Um Velho Escudo
Escritor: RodrigoB Braga Scop
Deitado em sua velha cama, esperava o tempo passar; esperava que a noite chegasse para montar em um de seus cavalos e cavalgar até a cidade onde jogaria cartas e beberia até sentir-se satisfeito. Olhava sua cabana, sempre igual desde que chegara ali. Um antigo escudo, já enferrujado, e diversas peles de animais davam um ar bastante simples para o lar de Tannor. Ele desejava aquela simplicidade para si mesmo; desejava que seus problemas pudessem ser tão simples quanto aqueles objetos pendurados nas paredes.
Fazia três anos que ele escondia-se de seu destino. Fugia de seus desejos mais profundos. Por medo, por esperança de mudar. Porém, o metal nunca lhe chamara de forma tão intensa e provocante quanto naqueles últimos meses. Passava os dias entre cultivar, comer, beber e dormir. Era raro ir até a cidade, onde tinha alguma diversão.
Poucas vezes, desde que fora morar naquela pequena fazenda afastada da cidade, usara algum objeto de metal, e estas vezes proporcionaram momentos de enorme agonia, devido à sua relutância em entregar-se ao seu dom.
Levantou-se da cama ao ouvir um galope ao longe, caminhou até a porta de sua cabana e abriu-a. Enquanto pensava em quem poderia ser, viu surgir, pelo caminho estreito entre diversas árvores, cinco guerreiros e seus cavalos. Bufou, respirou fundo e esperou pelo pior.
Os soldados chegavam mais perto, e a ansiedade de Tannor aumentava. Os intrusos em suas terras já estavam perto o bastante para que ele pudesse notar a ausência de bandeira e vestimentas do reino. Não eram soldados a mando do rei; eram mercenários contratados, provavelmente, por nobres da região. Após esta constatação, sua tensão aumentou. Mercenários não cavalgariam até ali para conversar, ou avisá-lo sobre algo.
Ele sabia que precisaria matá-los, mas isso significaria ter de sair daquelas terras, pois logo viriam mais homens atrás daqueles que se aproximavam. E logo constatado seu dom com o metal, necessário para que conseguisse fugir, seria perseguido por ser adepto de um deus caído.
Os cavalos pararam em frente à cabana; os mercenários desmontaram com as mãos nas bainhas que guardavam suas espadas. Um dos cinco homens aproximou-se de Tannor, desembainhando a espada e anunciando que a partir daquele momento as terras em que pisavam pertenceriam ao General Abunbakar.
Tannor já ouvira falar sobre aquele general. Marshad Abunbakar era um político-militar de muita influência no reino de Xandhar. Quando seu reino foi anexado ao reino de Saandir, o general passou a roubar diversas terras longínquas para si.
Parado na entrada de sua pequena cabana, Tannor encarava aquele que anunciara o roubo de suas terras. Ele possuía as escrituras das terras em uma gaveta na cabana, mas aquele documento de nada adiantaria. Sabia que teria de deixar as terras, só restava saber se mataria ou não aqueles homens; se sucumbiria ou não ao desejo do metal.
Pensou em não matá-los, juntar seus pertences e ir embora, no entanto mudou de idéia ao ouvir o homem com uma enorme machete na mão dizer que Tannor, se demorasse mais algum tempo, seria estuprado e, logo após, teria suas vísceras espalhadas pela entrada da cabana.
Em resposta, Tannor, corpulento e alto, ajeitou o forte corpanzil, coçou sua barba rasa e sinalizou para que aqueles homens o atacassem. Estava decidido: mataria todos, mas sem entregar-se ao metal.
Aquele que anunciara o roubo foi o primeiro a atacar. Tannor desviou do ataque descendente, agarrando o braço do atacante. De forma rápida, deslocou o corpo do inimigo com sua barriga e agarrou a espada após quebrar-lhe o braço. Girou, deixando um corte profundo na nuca do primeiro atacante, e defendeu-se do ataque do segundo, agarrou o outro punho do mesmo, este segurava uma faca, e acertou-o uma cabeçada no nariz, fazendo-o cair para trás desacordado. O terceiro atacante avançou, era um homem grande e forte.
