Viagem ao centro do esgoto
Escritor: Felipe Mateus
Todos os dias, após a escola, depois de almoçarem, os garotos da Rua
Alameda das Virgínias reuniam-se para o já tradicional jogo de futebol. Por
falta de um campinho, eram obrigados a jogar na rua, mesmo com o perigo
dos carros e ônibus que ali trafegavam. Entre esses vários meninos, um
deles é o personagem da nossa história. O nome dele é Eduardo Galápagos,
mais conhecido como Edu.
O dia dele começava como de qualquer garoto. Acordava cedo, mesmo
contra a vontade, ainda mais quando o clima era frio. Depois ia para a escola,
onde se encontrava com seu melhor amigo Júlio César, com o qual ficava a
maior parte do tempo conversando. Depois de saírem da escola, os dois
sempre davam uma passada na lanchonete do tio do Edu, onde sempre
ganhavam doces e refrigerantes. Andavam cerca de oito quadras até o
bairro onde moravam.
Ao chegar em casa, Edu correu até o seu quarto, jogou a mochila num
canto e trocou de roupa, já se preparando para a brincadeira da tarde.
- O almoço está na mesa – gritou a mãe de Edu.
- Estou indo mãe – respondeu o garoto calçando o tênis.
Depois de almoçar, ele foi até a casa do Júlio, que ficava na rua de trás.
- Júlio, ta na hora – gritou Edu – o Marcelo e o Rodrigo já estão na rua.
- To indo – respondeu Júlio.
A maioria das vezes, quando tinham muitos “jogadores”,
Carlos, o garoto mais velho do grupo, organizava tabelas, com todos os
times, jogadores e jogos, fazendo com que a brincadeira tomasse ar de
campeonato. Por muitos anos, a Rua Alameda das Virgínias era um lugar
calmo, onde várias gerações de crianças divertiam-se com diversas
brincadeiras, onde ficavam até altas horas deixando seus pais sossegados.
Mas depois que a cidade começou a evoluir e chegaram indústrias e o
aumento da frota de veículos, aquela rua calma transformou-se numa
avenida movimentada, sendo quase impossível praticar qualquer esporte
sem ter o perigo de ser atropelado.
Por algum tempo, os garotos não puderam sair de casa, tendo que se
contentar com jogos eletrônicos e de tabuleiro. Depois de diversas
reclamações e manifestos, a prefeitura resolveu criar um dia que a rua seria
fechada, deixando a disposição das crianças. O problema parecia estar
resolvido, senão fosse o estrago que o aumento de automóveis e o asfalto
mal-feito tinham ocasionado. O bueiro que existia para escoar a água da
chuva tinha rachado e criado um buraco de mais ou menos um metro
quadrado, o que gerou mais reclamação da população local. Mas desta vez
a prefeitura não foi tão atenciosa como antes. Os próprios moradores
tiveram de improvisar uma tampa para o buraco feita de madeira, para que
as crianças não corressem o risco de cair, o que possivelmente seria uma
calamidade. Mas ninguém precisa ser especialista em pedagogia para saber
que uma das maiores qualidades das crianças é a curiosidade e o fascínio
pelas coisas mais misteriosas.
Diversas vezes, o centro das conversas dos meninos era o que haveria
dentro daquele buraco. As opiniões eram várias, cada qual com a idade e a
maturidade de cada garoto.
- Eu acho que os nossos pais aprisionaram um ET ali dentro – sugeriu
André – por isso é que taparam.
- Claro que não – disse Carlos – eles só não querem que a gente caia lá dentro.
- Lá dentro – disse Edu – deve ter uma civilização perdida, comandada por um
imperador.
Os outros garotos caíram na gargalhada, fazendo Edu ficar com uma
mistura de raiva e vergonha.
Naquela noite, Edu ficou pensando sobre aquilo que os garotos disseram.
Será que existiria alguma coisa estranha dentro daquele buraco, ou seria
apenas mais um bueiro que continha apenas sujeira?. O que o garoto não
sabia, é que a sua pergunta teria uma resposta mais rápida do que ele, ou
qualquer outro garoto poderia imaginar.
Após a escola, como já era comum, os meninos juntavam-se na casa do
Júlio César, pois lá tinha uma garagem grande que servia como uma
espécie de sala de reuniões. A pauta daquele dia, como não poderia deixar
de ser, era aquele maldito buraco, que para muitos, continha apenas lixo.
- Qualquer dia desses eu entro lá – disse Rafael
- Duvido – respondeu Carlos – você tem medo até de formiga.
