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Sep
30
2010
Conto em Série

Águia – Parte 1

Escritora: Samila

aguia

A Lua era apenas um fino feixe de luz naquela madrugada. Era tarde, e por isso ela já ameaçava ir embora, sem se importar com o arfar desesperado da bela Fianna que se encontrava deitada aos pés de uma arvore como corpo desnudo em contato com a terra, a pele envolta apenas pelo gelado ar do relento. Apesar do frio, sua face encontrava-se banhada e suor.

Mordia os lábios com absurda força, tentando conter um grito que por meses quis sair. Nove meses. Tentava continuar a respirar, tentava manter-se viva, enfiando as unhas na terra. O cheiro do sangue que lhe escorria pelas coxas se espalhava pela floresta, tão intenso que dava medo.

-Eu vou morrer… –A mulher falava febrilmente, apertando com o máximo de força a mão daquele que a acompanhava na solidão daquela floresta remota. O mesmo que lhe acompanhou na solidão do período de gestação.

O homem que a ajudava, um velho de cabelos grisalhos e barba comprida, sorriu bondosamente e falou com serenidade, ignorando o cheiro de sangue que estava prestes a sufocá-lo de tão intenso.

-Calma, minha querida, que esse menino já vai nascer… Você sabe, Beatrice, que os maiores guerreiros só nascem na presença de Luna, e esse com certeza vai sair antes que Ela se esconda…

Ela sorriu, apesar da dor, apesar da vontade de contrair suas feições em um grito horrível. Não podia gritar… Não queria chamar atenção, assim como não queria espantar todos os espíritos da floresta que se reuniam para testemunhar aquele nascimento.

-Ele vai ser um Theurge, assim como você, Leonel… –Falou com dificuldade, mostrando certo orgulho. –Quero que seja um grande Theurge, um encantador de espíritos como você…

-Ele será melhor que eu, querida… Agora respire e faça força, que ele já vai nascer.

Ela obedeceu. Fez força, respirou, e fez força novamente. Conteve mais um grito, e fez mais força. E então se entregou:

-Eu não vou conseguir, Leonel…  –Ela falou por fim em tom de desespero, deixando que as lágrimas se unissem ao seu suor na missão de molhar as rubras maçãs de sua face bonita. –Cuida do meu menino, Leonel! –A dor era demais, demais. Ela não conseguiria. Não tinha como.

-Deixa de besteira, mulher! Tu vai ter que cuidar desse menino por uns bons anos ainda! –O velho começou a desesperar também. Sentiu medo. Sabia que Beatrice era uma mulher forte, sabia que ela não era de fazer drama. Já se provara muitas vezes superior a muitos homens em batalha. Aguentara aquela maldita gestação toda sozinha, aguentara aquele trabalho de parto sem soltar um grito sequer. Aguentara o desprezo e o abandono.

Se ela dizia agora que não ia aguentar, era realmente algo para se preocupar.

-Cuida dele, Leonel… Não deixa que o pai dele saiba… Não deixa ninguém machucar o meu menino! –Ela implorava em seu choro desesperado, sua voz estava a cada segundo mais fraca, e a sua respiração ainda mais afoita. –Não quero que ele sofra, Leonel!

-Ele vai sofrer, Beatrice. Nós sabemos que ele vai sofrer, de uma maneira ou de outra… –Ele disse tristemente, pegando a mão dela entre as dele. –Mas ele vai ser um grande Garou, assim como a mãe. Isso eu te garanto.

Mais uma vez ela sorriu, e com os olhos ainda mais nublados em lágrimas do que antes, ela se despediu.

-Obrigada, meu amigo.

-Que teu espírito adentre Gaia, minha amiga.

E então ela gritou o grito mais desesperado que aquela floresta já escutara. O cheiro de sangue se fortaleceu, e em ultimo esforço parar tirar seu filho de dentro de si, Beatrice se foi sem conseguir.

E então ele uivou o uivo mais lúgubre que um Garou podia uivar. Um uivo que ecoou longe, levando compaixão até os mais remotos cantos daquela floresta.

Os espíritos tremeram, mas não se afastaram. Eles se apiedaram daquela mulher, aquela mulher que sofreu tanto para poder ter aquela criança impura. Ante tão grandioso sacrifício , eles se apiedaram e choraram. O vento corria em desespero, formando um assovio profundo e triste, e as árvores deixavam as gotas de orvalho caírem de suas folhas como se fossem lagrimas de pesar.

