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Aug
03
2010

Viagem ao centro do esgoto

Escritor: Felipe Mateus

Todos os dias, após a escola, depois de almoçarem, os garotos da Rua

Alameda das Virgínias reuniam-se para o já tradicional jogo de futebol. Por

falta de um campinho, eram obrigados a jogar na rua, mesmo com o perigo

dos carros e ônibus que ali trafegavam. Entre esses vários meninos, um

deles é o personagem da nossa história. O nome dele é Eduardo Galápagos,

mais conhecido como Edu.

O dia dele começava como de qualquer garoto. Acordava cedo, mesmo

contra a vontade, ainda mais quando o clima era frio. Depois ia para a escola,

onde se encontrava com seu melhor amigo Júlio César, com o qual ficava a

maior parte do tempo conversando. Depois de saírem da escola, os dois

sempre davam uma passada na lanchonete do tio do Edu, onde sempre

ganhavam doces e refrigerantes. Andavam cerca de oito quadras até o

bairro onde moravam.

Ao chegar em casa, Edu correu até o seu quarto, jogou a mochila num

canto e trocou de roupa, já se preparando para a brincadeira da tarde.

- O almoço está na mesa – gritou a mãe de Edu.

- Estou indo mãe – respondeu o garoto calçando o tênis.

Depois de almoçar, ele foi até a casa do Júlio, que ficava na rua de trás.

- Júlio, ta na hora – gritou Edu – o Marcelo e o Rodrigo já estão na rua.

- To indo – respondeu Júlio.

A maioria das vezes, quando tinham muitos “jogadores”,

Carlos, o garoto mais velho do grupo, organizava tabelas, com todos os

times, jogadores e jogos, fazendo com que a brincadeira tomasse ar de

campeonato. Por muitos anos, a Rua Alameda das Virgínias era um lugar

calmo, onde várias gerações de crianças divertiam-se com diversas

brincadeiras, onde ficavam até altas horas deixando seus pais sossegados.

Mas depois que a cidade começou a evoluir e chegaram indústrias e o

aumento da frota de veículos, aquela rua calma transformou-se numa

avenida movimentada, sendo quase impossível praticar qualquer esporte

sem ter o perigo de ser atropelado.

Por algum tempo, os garotos não puderam sair de casa, tendo que se

contentar com jogos eletrônicos e de tabuleiro. Depois de diversas

reclamações e manifestos, a prefeitura resolveu criar um dia que a rua seria

fechada, deixando a disposição das crianças. O problema parecia estar

resolvido, senão fosse o estrago que o aumento de automóveis e o asfalto

mal-feito tinham ocasionado. O bueiro que existia para escoar a água da

chuva tinha rachado e criado um buraco de mais ou menos um metro

quadrado, o que gerou mais reclamação da população local. Mas desta vez

a prefeitura não foi tão atenciosa como antes. Os próprios moradores

tiveram de improvisar uma tampa para o buraco feita de madeira, para que
as crianças não corressem o risco de cair, o que possivelmente seria uma

calamidade.  Mas ninguém precisa ser especialista em pedagogia para saber

que uma das maiores qualidades das crianças é a curiosidade e o fascínio

pelas coisas mais misteriosas.

Diversas vezes, o centro das conversas dos meninos era o que haveria

dentro daquele buraco. As opiniões eram várias, cada qual com a idade e a

maturidade de cada garoto.

- Eu acho que os nossos pais aprisionaram um ET ali dentro – sugeriu

André – por isso é que taparam.

- Claro que não – disse Carlos – eles só não querem que a gente caia lá dentro.

- Lá dentro – disse Edu – deve ter uma civilização perdida, comandada por um

imperador.

Os outros garotos caíram na gargalhada, fazendo Edu ficar com uma

mistura de raiva e vergonha.

Naquela noite, Edu ficou pensando sobre aquilo que os garotos disseram.

Será que existiria alguma coisa estranha dentro daquele buraco, ou seria

apenas mais um bueiro que continha apenas sujeira?. O que o garoto não

sabia, é que a sua pergunta teria uma resposta mais rápida do que ele, ou

qualquer outro garoto poderia imaginar.

Após a escola, como já era comum, os meninos juntavam-se na casa do

Júlio César, pois lá tinha uma garagem grande que servia como uma

espécie de sala de reuniões. A pauta daquele dia, como não poderia deixar

de ser, era aquele maldito buraco, que para muitos, continha apenas lixo.

- Qualquer dia desses eu entro lá – disse Rafael

- Duvido – respondeu Carlos – você tem medo até de formiga.

Outra vez os garotos caíram na gargalhada, deixando Rafael com as

bochechas rosadas de vergonha.  Durante toda a semana, eles ficaram

discutindo sobre o bueiro, sempre com a reprovação de Carlos que achava

aquilo uma bobagem. Dois dias antes de chegar o final de semana, um

carro havia passado por cima da tampa, e como esta já estava podre, por

causa da água da chuva, quebrou em vários pedaços. Os meninos tentaram

arrumar, mas por falta de material apenas arrumaram os pedaços, deixando

tudo muito mal feito.  Mas quando chegou o domingo, o que os garotos

mais queriam era brincar na rua, sem precisar se preocupar com os carros.

