Serenidade
Escritor: Josue de Oliveira
Como sempre, Amanda estava certa. Eu não deveria estar ali. Não sendo quem eu era. Não depois de tudo. Mas estava.
As coisas piscavam e os corpos se mexiam no ritmo da música. Alguns nem tanto, mas isso não era realmente importante. Eu não sabia onde João estava, o filho-da-mãe tinha desaparecido logo depois de chegarmos. Estava sentado com a barriga encostada no balcão, fazendo girar sobre ele o copo de cerveja sem álcool que me rendera olhares escarnecedores dirigidos pelo barman. Braços estendidos roçavam por sobre meus ombros para apanhar drinques coloridos, cujos nomes eu sabia de cor. Concentrei-me na cerveja, bebi um gole. Um negócio horrível. Meio receoso, olhei para trás. E alguma coisa dentro de mim pareceu começar a se mexer.
As batidas faziam tremer o chão, as paredes e as pessoas. Todo aquele movimento era uma coisa louca, estranha, fascinante. A proximidade com que os corpos masculinos e femininos se balançavam era convidativa; a pouca roupa deixava muito a mostra. Fiquei ali, com os olhos arregalados, envolto em inúmeras lembranças. Engoli o resto da cerveja e encarei o copo vazio.
Ora, por que não?
Há uma diferença enorme entre conhecer o caminho e segui-lo, Amanda diria, se estivesse do meu lado. Talento nato para soltar frases de efeito. Fiquei completamente caído por ela depois de um mês freqüentando o grupo, mas já tinha estragado tudo tantas vezes na vida que me encolhi no meu canto. Por algum motivo que me escapa totalmente, ela veio até mim.
Seis anos completamente limpa. Nem álcool, nem drogas. Assim como eu, tinha se afundado nos dois. Se entregou a mim com sinceridade e eu me obriguei a prometer que a cota de estragos já fora alcançada. Novas metas, agora. Funcionar. Sobreviver. Viver. Nove meses limpo, após anos tentando e recaindo; já era alguma coisa.
Então João reapareceu.
O barman gritou algo por cima da música alta. Perguntava se eu queria algo mais. Diabos, eu queria. Como queria. Mordi os lábios e as palavras pareceram saltar da minha boca como que expulsas pelo meu corpo.
- Tequila.
Em alguns segundos, um novo copo a minha frente. Meus dedos roçaram o vidro. Vi ou pensei ver meu rosto refletido na bebida. Respirei fundo e olhei novamente para trás.
Deus, me dê serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar aquelas que posso, e sabedoria para discernir entre ambas.
Deus, me dê serenidade…
- Levantar orações aos céus não vale de nada se você não sabe o que quer.
A voz dela pareceu vir de perto, superando todo som e agitação em volta. Eu já segurava o copo com força e antevia o momento em que o ergueria em direção a boca, adivinhava a textura do vidro tocando meus lábios, a queimação que escorreria pela minha garganta. O barman que estava por perto levantou os olhos até mim, e se afastou até a outra extremidade do balcão, dando uma risadinha.
Porque aquilo era uma piada muito, muito engraçada.
Eu tinha pensado que nunca mais veria o João. Aqueles nove meses de relativa paz quase me convenceram de que o sacana tinha desaparecido de vez. Quem sabe morto, até. Às vezes, quando se cava fundo, se encontra uma mina. Mas não. O desgraçado surge de novo, com aquele sorriso no rosto. Os velhos tempos personificados. Está a fim de sair comigo essa noite? Qual é, a gente não vai fazer nada demais. A não ser que você queira, claro. Eu recuso várias vezes. Ele diz que tudo bem, e continua a aparecer, dia após dia. Mesmo convite. Tapinhas no ombro. Ele ri e eu também rio. Um feliz da vida. O outro com a respiração em suspenso.
Digo a Amanda que vou sair com uns amigos. O sexto sentido daquela mulher me assusta. Ela me olha bem no fundo dos olhos.
- Pensa que eu não sei que é com ele que você vai sair? Eu sei.
Discussão. Gritos. Todos meus. Ela não levanta a voz, nunca. Desnecessário quando se está sempre certa. Eu brado que quero liberdade, que não posso viver preso e que ela não pode me obrigar a nada, nada, nada…
Então saio de casa bufando, sentindo uma alegria mórbida. Pulo para dentro do carro dele e voamos até o casarão.
Durante o percurso, reflexão. João falando que a minha vida parecia estar um saco e que a gente devia viver apenas pra se sentir vivo. Afinal, o que mais há?
Eu não respondi. Fui caminhando ao lado dele como um zumbi, aos poucos tomando consciência do mundo no qual me introduzia novamente. E assim que pus os pés ali soube que estava condenado.
Ainda encarava o copo de tequila, quando ele apareceu e me deu um susto.
- Ei, cara. – Risadas, bafo de cigarro e bebida. Marca de batom no rosto. – Vai beber isso aí? – Meteu a mão no copo e virou-o antes que eu pudesse pensar. Deu um gritinho de satisfação e riu alto. – Ei, escuta. – Se inclinou e falou ao pé do meu ouvido. – Por que a gente não vai pra um lugar mais reservado? Tenho uma coisa que você costumava curtir aqui bem no meu bolso.