Diante daquilo, Luna pareceu reconhecer valor em seu novo vidente, e por isso recusou-se a desaparecer e dar lugar ao Sol. Gaia, da mesma maneira, viu em seu impuro rebento um valoroso guerreiro, e por isso, unindo-se a Luna, concedeu-lhe um presente.

Da junção da força de Gaia com a luz de Luna, uma sagrada adaga de prata surgiu, e através das silenciosas e poderosas asas de uma Águia, foi entregue ao velho Filho de Gaia que se desesperava sem saber ao certo que fazer para tirar a criança do corpo já morto de Beatrice.

A Grande Águia deu um pio solene, e deixou aquela adaga aos cuidados de Leonel.

Ele pegou a arma com cuidado e respeito, compreendendo através dos olhos serenos daquela ave, o que deveria fazer. Ajoelhou-se diante de Betrice, os joelhos batendo contra a terra, e as mãos erguidas ao céus, deixando que a fraca luz da lua crescente banhasse aquela sagrada adaga. Gritou:

-Oh Gaia! Tu que és mãe, assim como essa Garou, guia minhas mãos para que eu faça o que for certo, e a vida se mostre esplendorosa ante tua fertilidade! E Luna! Tu que és irmã, ilumina meu coração para que eu possa amar a criança que tirou de mim aquela que eu considerava como parte de meu sangue!

E tendo feito seus pedidos, a adaga rompeu a pele e cortou o cordão umbilical, e a enorme criatura abandonou enfim o ventre de sua corajosa mãe. Não chorava, como um bebê faria – afinal, não era um bebê, mas sim um monstro. Uma abominação repleta de pêlos escuros e garras afiadas, e totalmente banhada em sangue. Grunhia como uma besta raivosa, assustando e afastando os outros animais ao redor ao redor.

Leonel pegou com cuidado aquele ser no colo, abraçando-o como Beatrice faria. Olhou-o com atenção, procurando pelo defeito que haveria de marcá-lo pelo resto da vida como o fruto de um pecado.

Logo notou, o Impuro era cego.

-Oh… Tua vida será difícil, minha criança… –Comentou melancolicamente, mas com um sorriso no rosto, enquanto acariciava a horrenda criatura.

Ergueu o pequeno crinos o máximo que pôde, sem se importar com o aterrorizante choro dele. Exibiu-o à Lua, e em seguida o deitou sobre a Terra. Mais uma vez ajoelhado, clamou pelos espíritos e convocou uma assembléia.

-Grandes espíritos da Noite, e grandes espíritos da Luz! Espíritos da Floresta e da Terra, e Lunos que percorrem o céu! Venham todos a mim a observem, você que partilharam de meu sofrimento em perder minha irmã, partilhem agora de minha alegria, pois neste momento eu batizo este Garou como um legítimo Filho de Gaia, sob o nome da grande Águia que lhe concedeu as dádivas da Mãe Terra e da Irmã Lua! Sob a patronagem do Grande Pai Mulo, e todos vocês, peço que olhos cegos dessa criança consigam sempre enxergar além, e que vejam o que nenhum mais é capaz de ver! E que Águia tenha como padrinho o vento para guiá-lo, e como madrinhas as árvores, para protegê-lo. Que ele cresça sempre cercados pelos espíritos bondosos, e que deles seja o eterno guardião. Que seja sempre justo e verdadeiro, que preze pela paz, e que jamais deixe a ira consumir seu coração. Pelo bem de nossa Mãe, e pela alma de Beatice! Que assim seja!

E assim foi, durante algum tempo…


Written by Samila Lages in: Águia,Contos,Samila | Tags: , , ,

30 Comments»

  • E.U Atmard says:

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    Então no princípio era Fianna mas depois Beatrice?
    Quando falas da junção tens lá Água.

    Tirando isso, não foi o texto que mais gostei teu, maioritariamente porque não estou completamente dentro do assunto. Mas tenho de admitir que é um trecho muito poderoso, e extremamente interessante. Fico à espera do resto, para poder ter uma opinião mais…sólida, digamos assim…

    • Samila says:

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      Como o Andrey disse lá embaixo, Fiana é uma Tribo Garou, assim como os Filhos de Gaia. Outra divisão comum é por algúrios. Beatrice era uma Lua-quase-cheia, logo era uma galiard, uma artista, enquanto águia e Leonel são dois Theurges, que são lua-quase-nova, videntes e xamãs.
      e nhaiii
      Guns, ajeita esse Água pelo amor de Dadá XD
      Obrigado per ler, meu querido

  • Lord Jessé says:

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    Gostei bastante!!!
    -
    É uma otima história. Muito fascinante, e estou esperando a continuação.

