Mad World – Parte Dois – Reasoning
Escritor: Felipe Lopez
Foi tudo tão rápido. Tudo tão inesperado.
O Força Aérea Um deveria estar a poucos metros da pista de aterrissagem quando tudo foi tomado pela luz. Mark tentara proteger os olhos do clarão quando sentiu o calor. Muito calor. Seguido por um trovão.
Instantes depois, algo se chocara contra o jipe, projetando o veículo para trás com brutalidade. Mark saiu voando do seu lugar, sem saber para onde estava sendo levado. Ficou alguns segundos – foi o que lhe pareceu – planando no ar, sem sentir, ouvir ou ver absolutamente nada. Era como se estivesse sozinho no vácuo.
Até que, brutalmente, encontrou um obstáculo. Com o choque, recuperou a sensibilidade e pode perceber o mundo ao seu redor. Perceber não, apenas sentir. Sentia o corpo todo doer, dor que jamais sentira antes, seu rosto ardia como que pressionado contra uma chapa de ferro superaquecida, a perna esquerda não parecia fazer parte do conjunto, como algo artificial e incontrolável. A direita, pelo contrário, se fazia notar pela sensação de ter sido perfurada por uma estaca afiada e grossa de lado a lado. Um de seus braços sacolejava debilmente, não sabia diferenciar qual deles, continuava em vôo baixo, hora tocando o chão com alguma parte do corpo, tal qual uma bola de futebol pulando. Não conseguiria formular um pensamento simples. Tomado pela dor e pela confusão, Mark era apenas uma folha levada pelo vento.
•••
Luz. Calor. Luz e calor como nunca antes visto. Gerald agachou-se perto do carro batido, tentando evitar ficar cego com o clarão. Assimilou aquilo com o Sol e diversas teorias lhe veriam a cabeça, caso não tivesse ouvido e sentido o que veio logo em seguida.
Uma explosão. A terra tremendo.
Sem se anunciar, a luz se apagou. Gerald imediatamente abriu os olhos e levantou-se. O que viu confirmou seu temor.
Uma colossal coluna de fumaça negra, projetando-se para o alto no formato de um cogumelo, tomava conta daquilo que, um minuto antes, era a Torre de Seattle e o centro comercial da cidade. Subindo uns – chutava – 3 km acima do solo. As nuvens formavam anéis finos a medida em que a coluna ascendia mais e mais, a bola de fogo abrigada na cabeça do cogumelo tingindo o céu de um sinistro vermelho alaranjado. A elevação que era aquela zona residencial da cidade onde Gerald estava permitia uma visão livre da onda de fumaça enegrecida aos pés da coluna, que cobria prédios e casas e avançava em todas as direções. Tão logo estaria ali.
Enquanto observava, o assombro cresceu dentro de Gerald. Seu estado atônito terminara e agora seu instinto primitivo de sobrevivência começava a trabalhar. Temos que ir o mais longe possível daqui!
Foi só quando a onda de choque da explosão atômica lhe atingiu, quase que um minuto depois, que Gerald saiu do seu transe. Não pensava mais nas vidas que tinham sido perdidas, nem em quem seria os responsáveis por aquele ataque, se fora mesmo um ataque ou um acidente. Seu instinto dizia apenas duas coisas: Salve sua vida. Salve a vida do seu filho.
Virou as costas para o grupo de pessoas que se formara depois da explosão, entrou no carro, girou a chave, e arrancou. Não se importou com o ruído de metal contra metal quando se livrou do Ford que batera em sua lateral. Deu a volta na rua – agora cheia de pedestres – e entrou no cruzamento no sentido contrário ao centro de Seattle. Olhou para Kevin; o menino estava mais pálido que o usual, encolhido no banco do passageiro, os olhos escuros fitando o pai procurando segurança. Gerald tentou dizer alguma coisa, mas apenas se limitou em corresponder o olhar do filho antes de voltar sua atenção para a rua. E pisar fundo no acelerador.
Deixar Seattle para trás. Salvar a vida do meu filho.
Gerald não desconfiou das nuvens escuras que despontavam no horizonte a sua frente.
•••
Marina só percebeu que estava debaixo d’água quando tentou respirar e engoliu uma boa quantidade de água salgada. Além de salgada. Impregnada.