Como já era costume, reuniram-se em frente da casa de Edu, montaram os

gols, que na maioria das vezes era feito com dois tijolos e começaram o

jogo, tudo corria bem e os meninos se divertiam. Até que num chute um

tanto forte de André, a bola  foi parar em cima da tampa do bueiro, e como

a bola era mais pesada que os pedaços de madeira, ela caiu para dentro do

buraco, deixando todos os garotos, exceto Carlos boquiabertos.

- Vai pegar André – disse Rafael – você que chutou.

- Eu não – respondeu o garoto – vai você.

- Ah, você ta com medo é? – intimou Carlos

E assim a discussão prosseguiu, até que Edu, enchendo-se de coragem

estufou o peito e disse: Eu vou.

- Cara deixe que o André vá pegar – disse Júlio – foi ele quem chutou.

- Vocês vão ficar discutindo – respondeu Edu – eu vou e pronto.

Com passos firmes, ele caminhou até o buraco e olhou para aquela

escuridão imensa. Tudo parecia frio e sujo lá dentro, o menino até podia

ver uns mosquitinhos voando de dentro para fora.

Edu desceu pelo bueiro segurando nos braços de Carlos, que era o mais

forte. Quando sentiu que o chão estava próximo, soltou e caiu sentado.

Como lá dentro estava escuro, os garotos que estavam observando tudo da

entrada do buraco, nada viram. O garoto deu graças, pois a sua descida foi

vergonhosa. Tapando o nariz, por causa do mau cheiro, Edu caminhou em

meio a escuridão tateando o vazio a procura da bola. Depois de vários

passos, ele acabou trombando com um pilar que segurava o teto do bueiro.

Sentindo uma pequena dor no ombro esquerdo ele andou até uma grande

passagem, onde todos os pequenos bueiros desembocavam no esgoto

principal.

- A bola foi mais longe do que eu pensei – disse baixinho.

Ele se assustou com o tamanho do depósito de todos os dejetos da sua

cidade. Nunca tinha imaginado como era o caminho da água e das sujeiras

após a descarga. Um pequeno rio de podridão passava no meio do túnel,

deixando apenas os lados, que tinham pequenos degraus, para que pudesse

caminhar. Ele ouviu um barulho, fazendo com que seu coração desse um

sobressalto. Devia ser apenas um rato ou baratas descendo túnel abaixo.

Quando dobrou á direita, numa pequena entrada, avistou a bola, suja e

molhada, caída num canto. Dando graças aos céus, Edu caminhou mais

rápido, mas quando foi pegá-la, um barulho estranho chamou-lhe a atenção.

Um pequeno estrondo, muito parecido com uma pesada pedra quando cai

no chão. Além do barulho, uma luz esverdeada, muito fraca, vinha da

abertura de um cano, no final do corredor central. Com o coração mais

acelerado que o normal, Edu, colocando a bola embaixo do braço, caminhou

vagarosamente até o lugar misterioso. Ao chegar lá, o menino encostou-se na

parede para sondar numa pequena fresta, que aparecera devido á falta de

manutenção do esgoto. Com o suor escorrendo pelo rosto, Edu esgueirou-se

pela abertura e viu, sem que seus olhos acreditassem, um animal grande. Sim,

era bem grande e verde, com olhos saltados e duas antenas compridas que

mexiam-se de um lado ao outro. Com uma enorme vontade de gritar, Edu

olhou para trás, para ver se a saída, onde ele havia entrado, estava perto.

Mas não, tudo estava escuro, sendo iluminado apenas pela entrada de ar, que

ficava do outro lado do túnel.  Respirando profundamente e tomando

coragem, Edu voltou a olhar pela fresta da parede, e lá estava aquela

estranha criatura, agora se contorcendo, como se estivesse com dor.

- Ele deve ser um extraterrestre – pensou o garoto – tenho que sair

daqui.

Mas ele não conseguia se mexer, desde pequeno ouvia histórias de seres

de outros planetas, que num dia qualquer, viriam ao planeta Terra seqüestrar

humanos, para fazer experiências. A vontade de entrar naquele pequeno beco

e conversar com a criatura era maior que o medo que ele sentia. Antes que

Edu pudesse penar em outra coisa, a criatura gritou. Horrível, alto e agudo,

como se estivesse lamentando-se. O garoto começou a tremer e pensou:

- Vou embora agora mesmo.

Levantou-se com as calças molhadas, ele não sabia se era medo ou a água do

esgoto, pegou a bola e correu na direção contrária da criatura. Quando

chegou perto da saída, Edu olhou para trás e percebeu que a criatura parara

de gritar e que agora entoava uma espécie de música com estranhos sons,

como um piano desafinado. O garoto pensou, e resolveu voltar ao beco, para

novamente olhar a criatura. Voltou com passos firmes, como um soldado que

voltaria à guerra para defender sua pátria, nem que para isso, tivesse de

morrer.