  • Andrey Ximenez says:

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    Atmard. O nome “Fianna” se dá à uma espécie de tribo garou, assim como “Filhos de Gaia” (certo? faz tempo q não playo lobisomem.). Nesse texto ´há mts referencias a esse universo. Talvez por isso vc tenha se perdido um pouco.
    -
    Qnt ao “Agua” ali no inicio, erro de digitação, deveria ser “Águia”, desde o inicio.
    -
    Vale uma revisão Samila, pqnenos errinhos durante o texto. A história é interessante, e me agradou ver q tu usaste um foco narrativo diferente. Embora acredito que tu não irás mante-lo.
    -
    Para um prólogo está bom, mais opiniões só lendo o resto mesmo.

    • Samila says:

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      nhai, obrigada, Andrey, e vc está certo sim… genésio, tenho mesmo que re-revisar esta jossa U_U
      o foco narrativo será mantido sim, na medida do possível ^^
      Obrigada por ler =D

  • Peregrina says:

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    Amei! *_*
    muito bom,Samila.
    é um conto fascinante.
    continua!

  • Thainá Gomes says:

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    Eu gostei,quero a ver a continuação.

  • Vinicius Maboni says:

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    Sami…
    gostei muito deste, na verdade acho que é o que gostei mais…
    Deve ser por pela tematica que muito me agrada…
    to seco pela continuação…
    Parabens, tens muito talento.

    • Samila says:

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      pô Vinicius! Brigadão!
      que bom que você gostou! não é muita gente que curte esses negócios mais misticos e fantasiosos XD
      A continuação tá pronta… só essa sair da agenda que eu coloco ^^

      beijinhos!

  • Asami says:

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    Bela introdução Samila. O início da estória de Gaia foi fascinante e a narrativa detalhista ficou muito boa, por enquanto é só, espero pelos próximos caps para poder dizer mais. :)

    • Samila says:

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      opa, espero que possas dizer mais em breve. eu pelo menos gostei de escrever esse negocio todo de gaia e tals *-*
      espero que gostes do próximo, quando sair ^^

  • lobaempeledeovelha says:

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    Samila_Senpai
    Você também curti lobisomem?
    Mais um motivo para ser sua fiel admiradora, meu conto tem haver com o cenário de lobisomem, mas ainda é uma idéia bobona, amei a forma que você escreveu você só pode ser uma Galliard!

    • Samila says:

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      Atoron lobinhos *0*
      e nhai, aposto que nem é boba não! mostre para o povo do One que eles dirão =D
      ehuaahauaha
      e sabe que eu nasci mesmo em lua de Galliard? XD
      estranho, né?

  • lobaempeledeovelha says:

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    Quando digo bobona é pq meu conto me parece bobo demais xD

  • lobaempeledeovelha says:

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    Nasci UHAUHAUHAUHUHAUHAUHAUHHUAUHA

  • Samila says:

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    quero só ver a imagem que o guns vai colocar para isso aqui…

  • RodrigoBS says:

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    Ba…
    Samila, estou quase sem palavras.
    Ba…
    :D
    Creio que tu conseguiu passar muito bem a emoção. Tudo que envolveu o acontecimento principal foi ótimamente descrito.
    Mesmo sem ter conhecimento algum sobre o universo no qual se baseia a história, consegui entender, já que tu te focou nas emoções que ocorriam.
    Adorei.

    • Samila says:

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      Opa Rodrigo! obrigada! que bom que gostou!
      e como você disse, mesmo sendo em um universo de RPG, quero que seja acessível a não-jogadores lerem também =]
      obrigada mesmo por ler =D

  • Vitor Vitali says:

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    Não sou muito fã de cachorros, vai ver é por isso que não gosto de Lobisomens também. Tirando a temática, gostei, bem escrito. :)

    • Samila says:

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      Hahah. que ser sobrenatural você gosta, Vitor? Juro que escrevo um conto com um!
      Obrigada por ler ^^
      Que bom que gostou.
      e eu tava com saudades dos seus comentários

  • mindhazard says:

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    Gostei da parte em que ele invoca a mãe Gaia e a irmã Lua antes de abrir o ventre de Beatrice.

    Muito bom :]

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