prendeu a venteira deixando somente a parte superior de sua face exposta. Era sufocante,mas necessário. Puxou o cinto com força. Apalpou-o para confirmar o lugar de uma adaga.

Seus olhos verdes brilhavam de uma luz gananciosa.

Empunhalou sua espada com gosto.

Sorriu abertamente. Começara a caminhar rapidamente. Sentia o vento em sua nuca. Via seus companheiros gritar ao seu lado. Os via o ultrapassar. Correndo rumo a um futuro cada vez mais efêmero.

Pelo medo. Pela ansiedade. Pela Gloria

“Por Hellen, minha única verdade!” soou sua voz profunda e sonora.

Um grito de vida.


Written by The Gunslinger in: Contos,Jan Havlik - o Atreus | Tags: , ,

33 Comments»

  • Atreus says:

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    Ae!!!Cheio de errinhos mas ta valendo!

    Guns da pra tirar o Jan Havlik?

    Abraço e Valeu mesmo meu velho!

  • Andrey Ximenez says:

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    Muito bom Atreus, muito bom mesmo.
    -
    A descrição foi tão bem feita que fez com que em me sentisse ao lado do personagem principal.
    -
    =]

    • Atreus says:

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      Pow valeu mesmo Andrey, fico feliz que tenha gostado!
      -
      Tem alguma sugestao ou critica?

      • Andrey Ximenez says:

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        Kra, acho que não. Tirando o negócio dos parenteses no meio do text, ta impecável.
        -
        Gostei bastante da enfase nos pensamentos do personagem antes da batalha. Como um um homem se sente preso em meio tudo aquilo, tendo assim, que agir como se fosse algo comum e cotidiano.

  • Asami says:

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    Boa estória. Descrição rápida e precisa, um conto delicioso de se ler… parabéns Atreus :)

    • Atreus says:

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      Asami, comentarios como os seus sao sempre bem vindos ;)
      -
      Obrigadao pelo elogio!Tem mais chegando!

  • Rainier Morilla says:

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    Que é isso…
    Quase gritei junto e parti para guerra!
    Descrição fantástica.
    O único erro que poderia estragar a leitura, creio eu, é a nota do tradutor. Quando for assim coloca um ¹. No fim do conto ou paragrafo coloca a nota.
    -
    ¹ – Equivalente de bucha de canhão alguns 300 anos mais tarde. (N. do T.)
    -
    Evite parênteses principalmente em comentários. Dá impressão de falta de cuidado em descrever o texto. (Embora todo o resto esteja muito bem escrito, exceto alguns erros básicos.)

    • Rainier Morilla says:

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      Falo para não usar os parênteses e coloco parênteses na mesma frase. D=

      • Atreus says:

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        Opa, primeiramente obrigado Rainier pela critica construtiva e os elogios.
        -
        Realmente agora relendo eu percebi que quebrou mesmo o ritmo, até pq nao é uma cronica ou algo assim.
        -
        Obrigado mesmo pelo comment. Tem alguma sugestao ou algo parecido?

    • Vitor Vitali says:

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      Engraçado, eu achei isso bem legal. :)

  • Pandion says:

    Thumb up 2 Thumb down 0

    Olá Atreus, seu conto me chamou a atenção pelo título, e decidi lê-lo e comentar. Sou apenas um escritor amador que gosta de estudar um pouco de literatura. Trago aqui meus comentário com a melhor das intenções.

    Atreus, a primeira coisa que me despertou a curiosidade foi a respeito da sua idade. Existem ainda outros detalhes técnicos que notei, como por exemplo:

    Estrutura e disposição do texto.
    Isso algo que demorei um tempo para notar, mas um parágrafo representa uma cena ou situação, e ela toma vida quando possui um começo, meio, fim ou ápice, o qual prepara o leitor para uma outra situação, mesmo que esta seja continuação da anterior.
    E no seu texto, notei que o parágrafo as vezes se resumia ações ou ideias que poderiam estar agrupadas em parágrafos maiores, e desta forma delinear bem o que acontece na cena.
    Outra coisa que seria bom atentar é para a pontuação, não só acentuação, mas principalmente ponto final e virgula, o mal uso destes faz com que o texto fique poluído, tal qual uma música que os acordes são feitos sem apreço. Neste sentido, algo que faço pelo menos cinco vezes antes de publicar algo é revisar, não só a gramática, mas se o sentido de cada frase expressa aquilo que eu realmente quis passar. Levo comigo o pensamento de que, o que escrevemos é um reflexo de como pensamos.

    Narrador.
    Algo que tento delinear bem em meus textos atuais é a figura do Narrador. No seu texto percebo que ele é o Inominado, o qual com a experiência aprendi que é o meu tipo de Narrador predileto. O qual pode também ser onisciênte, que neste caso ele se revela como tal mais adiante no conto. Aliado ao tempo passado que você usa, dá a impressão de que é alguém que esteve lá e agora relata o acontecido. É importante notar estas questões por que desta forma aprendemos a compreender qual tipo de leitor queremos atingir, pois alguns preferem ler algo que acontece de acordo em que a escrita avança. Muitos não notam ou se importam com isso, mas podem acabar sentindo um leve desconforto ao ler. Mas é tudo uma questão do autor compreender o que escreve, para saber qual público quer atingir.
    Vejo que a narrativa poderia ser um pouco menos superficial e genérica. Superficial por que não é profunda, passa muito de leve nas descrições e pensamentos do personagem, e genérica por que fala, mas não diz muito, um exemplo: “Os pássaros e as lebres se escondiam em recantos perdidos, fora do alcance das botas”.
    Um outro fato que percebo é que o Narrador mesmo sendo Inominado ou Oculto, ainda assim é imparcial, e isso é algo que incorri inúmeras vezes, até notar que não me agrada. Por exemplo: “O zunido aterrorizador” ou “do final da maldita floresta”.