Senti minhas mãos ficarem frias.
- Vamos.
Ele riu.
- Eu sabia.
Me levantei. Deus, me dê serenidade…
Cruzamos uma imensidão de rostos vazios, João passando a mão em algumas mulheres no percurso. Se ouve alguma reclamação, não ouvi. Chegamos ao banheiro e entramos. O volume da música pareceu diminuir, mas ainda dava para sentir as batidas no chão.
…para aceitar as coisas que não posso mudar…
Ele tirou o saquinho, um cartão e um canudo cortado ao meio do bolso. Espalhou um pouco do pó branco sobre a bancada da pia, separou numa carreirinha, inclinou-se e cheirou através do canudo. Jogou a cabeça para trás, os olhos fechados e a boca aberta. Esfregou o nariz e soltou uma gargalhada. Então olhou para mim e ofereceu o canudo.
Eu o peguei e engoli em seco. Minhas mãos tremiam.
…coragem para mudar aquelas que posso…
- Qual é, cara? – A voz dele era amigável, suave. – Tá esperando o que? Ou você realmente achou que ia se afastar disso… disso tudo? – Ele fez um gesto que abrangia tudo a nossa volta. Riu novamente, descontroladamente, e falou bem próximo a mim. – Vai continuar tentando se enganar? Esse é você, rapaz. Isso é você.
Eu mergulhei meu olhar no dele.
…e sabedoria para discernir entre ambas.
- Anda. Nós dois sabemos que é isso que você quer.
Era verdade. Nós dois sabíamos.
Fechei os olhos com tanta força que minha cabeça chegou a doer. Olhei para dentro de mim e não vi nada de que gostasse, de que sentisse orgulho. Inundei minha mente com imagens de pessoas contando às lágrimas sobre suas vidas, de famílias destruídas e histórias descontinuadas. Olhei bem no fundo e continuei a olhar. João gritava comigo. Cheire, vamos, cheire! Pensei em Amanda. Me detive nela. Na lágrima que escapara de seu olho no momento em que saí. Minha mão se moveu e fiz voar o pó de cima da pia. João imediatamente me xingou. Abri os olhos. Segurei na altura do peito dele e arremessei sua cabeça com força contra o espelho. Ele urrou e escorregou para o chão, deixando cair o resto do pó, o vermelho destacando-se no rosto branco.
Encarei-o e senti puro ódio.
Fui até a porta e a tranquei. O banheiro estava vazio. Escolhi a pior privada, carreguei-o até lá e mergulhei sua cabeça na água suja de mijo e merda. Ele se debateu como um peixe, desesperado, querendo ar. Empurrei com mais força. Sua mão agarrou minha perna, mas a pressão foi diminuindo aos poucos.
Descobri em meus olhos lágrimas das quais não fazia idéia.
Larguei-o ofegando ao lado da privada e me olhei na parte ainda inteira do espelho. Não sei exatamente o que enxerguei ali. Esperança, medo, contradição. João tossia intensamente, o som seco se misturando ao cheiro ácido de acre que pareci impregnar até a alma. Abri a torneira, joguei água no rosto. Fui até João e disse que se ele me procurasse novamente, eu o mataria. Batidas na porta. Sai, deixando o segurança resmungão para trás. Esbarrando em todos, sem me importar com os xingamentos. Um soldado avançando sozinho contra todo um regimento. Ganhei a rua.
E voltei para minha vida.
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Um ótimo texto, Josué. Narrativa fluente e com uma escrita rápida, capaz de travar o leitor. É muito interessante o suspense criado em torno do provável retorno do viciado ao seu vício. A presença do “amigo” oferecendo, apenas pelo prazer de vê-lo voltar às drogas é algo capaz de gerar raiva no leitor incauto.
O final também ficou, além de politicamente correto, bem descrito. Parabéns…
Franz, muito obrigado.
Paz.
parabéns muito legal e bem descrito.
Excelente, Josué. Adorei o enredo deste conto. Este é definitivamente um conto que faz pensar e toca diversos sentimentos dos leitores. Você foca bem a vida de um ex-consumidor de drogas, especialmente quanto ao lado psicológico: o medo dos fantasmas do passsado representados pela própria droga, o medo de perder para as drogas uma vida recém-recomeçada. Pena que na vida real, nem todos aqueles que largam o vício tem a força de seu personagem para se manter longe deles. O caráter conscientizador de seu conto pra mim é o ponto alto do mesmo. Parabéns
Asami, muito obrigado.
Abraço.
Josué, seu conto foi comentado no Falando por cima podcast, criado por mim e pelo Vinny
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Segue o link
http://www.onerdescritor.com.br/2011/04/falando-por-cima-podcast-2/
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ou da uma olhada aqui no site mesmo.
Abraz
Andrey, não consegui baixar os podcasts do Falando por Cima… os links estão ok?
Abraços.