Com as pernas tremendo e com as mãos frias, o garoto entrou no beco

escuro, segurando a bola como se fosse uma arma em punho, que em caso de

vida ou morte, seria um instrumento letal. O ar começava a faltar nos

pulmões do garoto, e com o cheiro desagradável que o esgoto exalava, ficava

muito difícil uma respiração profunda. Agora a criatura não emitia som algum

nem se mexia. Parecia até que estava morta. Então, Edu acelerou o passo e

chegando ao lado da criatura gritou: – Quem é você?. Mas novamente a

criatura não se mexeu. Com a respiração rápida ele começou a aproximar-se,

estendeu o braço, e com a ponta do dedo indicador, encostou na criatura.

Numa fração de segundos, Edu pensou que ela havia se mexido, mas ao olhar

novamente, viu que ela estava imóvel tanto como antes. Com uma sensação

de alívio, o menino voltou para a entrada do beco, apanhou a bola e dirigiu-se

á entrada do esgoto.

A saída encontrava-se a poucos metros, e ele podia sentir o ar fresco que

entrava pela abertura do bueiro. Mas antes que pudesse esquecer o cheiro do

lixo, Edu sentiu uma mão fria e viscosa tocar-lhe o ombro. O garoto fechou os

olhos e pensou que ali seria o seu fim.

- Porque morrer tão jovem? – pensou ele.

Foi aí que ele lembrou do que o seu avô sempre dizia: quando você tiver que

enfrentar o medo, olhe para ele e vença. Ele cerrou os punhos e virou-se. A

criatura era pior que ele imaginava, sendo muito mais alta e forte, e ainda

por cima, fedia horrivelmente. Com um movimento brusco, Edu atacou com

um soco de direita, mas não teve sucesso, pois a criatura era escorregadia.

Quando atacou pela segunda vez, o pior aconteceu, o desafiante o segurou e

enrolou-se em seu braço. Com o coração disparado e com a raiva aumentando,

Edu segurou na criatura e puxou, mas ela não soltou. Parecia que ela estava

colada no seu braço, e não havia nada que a fizesse soltar. A falta de ar

aumentava e seu coração estava a ponto de explodir, e até o cheiro, que já era

ruim, agora estava insuportável.

- O que eu vou fazer? – disse Edu.

Nesse momento de desespero, o garoto começou a chorar. Desabou

completamente no chão e chorou. Pensou na sua mãe, no seu pai e nos seus

irmãos, que apesar de serem pequenos, já faziam muito sentido na sua vida.

Quando achou que ali ele morreria, uma voz familiar ecoou no túnel:

- Pegue a bola – disse Júlio – Por que demorou tanto?

Edu abriu os olhos, enxugou as lágrimas com a manga da camisa e olhou no seu

braço. No lugar de uma criatura verde e gosmenta, encontrava-se um pedaço de

tecido sujo e molhado, que provavelmente teria sido jogado por um morador

daquela rua.

- Então tudo era a minha imaginação? – disse Edu com a voz embargada.

Levantou-se, tirou o trapo do seu braço, pegou a bola que estava perto dele, e

andou até a entrada do bueiro, onde seus amigos estavam esperando ele. Com a

ajuda de Carlos, Edu saiu do esgoto e entregou a bola ao Júlio, que perguntou:

- O que aconteceu?

- Nada – respondeu Edu

- Você estava chorando? – perguntou André curioso.

- Claro que não – disse Edu – é a água do esgoto.

- Chega de papo furado – disse Júlio – vamos jogar bola.

Com o medo diminuindo, Edu continuou o seu jogo. Mas ele sabia que, apesar do

que aconteceu ser um fruto da sua imaginação, aquele esgoto tinha um segredo, e

algum dia ele haveria de descobrir.


Written by Felipe Mateus in: Agenda,Contos,Felipe Mateus |

5 Comments»

  • Andrey Ximenez says:

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    Kra.. gostei… um errinhi aqui, outro ali. As vezes a técnica se enrrolava, uma melhor utilização de virgulas, mas em geral mt bom.
    -
    O enrredo ficou bom e deixa a dúvida. A motivação da personagem tb está boa e clara.
    -
    Enfim, bom, tche.
    =]

  • Asami says:

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    Bom conto, enredo simples, de fácil entendimento e bem construído. Gostei ;)

  • Thainá Gomes says:

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    Gotei desse conto,nem acredito que não comentei.E fica aquela pulga atrás da orelha.

  • Thumb up 0 Thumb down 0

    Texto muito bem escrito, de fácil leitura e entendimento. Gostei.

  • critico says:

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    Hum bom o enredo e muito bom mas o seu erro foi pular uma linha a cada duas outras linhas

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