    Personagens.
    Por mais curto que um conto possa ser existe espaço para trabalhar um ou mais personagens. Pode-se dar profundidade e carisma ao personagem em uma frase.
    Compreendo que um conto não necessariamente tem que trabalhar um personagem, ou ao menos ter um protagonista declarado. Mas entendo que não é este o caso.
    Penso que pessoas gostam de se identificar com algum personagem para imergir totalmente na história, o personagem precisa de uma personalidade que o leitor se acarinhe por ele, formando um vínculo, vivendo o que o personagem vive. Compreendo este como um dos segredos das grandes obras da literatura.

    Opinião.
    Atreus, no final eu compreendi que o conto é coerente desde o título ao término, e isso é legal, conseguiu me passar uma idéia do que poderia ser vivenciar a situação descrita, porém, poderia ser uma obra tecnicamente mais bem escrita, que me proporcionasse um deleite, assim como se olhasse para uma bela pintura ou desenho.
    Bom esforço em sua caminhada. :]

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      uheauaehueaheauheaea
      -
      E.U Atmard fazendo fazendo escola.
      -
      quanto ao texto: gostei, gostei muito. teus erros foram besteiras, só tomar cuidado com eles. De resto, bem narrado, capaz de levar o leitor até o campo de batalha
      -
      coisa fina, parabens Atreus

    • Atreus says:

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      Pandion,
      -
      Adorei sua critica meu velho. Criticas assim incitam o autor a continuar no caminho. Te agradeço desde ja pelo esforço e pela redaçao ;)
      -
      Estou revendo os pontos que voce levantou!E todos com jus.
      -
      Um abraço

      • Franz Lima says:

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        Realmente, Atreus… uma crítica embasada, consciente e sem agressões é algo que incentiva o escritor. Apontar falhas não é minimizar a obra, mas sim ajudar o autor a aprimorar seu trabalho.

      • Thumb up 0 Thumb down 0

        O Pandion é meu amigo, ele chegou a pedir minha opinião sobre o comentário antes de postar.. pq era muito grande. Mas eu disse.. post-la.. pessoal vai te dizer o que pensa dele. :)

        Mas claro, que críticas da maneira que ele escreveu sempre são bem vindas! :)

        Por falar nisso, falta ele dar uma passada aqui para responder!! :D

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Empunhalou? Essa palavra existe? Ou foi só um errinho. Não estou falando para tirar sarro.. é dúvida mesmo.

    Tem apumhalou… ou empunhou. =o

    • Thumb up 0 Thumb down 0

      é..de primeira pensei que era um neomorfismo e tal.
      -
      mas acho que era empunhou

      • Franz Lima says:

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        Pelo pouco que tenho ciência, empunhalar é ter algo em punho. Apunhalar é esfaquear, usar arma de corte para ferir…
        P.S.: já estou com dois contos na agenda. Aguardo comentários (um jabá de leve não faz mal rsrs).

        • Atreus says:

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          Franz, esta com o seu nome mesmo?Procurei rapidamente e nao achei… ;O

          • Franz Lima says:

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            Está na agenda… ou melhor, estão. São dois: Rumo e Visitante. Será muito bom receber sua opinião. Abraços e sucesso, amigo.

    • Atreus says:

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      ahahaha! Empunhou, empunhou…Até que esse neologismo ai ficou interessante se bem que acidental devido á frase de introduçao do Will Shakey!
      -
      Empunhou mesmo. Sorry guys!

  • Vitor Vitali says:

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    Cara, adorei. Muito bem escrito e faz agente se afeiçoar rapidamente a personagem. Muito bom mesmo, gostei. :)

    • Atreus says:

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      Pow velho, vindo de vc isto representa muito mesmo!Ja vi umas criticas suas acirradas por aqui e fico realmente feliz que tenha tido afeiço por esse conto!
      _

      E qualquer critica é bem vinda.Pode soltar o trombone! =D

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    Quando eu li este conto há uns meses atrás, achei que iria ser publicado logo. Eu gosto daqueles contos em que os pensamentos do personagem descrevem tudo. É como uma viagem à mente dele. E este está muito bom, Atreus. Tem uma coisa: no título, o acento tem de ser uma crase “à” e não acento agudo. Este errinho me chama muito à atenção e me incomoda…

    • Atreus says:

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      Meu velho, vc tem toda razao!Como meu teclado é gringo eu nao tenho crase aqui, ou tenho mas sou muito preguçoso em relaçao a isto!haha
      _

      Guns da pra dar uma ajeitada?Agradecimentos Antecipados!hehe
      -
      E valeu pelo elogio!!! =D

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