Outra vez os garotos caíram na gargalhada, deixando Rafael com as
bochechas rosadas de vergonha. Durante toda a semana, eles ficaram
discutindo sobre o bueiro, sempre com a reprovação de Carlos que achava
aquilo uma bobagem. Dois dias antes de chegar o final de semana, um
carro havia passado por cima da tampa, e como esta já estava podre, por
causa da água da chuva, quebrou em vários pedaços. Os meninos tentaram
arrumar, mas por falta de material apenas arrumaram os pedaços, deixando
tudo muito mal feito. Mas quando chegou o domingo, o que os garotos
mais queriam era brincar na rua, sem precisar se preocupar com os carros.
Como já era costume, reuniram-se em frente da casa de Edu, montaram os
gols, que na maioria das vezes era feito com dois tijolos e começaram o
jogo, tudo corria bem e os meninos se divertiam. Até que num chute um
tanto forte de André, a bola foi parar em cima da tampa do bueiro, e como
a bola era mais pesada que os pedaços de madeira, ela caiu para dentro do
buraco, deixando todos os garotos, exceto Carlos boquiabertos.
- Vai pegar André – disse Rafael – você que chutou.
- Eu não – respondeu o garoto – vai você.
- Ah, você ta com medo é? – intimou Carlos
E assim a discussão prosseguiu, até que Edu, enchendo-se de coragem
estufou o peito e disse: Eu vou.
- Cara deixe que o André vá pegar – disse Júlio – foi ele quem chutou.
- Vocês vão ficar discutindo – respondeu Edu – eu vou e pronto.
Com passos firmes, ele caminhou até o buraco e olhou para aquela
escuridão imensa. Tudo parecia frio e sujo lá dentro, o menino até podia
ver uns mosquitinhos voando de dentro para fora.
Edu desceu pelo bueiro segurando nos braços de Carlos, que era o mais
forte. Quando sentiu que o chão estava próximo, soltou e caiu sentado.
Como lá dentro estava escuro, os garotos que estavam observando tudo da
entrada do buraco, nada viram. O garoto deu graças, pois a sua descida foi
vergonhosa. Tapando o nariz, por causa do mau cheiro, Edu caminhou em
meio a escuridão tateando o vazio a procura da bola. Depois de vários
passos, ele acabou trombando com um pilar que segurava o teto do bueiro.
Sentindo uma pequena dor no ombro esquerdo ele andou até uma grande
passagem, onde todos os pequenos bueiros desembocavam no esgoto
principal.
- A bola foi mais longe do que eu pensei – disse baixinho.
Ele se assustou com o tamanho do depósito de todos os dejetos da sua
cidade. Nunca tinha imaginado como era o caminho da água e das sujeiras
após a descarga. Um pequeno rio de podridão passava no meio do túnel,
deixando apenas os lados, que tinham pequenos degraus, para que pudesse
caminhar. Ele ouviu um barulho, fazendo com que seu coração desse um
sobressalto. Devia ser apenas um rato ou baratas descendo túnel abaixo.
Quando dobrou á direita, numa pequena entrada, avistou a bola, suja e
molhada, caída num canto. Dando graças aos céus, Edu caminhou mais
rápido, mas quando foi pegá-la, um barulho estranho chamou-lhe a atenção.
Um pequeno estrondo, muito parecido com uma pesada pedra quando cai
no chão. Além do barulho, uma luz esverdeada, muito fraca, vinha da
abertura de um cano, no final do corredor central. Com o coração mais
acelerado que o normal, Edu, colocando a bola embaixo do braço, caminhou
vagarosamente até o lugar misterioso. Ao chegar lá, o menino encostou-se na
parede para sondar numa pequena fresta, que aparecera devido á falta de
manutenção do esgoto. Com o suor escorrendo pelo rosto, Edu esgueirou-se
pela abertura e viu, sem que seus olhos acreditassem, um animal grande. Sim,
era bem grande e verde, com olhos saltados e duas antenas compridas que
mexiam-se de um lado ao outro. Com uma enorme vontade de gritar, Edu
olhou para trás, para ver se a saída, onde ele havia entrado, estava perto.
Mas não, tudo estava escuro, sendo iluminado apenas pela entrada de ar, que
ficava do outro lado do túnel. Respirando profundamente e tomando
coragem, Edu voltou a olhar pela fresta da parede, e lá estava aquela
estranha criatura, agora se contorcendo, como se estivesse com dor.
- Ele deve ser um extraterrestre – pensou o garoto – tenho que sair
daqui.
Mas ele não conseguia se mexer, desde pequeno ouvia histórias de seres
de outros planetas, que num dia qualquer, viriam ao planeta Terra seqüestrar
humanos, para fazer experiências. A vontade de entrar naquele pequeno beco
e conversar com a criatura era maior que o medo que ele sentia. Antes que
Edu pudesse penar em outra coisa, a criatura gritou. Horrível, alto e agudo,
como se estivesse lamentando-se. O garoto começou a tremer e pensou:
- Vou embora agora mesmo.