Não era uma nadadora excepcional, sabia o básico para não se afogar durante alguma festa da Universidade, quando se viu cercada pela escuridão e afundando lentamente, primeiro veio o pânico por não conseguir respirar. Mas logo tratou de tranqüilizar a mente. Algumas experiências com pânico na universidade permitiu treinar a si mesma para situações semelhantes. Nunca pensara que acordaria alguns metros submersa, mas valia a tentativa.
Primeiro, disse a si mesma que tinha ar suficiente para respirar por um bom tempo até achar uma fonte contínua, não era necessariamente a verdade, mas ajudava a manter uma certa ordem de raciocínio para analisar melhor as opções que detinha e resolver a questão, era bem fácil com cálculos.
No caso de Marina, só tinha uma opção: subir. E para isso não bastava apenas pensar. Agitou as pernas e os braços, em tal desordem que só fez afundar mais rápido. Isso acionou um alarme na cabeça de Marina, que ignorou.
Agora com movimentos ritmados, subia aos poucos. Em direção à luz. Mas era noite em NY, não haveria aquela luz intensa. Marina afastou a questão, se empenhando em subir cada vez mais rápido. O organismo ansiava por oxigênio. Os pulmões se comprimiram ao ponto de se esgotarem. Estava quase lá. Engoliu mais um gole de água em um movimento involuntário. O que tinha com aquela água? Estava tão próxima que quase enxergava as estrelas no céu, lá no alto. Suas resistências falharam.
Com um último salto, Marina emergiu. O ar que entrou pelas suas narinas era quente, e avançou queimando pela sua traquéia e expandiu os pulmões, não deu muita importância para a dor aguda no peito. Estava viva. Aspirou um pouco mais do ar, agora atenta a seu odor. Enxofre? Talvez. Não sabia dizer. Ficou mais um tempo parada, deixando que o ar entrasse com calma e aliviasse o desconforto no peito. Foi quando abriu os olhos e olhou ao redor:
As duas barcas tinham virado – pelo menos conseguia ver o casco de uma delas emborcado – massas escuras e menores boiavam por toda a parte, Marina tinha uma idéia do que seriam elas, mas preferiu não ignorar. Não estava pronta.
A ilha da Estátua da Liberdade desaparecera dentro de uma descomunal coluna de fumaça. No topo, uma bola de fogo observava a destruição abaixo. Marina não era religiosa, mas tinha certeza que, caso ali fosse o inferno, aquele era, sem sombra de dúvidas, o próprio Diabo.
•••
O vice-presidente não precisava daquela ligação para saber o que estava acontecendo. Testemunhara silenciosamente da sua casa de verão, num recanto particular nos montes. Segurava o telefone e ouvia atentamente o que a pessoa da linha dizia. Com a mão livre trêmula, tentava manter o seu autocontrole.
- Qual a estimativa das mortes? – Ele perguntou. Ao ouvir a resposta, suspirou e procurou se sentar. Era um homem velho. Não estava preparado para enfrentar uma crise dessas.
- Tente estabelecer uma conexão com essas áreas. Precisamos saber se houve sobreviventes. – O homem do outro lado da linha assentiu e já ia desligar, mas o vice-presidente o chamou.
- Tenha atenção especial para Brasília, comandante. Por favor.
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Gosto muito da tematica, o texto tá bem coordenado e fluente.
Varias estorias paralelas assim, fazem com que não fique cansativo.
Muito bom, parabens.
Obrigado, Vinicius!
Espero manter assim nos próximos
So crazy, man… Agora sim eu posso dizer: Tá fod@!
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A narrativa ficou fluente, as trocas de ponto de vista dão um toque cinematográfico na coisa toda.
Espero ler o próximo em breve.
Valeu Sara! hahaha
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A continuação sairá em breve.. ou seja, quando acabar a semana de provas para mim D:
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Mas fazer o que, né?
A narrativa focando diversos pontos de vista ficou muito dinâmica e fluiu bem demais. O fim repleto de suspense também é algo que merece ser enaltecido, também o ritmo e a coerência do conto. Parabéns!
Obrigado pelo comentário, Asami!
O jeito como foi contriudo ficou ótimo e as sençasões de cada personagem ficou tão real.Parabéns.