Tannor notou que matar aqueles cinco mercenários não seria fácil. Este pensamento unido ao contato com o metal da espada fez disparar seu coração e seus pensamentos. Sua mente foi subitamente tomada pelo desejo da entrega ao seu deus ocultado, mas sua vontade o manteve são.
Soltou a espada para livrar-se um pouco da tentação e com suas duas mãos segurou os pulsos unidos do terceiro mercenário, que, pronto para atacar, segurava uma espada sobre sua cabeça. Enquanto travava um duelo de forças com suas mãos erguidas, notou a aproximação do homem de machete na mão. Estava iminente a necessidade de se entregar a Iorus para poder sobreviver. E foi o que ele fez. Entregou-se ao seu dom.
Sua mente entrou em sintonia com o metal, e ele sentiu o prazer de sentir-se completo. O escudo preso há tanto tempo em uma das paredes daquela cabana saiu girando livremente porta afora e cravou-se no peito do mercenário que se aproximava, fazendo com que o intruso fosse arremessado uma pequena distância para trás e atingisse um dos cavalos que, seguido pelos outros, debandou em disparada.
Em decorrência daqueles acontecimentos, a atenção do mercenário que travava um combate de forças com Tannor foi desviada, e, assim, o elementalista teve a oportunidade de retirar uma das mãos dos pulsos do inimigo, fazer com que a espada de metal mais próxima fosse até sua mão livre e cravar a arma no abdômen do mercenário.
Assim que o enorme homem caiu no chão com a espada em seu estômago, o mercenário restante saiu correndo, seguindo o mesmo caminho tomado por seus cavalos momentos antes. Tannor respirou fundo, caminhou até o corpo com o escudo, retirou-o do peito do cadáver, mirou no fugitivo, já que ele não possuía habilidades suficientes para fazer os metais mudarem de trajetória, e arremessou o escudo como quem arremessara um simples disco. O homem caiu ao longe, fazendo Tannor coçar sua barba, olhar para o chão e sorrir por alguns instantes.
Ele caminhou até a cabana após recolher e empilhar tudo que pudesse vender dos homens mortos próximos a entrada daquilo que ele chamara de lar por anos. Recolheu todos seus pertences e também os empilhou. Pegou seus dois cavalos e sua carroça e os levou para a entrada da futura cabana abandonada. Carregou a carroça com todos seus pertences, tomando cuidado especial com as peles, subiu em seu singelo transporte e começou o caminho.
Na altura em que estava o último mercenário morto, Tannor parou a carroça, desceu, retirou o escudo das costas do corpo, recolheu uma espada e algumas moedas de cobre, bronze e prata, subiu na carroça e partiu para nunca mais voltar.
Estava livre. Livre para fazer o que quisesse. Mas, principalmente, livre da agonia de resistir ao seu dom. Estava completo e já nem se lembrava mais da terra deixada para trás.
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Muito interessante este conto.
Gostei da forma que o personagem resiste ao impulso dele ao poder, como se fosse um vício.
Valeu o comentário Rainier
Pelo menos a ti, passei o que eu queria. Mostrar um pouco da angústia dele em resistir e o alívio posterior.
Isso é muito típico de usuários… Eles sentirem angustia por querer a droga, e o alívio ao utilizá-la. Ficou muito bom.
–
E o General Abunbakar vai armar uma vingança pela morte dos seus?
Eu não havia pensado em uma continuação. No entanto, agora que tu falou, me veio uma idéia para um conto relacionado.
Mas não prometo uma vingança… sauhasuhas
Perdi o tronco e reconstruí,
Perdi a cabeça e reconstruí;
Perdi um braço e uma perna,
Quero ficar de pé.
Aprendi a sentar.