Levantou-se com as calças molhadas, ele não sabia se era medo ou a água do
esgoto, pegou a bola e correu na direção contrária da criatura. Quando
chegou perto da saída, Edu olhou para trás e percebeu que a criatura parara
de gritar e que agora entoava uma espécie de música com estranhos sons,
como um piano desafinado. O garoto pensou, e resolveu voltar ao beco, para
novamente olhar a criatura. Voltou com passos firmes, como um soldado que
voltaria à guerra para defender sua pátria, nem que para isso, tivesse de
morrer.
Com as pernas tremendo e com as mãos frias, o garoto entrou no beco
escuro, segurando a bola como se fosse uma arma em punho, que em caso de
vida ou morte, seria um instrumento letal. O ar começava a faltar nos
pulmões do garoto, e com o cheiro desagradável que o esgoto exalava, ficava
muito difícil uma respiração profunda. Agora a criatura não emitia som algum
nem se mexia. Parecia até que estava morta. Então, Edu acelerou o passo e
chegando ao lado da criatura gritou: – Quem é você?. Mas novamente a
criatura não se mexeu. Com a respiração rápida ele começou a aproximar-se,
estendeu o braço, e com a ponta do dedo indicador, encostou na criatura.
Numa fração de segundos, Edu pensou que ela havia se mexido, mas ao olhar
novamente, viu que ela estava imóvel tanto como antes. Com uma sensação
de alívio, o menino voltou para a entrada do beco, apanhou a bola e dirigiu-se
á entrada do esgoto.
A saída encontrava-se a poucos metros, e ele podia sentir o ar fresco que
entrava pela abertura do bueiro. Mas antes que pudesse esquecer o cheiro do
lixo, Edu sentiu uma mão fria e viscosa tocar-lhe o ombro. O garoto fechou os
olhos e pensou que ali seria o seu fim.
- Porque morrer tão jovem? – pensou ele.
Foi aí que ele lembrou do que o seu avô sempre dizia: quando você tiver que
enfrentar o medo, olhe para ele e vença. Ele cerrou os punhos e virou-se. A
criatura era pior que ele imaginava, sendo muito mais alta e forte, e ainda
por cima, fedia horrivelmente. Com um movimento brusco, Edu atacou com
um soco de direita, mas não teve sucesso, pois a criatura era escorregadia.
Quando atacou pela segunda vez, o pior aconteceu, o desafiante o segurou e
enrolou-se em seu braço. Com o coração disparado e com a raiva aumentando,
Edu segurou na criatura e puxou, mas ela não soltou. Parecia que ela estava
colada no seu braço, e não havia nada que a fizesse soltar. A falta de ar
aumentava e seu coração estava a ponto de explodir, e até o cheiro, que já era
ruim, agora estava insuportável.
- O que eu vou fazer? – disse Edu.
Nesse momento de desespero, o garoto começou a chorar. Desabou
completamente no chão e chorou. Pensou na sua mãe, no seu pai e nos seus
irmãos, que apesar de serem pequenos, já faziam muito sentido na sua vida.
Quando achou que ali ele morreria, uma voz familiar ecoou no túnel:
- Pegue a bola – disse Júlio – Por que demorou tanto?
Edu abriu os olhos, enxugou as lágrimas com a manga da camisa e olhou no seu
braço. No lugar de uma criatura verde e gosmenta, encontrava-se um pedaço de
tecido sujo e molhado, que provavelmente teria sido jogado por um morador
daquela rua.
- Então tudo era a minha imaginação? – disse Edu com a voz embargada.
Levantou-se, tirou o trapo do seu braço, pegou a bola que estava perto dele, e
andou até a entrada do bueiro, onde seus amigos estavam esperando ele. Com a
ajuda de Carlos, Edu saiu do esgoto e entregou a bola ao Júlio, que perguntou:
- O que aconteceu?
- Nada – respondeu Edu
- Você estava chorando? – perguntou André curioso.
- Claro que não – disse Edu – é a água do esgoto.
- Chega de papo furado – disse Júlio – vamos jogar bola.
Com o medo diminuindo, Edu continuou o seu jogo. Mas ele sabia que, apesar do
que aconteceu ser um fruto da sua imaginação, aquele esgoto tinha um segredo, e
algum dia ele haveria de descobrir.
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Kra.. gostei… um errinhi aqui, outro ali. As vezes a técnica se enrrolava, uma melhor utilização de virgulas, mas em geral mt bom.
-
O enrredo ficou bom e deixa a dúvida. A motivação da personagem tb está boa e clara.
-
Enfim, bom, tche.
=]
Bom conto, enredo simples, de fácil entendimento e bem construído. Gostei
Gotei desse conto,nem acredito que não comentei.E fica aquela pulga atrás da orelha.
Texto muito bem escrito, de fácil leitura e entendimento. Gostei.
Hum bom o enredo e muito bom mas o seu erro foi pular uma linha a cada duas outras linhas