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Sep
28
2010

Arcano XV

Escritor: Ivan Mizanzuk
O Diabo fuma. Descobri isso na noite em que veio me visitar. Eu era um homem comum. Empresário, dono de uma empresa bem-sucedida, nunca tive preocupações espirituais ou místicas. Outros tempos.
Ele estava na porta do quarto, me observando. Foi seu olhar que me acordou. Começamos a conversar. As perguntas óbvias primeiro. Quem é você, o que faz aqui. Constance dormia ao meu lado e em nenhum momento demonstrou incômodo com o barulho.

Ele me explicou que estava em uma missão de libertação. Não entrou em muitos detalhes. Começou dizendo que o que falam sobre ele é injusto, que a maldade não existe senão no coração do homem. Também falou que ele tem muito poder, e que poderia ser de grande auxílio a alguém que se dispusesse a ajudá-lo.
Citou-me a Serpente no relato bíblico. Explicou como ela era um símbolo de santidade muito maior do que o Cristo, já que foi sua tentação que nos permitiu primeiramente vivermos nossa plena humanidade. Enfim, não lembro das palavras exatas, mas tudo começou a fazer muito sentido. O Diabo queria minha ajuda.
Acordei de manhã achando que havia sonhado tudo. Quem acordaria achando que fora realmente real? Teria sido um sonho, não fosse seu retorno na noite seguinte.

Foi assim por anos. Me pedia favores, eu não via problema algum em realizá-los. Uma ligação aqui, outra carta para lá. Pequenas coisas. Insignificantes.
Um dia pediu que eu matasse Constance. Falou que era a última tarefa a ser cumprida antes de minha libertação total. Ponderei por semanas. Como poderia eu matá-la? Que horror seria!
Mas o Diabo continuava me visitando. Perguntando por que ainda não havia realizado a missão. Eu esquivava. Dizia estar pensando no assunto. Era mentira. Eu já havia desistido faz tempo. Não era forte o suficiente. Nunca fui, nunca seria.
Esta manhã Constance disse que teve um sonho – um sonho com o Diabo. Disse que vem sonhando com ele já faz um tempo. Ele pediu para que ela me matasse. Ela riu do sonho. Debochou do Diabo. Falou que me amava.
Eu a matei ali mesmo, na mesa do café.
O Diabo nunca mais me visitou.

Malditos sejam os dois.


Written by Mizanzuk in: Agenda,Contos,Ivan Mizanzuk | Tags: , ,

4 Comments»

  • Vinicius Maboni says:

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    Tema realmente interessante, mas poderia ser mais trabalhado, penso.
    Mas muito bom mesmo assim
    Parabens!

  • Asami says:

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    Um bom conto… uma boa narrativa, mas concordo com Vincius: merecia ser aprofundado. O enredo ficou muito bom, apesar de pensar que ele merecia mais um pouco de descrição. Agora, o que mais me agradou nesse conto, foi a transformação do diabo em algo incorpóreo, que ronda o homem sugerindo maldades de forma subjetiva, sem associá-lo diretamente à maldade humana. Legal! :D

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    Bah! Uma ótima idéia pouco aprofundada.

    Concordo com Asami, o enredo ficou ótimo mas faltou mais descrição e principalmente, ao meu ver, mais conteúdo. Uma idéia dessas merece um conto muito maior.

    Gostaria de ver as tarefas que ele teve de realizar antes, gostaria de ver um conflito maior entre o protagonista e Constance (Este nome é uma referencia, tenho quase certeza).

    Enfim, este conto merecia ser melhor trabalhado.

    Continue assim, Ivan. Tens idéias maravilhosas para teus contos, só precisa encorpa-los mais.

    Espero mais contos teus por aqui.

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